Caderno Saúde · Envelhecimento

Poucos hábitos de saúde parecem tão sensatos quanto o comprimido de cálcio com vitamina D tomado depois do café da manhã. A lógica é intuitiva: o osso é feito em boa parte de cálcio, a vitamina D ajuda o intestino a absorvê-lo e, portanto, reforçar os dois deveria proteger o esqueleto de quem envelhece. A lógica é boa. O que falta é o resultado. A maior revisão já feita sobre o tema, com 69 ensaios clínicos randomizados e 153.902 adultos, concluiu que, para a maioria das pessoas mais velhas, essa suplementação oferece proteção pequena ou nula contra fraturas e quedas2.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores canadenses liderados pelo farmacêutico Olivier Massé, do Hospital do Sacré-Cœur de Montreal, e publicado no The BMJ em maio de 202624. O estudo voltou ao noticiário internacional neste mês, quando o portal ScienceDaily republicou o material de divulgação do BMJ Group e destacou que os achados questionam a indicação rotineira dos suplementos para prevenção1.

O que a revisão analisou

A equipe reuniu ensaios que compararam cálcio isolado, vitamina D isolada ou a combinação dos dois contra placebo ou ausência de tratamento. A maior parte dos participantes vivia em casa, de forma independente, e não pertencia a grupos de risco elevado para fraturas ou quedas3. Os desfechos principais foram fraturas de qualquer tipo, fraturas de quadril e quedas.

O ponto metodológico que diferencia este trabalho de revisões anteriores está no critério de sucesso. Em vez de perguntar apenas se havia diferença estatística entre os grupos, os autores definiram de antemão qual redução de risco seria relevante para a vida de um paciente e avaliaram os resultados contra esse limiar2. Foi esse filtro que separou o que é mensurável do que é útil.

Participantes por tipo de suplementação na metanálise do The BMJ Cálcio isolado: 11 ensaios e 9.067 participantes, certeza moderada. Vitamina D isolada: 36 ensaios e 92.045 participantes, certeza alta. Combinação: 15 ensaios e 51.126 participantes, certeza alta. Em todos os casos, efeito pequeno ou nulo sobre qualquer fratura. PARTICIPANTES ANALISADOS PARA O DESFECHO "QUALQUER FRATURA" Cálcio 9.067 · 11 ensaios · certeza moderada Vitamina D 92.045 · 36 ensaios · certeza alta Cálcio + vit. D 51.126 · 15 ensaios · certeza alta Resultado nos três braços: efeito pequeno ou nulo, abaixo do limiar de relevância clínica.
Fonte: Massé O. et al., The BMJ, 20262. Elaboração: O Tecido. O comprimento das barras representa o número de participantes, não o tamanho do efeito.

Os resultados, braço a braço

Para o cálcio isolado, a conclusão de efeito pequeno ou nulo sobre qualquer fratura se apoia em 11 ensaios e pouco mais de nove mil pessoas, com certeza moderada. Para a vitamina D isolada, a base é bem mais robusta: 36 ensaios, mais de 92 mil participantes e certeza alta. A combinação dos dois somou 15 ensaios e cerca de 51 mil pessoas, também com certeza alta2.

O padrão se repetiu quando os autores olharam separadamente para fraturas de quadril e para quedas. E se manteve estável depois de considerar idade, sexo, histórico de fraturas e de quedas e a quantidade média de cálcio já obtida pela alimentação2. Essa consistência entre subgrupos é o que dá peso à conclusão.

Existe uma nuance que merece registro. A combinação de cálcio e vitamina D mostrou uma redução discreta no risco de fraturas, mas insuficiente para alcançar o critério de benefício clinicamente relevante estabelecido pelo estudo5. Em termos práticos, a diferença existe no papel e some na escala de um consultório.

A pergunta deixou de ser se o suplemento faz alguma diferença estatística. Passou a ser se faz diferença suficiente para mudar a vida de quem o toma.O Tecido, sobre o critério adotado pela revisão

Como a recomendação se tornou rotina

A confiança nos suplementos tem origem concreta. Em 1992, um ensaio francês publicado no New England Journal of Medicine acompanhou mulheres idosas vivendo em instituições de longa permanência e observou menos fraturas de quadril entre as que receberam vitamina D3 e cálcio12. Aquele primeiro grande estudo registrou redução relativa de 23% nas fraturas de quadril e de 17% nas fraturas não vertebrais6.

O detalhe decisivo costuma ser esquecido: eram mulheres institucionalizadas, com pouca exposição ao sol e alta prevalência de deficiência. O resultado foi generalizado para idosos saudáveis que vivem em casa, grupo em que os ensaios posteriores não conseguiram reproduzir o mesmo efeito. Ainda assim, clínicos, diretrizes e agências reguladoras seguiram recomendando a vitamina D, com ou sem cálcio, e as prescrições cresceram de forma expressiva nos últimos anos4.

A revisão canadense não surge isolada. Em dezembro de 2024, a força-tarefa de serviços preventivos dos Estados Unidos (USPSTF) publicou rascunho de recomendação concluindo, com certeza moderada, que a vitamina D com ou sem cálcio não traz benefício líquido para prevenir fraturas em mulheres na pós-menopausa e homens a partir de 60 anos que vivem na comunidade, e recomendou contra o uso de vitamina D para prevenir quedas6.

O retrato brasileiro

No Brasil, o problema que os suplementos pretendiam resolver é grande e crescente. O Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), financiado pelo Ministério da Saúde e coordenado pela Fiocruz, mostrou em sua linha de base, com 4.174 participantes, que 25,1% dos idosos de áreas urbanas relataram ao menos uma queda nos 12 meses anteriores. Entre essas quedas, 1,8% resultou em fratura de quadril ou fêmur8. A edição seguinte, conduzida entre 2019 e 2021, confirmou a prevalência em torno de 25% e apontou fatores associados de natureza múltipla, com maior ocorrência entre mulheres9. Entre pessoas com mais de 80 anos, a proporção pode alcançar 40%, segundo dados do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia13.

O custo aparece nos hospitais. Um estudo publicado na Acta Ortopédica Brasileira analisou 480.652 internações de pessoas com 60 anos ou mais por fratura de quadril no SUS entre 2008 e 2018: o registro de hospitalizações cresceu 76,9% no período, as mulheres responderam por 68% dos casos e o custo total somou R$ 1,1 bilhão, cerca de R$ 100 milhões por ano10. O envelhecimento acelerado da população brasileira indica que essa curva tende a continuar subindo.

No campo laboratorial, o país já passou por uma correção de rota. Em 2017, a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) reduziram o valor de referência da 25(OH)D para a população geral saudável de 30 para 20 ng/mL, reservando a faixa de 30 a 60 ng/mL para grupos de risco, entre eles pessoas acima de 65 anos, com quedas recorrentes, fraturas por fragilidade ou osteoporose11. A mudança reclassificou como normais milhões de resultados que antes levavam à suplementação. A nova revisão do BMJ reforça a direção dessa correção e acrescenta uma camada: mesmo quando há indicação, o suplemento não substitui as estratégias com efeito comprovado sobre quedas.

O que tem evidência de funcionar

Os autores do editorial que acompanha a revisão, assinado por Jennifer Pillay e colegas, defendem que atenção e financiamento sejam redirecionados para intervenções com benefício já demonstrado, como exercícios de equilíbrio e de resistência e programas que combinam exercício, avaliação de riscos no ambiente e educação ajustada ao perfil de cada pessoa34.

A evidência para o exercício é sólida. A revisão Cochrane de 2019, liderada por Cathie Sherrington, da Universidade de Sydney, reuniu 59 ensaios com quase 13 mil participantes e encontrou redução de 23% na taxa de quedas entre idosos que vivem na comunidade, com certeza alta. Exercícios de equilíbrio e funcionais reduziram a taxa em 24%, e programas que combinam equilíbrio, funcionalidade e força chegaram a 34%7. A USPSTF também recomenda intervenções com exercício para idosos com risco aumentado de queda6.

IntervençãoEfeito sobre quedasCerteza da evidência
Vitamina D, cálcio ou combinação (suplementação de rotina)Pequeno ou nuloModerada a alta2
Exercício em geralRedução de 23% na taxa de quedasAlta7
Equilíbrio e exercícios funcionaisRedução de 24%Alta7
Combinação de equilíbrio, funcionais e forçaRedução de 34%Moderada7

Para o sistema de saúde brasileiro, a implicação é de alocação. Suplementos são baratos por unidade e fáceis de prescrever. Programas de exercício supervisionado exigem profissionais, espaço e adesão ao longo de meses. A Atenção Primária, as academias da saúde e os grupos de convivência já existentes são a infraestrutura natural para esse deslocamento, mas a troca só acontece se a prescrição de rotina deixar de ser vista como prevenção suficiente.

Contraponto

Onde a conclusão não se aplica

Os próprios autores ressaltam que parte das análises se apoia em poucos ensaios ou participantes e deve ser lida com cautela. Também advertem que pessoas com doenças ósseas específicas ou em tratamento medicamentoso para osteoporose não devem transpor os resultados diretamente para o seu caso2.

Há ainda uma crítica recorrente a esse tipo de revisão: a maioria dos ensaios incluiu idosos sem deficiência de vitamina D, o que torna previsível a ausência de efeito. Para quem vive em instituições de longa permanência, tem pouca exposição solar, sofre de doenças de má absorção ou passou por cirurgia bariátrica, a situação pode ser diferente. O editorial do BMJ reconhece a lacuna e pede ensaios rigorosos e com poder estatístico adequado para populações de alto risco3. No Brasil, o posicionamento da SBEM e da SBPC/ML continua indicando níveis entre 30 e 60 ng/mL para idosos e grupos de risco11, o que mantém espaço para a suplementação guiada por exame e indicação clínica, e não como hábito generalizado.

O que muda para quem toma suplemento

  • O resultado se refere à suplementação de rotina com objetivo preventivo, em pessoas sem indicação clínica específica.
  • Quem usa cálcio ou vitamina D por deficiência confirmada, osteoporose em tratamento ou outra condição diagnosticada não deve interromper o uso sem orientação médica.
  • Vale levar a pergunta à próxima consulta: qual é a razão clínica para manter o suplemento no meu caso?
  • Exercícios de equilíbrio e força, revisão de medicamentos que causam tontura, avaliação da visão e adaptação da casa têm evidência mais forte contra quedas.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.

Perguntas frequentes

Suplementos de cálcio e vitamina D previnem fraturas em idosos?

Para a maioria dos idosos que vivem em casa e não têm deficiência diagnosticada ou osteoporose em tratamento, não de forma clinicamente relevante. A metanálise do The BMJ, com 69 ensaios e 153.902 participantes, encontrou efeito pequeno ou nulo sobre fraturas em geral, fraturas de quadril e quedas2.

Devo parar de tomar vitamina D por conta própria?

Não sem conversar com o médico. O estudo trata da suplementação de rotina. Deficiência confirmada, osteoporose em tratamento, doenças de má absorção e cirurgia bariátrica são situações em que a suplementação pode seguir indicada.

O que realmente reduz quedas em pessoas idosas?

Exercícios de equilíbrio, funcionais e de força. A revisão Cochrane de 2019 mostrou redução de 23% na taxa de quedas, com evidência de alta certeza7. Programas que combinam exercício, avaliação do ambiente e orientação individual também são recomendados.

Qual é o nível de vitamina D considerado adequado no Brasil?

Acima de 20 ng/mL para a população geral saudável. Para idosos acima de 65 anos e outros grupos de risco, a recomendação da SBPC/ML e da SBEM é manter entre 30 e 60 ng/mL11.

Quantos idosos caem por ano no Brasil?

Cerca de um em cada quatro idosos de áreas urbanas, segundo o ELSI-Brasil89. Acima dos 80 anos, a proporção pode chegar a 40%13.

Nota de atribuição: este artigo tomou como ponto de partida a reportagem “Millions take calcium and vitamin D for bone health. A major review finds little benefit”, publicada pelo ScienceDaily em 20 de setembro de 2026 a partir de material do BMJ Group. O texto não é tradução nem reprodução do original. A análise, o contexto brasileiro e as fontes adicionais foram apurados de forma independente por O Tecido.

Referências

  1. BMJ Group. “Millions take calcium and vitamin D for bone health. A major review finds little benefit”. ScienceDaily, 20 set. 2026. https://www.sciencedaily.com/releases/2026/09/260920030147.htm
  2. Massé O, Mercurio CM, Dupuis S, et al. Calcium, vitamin D, or combined supplementation to prevent fractures and falls: systematic review and meta-analysis. The BMJ, 2026; 393: e088050. DOI: 10.1136/bmj-2025-088050.
  3. Pillay J, et al. Vitamin D, calcium, or combined supplementation to prevent fractures and falls (editorial). The BMJ, 2026. DOI: 10.1136/bmj.s913.
  4. BMJ Group. Calcium and vitamin D supplements offer little to no meaningful benefit on fracture and fall prevention (comunicado de imprensa), maio de 2026.
  5. Healio Endocrinology. Calcium, vitamin D supplements do not lower risk for fractures or falls, 2 jun. 2026.
  6. U.S. Preventive Services Task Force. Draft Recommendation: Vitamin D, Calcium, or Combined Supplementation for the Primary Prevention of Falls and Fractures in Community-Dwelling Adults, dez. 2024.
  7. NutraIngredients. Research challenges calcium and vitamin D use for bone health, 27 maio 2026.
  8. Sherrington C, Fairhall NJ, Wallbank GK, et al. Exercise for preventing falls in older people living in the community. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2019; CD012424.
  9. Pimentel WRT, Pagotto V, Stopa SR, et al. Quedas entre idosos brasileiros residentes em áreas urbanas: ELSI-Brasil. Revista de Saúde Pública, 2018; 52(Supl. 2): 12s.
  10. Ministério da Saúde. No Brasil, prevalência de quedas entre idosos em áreas urbanas é de 25%. Gov.br, jun. 2023.
  11. Indicadores de morbidade e mortalidade por fratura de fêmur em idosos: estudo de uma década em hospitais brasileiros (2008 a 2018). Acta Ortopédica Brasileira (SciELO).
  12. Ferreira CES, et al. Consenso: intervalos de referência da vitamina D [25(OH)D] das sociedades médicas brasileiras (SBPC/ML e SBEM). Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial, 2017; 53(6): 377-381. E posicionamento revisado da SBEM e SBPC/ML publicado nos Archives of Endocrinology and Metabolism.
  13. Chapuy MC, Arlot ME, Duboeuf F, et al. Vitamin D3 and calcium to prevent hip fractures in elderly women. New England Journal of Medicine, 1992; 327(23): 1637-1642.
  14. Hospital Sírio-Libanês. Quedas em idosos: 40% dos acima de 80 anos sofrem no Brasil (dados do INTO), nov. 2024.