Caderno Ciência · Política científica
Este artigo parte do editorial "Scientific research is an economic blessing. Keep Trump cronyism out.", publicado pelo conselho editorial do The Washington Post em 23 de setembro de 2026 (leia o original). O texto a seguir não é tradução nem reprodução: é uma análise própria de O Tecido, ampliada com outras fontes americanas e com o contexto brasileiro.

A pergunta sobre quem deve decidir quais pesquisas o dinheiro público financia parecia resolvida nos Estados Unidos desde o pós-guerra: decidem os cientistas, por meio da revisão por pares, e o governo define o tamanho do orçamento e as grandes áreas prioritárias. Em setembro de 2026, essa divisão de papéis voltou ao centro de uma disputa entre a Casa Branca e o Congresso. Segundo reportagens do Politico, do Washington Post e do New York Times, o presidente Donald Trump instruiu seu diretor de Orçamento, Russell Vought, a redigir uma ordem executiva que criaria um conselho de indicados políticos com poder de aprovar as bolsas dos National Institutes of Health (NIH), a maior agência de financiamento de pesquisa biomédica do mundo.12

A reação veio rápida e não se limitou à oposição. A senadora republicana Susan Collins, que preside o Comitê de Apropriações do Senado, classificou a iniciativa como contrária à intenção do Congresso.5 Em editorial, o Washington Post lembrou que parlamentares dos dois partidos já barraram tentativas parecidas desde o primeiro mandato de Trump e defendeu que o investimento em ciência básica é uma das ferramentas mais eficazes que um governo tem para promover crescimento de longo prazo.1

O que está em jogo na proposta

O desenho relatado pela imprensa americana prevê um conselho do qual fariam parte o próprio Vought e o diretor do NIH, Jay Bhattacharya, com a exigência de decisões unânimes para a concessão de bolsas.3 Na prática, isso significa que um projeto aprovado pelos painéis científicos poderia ser barrado por um único integrante politicamente indicado. A senadora democrata Patty Murray resumiu o risco dessa forma: uma só pessoa nomeada pelo governo poderia encerrar um estudo sobre câncer sem qualquer justificativa científica.4

O pano de fundo é um conflito interno ao próprio governo. De acordo com o Washington Post e o New York Times, Bhattacharya defendeu o processo atual de seleção em uma reunião tensa no Salão Oval na sexta-feira, 18 de setembro, enquanto Vought argumentava que a agência financiava iniciativas "woke" contrárias às prioridades presidenciais.12 A STAT, citando o Post, relatou que Trump estaria irritado com a recusa do diretor em cortar recursos de pesquisadores de Harvard.3

Hoje, uma proposta ao NIH passa por duas etapas: primeiro, a avaliação de mérito por painéis de cientistas de fora do governo; depois, a análise pelo conselho consultivo do instituto responsável.7 O bioeticista Arthur Caplan, professor emérito da Universidade de Nova York e ex-integrante de comitês consultivos do NIH, descreveu esse modelo à Scientific American como um padrão de referência internacional para a avaliação independente de projetos.6 A organização Stand Up for Science, criada por cientistas em 2025, afirmou que a medida ameaça décadas de pesquisa avaliada por pares.7

Por que o Congresso resiste, de novo

O episódio não surgiu do nada. Em maio de 2026, o Escritório de Gestão e Orçamento (OMB), comandado por Vought, publicou uma proposta de regra que obrigaria "indicados seniores" a revisar as bolsas discricionárias para garantir alinhamento com as prioridades do presidente. O texto também vetava financiamento a pesquisas que tratassem o sexo como característica mutável.7 Collins enviou carta ao OMB em julho pedindo o recuo, e o Congresso incluiu na lei de financiamento provisório, sancionada em 2 de setembro, um dispositivo que suspende essa regra, ou qualquer outra substancialmente semelhante, até 11 de dezembro.518

A leitura de Collins é que uma ordem executiva com o mesmo efeito seria uma forma de contornar uma decisão que o Legislativo acabou de tomar.5 Para a Roll Call, a reação reuniu as principais lideranças de apropriações das duas casas, incluindo a deputada democrata Rosa DeLauro.18

O editorial do Post oferece duas explicações para essa resistência bipartidária persistente. A primeira é territorial: há universidades em todos os estados, e cancelamentos de bolsas atingem eleitores de qualquer parlamentar. A segunda é econômica: a ciência básica financiada pelo governo permite investigações sem aplicação comercial imediata, o tipo de pesquisa que a iniciativa privada raramente banca e da qual saem descobertas com grande impacto posterior.1

Um projeto aprovado pelos painéis científicos poderia ser barrado por um único integrante politicamente indicado. O ponto central da disputa

Os números por trás da defesa da ciência básica

O NIH administra um orçamento superior a US$ 40 bilhões por ano, que financia pesquisas sobre câncer, Alzheimer e doenças cardíacas, entre outras áreas.6 Mais de 80% desse valor vai para fora da agência, em concursos baseados em mérito que alcançam mais de 300 mil pesquisadores em mais de 2.500 instituições espalhadas pelos 50 estados.10

O relatório anual da coalizão United for Medical Research, publicado em março de 2026, estima que os US$ 36,58 bilhões concedidos no ano fiscal de 2025 geraram US$ 94,15 bilhões em nova atividade econômica e sustentaram 390.863 empregos, o que equivale a US$ 2,57 para cada dólar investido.9 É preciso ler esses números com cautela metodológica: a coalizão reúne universidades e associações médicas, ou seja, parte interessada na manutenção do orçamento, e o cálculo pressupõe que o dinheiro entra na economia no mesmo ano em que é concedido.9

O dado menos citado do relatório talvez seja o mais revelador. A taxa de sucesso das propostas enviadas ao NIH caiu para cerca de 17% em 2025, contra 26% em 2024 e 30% em 2023, o menor patamar em quase trinta anos.10 Parte da explicação é administrativa: com os atrasos no início do ano, a agência passou a pagar bolsas plurianuais de uma só vez para cumprir o prazo de execução orçamentária, o que concentrou o dinheiro em menos projetos, maiores.11 O orçamento foi executado, mas menos cientistas foram contemplados.

0% 10% 20% 30% 30% 26% 17% 2023 2024 2025 Taxa de sucesso das propostas de pesquisa ao NIH
Fonte: United for Medical Research, relatório 2026, conforme divulgado pela Association of American Universities (AAU). Elaboração: O Tecido.

Uma escalada que começou em 2025

A proposta de conselho político é o capítulo mais recente de uma série. Em fevereiro de 2025, o NIH tentou impor um teto uniforme de 15% para os custos indiretos das pesquisas, as despesas com energia, manutenção de laboratórios e equipamentos compartilhados. A medida foi bloqueada na Justiça e, em 5 de janeiro de 2026, o Tribunal de Apelações do Primeiro Circuito confirmou por unanimidade que ela violava uma cláusula orçamentária em vigor desde 2018. O Departamento de Justiça deixou passar o prazo de 6 de abril sem recorrer à Suprema Corte.12

Em maio de 2025, a agência anunciou o fim dos repasses de bolsas a parceiros estrangeiros, alegando necessidade de rastreabilidade dos recursos.13 Uma pesquisa da STAT com quase mil cientistas financiados pelo NIH, publicada em março de 2026, mostrou que 25% deles tiveram seus projetos afetados de forma significativa, com ensaios clínicos interrompidos e colaborações abandonadas.14 Em agosto de 2025, uma ordem executiva já havia determinado que cada agência federal designasse um indicado político sênior para revisar editais e bolsas, estabelecendo que as recomendações dos revisores científicos devem permanecer apenas consultivas.8

Visto em sequência, o movimento tem uma lógica clara: primeiro, pressão sobre o custo da infraestrutura; depois, sobre as parcerias internacionais; em seguida, sobre a autoridade dos pareceres científicos; agora, sobre a decisão final. Cada passo foi contestado, e vários foram revertidos pelo Judiciário ou pelo Legislativo, mas o acúmulo altera a previsibilidade de que a pesquisa de longo prazo depende.

O espelho brasileiro: a pressão vem pelo orçamento

No Brasil, a seleção de projetos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelas fundações estaduais de amparo à pesquisa, como a Fapesp, segue baseada em comitês de especialistas e pareceristas. Não há, hoje, proposta em discussão para submeter essas decisões a um filtro político. A fragilidade brasileira está em outro lugar: na instabilidade do orçamento.

Em maio de 2026, o Decreto 12.990 elevou para R$ 23,6 bilhões o total bloqueado no Orçamento da União. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação perdeu R$ 490,1 milhões, dos quais cerca de R$ 300 milhões saíram do CNPq.16 Segundo o presidente do conselho, Olival Freire Junior, em entrevista à Folha de S.Paulo, o corte poderia afetar cerca de 80% dos 102 mil bolsistas, já que quase todo o valor bloqueado incide sobre bolsas. O orçamento do CNPq para 2026 gira em torno de R$ 1,9 bilhão, patamar atingido após uma recomposição em janeiro.1517

A Academia Brasileira de Ciências apontou, ainda em dezembro de 2025, uma contradição no desenho do orçamento: o MCTI cresceu 12,65% em termos nominais, mas o crescimento se concentrou no crédito reembolsável do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), enquanto a verba de fomento do CNPq, usada para manter laboratórios e comprar insumos, caiu cerca de um terço.19

A comparação com os Estados Unidos ajuda a enxergar que existem duas formas de subordinar a agenda científica a lógicas de curto prazo. Uma é política, e atua sobre quais perguntas podem ser feitas. A outra é fiscal, e atua sobre quantas perguntas cabem no orçamento e com que regularidade. A primeira é mais visível e provoca reação imediata, como mostra o caso do NIH. A segunda é mais silenciosa, mas produz efeito semelhante: pesquisadores que abandonam linhas de investigação, laboratórios que param, jovens cientistas que deixam a carreira ou o país.

Há também um canal direto entre os dois cenários. Instituições brasileiras participam de redes internacionais de pesquisa em saúde, e o fim dos repasses do NIH a parceiros estrangeiros alterou as regras para esse tipo de colaboração.1314 Um conselho político que redefina prioridades de pesquisa nos Estados Unidos tende a repercutir sobre essas parcerias.

O que observar nas próximas semanas

Até a data desta publicação, a ordem executiva não havia sido assinada. Três pontos devem orientar os próximos passos. O primeiro é o prazo de 11 de dezembro, quando expira a lei de financiamento provisório e, com ela, o bloqueio aprovado pelo Congresso; a renovação ou não desse dispositivo dirá muito sobre a disposição do Legislativo de sustentar sua posição.18 O segundo é a posição de Bhattacharya, que passou a defender o processo de seleção da agência e cuja participação no conselho proposto seria decisiva. O terceiro é o calendário eleitoral: as eleições legislativas de novembro colocam parlamentares como Collins, que disputa uma reeleição apertada no Maine, sob pressão direta de eleitores ligados a universidades e hospitais de pesquisa.18

Para o leitor brasileiro, a lição não é apenas sobre os Estados Unidos. A autonomia da ciência depende de duas garantias simultâneas: que os critérios de seleção fiquem com quem entende do assunto e que o dinheiro chegue com regularidade. Perder qualquer uma delas compromete o mesmo resultado.

Perguntas frequentes

O que é a proposta de conselho político para as bolsas do NIH?

Segundo reportagens de setembro de 2026, Trump pediu a Russell Vought que redigisse uma ordem executiva criando um conselho de indicados políticos com poder de aprovar as bolsas do NIH. O grupo incluiria Vought e o diretor do NIH, Jay Bhattacharya, e exigiria decisões unânimes.

Como funciona hoje a seleção de projetos no NIH?

As propostas passam por avaliação de mérito em painéis de cientistas externos e, depois, pelo conselho consultivo do instituto responsável. É o modelo de revisão por pares usado há décadas no financiamento federal à pesquisa nos Estados Unidos.

Por que o Congresso americano se opõe?

Lideranças republicanas e democratas afirmam que a medida contraria a intenção do Congresso, que em setembro aprovou dispositivo suspendendo até 11 de dezembro uma regra semelhante do OMB.

Qual é o retorno econômico do investimento do NIH?

A United for Medical Research estima que os US$ 36,58 bilhões concedidos em 2025 geraram US$ 94,15 bilhões em atividade econômica e 390.863 empregos, ou US$ 2,57 para cada dólar investido. A estimativa vem de uma coalizão que defende o orçamento da agência.

A medida afeta pesquisadores brasileiros?

Não diretamente. Mas colaborações internacionais já foram afetadas em 2025, com o fim dos repasses do NIH a parceiros estrangeiros, e uma redefinição política de prioridades tende a repercutir sobre parcerias com instituições de outros países.

Quais são os riscos atuais para o financiamento científico no Brasil?

A seleção de projetos segue baseada em revisão por pares. A pressão em 2026 é orçamentária: o Decreto 12.990 bloqueou cerca de R$ 300 milhões do CNPq, que tem orçamento anual de aproximadamente R$ 1,9 bilhão e atende cerca de 102 mil bolsistas.