A pergunta sobre quem deve decidir quais pesquisas o dinheiro público financia parecia resolvida nos Estados Unidos desde o pós-guerra: decidem os cientistas, por meio da revisão por pares, e o governo define o tamanho do orçamento e as grandes áreas prioritárias. Em setembro de 2026, essa divisão de papéis voltou ao centro de uma disputa entre a Casa Branca e o Congresso. Segundo reportagens do Politico, do Washington Post e do New York Times, o presidente Donald Trump instruiu seu diretor de Orçamento, Russell Vought, a redigir uma ordem executiva que criaria um conselho de indicados políticos com poder de aprovar as bolsas dos National Institutes of Health (NIH), a maior agência de financiamento de pesquisa biomédica do mundo.12
A reação veio rápida e não se limitou à oposição. A senadora republicana Susan Collins, que preside o Comitê de Apropriações do Senado, classificou a iniciativa como contrária à intenção do Congresso.5 Em editorial, o Washington Post lembrou que parlamentares dos dois partidos já barraram tentativas parecidas desde o primeiro mandato de Trump e defendeu que o investimento em ciência básica é uma das ferramentas mais eficazes que um governo tem para promover crescimento de longo prazo.1
O que está em jogo na proposta
O desenho relatado pela imprensa americana prevê um conselho do qual fariam parte o próprio Vought e o diretor do NIH, Jay Bhattacharya, com a exigência de decisões unânimes para a concessão de bolsas.3 Na prática, isso significa que um projeto aprovado pelos painéis científicos poderia ser barrado por um único integrante politicamente indicado. A senadora democrata Patty Murray resumiu o risco dessa forma: uma só pessoa nomeada pelo governo poderia encerrar um estudo sobre câncer sem qualquer justificativa científica.4
O pano de fundo é um conflito interno ao próprio governo. De acordo com o Washington Post e o New York Times, Bhattacharya defendeu o processo atual de seleção em uma reunião tensa no Salão Oval na sexta-feira, 18 de setembro, enquanto Vought argumentava que a agência financiava iniciativas "woke" contrárias às prioridades presidenciais.12 A STAT, citando o Post, relatou que Trump estaria irritado com a recusa do diretor em cortar recursos de pesquisadores de Harvard.3
Hoje, uma proposta ao NIH passa por duas etapas: primeiro, a avaliação de mérito por painéis de cientistas de fora do governo; depois, a análise pelo conselho consultivo do instituto responsável.7 O bioeticista Arthur Caplan, professor emérito da Universidade de Nova York e ex-integrante de comitês consultivos do NIH, descreveu esse modelo à Scientific American como um padrão de referência internacional para a avaliação independente de projetos.6 A organização Stand Up for Science, criada por cientistas em 2025, afirmou que a medida ameaça décadas de pesquisa avaliada por pares.7
Por que o Congresso resiste, de novo
O episódio não surgiu do nada. Em maio de 2026, o Escritório de Gestão e Orçamento (OMB), comandado por Vought, publicou uma proposta de regra que obrigaria "indicados seniores" a revisar as bolsas discricionárias para garantir alinhamento com as prioridades do presidente. O texto também vetava financiamento a pesquisas que tratassem o sexo como característica mutável.7 Collins enviou carta ao OMB em julho pedindo o recuo, e o Congresso incluiu na lei de financiamento provisório, sancionada em 2 de setembro, um dispositivo que suspende essa regra, ou qualquer outra substancialmente semelhante, até 11 de dezembro.518
A leitura de Collins é que uma ordem executiva com o mesmo efeito seria uma forma de contornar uma decisão que o Legislativo acabou de tomar.5 Para a Roll Call, a reação reuniu as principais lideranças de apropriações das duas casas, incluindo a deputada democrata Rosa DeLauro.18
O editorial do Post oferece duas explicações para essa resistência bipartidária persistente. A primeira é territorial: há universidades em todos os estados, e cancelamentos de bolsas atingem eleitores de qualquer parlamentar. A segunda é econômica: a ciência básica financiada pelo governo permite investigações sem aplicação comercial imediata, o tipo de pesquisa que a iniciativa privada raramente banca e da qual saem descobertas com grande impacto posterior.1
Um projeto aprovado pelos painéis científicos poderia ser barrado por um único integrante politicamente indicado. O ponto central da disputa
Os números por trás da defesa da ciência básica
O NIH administra um orçamento superior a US$ 40 bilhões por ano, que financia pesquisas sobre câncer, Alzheimer e doenças cardíacas, entre outras áreas.6 Mais de 80% desse valor vai para fora da agência, em concursos baseados em mérito que alcançam mais de 300 mil pesquisadores em mais de 2.500 instituições espalhadas pelos 50 estados.10
O relatório anual da coalizão United for Medical Research, publicado em março de 2026, estima que os US$ 36,58 bilhões concedidos no ano fiscal de 2025 geraram US$ 94,15 bilhões em nova atividade econômica e sustentaram 390.863 empregos, o que equivale a US$ 2,57 para cada dólar investido.9 É preciso ler esses números com cautela metodológica: a coalizão reúne universidades e associações médicas, ou seja, parte interessada na manutenção do orçamento, e o cálculo pressupõe que o dinheiro entra na economia no mesmo ano em que é concedido.9
O dado menos citado do relatório talvez seja o mais revelador. A taxa de sucesso das propostas enviadas ao NIH caiu para cerca de 17% em 2025, contra 26% em 2024 e 30% em 2023, o menor patamar em quase trinta anos.10 Parte da explicação é administrativa: com os atrasos no início do ano, a agência passou a pagar bolsas plurianuais de uma só vez para cumprir o prazo de execução orçamentária, o que concentrou o dinheiro em menos projetos, maiores.11 O orçamento foi executado, mas menos cientistas foram contemplados.
Uma escalada que começou em 2025
A proposta de conselho político é o capítulo mais recente de uma série. Em fevereiro de 2025, o NIH tentou impor um teto uniforme de 15% para os custos indiretos das pesquisas, as despesas com energia, manutenção de laboratórios e equipamentos compartilhados. A medida foi bloqueada na Justiça e, em 5 de janeiro de 2026, o Tribunal de Apelações do Primeiro Circuito confirmou por unanimidade que ela violava uma cláusula orçamentária em vigor desde 2018. O Departamento de Justiça deixou passar o prazo de 6 de abril sem recorrer à Suprema Corte.12
Em maio de 2025, a agência anunciou o fim dos repasses de bolsas a parceiros estrangeiros, alegando necessidade de rastreabilidade dos recursos.13 Uma pesquisa da STAT com quase mil cientistas financiados pelo NIH, publicada em março de 2026, mostrou que 25% deles tiveram seus projetos afetados de forma significativa, com ensaios clínicos interrompidos e colaborações abandonadas.14 Em agosto de 2025, uma ordem executiva já havia determinado que cada agência federal designasse um indicado político sênior para revisar editais e bolsas, estabelecendo que as recomendações dos revisores científicos devem permanecer apenas consultivas.8
Visto em sequência, o movimento tem uma lógica clara: primeiro, pressão sobre o custo da infraestrutura; depois, sobre as parcerias internacionais; em seguida, sobre a autoridade dos pareceres científicos; agora, sobre a decisão final. Cada passo foi contestado, e vários foram revertidos pelo Judiciário ou pelo Legislativo, mas o acúmulo altera a previsibilidade de que a pesquisa de longo prazo depende.
O espelho brasileiro: a pressão vem pelo orçamento
No Brasil, a seleção de projetos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelas fundações estaduais de amparo à pesquisa, como a Fapesp, segue baseada em comitês de especialistas e pareceristas. Não há, hoje, proposta em discussão para submeter essas decisões a um filtro político. A fragilidade brasileira está em outro lugar: na instabilidade do orçamento.
Em maio de 2026, o Decreto 12.990 elevou para R$ 23,6 bilhões o total bloqueado no Orçamento da União. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação perdeu R$ 490,1 milhões, dos quais cerca de R$ 300 milhões saíram do CNPq.16 Segundo o presidente do conselho, Olival Freire Junior, em entrevista à Folha de S.Paulo, o corte poderia afetar cerca de 80% dos 102 mil bolsistas, já que quase todo o valor bloqueado incide sobre bolsas. O orçamento do CNPq para 2026 gira em torno de R$ 1,9 bilhão, patamar atingido após uma recomposição em janeiro.1517
A Academia Brasileira de Ciências apontou, ainda em dezembro de 2025, uma contradição no desenho do orçamento: o MCTI cresceu 12,65% em termos nominais, mas o crescimento se concentrou no crédito reembolsável do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), enquanto a verba de fomento do CNPq, usada para manter laboratórios e comprar insumos, caiu cerca de um terço.19
A comparação com os Estados Unidos ajuda a enxergar que existem duas formas de subordinar a agenda científica a lógicas de curto prazo. Uma é política, e atua sobre quais perguntas podem ser feitas. A outra é fiscal, e atua sobre quantas perguntas cabem no orçamento e com que regularidade. A primeira é mais visível e provoca reação imediata, como mostra o caso do NIH. A segunda é mais silenciosa, mas produz efeito semelhante: pesquisadores que abandonam linhas de investigação, laboratórios que param, jovens cientistas que deixam a carreira ou o país.
Há também um canal direto entre os dois cenários. Instituições brasileiras participam de redes internacionais de pesquisa em saúde, e o fim dos repasses do NIH a parceiros estrangeiros alterou as regras para esse tipo de colaboração.1314 Um conselho político que redefina prioridades de pesquisa nos Estados Unidos tende a repercutir sobre essas parcerias.
O que observar nas próximas semanas
Até a data desta publicação, a ordem executiva não havia sido assinada. Três pontos devem orientar os próximos passos. O primeiro é o prazo de 11 de dezembro, quando expira a lei de financiamento provisório e, com ela, o bloqueio aprovado pelo Congresso; a renovação ou não desse dispositivo dirá muito sobre a disposição do Legislativo de sustentar sua posição.18 O segundo é a posição de Bhattacharya, que passou a defender o processo de seleção da agência e cuja participação no conselho proposto seria decisiva. O terceiro é o calendário eleitoral: as eleições legislativas de novembro colocam parlamentares como Collins, que disputa uma reeleição apertada no Maine, sob pressão direta de eleitores ligados a universidades e hospitais de pesquisa.18
Para o leitor brasileiro, a lição não é apenas sobre os Estados Unidos. A autonomia da ciência depende de duas garantias simultâneas: que os critérios de seleção fiquem com quem entende do assunto e que o dinheiro chegue com regularidade. Perder qualquer uma delas compromete o mesmo resultado.
Perguntas frequentes
O que é a proposta de conselho político para as bolsas do NIH?
Segundo reportagens de setembro de 2026, Trump pediu a Russell Vought que redigisse uma ordem executiva criando um conselho de indicados políticos com poder de aprovar as bolsas do NIH. O grupo incluiria Vought e o diretor do NIH, Jay Bhattacharya, e exigiria decisões unânimes.
Como funciona hoje a seleção de projetos no NIH?
As propostas passam por avaliação de mérito em painéis de cientistas externos e, depois, pelo conselho consultivo do instituto responsável. É o modelo de revisão por pares usado há décadas no financiamento federal à pesquisa nos Estados Unidos.
Por que o Congresso americano se opõe?
Lideranças republicanas e democratas afirmam que a medida contraria a intenção do Congresso, que em setembro aprovou dispositivo suspendendo até 11 de dezembro uma regra semelhante do OMB.
Qual é o retorno econômico do investimento do NIH?
A United for Medical Research estima que os US$ 36,58 bilhões concedidos em 2025 geraram US$ 94,15 bilhões em atividade econômica e 390.863 empregos, ou US$ 2,57 para cada dólar investido. A estimativa vem de uma coalizão que defende o orçamento da agência.
A medida afeta pesquisadores brasileiros?
Não diretamente. Mas colaborações internacionais já foram afetadas em 2025, com o fim dos repasses do NIH a parceiros estrangeiros, e uma redefinição política de prioridades tende a repercutir sobre parcerias com instituições de outros países.
Quais são os riscos atuais para o financiamento científico no Brasil?
A seleção de projetos segue baseada em revisão por pares. A pressão em 2026 é orçamentária: o Decreto 12.990 bloqueou cerca de R$ 300 milhões do CNPq, que tem orçamento anual de aproximadamente R$ 1,9 bilhão e atende cerca de 102 mil bolsistas.