O buraco na camada de ozônio sobre a Antártida em 2025 foi um dos menores registrados desde o início dos anos 1990. A conclusão está no quarto Boletim de Ozônio e UV da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado em 16 de setembro de 2026, Dia Internacional para a Preservação da Camada de Ozônio. Pelo segundo ano consecutivo, tanto a profundidade quanto a extensão do buraco ficaram significativamente abaixo da média de 1990-2010, e o episódio de 2025 aparece entre o quarto e o quinto mais fraco desde 1992[2][3].
A notícia foi repercutida pela revista Scientific American, em reportagem de Adam Kovac que chama atenção para um ponto menos celebrado: a cicatrização acontece, mas em ritmo mais lento do que parte da comunidade científica esperava, e o aumento de eventos meteorológicos extremos pode estar contribuindo para isso[1]. As duas leituras não se anulam. Juntas, descrevem com precisão um dos raros casos em que a humanidade identificou um dano ambiental global, concordou sobre a causa e agiu de forma coordenada até obter resultados mensuráveis.
O que os números de 2025 mostram
O principal indicador usado pela OMM é o déficit de massa de ozônio, que mede quanto ozônio "falta" na região do buraco em relação ao que seria esperado. Em 2025, o pico desse déficit foi de 36,7 milhões de toneladas, em 29 de setembro, valor mais de 25% inferior à média de 50,1 milhões de toneladas do período 1990-2010[2].
As agências norte-americanas NASA e NOAA calcularam que, no auge da temporada, entre 7 de setembro e 13 de outubro, o buraco teve extensão média de cerca de 18,7 milhões de km². É uma área equivalente a mais de duas vezes o território brasileiro, mas aproximadamente 30% menor do que o recorde observado em 2006. O serviço europeu Copernicus (CAMS) registrou o fechamento do buraco em 1º de dezembro, o mais precoce desde 2019[4].
O dado que melhor isola o efeito da política pública veio do cientista Paul Newman, da NASA. Segundo ele, se a estratosfera ainda tivesse a mesma quantidade de cloro de 25 anos atrás, o buraco de 2025 teria sido mais de 2,5 milhões de km² maior[4]. Em outras palavras, a diferença entre o cenário real e o contrafactual é, em boa parte, resultado direto de decisões regulatórias tomadas no fim dos anos 1980.
Por que a recuperação não é uma linha reta
A reportagem da Scientific American ouviu a química atmosférica Suzanne Paulson, professora da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Ela pondera que um único ano diz pouco, já que o tamanho do buraco oscila bastante de uma temporada para outra, e que, embora a situação não tenha piorado, as melhorias observadas até aqui ficaram aquém do que os modelos sugeriam[1].
O próprio boletim da OMM dá pistas dessa irregularidade. Em 2025, a destruição de ozônio começou relativamente cedo, no fim de agosto, e atingiu suas taxas máximas no início de setembro, bem antes do habitual. Em outubro, mês em que os picos costumam ocorrer, os valores ficaram muito abaixo da faixa histórica[2]. A oscilação anual depende sobretudo de temperaturas e ventos na estratosfera sobre o Hemisfério Sul, que definem quanto tempo o ar polar fica isolado e exposto às reações químicas que destroem o ozônio[3][4].
No Hemisfério Norte, o quadro foi diferente. A coluna total de ozônio ficou abaixo da média numa faixa extensa que vai da Groenlândia e da Europa à Ásia Central, ao norte do Japão e à península de Kamchatka, na Rússia[3]. Segundo o relato da Scientific American, o boletim associou essa anomalia a um vórtice polar ártico intenso em janeiro e fevereiro de 2025, e Paulson avalia que episódios desse tipo tendem a se repetir com mais frequência à medida que o aquecimento global avança[1]. Essa é a ligação entre os dois problemas: o ozônio está se recuperando graças à redução de químicos, mas passa a depender também de uma atmosfera cada vez mais instável.
A diferença entre o buraco que vimos e o que teríamos sem o Protocolo de Montreal é, em boa parte, o resultado de uma decisão política tomada há quase quatro décadas.O TECIDO · ANÁLISE
O Brasil sob a sombra do buraco
O buraco de ozônio é um fenômeno antártico, mas seus efeitos chegam ao país. Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) monitoram desde os anos 1990, com espectrofotômetros Brewer instalados no Observatório Espacial do Sul, em São Martinho da Serra (RS), os chamados efeitos secundários do buraco. Eles ocorrem quando massas de ar pobres em ozônio se desprendem do vórtice polar e avançam sobre latitudes médias, incluindo o Sul do Brasil[9][10].
Nesses episódios, o conteúdo de ozônio sobre a região pode cair cerca de 10% a 12%, com aumento correspondente da radiação ultravioleta que chega à superfície[9][10]. Num país tropical, isso não é detalhe. O câncer de pele não melanoma segue como o tumor mais frequente no Brasil, e as estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para 2026-2028 indicam 781 mil novos casos de câncer por ano, número que cai para 518 mil quando se excluem os tumores de pele não melanoma[11]. A diferença, de cerca de 263 mil casos anuais, dá a dimensão do problema de saúde pública ligado à exposição solar.
Um tratado que sobreviveu à polarização
O Protocolo de Montreal foi adotado em 16 de setembro de 1987 e é um dos raros tratados internacionais com ratificação universal[4]. Sua história contraria a ideia de que problemas ambientais só avançam quando um lado político vence o outro. O acordo foi negociado sob a liderança de governos conservadores, como os de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e Margaret Thatcher, no Reino Unido, apoiado em ciência que depois rendeu o Nobel de Química de 1995 a Mario Molina, Sherwood Rowland e Paul Crutzen, e acabou aceito pela própria indústria química, que desenvolveu substitutos para os CFCs.
O Brasil repete esse padrão de continuidade. O protocolo foi promulgado no país em 1990[8] e, desde então, a política de eliminação das substâncias que destroem a camada de ozônio passou por governos de orientações muito diferentes sem ser interrompida. O Programa Brasileiro de Eliminação dos HCFCs (PBH), coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente com o Ibama no controle de importações, já reduziu em cerca de 56% o consumo desses gases, e 394 empresas receberam apoio técnico e financeiro para converter suas linhas de produção, em setores como espumas de poliuretano, refrigeração e ar-condicionado[5].
O caso mais ilustrativo é o da Emenda de Kigali, que incluiu no protocolo os hidrofluorcarbonos (HFCs), gases que não afetam o ozônio mas têm alto poder de aquecimento global. O Brasil ratificou a emenda em agosto de 2022, no governo de Jair Bolsonaro, e a promulgou pelo Decreto nº 11.666, de agosto de 2023, já no governo de Luiz Inácio Lula da Silva[5][6]. Dois governos que discordam em quase tudo trataram o tema como política de Estado. As metas assumidas incluem congelar o consumo de HFCs em 2024, reduzi-lo em 10% até 2029 e em até 80% até 2045[7].
A experiência do ozônio reúne condições que costumam faltar em outros debates ambientais: diagnóstico científico claro e amplamente aceito; substitutos tecnológicos disponíveis; cronogramas graduais, que deram tempo às empresas; financiamento para países em desenvolvimento, por meio do Fundo Multilateral; e monitoramento atmosférico independente, capaz de detectar quem descumpre as regras. Nenhum desses elementos exigiu que uma parte da sociedade derrotasse a outra.
O que o ozônio ensina ao debate climático
A lição mais útil não está no resultado, mas no método. O protocolo não pediu adesão ideológica; ofereceu um caminho que protegia a saúde da população, preservava empregos industriais e dava previsibilidade aos negócios. Foi desenhado para atender à grande maioria, e por isso sobreviveu a trocas de governo em quase duzentos países.
Há ainda um ganho climático direto. Muitos dos gases eliminados também eram potentes gases de efeito estufa, e a avaliação científica de 2022 estimou que a implementação da Emenda de Kigali pode evitar até 0,5 °C de aquecimento global até o fim do século[12]. Para o Brasil, que tem uma indústria relevante de refrigeração e ar-condicionado e um consumo crescente de climatização em cidades cada vez mais quentes, a transição para equipamentos mais eficientes é ao mesmo tempo compromisso ambiental e oportunidade econômica.
Em meio a debates ambientais cada vez mais contaminados pela lógica do "nós contra eles", a camada de ozônio funciona como evidência empírica de que é possível construir acordos amplos quando o foco sai da disputa identitária e volta para o problema concreto e para quem é afetado por ele.
Os limites da analogia e os riscos da complacência
Especialistas alertam que o sucesso do ozônio não se transfere automaticamente para o clima. O problema envolvia um grupo restrito de substâncias, produzidas por poucas empresas e com substitutos viáveis. O dióxido de carbono, ao contrário, está no centro da matriz energética, dos transportes e da agropecuária, com custos de transição muito mais distribuídos e politicamente sensíveis.
A própria recuperação do ozônio tem fragilidades. A OMM lembra que houve emissões inesperadas de CFC-11 até 2018 e de HFC-23, detectadas justamente pelo monitoramento atmosférico. Esse sistema, porém, está encolhendo: o número de estações terrestres ativas caiu de cerca de 130 no início dos anos 2000 para 110 hoje, muitas vezes em regiões onde as observações já eram escassas[3]. Além disso, a radiação UV aumentou até 20% em partes da Europa desde meados dos anos 1990, por causa da redução da cobertura de nuvens, o que mostra que ozônio recuperado não significa, por si só, menor exposição ao sol[3]. E, como observa Suzanne Paulson, o ritmo real da cicatrização segue abaixo do previsto[1].
O que observar a seguir
Três marcos merecem acompanhamento. O primeiro é a nova Avaliação Científica da Depleção de Ozônio, conduzida por OMM e PNUMA e prevista para 2026, que deve atualizar as projeções de recuperação[4]. O segundo é a temporada de 2026 do buraco antártico, em curso neste mês de setembro, que dirá se a tendência de dois anos consecutivos abaixo da média se mantém. O terceiro, no plano doméstico, é o cumprimento da meta brasileira de redução de 10% no consumo de HFCs até 2029, que testará se a continuidade institucional observada até aqui resiste aos próximos ciclos eleitorais[7].
Perguntas frequentes
O buraco na camada de ozônio está fechando?
Está diminuindo. Em 2025, o buraco sobre a Antártida ficou entre o quarto e o quinto menor desde 1992 e se fechou em 1º de dezembro, o mais cedo desde 2019. A recuperação completa sobre a Antártida é projetada para por volta de 2066.
Por que a recuperação está mais lenta do que o previsto?
O tamanho do buraco varia com as condições meteorológicas da estratosfera. Eventos extremos, como o vórtice polar ártico intenso do início de 2025, podem provocar perdas pontuais de ozônio mesmo com a queda dos químicos responsáveis.
O buraco de ozônio afeta o Brasil?
Sim, de forma indireta. Massas de ar pobres em ozônio podem se deslocar da Antártida até o Sul do país, reduzindo o ozônio local em cerca de 10% a 12% e aumentando a radiação ultravioleta, segundo medições do INPE e da UFSM.
O que o Brasil fez para cumprir o Protocolo de Montreal?
O país eliminou os CFCs, reduziu em cerca de 56% o consumo de HCFCs por meio do Programa Brasileiro de Eliminação dos HCFCs e ratificou a Emenda de Kigali, com meta de cortar em 10% o consumo de HFCs até 2029 e em até 80% até 2045.
O sucesso do ozônio pode ser repetido no combate às mudanças climáticas?
Em parte. O método de metas graduais, financiamento, substitutos tecnológicos e monitoramento independente é replicável, mas o desafio do carbono é mais amplo, porque envolve energia, transporte e agropecuária.
Referências
- KOVAC, Adam. The hole in the ozone layer is healing, but extreme weather may be slowing progress down. Scientific American, set. 2026. Disponível em: https://www.scientificamerican.com/article/the-hole-in-the-ozone-layer-is-healing-but-extreme-weather-may-be-slowing-progress-down/
- Organização Meteorológica Mundial (OMM). WMO Ozone and UV Bulletin nº 4, setembro de 2026.
- Organização Meteorológica Mundial (OMM). WMO bulletin shows successes and challenges in ozone layer recovery. Comunicado de imprensa, 16 set. 2026.
- Organização Meteorológica Mundial (OMM). Small and short-lived 2025 ozone hole confirms long-term recovery trend, 12 dez. 2025 (com dados de NASA, NOAA e Copernicus/CAMS).
- Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD Brasil). Ações do Protocolo de Montreal têm feito a diferença na proteção do meio ambiente.
- Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD Brasil). Brasil dá um passo importante na implementação da Emenda de Kigali.
- Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Programa Brasileiro de Redução do Consumo dos HFCs (Programa HFCs).
- Mattos Filho. Poder Executivo promulga a Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal, set. 2023.
- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Estudo da camada de ozônio e da radiação ultravioleta.
- INPE/UFSM. Estudos sobre eventos de efeito secundário do buraco de ozônio antártico sobre o Sul do Brasil (Revista Ciência e Natura; anais da Sociedade Brasileira de Geofísica).
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2026-2028: Incidência de Câncer no Brasil.
- OMM/PNUMA. Scientific Assessment of Ozone Depletion: 2022.
Nota de atribuição: este artigo foi produzido pelo O Tecido a partir de apuração própria e de fontes institucionais nacionais e internacionais. Ele parte da reportagem de Adam Kovac, editada por Claire Cameron e publicada pela Scientific American, cujos créditos pertencem à publicação original: leia a reportagem completa. Nenhum trecho foi reproduzido ou traduzido integralmente.