Ciência · Biotecnologia de alimentos

O Tecido · 1º de outubro de 2026 · Leitura de 10 minutos

Quando a carne cultivada entrou no radar dos investidores, a proposta cabia numa frase: comer carne sem criar nem abater animais. Dez anos depois, os primeiros alimentos feitos com células cultivadas estão de fato à venda, mas em lugares onde pouca gente apostaria no início: petiscos para cães em Londres, salmão para sushi nos Estados Unidos, codorna em restaurantes caros de Sydney e, se os planos de uma startup britânica derem certo, gordura suína para salsichas industriais. A mudança de rota é o tema de reportagem de Susannah Savage no Financial Times1, parte de uma série do jornal sobre apostas científicas de alto risco.

O diagnóstico que aparece é menos ambicioso do que o discurso fundador. A tecnologia funciona, mas o custo de produção ainda impede que ela dispute o balcão do açougue. As empresas que sobreviveram ao ciclo de euforia procuram agora brechas no sistema alimentar onde o preço alto pesa menos ou onde a vantagem do produto é simples de explicar ao comprador.

Por que a carne cultivada mudou de estratégia

O exemplo mais nítido é a Hoxton Farms, de Londres, que desistiu de reproduzir cortes nobres e cultiva gordura de porco para vender como ingrediente a fabricantes de carnes processadas. Ao FT, o cofundador e CEO Max Jamilly resumiu a tese dizendo que a tecnologia disponível hoje serve para fazer “salsichas melhores”, e não bifes premium inéditos1. A empresa captou cerca de US$ 35 milhões, protocolou em Singapura, no fim de 2025, o dossiê regulatório da sua gordura suína cultivada e mantém parceria com a japonesa Sumitomo. Jamilly espera a primeira aprovação no Leste Asiático no próximo ano, seguida dos Estados Unidos1.

A aposta na gordura tem razão técnica. É a gordura que dá sabor e suculência à carne, e é justamente o que falta aos produtos de base vegetal. Uma pequena dose de células animais pode mudar a percepção do consumidor sem exigir volumes gigantescos de produção. A americana Mission Barns seguiu esse caminho e, em julho de 2025, completou a dupla aprovação federal nos EUA (FDA e USDA) para sua gordura suína cultivada. Segundo a Green Queen, os produtos da empresa combinam proteína vegetal com uma taxa de inclusão de gordura cultivada que costuma ficar abaixo de 10%6.

Para o investidor britânico Jim Mellon, que financiou várias empresas do setor por meio de veículos como a Agronomics, parte da primeira geração de startups errou no diagnóstico do próprio negócio. Ele disse ao FT que algumas empresas americanas se comportaram como se estivessem no Vale do Silício, com salários altos e ambiente de big tech, quando na verdade operam um processo industrial cujas margens jamais chegarão perto de 50%1. A crítica sintetiza uma reavaliação mais ampla entre fundadores e investidores: o setor precisa de fábricas, aprovações regulatórias, compradores e custo baixo o bastante para competir com a carne convencional.

Como a carne cultivada é produzida

O processo parte de uma pequena amostra de células, que pode ser animal ou vegetal. Essas células são multiplicadas em um meio de cultura rico em nutrientes e depois transferidas para biorreatores, tanques com temperatura, oxigênio e agitação controlados. A massa celular colhida vira ingrediente, é misturada a proteínas vegetais ou ganha estrutura parecida com a de cortes tradicionais. Se ficar barato e confiável, esse processo pode romper o vínculo da comida com rebanhos, terras agrícolas e pesca1.

Etapas da produção de alimentos cultivados Diagrama em cinco etapas: coleta de amostra, banco de células, multiplicação em meio de cultura, biorreator e colheita e formulação do ingrediente. 1. Amostracélulas de animal 2. Bancolinhagem celular 3. Cultivomeio nutritivo 4. Biorreatorescala e controle 5. Colheitaingrediente final O gargalo está nas etapas 3 e 4: meio de cultura de grau alimentar e biorreatores de grande porte ainda são caros. No caso do cacau, a amostra inicial são células vegetais retiradas de uma ou duas sementes.
Infográfico: O Tecido, com base em Financial Times e Good Food Institute.

O obstáculo central é econômico, e não biológico. Meios de cultura de grau alimentar, prevenção de contaminação e biorreatores de grande porte custam caro, e o volume produzido segue pequeno diante da pecuária. É por isso que a escala virou o número que mais importa. A Mission Barns afirma, segundo a Frozen Food Europe, que sua gordura cultivada poderia competir em preço com a gordura suína convencional a partir de biorreatores de 20 mil litros7.

O dinheiro encolheu

Os dados do Good Food Institute (GFI), organização que acompanha o setor de proteínas alternativas, mostram o tamanho do ajuste. Empresas de carne e frutos do mar cultivados captaram US$ 73,9 milhões em 2025, cerca de metade dos US$ 144 milhões levantados em 20242. O número de empresas identificadas no segmento caiu de 155 para 140, segundo a Meat+Poultry3.

Investimento em carne cultivada, 2024 e 2025 Gráfico de barras: US$ 144 milhões captados em 2024 e US$ 73,9 milhões em 2025, segundo o Good Food Institute. Capital captado por empresas de carne e frutos do mar cultivados (US$ milhões) 2024 144,0 2025 73,9 Fonte: Good Food Institute, State of the Industry 2026 (dados Net Zero Insights).
Queda de cerca de 49% em um ano, no segmento mais intensivo em capital das proteínas alternativas.

O aperto deixou baixas. A holandesa Meatable começou a encerrar as operações em dezembro de 2025, depois de não conseguir novo financiamento, conforme relatou o portal Agroempresario11. A israelense Believer Meats, que chegou a obter aprovação nos EUA, fechou no mesmo mês, de acordo com a CB Insights12.

A política também pesa. Nos EUA, sete estados tinham proibições à venda de carne cultivada em vigor no fim de 2025, e Indiana e Texas anunciaram moratórias de dois anos3. Enquanto Washington reduziu o financiamento federal de pesquisa, a China seguiu na direção contrária: a estatal SDIC comprometeu mais de 4 bilhões de yuans (cerca de US$ 555 milhões) com infraestrutura de biomanufatura, com as novas proteínas entre as prioridades2.

Onde os alimentos cultivados já são vendidos

Petiscos para cães

A britânica Meatly, que tem a Agronomics entre os investidores, escolheu o mercado pet para provar o modelo. Sua carne de frango cultivada foi aprovada em julho de 2024 pelo Departamento de Meio Ambiente (Defra) e pela agência de sanidade animal (APHA), o que fez do Reino Unido o primeiro país europeu a liberar o uso em ração, segundo a agência PA reproduzida pelo Irish News5. Em fevereiro de 2025, petiscos feitos em parceria com a marca vegetal The Pack chegaram em lote limitado a uma loja da rede Pets at Home, em Londres, que também é investidora da empresa. Toda a produção deriva de uma única amostra de células extraída de um ovo de galinha, conforme a Food Manufacture4. Ao FT, o CEO Owen Ensor explicou que o objetivo era ter um produto no mercado para começar a conversar com consumidores1.

Salmão para sushi

Nos EUA, a Wildtype recebeu em junho de 2025 o aval da FDA para vender salmão coho cultivado, em qualidade de sushi, e estreou no restaurante Kann, em Portland, como registrou a Green Queen8. O pescado cru e caro é um dos poucos alimentos em que o preço de um produto cultivado não destoa tanto do convencional.

Codorna de alta gastronomia

A australiana Vow vende codorna japonesa cultivada em Singapura desde abril de 2024 e, em junho de 2025, obteve da Food Standards Australia New Zealand (FSANZ) a aprovação para o mercado australiano, após uma avaliação de mais de dois anos. Sob a marca Forged, os produtos foram lançados em restaurantes de alto padrão de Sydney e Melbourne, informou a Food Manufacture9.

Cacau sem cacaueiro

A lógica dos nichos ultrapassa a carne. A israelense Celleste cultiva células de cacau em tanques a partir de uma ou duas sementes, e afirma que sua manteiga de cacau tem perfil químico idêntico ao da convencional, podendo substituí-la diretamente na fabricação de chocolate1. Em dezembro de 2024, a empresa levantou US$ 4,5 milhões em rodada liderada pela Supply Change Capital, com participação do braço de investimentos da Mondelēz, e planeja chegar a mais de 10 mil litros de capacidade em escala comercial até 2027, segundo a FoodNavigator10.

A carne cultivada deixou de vender o fim da pecuária e passou a vender ingredientes. É uma promessa menor, mas bem mais fácil de cumprir.

Carne cultivada no Brasil: regra pronta, mercado em espera

Do ponto de vista regulatório, o Brasil já tem uma porta de entrada. A Anvisa publicou em dezembro de 2023 a RDC 839, que moderniza as regras de comprovação de segurança de novos alimentos e passou a incluir explicitamente produtos obtidos por cultivo celular e fermentação. A norma entrou em vigor em 16 de março de 2024, conforme análise publicada pela International Bar Association13. Pesquisadores do SENAI Cimatec, na Bahia, que desenvolvem uma carne cultivada com impressão 3D, avaliam porém que a norma ainda precisa de definições específicas para a produção e a comercialização desse tipo de produto, segundo o Brasil 6114.

O maior investidor privado no país é a JBS. A empresa comprou 51% da espanhola BioTech Foods em 2021, por US$ 100 milhões, segundo o The AgriBiz17, e construiu o JBS Biotech Innovation Center no Sapiens Parque, em Florianópolis, com investimento estimado em cerca de US$ 60 milhões, conforme a NSC Total15. Em 2022, a companhia projetava, segundo o NeoFeed, que os primeiros produtos chegariam às gôndolas a partir do segundo semestre de 202416. O cronograma ilustra o tipo de expectativa que o setor inteiro agora revisa.

Na pesquisa pública, a Embrapa trabalha em duas frentes: protótipos de filé de peito de frango na unidade Suínos e Aves, em Concórdia (SC), e biomateriais e alimentos impressos em 3D no Laboratório de Nanobiotecnologia do Cenargen, em Brasília, onde a equipe desenvolveu uma película comestível que funciona como tripa para embutidos de carne cultivada, segundo o Portal Tela18. A convergência com a tese de Hoxton e Mission Barns é evidente: embutidos e ingredientes, e não cortes nobres, parecem ser o primeiro destino viável.

Há também resistência política. Tramitam na Câmara propostas para proibir a carne cultivada (PL 4616/2023), impor moratória à pesquisa e à produção (PL 5402/2023) e derrubar a própria RDC 839 por decreto legislativo, embora nenhuma tenha avançado para votação até o último levantamento publicado pelo Compre Rural19.

Se o mercado pet é a porta de entrada no exterior, o Brasil tem tamanho para ser relevante. O país é o terceiro maior mercado pet do mundo, e a projeção da Abinpet e do Instituto Pet Brasil para 2025 era de faturamento de R$ 77,2 bilhões, dos quais cerca de R$ 40,8 bilhões em alimentos industrializados, segundo o Portal Tela20. Como a alimentação animal é regulada pelo Ministério da Agricultura, e não pela Anvisa, esse caminho teria trâmite próprio. No caso do cacau, a equação é dupla para um país produtor como o Brasil, com lavouras na Bahia e no Pará: o cultivo celular é potencial concorrente da amêndoa, mas também uma área de biotecnologia em que a pesquisa nacional poderia entrar cedo.

O que observar nos próximos meses

Três sinais vão indicar se a estratégia de nichos se sustenta. O primeiro é a aprovação da gordura suína da Hoxton em Singapura e no Japão, prevista pela empresa para 20271, que testaria o modelo de venda a fabricantes de embutidos. O segundo é o ritmo de expansão de capacidade das empresas que já faturam, como Vow, Mission Barns e Meatly, porque escala é o que separa um produto de vitrine de um negócio. O terceiro, para o leitor brasileiro, é o primeiro dossiê de alimento cultivado submetido à Anvisa sob a RDC 839, o momento em que a regra deixará de ser teoria.

A carne cultivada não morreu, mas trocou de ambição. A pergunta deixou de ser quando o bife de laboratório vai substituir o boi e passou a ser em quais prateleiras uma célula cultivada consegue pagar a própria conta.

Perguntas frequentes sobre carne cultivada

O que é carne cultivada?

É carne produzida a partir de células animais multiplicadas em biorreatores, sem criar nem abater o animal. Uma pequena amostra de células é alimentada com nutrientes em ambiente controlado e depois colhida como ingrediente.

Já é possível comprar carne cultivada?

Sim, em poucos mercados e em pequena escala. Há produtos aprovados em Singapura, nos Estados Unidos e na Austrália e Nova Zelândia, quase sempre em restaurantes. No Reino Unido, a venda ocorre em ração para cães.

A carne cultivada é permitida no Brasil?

A RDC 839/2023 da Anvisa, em vigor desde março de 2024, criou o caminho regulatório para novos alimentos, incluindo os obtidos por cultivo celular. Cada produto, porém, precisa ser avaliado e autorizado individualmente antes de ser vendido.

Por que as empresas começaram pela ração de pets?

Porque a exigência regulatória costuma ser diferente da aplicada a alimentos humanos, o volume inicial pode ser pequeno e há tutores dispostos a pagar mais por produtos de menor impacto ambiental.

Carne cultivada é mais barata que a convencional?

Ainda não. O custo de meios de cultura e biorreatores mantém os preços em patamar premium. Por isso as empresas priorizam ingredientes de baixa inclusão, como gordura, e produtos de alto valor, como salmão para sushi.

Nota de atribuição: este artigo foi produzido a partir da reportagem de Susannah Savage publicada no Financial Times, complementada por apuração independente em fontes listadas ao lado. O texto do FT não foi traduzido nem reproduzido integralmente; as informações atribuídas ao jornal estão creditadas ao longo do artigo.