A diretora executiva de B'Tselem, a mais antiga organização israelense de direitos humanos, resumiu em poucas palavras o que classifica como o funcionamento da memória coletiva diante de crimes de massa. Segundo Yuli Novak, historicamente nenhum povo que cometeu um genocídio tinha, no momento em que o fazia, plena consciência do que estava fazendo.[1] A frase, dita em entrevista ao jornal espanhol El País publicada nesta sexta-feira, resume o argumento central de um relatório de 245 páginas que a organização lançou dias antes sobre a Cisjordânia ocupada.
O documento, intitulado "The Elimination Project" (O Projeto de Eliminação), é descrito por B'Tselem como o estudo mais abrangente já feito pela entidade desde sua fundação, em 1989.[2] A tese central não é nova para quem acompanha a região, mas a forma como é apresentada rompe com um enquadramento comum na cobertura internacional, que trata violência de colonos, demolições de casas e restrições de movimento como episódios isolados. Para os autores do relatório, essas ações compõem um único mecanismo político, com cinco frentes que se reforçam mutuamente: violência e intimidação, restrição à circulação, estrangulamento econômico, desestruturação social e política, e limpeza étnica combinada à tomada de território.[3]
Os números levantados dão substância à tese. Entre 7 de outubro de 2023 e 31 de agosto de 2026, mais de 1.100 palestinos foram mortos por forças israelenses na Cisjordânia, quase um quarto deles crianças.[2] O relatório situa essa escalada dentro de um projeto que, segundo a organização, antecede tanto o atual governo israelense quanto o ataque do Hamas de outubro de 2023, mas que se intensificou de forma acentuada a partir da eleição de 2022 e, novamente, depois do 7 de outubro.[4]
Na entrevista, Novak evita atribuir o quadro atual a um único governo ou a uma única decisão política. Ela descreve algo mais próximo de um sistema que exige a participação de centenas de milhares de pessoas, a maioria soldados, e que se sustenta em décadas de o que chama de cegueira diante de privilégios que se tornaram naturais para quem os detém. A entrevistada também distingue o vocabulário usado para Gaza, onde a organização já classifica as ações israelenses como genocídio, do usado para a Cisjordânia, onde fala em processo gradual de eliminação sem a letalidade extrema observada no enclave.[1]
Pressão internacional em movimento, mas aquém do reclamado
O relatório de B'Tselem chega dez dias depois de um anúncio que Novak considera relevante, embora insuficiente. Em 8 de setembro, Reino Unido, França e Canadá formalizaram a proibição de importar produtos de assentamentos israelenses na Cisjordânia, medida à qual outros nove países europeus, entre eles Espanha, Irlanda, Noruega e Suécia, já haviam aderido ou sinalizado adesão.[5] O chanceler britânico, Ed Miliband, associou a decisão a uma acusação direta: a de que colonos, com respaldo estatal, praticam limpeza étnica contra palestinos em partes da Cisjordânia.[6] O governo israelense classificou as declarações como falsas e Israel respondeu fechando o consulado britânico em Jerusalém.[7]
Paralelamente, a Faixa de Gaza vive desde outubro de 2025 uma trégua negociada sob mediação americana, egípcia, catari e turca, mas o cessar-fogo é parcial. Israel mantém controle militar sobre mais da metade do território e organizações locais seguem registrando mortes de civis palestinos mesmo após o início do acordo.[8] Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, o total de mortos desde outubro de 2023 já ultrapassa 73 mil pessoas, mais de um quarto delas crianças.[9] É justamente essa combinação, trégua parcial em Gaza e escalada documentada na Cisjordânia, que sustenta o argumento de Novak de que a comunidade internacional enviou a Israel uma mensagem de impunidade que agora se reproduz em outro território.
O Brasil na equação
A posição brasileira sobre o conflito é conhecida e reiterada. Desde fevereiro de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classifica publicamente as operações israelenses em Gaza como genocídio, comparação que gerou protesto formal de Israel e a convocação do embaixador brasileiro para explicações.[10] Lula repetiu a caracterização em julho de 2025, durante a cúpula do Brics no Rio de Janeiro, e voltou ao tema em encontros partidários ao longo de 2026, sempre condicionando a crítica à condenação simultânea do ataque do Hamas de outubro de 2023.[11]
O Itamaraty, por sua vez, tem mantido um tom mais técnico, priorizando notas sobre episódios específicos, como ataques a civis em centros de distribuição de ajuda humanitária, e defendendo investigações independentes sobre esses casos.[12] Essa diferença de registro entre o discurso presidencial e a diplomacia formal tem sido alvo de cobrança por parte de movimentos da sociedade civil brasileira, como a campanha BDS Brasil, que reúne assinaturas para pedir medidas concretas, entre elas a suspensão do acordo de livre comércio entre Mercosul e Israel e da cooperação militar bilateral.[12] Até o momento, essas demandas não se traduziram em ruptura diplomática ou comercial por parte do governo brasileiro.
Contraponto
O governo israelense nega sistematicamente as acusações de limpeza étnica e de genocídio, tanto em Gaza quanto na Cisjordânia, e as descreve como uma distorção de operações de segurança contra grupos armados. Autoridades israelenses argumentam que Hamas se posiciona deliberadamente em áreas civis e que os assentamentos na Cisjordânia respondem a reivindicações históricas e de segurança, não a um projeto de substituição populacional. Organizações como B'Tselem são vistas por parte do espectro político israelense como grupos alinhados a interesses externos, uma leitura que a própria Novak reconhece na entrevista ao descrever a hostilidade que a ONG enfrenta dentro do país. O Ministério das Relações Exteriores de Israel também rejeitou as acusações britânicas de limpeza étnica, chamando-as de "mentiras ultrajantes".[7] O tema segue sob análise em foros como a Corte Internacional de Justiça, sem uma determinação judicial final sobre a caracterização de genocídio até a publicação desta reportagem.
Perguntas frequentes
O que é B'Tselem?
É uma organização israelense de direitos humanos fundada em 1989, dedicada a documentar violações cometidas contra palestinos na Cisjordânia, em Gaza e em Jerusalém Oriental. O nome vem de um versículo do Gênesis sobre a criação do ser humano.
O que diz o relatório "The Elimination Project"?
O documento argumenta que ações israelenses na Cisjordânia, como violência de colonos, demolições e restrições de movimento, não são incidentes isolados, mas partes de um único mecanismo voltado a inviabilizar a vida coletiva palestina no território.
Qual é a diferença entre a caracterização de Gaza e da Cisjordânia feita por B'Tselem?
A organização já usa o termo genocídio para Gaza. Para a Cisjordânia, emprega a expressão projeto de eliminação, descrevendo um processo mais gradual, sem a letalidade extrema registrada no enclave.
Qual é a posição do Brasil sobre o conflito?
O presidente Lula classifica publicamente as ações israelenses em Gaza como genocídio desde 2024. O Itamaraty mantém um discurso mais técnico, focado em notas sobre episódios específicos, sem que isso tenha resultado, até agora, em ruptura diplomática ou comercial.
Que medidas internacionais foram anunciadas recentemente?
Em setembro de 2026, Reino Unido, França, Canadá e outros nove países europeus anunciaram restrições ao comércio com assentamentos israelenses na Cisjordânia, citando o risco à solução de dois Estados.