Política · Geopolítica & Economia Internacional

O BRICS chega à sua 18ª cúpula de líderes, nos dias 12 e 13 de setembro de 2026 em Nova Délhi, na condição inédita de bloco economicamente maior que o G7. Segundo cálculos do Fundo Monetário Internacional compilados por diferentes casas de análise, a participação conjunta do grupo no PIB mundial medido em paridade de poder de compra já ultrapassa 39% do total global, contra cerca de 28% do G71. A distância, que era favorável aos países ricos até o início dos anos 2000, se inverteu de forma consistente ao longo da última década e meia2.

O encontro, sediado no Bharat Mandapam sob o tema indiano de resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade, reúne líderes de um bloco que hoje soma onze membros plenos, após a incorporação de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Etiópia, Irã e, mais recentemente, Indonésia3. Xi Jinping deve fazer sua primeira viagem à Índia em sete anos, em meio a um degelo cauteloso entre Pequim e Nova Délhi, enquanto Vladimir Putin retoma a participação presencial nas cúpulas do grupo4.

Peso econômico maior, mas trocas internas ainda limitadas

O crescimento da fatia do BRICS na economia mundial não é um fenômeno recente. Segundo dados do FMI citados por consultorias como a EY, a participação do bloco ampliado no PIB global em paridade de poder de compra saltou de pouco mais de 24% em 2002 para quase 37% em 2024, com projeção de chegar a 38% até 2029, enquanto o G7 deve recuar para 27,5% no mesmo período5. O comércio exterior segue trajetória parecida: as exportações de mercadorias dos países do bloco saltaram de cerca de 1 trilhão de dólares em 2003 para aproximadamente 6 trilhões em 2024, segundo a UNCTAD, dobrando a fatia do grupo nas vendas mundiais, de 12% para 24%6.

Apesar do tamanho agregado, analistas locais chamam atenção para um ponto que costuma passar despercebido nas manchetes sobre o avanço do bloco: o nível de integração comercial entre os próprios membros segue abaixo do que o peso econômico do grupo sugeriria, com a China ocupando posição central como maior exportadora e importadora dentro do bloco, enquanto boa parte dos demais países permanece dependente do mercado chinês para vender commodities e comprar bens industrializados7.

45% 30% 15% 2002 2024 G7 BRICS
Trajetória aproximada da participação de BRICS e G7 no PIB mundial em paridade de poder de compra (2002-2024). Ilustração produzida com base em dados do FMI compilados pela EY e pela Bloomberg Línea5.

Segurança divide o bloco às vésperas da cúpula

O crescimento econômico do BRICS tem sido acompanhado por um apetite maior de alguns membros para projetar poder militar. China, Rússia e Índia figuram entre os dez países que mais gastam em defesa no mundo, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri), o que tem alimentado um debate interno sobre até onde o bloco deve ir além da agenda econômica original8. Segundo reportagem do Financial Times, essa divergência ficou evidente em 2026, quando um exercício naval batizado de "Will for Peace", proposto pelo ministério da Defesa chinês sob o rótulo de "Brics Plus", gerou atrito depois que Brasil e Índia recusaram enviar navios e o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa tentou, sem sucesso, impedir a participação do Irã9.

A própria expansão do bloco em 2023 e 2024, empurrada por Pequim e vista com reservas por Brasil e Índia, se tornou um complicador adicional neste ano: Irã e Emirados Árabes Unidos, ambos membros plenos, ocupam lados opostos do conflito armado deste ano entre Estados Unidos, Israel e o governo iraniano, o que já provocou impasses em reuniões preparatórias, incluindo uma reunião de chanceleres do BRICS na Índia em que representantes dos Emirados e do Irã tiveram dificuldade para chegar a um consenso9.

"De um lado, o mundo está mais propício para que o BRICS crie instituições alternativas. Do outro, a diversidade, a heterogeneidade e as disputas internas mostram que o bloco ainda não está pronto para aproveitar plenamente o momento." Sarang Shidore, do Quincy Institute for Responsible Statecraft, em entrevista ao Financial Times9

Brasil manda o chanceler, não o presidente

Pela primeira vez desde que assumiu o terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não vai pessoalmente a uma cúpula de líderes do BRICS. O Itamaraty confirmou que o chanceler Mauro Vieira representará o Brasil no encontro de Nova Délhi, decisão associada à proximidade do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 4 de outubro, e à opção do governo por concentrar a agenda internacional de Lula na Assembleia Geral da ONU1011. A ausência chama atenção porque o Brasil deixou a presidência rotativa do bloco há poucos meses, depois de sediar a cúpula de 2025 no Rio de Janeiro com ênfase na reforma da governança global, no combate à fome e na transição energética justa11.

No plano bilateral, o principal fio que liga o Brasil ao núcleo duro do bloco segue sendo a relação comercial com a China. O comércio entre os dois países fechou 2025 no maior patamar da série histórica iniciada em 1997, com 171 bilhões de dólares movimentados, alta de 8,2% sobre 2024, segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A China respondeu por 28,7% das exportações brasileiras no ano e gerou um superávit de 29,1 bilhões de dólares para o Brasil, equivalente a 43% de todo o saldo comercial positivo do país12.

Contraponto

Nem todos leem o avanço estatístico do BRICS como sinal de força consolidada. Economistas indianos como Manoj Pant, professor visitante da Shiv Nadar University, apontam que o comércio entre os próprios membros do bloco continua proporcionalmente menor do que o tamanho combinado das economias sugeriria, o que limita a capacidade do grupo de funcionar como um mercado interno coeso e o mantém dependente, em boa parte, das relações bilaterais de cada país com China ou com economias ocidentais7.

Há também quem questione a própria utilidade política da ampliação recente. A heterogeneidade de regimes, interesses de segurança e alinhamentos externos entre membros como Irã, Emirados Árabes Unidos, Rússia e Índia é apontada por pesquisadores como fator que reduz, e não amplia, a capacidade do BRICS de falar com uma só voz em fóruns multilaterais5.

Para além da fotografia econômica, a cúpula de Nova Délhi deve testar se o bloco consegue avançar em pautas concretas como a reforma do Conselho de Segurança da ONU e da Organização Mundial do Comércio, bandeiras defendidas por Mauro Vieira em encontro preparatório realizado em maio, e o uso de moedas locais no comércio entre os membros, tema caro à China e à Rússia como forma de reduzir a exposição ao dólar813. O resultado prático desses debates tende a dizer mais sobre o futuro do grupo do que qualquer novo recorde de participação no PIB mundial.

Este texto usa como referência principal a reportagem "Brics on the rise", publicada pelo Financial Times, com dados e entrevistas próprias da equipe do jornal em Nova Délhi, Pequim e São Paulo. Leia a matéria original: ft.com/content/303ff813-fa48-417d-a44e-387c9e649ddf.

Perguntas frequentes

O que é o BRICS e quais países fazem parte do bloco em 2026?

O BRICS nasceu em 2009 como um agrupamento informal de Brasil, Rússia, Índia e China, ganhando a África do Sul em 2010. Depois da expansão de 2023-24 e da entrada da Indonésia, o bloco soma onze membros plenos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Etiópia, Irã e Indonésia.

Por que se diz que o BRICS já supera o G7 na economia mundial?

A comparação usa o PIB medido em paridade de poder de compra, indicador que ajusta o valor da produção de cada país pelo custo de vida local. Por esse critério, o BRICS responde por cerca de 39% do PIB mundial, contra aproximadamente 28% do G7, segundo estimativas do FMI. Em dólares correntes, sem o ajuste de PPC, a distância entre os dois blocos é bem menor.

Por que Lula não vai à cúpula do BRICS de 2026 em Nova Délhi?

O Itamaraty confirmou que o presidente será representado pelo chanceler Mauro Vieira. A decisão está associada à proximidade do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, marcado para 4 de outubro de 2026, e à prioridade dada à agenda interna de campanha nas semanas que antecedem o pleito.

Qual é o peso da China no comércio exterior do Brasil dentro do BRICS?

A China é, de longe, o principal parceiro comercial do Brasil, respondendo por 28,7% das exportações brasileiras em 2025. O comércio bilateral somou 171 bilhões de dólares no ano, recorde histórico, com superávit de 29,1 bilhões de dólares a favor do Brasil.