Política · Diplomacia e Sul Global

ONZE PAÍSES, UMA MESA: A GEOMETRIA EM EXPANSÃO DO BRICS

A 18ª Cúpula do BRICS, realizada em Nova Delhi nos dias 12 e 13 de setembro de 2026, fechou um ciclo de duas décadas do bloco com uma declaração que soma críticas às tarifas comerciais unilaterais, preocupação com o Oriente Médio e um apoio renovado à reforma do Conselho de Segurança da ONU1. O documento final, batizado "Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade", reúne hoje onze países que, juntos, respondem por cerca de 39% do PIB mundial em paridade de poder de compra, 48,5% da população do planeta e 23% do comércio global1.

Para o Brasil, a cúpula indiana tem um significado particular. O país presidiu o bloco em 2025 e sediou a reunião de líderes em julho daquele ano, no Rio de Janeiro, quando tentou empurrar a agenda de reforma das instituições multilaterais2. Em Nova Delhi, a delegação brasileira foi chefiada pelo chanceler Mauro Vieira, enquanto a ex-presidente Dilma Rousseff, hoje à frente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), representou o braço financeiro do grupo3.

O que a análise chinesa diz sobre o momento do BRICS

Um comentário publicado pelo jornal chinês People's Daily, assinado por Liu Bowei, situa o encontro de Nova Delhi como parte de um processo de amadurecimento que já dura vinte anos. Segundo o texto, o BRICS deixou de ser apenas um agrupamento econômico para se tornar um mecanismo de cooperação prática em financiamento, tecnologia e indústria entre países com trajetórias de desenvolvimento distintas4.

O artigo chinês destaca ainda o papel do Novo Banco de Desenvolvimento, sediado em Xangai, como uma via de financiamento de longo prazo para infraestrutura e sustentabilidade fora do sistema tradicional dominado por Washington. De acordo com números citados pelo comentário, a instituição havia aprovado, até o primeiro trimestre de 2026, um total de 42,9 bilhões de dólares em financiamento para 140 projetos, distribuídos entre infraestrutura, energia limpa e transformação digital4.

"BRICS não é apenas dar ao Sul Global uma voz mais forte, mas criar oportunidades práticas de acesso a financiamento, tecnologia e cooperação adequados às necessidades de desenvolvimento de cada país." Paráfrase do argumento central do comentário de Liu Bowei, People's Daily (Xinhua), 12 de setembro de 2026
Este trecho resume um comentário assinado por Liu Bowei e publicado pela agência Xinhua no People's Daily em 12 de setembro de 2026. O texto original, em inglês, pode ser lido na íntegra em https://en.people.cn/n3/2026/0912/c90000-20498820.html. O Tecido não reproduz nem traduz o artigo em sua totalidade; os trechos aqui comentados servem apenas de referência para a análise que se segue.

A fatia brasileira do banco do BRICS

No terreno concreto do financiamento, o Brasil já é um dos beneficiários mais antigos do NDB. Segundo dados oficiais do banco, o país mantém uma carteira ativa de cerca de 5 bilhões de dólares em projetos de infraestrutura sustentável, mobilidade urbana, saneamento, energia renovável e programas emergenciais de apoio à renda5. Em abril de 2026, uma nova linha de crédito de 500 milhões de dólares foi fechada com o Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, com recursos repassados via Tesouro Nacional para bancos públicos como BNDES, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia6.

O Brasil também é um dos fiadores do Arranjo Contingente de Reservas do bloco, mecanismo de socorro mútuo em crises de balanço de pagamentos, com compromisso de até 18 bilhões de dólares em reservas disponibilizadas, no mesmo patamar de Índia e Rússia e atrás apenas da China7.

Reforma da ONU: reivindicação antiga, resultado ainda incerto

Um dos pontos de maior interesse para a diplomacia brasileira na declaração de Nova Delhi é o reforço ao pleito por um Conselho de Segurança da ONU mais representativo. O texto final reafirma o apoio às aspirações de Brasil e Índia por papéis de maior peso no órgão, hoje composto por apenas quinze membros, sendo cinco permanentes com poder de veto8. Como já ocorreu em declarações anteriores do bloco, porém, o documento não estabelece qualquer compromisso vinculante e o próprio avanço da reforma depende do aval das potências que já ocupam assento permanente.

Contraponto

Pesquisadores que acompanham o Novo Banco de Desenvolvimento apontam limites que o discurso oficial do BRICS tende a minimizar. Estudo do Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil mostra que a meta de desdolarização do banco, com uso maior de moedas locais nos empréstimos, avança de forma lenta e esbarra na própria arquitetura do sistema financeiro internacional9. Outra análise, do site especializado Politize, lista como críticas recorrentes ao NDB a falta de transparência na divulgação de dados sobre projetos aprovados e a ausência de um mecanismo independente de auditoria10. Nenhuma das duas ressalvas aparece no comentário do People's Daily, que descreve o banco em termos predominantemente favoráveis.

Um bloco cada vez menos homogêneo

A ampliação recente do BRICS, hoje formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, trouxe ganho de escala, mas também disparidades internas que a declaração de Nova Delhi tenta administrar com cautela1. O parágrafo dedicado ao Oriente Médio, por exemplo, evita citar nomes de países ou usar a palavra "guerra", limitando-se a pedir "máxima contenção" diante da escalada regional que ganhou contornos críticos em fevereiro de 20268. A cautela reflete o fato de o grupo reunir, ao mesmo tempo, o Irã e parceiros comerciais da região que preferem não tomar partido explícito no conflito.

A visita do presidente chinês Xi Jinping à Índia, a primeira em cerca de sete anos, foi outro ponto observado de perto pelas delegações presentes, como um termômetro do estado da relação entre as duas maiores economias emergentes da Ásia, historicamente marcada por disputas de fronteira e rivalidade estratégica3.

O que fica para o Brasil

Passada a presidência rotativa em 2025, o Brasil chega a Nova Delhi em posição de continuidade, sem protagonismo direto na condução da cúpula, mas com interesses concretos em jogo: acesso a crédito do NDB para infraestrutura, apoio político à reforma da governança multilateral e um espaço de articulação com parceiros do Sul Global fora dos fóruns tradicionais dominados por economias desenvolvidas. A avaliação de que o BRICS representa uma alternativa prática, e não apenas retórica, ao sistema financeiro herdado de Bretton Woods segue sendo o argumento mais forte do bloco. Falta ainda, segundo os próprios pesquisadores do tema, transformar esse argumento em institucionalidade mais transparente e auditável.

O BRICS é uma aliança militar ou apenas econômica?

O BRICS não é um tratado de defesa mútua nem uma aliança militar. É um mecanismo de cooperação econômica, financeira e política entre países emergentes, com instrumentos próprios como o Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo Contingente de Reservas, mas sem estrutura de segurança coletiva comparável à OTAN.

Quantos países fazem parte do BRICS em 2026?

Onze países integram o bloco em 2026: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, após as rodadas de expansão iniciadas em 2024.

Qual é o papel do Brasil no Novo Banco de Desenvolvimento?

O Brasil é um dos cinco membros fundadores do NDB, criado em 2014, e mantém carteira ativa de aproximadamente 5 bilhões de dólares em projetos de infraestrutura, saneamento e energia renovável financiados pelo banco, além de compromisso de reservas no Arranjo Contingente de Reservas do bloco.

A declaração de Nova Delhi garante a entrada do Brasil no Conselho de Segurança da ONU?

Não. A declaração reafirma apoio político às aspirações de Brasil e Índia por papéis de maior relevância no Conselho de Segurança, mas não cria qualquer mecanismo vinculante para a reforma do órgão, que depende de negociação mais ampla na Assembleia Geral da ONU e do aval das potências com assento permanente.