A ideia de que se pensa melhor andando tem uma longa linhagem de defensores ilustres. Nietzsche, Thoreau, Virginia Woolf e Stephen King atribuíram parte do próprio trabalho criativo às caminhadas, lembra o colunista Richard Sima no Washington Post1. O que mudou nos últimos anos é que a anedota ganhou números, e os números contam uma história mais precisa do que a frase de efeito: caminhar ajuda a ter ideias, mas não ajuda, de forma mensurável, a decidir quais delas valem a pena.
O que diz a evidência mais recente
Em maio de 2026, uma equipe da Universidade McMaster, no Canadá, liderada pelo pesquisador Alex Thabane, publicou na revista PLOS ONE uma revisão sistemática com meta-análise de 23 estudos sobre caminhada e pensamento criativo2. O resultado central é assimétrico. Para o pensamento divergente, aquele que gera muitas alternativas para um mesmo problema, os autores encontraram evidência de certeza moderada para um efeito grande (tamanho de efeito d = 0,93). Para o pensamento convergente, que filtra e escolhe a melhor opção, a evidência é muito incerta e aponta para um efeito praticamente nulo (d = 0,16, com intervalo de confiança que cruza o zero)2.
Em termos práticos, a caminhada parece alargar o funil, não estreitá-lo. Ao Washington Post, Thabane resumiu o achado dizendo que andar é bom para gerar ideias originais, mas pouco eficaz para avaliá-las1.
A meta-análise consolida uma linha que começou a ganhar forma em 2014, quando Marily Oppezzo e Daniel Schwartz, da Escola de Educação de Stanford, publicaram quatro experimentos com 176 participantes, a maioria universitários. Segundo o comunicado da própria universidade, a produção criativa aumentou em média 60% quando as pessoas caminhavam, numa esteira diante de uma parede vazia ou ao ar livre3. No teste de usos alternativos, a caminhada elevou a pontuação de 81% dos participantes; no teste de associações remotas, que mede raciocínio convergente, apenas 23% melhoraram3. A Associação Americana de Psicologia destacou ainda que quem caminhou superou tanto quem ficou sentado quanto quem foi empurrado numa cadeira de rodas pelo mesmo percurso, o que sugere que o efeito depende do movimento do próprio corpo, e não apenas da paisagem que passa4.
Não é só andar: é andar sem trilho
Um dos achados mais interessantes da área vem da Universidade de Würzburg, na Alemanha. Em 2022, a neurocientista Barbara Händel e a doutoranda Supriya Murali publicaram na revista Psychological Research três experimentos que separaram duas variáveis normalmente misturadas: o estado de movimento (andar ou sentar) e o grau de restrição imposto a ele5. Participantes que caminhavam num trajeto predeterminado, ida e volta no meio de uma sala, tiveram desempenho inferior aos que andavam livremente. O mesmo padrão apareceu entre os sentados: quem precisava fixar o olhar num ponto da tela gerou menos ideias do que quem podia se acomodar como quisesse5.
A conclusão dos autores é que a restrição motora, mais do que a ausência de caminhada, prejudica o pensamento divergente. O resultado conversa com um estudo anterior, de Kuo e Yeh (2016), que mostrou ganhos apenas na caminhada livre, e não quando os voluntários repetiam o trajeto que outra pessoa havia feito livremente6. O que importa, segundo essa leitura, é a autonomia do gesto, não o desenho do percurso.
Ao jornal americano, Händel ofereceu uma explicação evolutiva: a cognição humana se desenvolveu em movimento, procurando comida, abrigo e aprendendo pelo caminho, e por isso estaria profundamente associada ao sistema motor1. É uma hipótese plausível, ainda não um mecanismo demonstrado.
Do laboratório para o dia a dia
A crítica clássica a esse campo é que testes como o de usos alternativos (listar o maior número possível de usos para um tijolo ou um jornal) medem algo estreito. Os estudos de campo de Christian Rominger, da Universidade de Hildesheim, tentam responder a essa objeção. Em 2024, sua equipe acompanhou por cinco dias cerca de 150 jovens adultos com sensores de atividade e enviou tarefas criativas ao longo da rotina. Mais passos imediatamente antes de responder estavam associados a respostas mais originais, e quem caminhava mais no geral também produzia ideias mais criativas1. Num segundo trabalho, publicado na Scientific Reports, mais atividade moderada a vigorosa e menos tempo sentado apareceram ligados a maior frequência de atividades criativas, como cozinhar, tocar música e atuar1.
Esses dados, porém, são correlacionais. Pessoas mais ativas podem ter rotinas mais variadas, mais tempo livre ou temperamentos diferentes. A direção da causa não está estabelecida.
Sobre os mecanismos, há três candidatos principais. O primeiro é psicológico: sair da mesa cria distância do problema e abre espaço para a divagação mental, como descreveu Thabane1. O segundo é fisiológico, com maior fluxo sanguíneo cerebral e, a longo prazo, aumento do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), ligado à plasticidade neural. O terceiro é sensorial: o cérebro processa visão, audição e tato de forma diferente quando o corpo está em deslocamento. A hipótese do humor, bastante popular, não encontrou sustentação nos dados de Rominger, que não observou relação entre emoção positiva e ideias mais criativas1.
O efeito é real, mas a base ainda é estreita. Uma revisão publicada em 2024 na Discover Psychology lembra que divergência e convergência são componentes distintos da criatividade e podem reagir de modos diferentes à atividade física, o que torna enganosa qualquer afirmação genérica de que "caminhar deixa as pessoas mais criativas"7.
Há também limites de método. Boa parte dos ensaios usa amostras pequenas de estudantes universitários, tarefas de laboratório de poucos minutos e medidas de fluência e originalidade que não equivalem a produzir uma obra, um produto ou uma solução de política pública. Leitores críticos da meta-análise de 2026 observaram que vários dos ensaios positivos se concentram em poucos grupos de pesquisa, o que exige replicação independente. E o próprio Thabane ressalva que gerar ideias não é tudo: avaliá-las costuma exigir sentar, comparar e, muitas vezes, discutir com outras pessoas1.
O que isso significa no Brasil
Se o benefício cognitivo da caminhada depende de movimento livre e cotidiano, o dado brasileiro mais relevante não é quantas pessoas vão à academia, mas quantas se deslocam a pé ou de bicicleta. E aqui os números caminham na direção oposta.
Segundo a apresentação dos resultados do Vigitel 2025, do Ministério da Saúde, a prática de atividade física no tempo livre em nível recomendado (ao menos 150 minutos semanais) subiu de 30,3% em 2009 para 42,3% em 2024 entre adultos das capitais. No mesmo período, porém, a atividade física no deslocamento caiu de 17,0% para 11,3%8. O brasileiro urbano passou a se exercitar mais por escolha e a se mover menos por necessidade.
O quadro internacional não é mais animador. Estudo de pesquisadores da OMS publicado na The Lancet Global Health, divulgado pela Organização Pan-Americana da Saúde, estimou que 31% dos adultos do mundo não atingiam o nível recomendado de atividade física em 2022. Nas Américas, a taxa chegou a 36%, e entre as mulheres da região a 41%9.
O Guia de Atividade Física para a População Brasileira, lançado em 2021 pelo Ministério da Saúde com apoio da OPAS, já incorpora a caminhada e o deslocamento ativo como formas legítimas de cumprir os 150 minutos semanais10. O que a literatura sobre criatividade acrescenta é um argumento que raramente entra no debate sobre calçadas, iluminação, arborização e segurança viária: cidades que desestimulam o andar livre não comprometem apenas a saúde cardiovascular de seus moradores, mas possivelmente também uma parte da sua capacidade de pensar fora do trilho.
Há implicações para o trabalho, também. Escritórios e rotinas remotas que encadeiam uma videochamada atrás da outra, com o olhar fixo na tela, reproduzem com bastante fidelidade a condição de "restrição" testada em Würzburg. Reuniões de brainstorming caminhando, pausas entre blocos de tarefas e a separação deliberada entre o momento de gerar ideias (em movimento) e o de decidir (sentado, em grupo) são ajustes de baixo custo que dialogam diretamente com a evidência disponível.
Como aplicar sem exagerar
A leitura responsável dos estudos sugere quatro cuidados. Use a caminhada para a fase de abertura de um problema, quando o objetivo é multiplicar alternativas. Prefira trajetos sem roteiro rígido, já que a liberdade de movimento parece contar mais do que o cenário. Leve um meio de registro, porque, como notou Rominger, o inconveniente de pensar andando é não estar diante da mesa para desenvolver o que surgiu1. E reserve a etapa de escolha para outro contexto, com tempo, critérios e, de preferência, outras pessoas.
Perguntas frequentes
Caminhar realmente aumenta a criatividade?
Aumenta um componente específico dela. A meta-análise de 2026 publicada na PLOS ONE, com 23 estudos, encontrou efeito grande da caminhada sobre o pensamento divergente (geração de ideias) e efeito praticamente nulo sobre o pensamento convergente (avaliação e escolha de ideias).
Quanto tempo de caminhada é necessário?
Nos experimentos de Stanford, sessões de 5 a 16 minutos já foram suficientes para elevar a produção criativa, e o efeito persistiu por algum tempo depois que os participantes voltaram a sentar. Não há, porém, uma "dose" padronizada estabelecida pela literatura.
Caminhar na esteira funciona ou precisa ser ao ar livre?
Os dois funcionam. Em Stanford, a esteira diante de uma parede vazia produziu ganhos comparáveis à caminhada externa. Estudos posteriores indicam que a liberdade de movimento importa mais do que o ambiente: trajetos muito restritos reduzem o benefício.
Por que a caminhada ajuda a ter ideias?
As hipóteses envolvem distanciamento do problema e divagação mental, aumento do fluxo sanguíneo cerebral, efeitos de longo prazo sobre o BDNF e mudanças no processamento sensorial durante o movimento. A explicação pelo bom humor não foi confirmada em estudos de campo recentes.
Quantos brasileiros se deslocam a pé ou de bicicleta de forma ativa?
Segundo o Vigitel 2025, do Ministério da Saúde, 11,3% dos adultos das capitais praticavam atividade física suficiente no deslocamento em 2024, contra 17,0% em 2009. Já a atividade física no tempo livre em nível recomendado subiu para 42,3%.