Caderno Ciência · Divulgação científica e futuro

O físico britânico Brian Cox, 58 anos, professor de física de partículas na Universidade de Manchester e pesquisador do experimento ATLAS no CERN, raramente fala de ciência sem falar também de responsabilidade. Em entrevista publicada pelo The Telegraph em 19 de outubro, ele percorre a infância em Oldham, a carreira de tecladista de rock, a influência de Carl Sagan e a descoberta da energia escura. A conclusão a que chega é menos cósmica e mais política: entre todos os riscos que a humanidade enfrenta, o mais provável é aquele que ela mesma produz.1

A entrevista funciona como um pequeno tratado sobre como a ciência produz conhecimento confiável e sobre o que fazemos com ele. É esse fio que O Tecido acompanha aqui, com dados de outras fontes e uma pergunta adicional: o que o argumento de Cox significa para um país como o Brasil, que acaba de ganhar assento formal no maior laboratório de física do mundo?

A dúvida como disciplina, não como fraqueza

Cox conta ao jornal britânico que a lição mais importante que tenta passar aos calouros de física é reconhecer quando não se entendeu algo. Segundo ele, é fácil se convencer de que se compreendeu "mais ou menos" um conceito e seguir adiante. O hábito correto seria admitir que ainda não entendeu e insistir até entender, assumindo a responsabilidade pela própria compreensão. Estudar apenas para a prova, diz o físico, ensina a responder perguntas sem dominar o assunto.1

A ideia conversa com outra afirmação da entrevista: a de que a ciência começa justamente quando se aceita que não se sabe tudo. Cox abre seu espetáculo atual, Emergence, com Johannes Kepler intrigado com a forma dos flocos de neve no início do século XVII e terminando por admitir que não tinha a resposta. Para o físico, esse gesto foi radical. Uma ciência que se apresentasse como lista de certezas seria, nos termos dele, o oposto do que ela é: uma fotografia provisória do que sabemos, sujeita a revisão.1

Energia escura: a descoberta que ninguém esperava

Quando perguntado sobre a maior descoberta científica recente, Cox escolhe a energia escura, ou seja, a constatação de que a expansão do universo está acelerando. O episódio é um caso exemplar do método que ele defende. Nos anos 1990, duas equipes independentes estudavam supernovas distantes esperando medir uma desaceleração da expansão cósmica. Os dois grupos encontraram mais de 50 supernovas cuja luz era mais fraca do que o previsto, sinal de que o universo se expandia cada vez mais rápido. O resultado, anunciado em 1998, surpreendeu os próprios autores.2

Saul Perlmutter, Brian Schmidt e Adam Riess dividiram o Nobel de Física de 2011 pela descoberta.2 Cox, amigo de Schmidt, relata ao Telegraph que o colega inicialmente achou que seus dados estavam errados, revisou tudo, não encontrou falha e publicou sabendo que poderia passar vergonha. Estava certo. Para o físico de Manchester, é um retrato fiel de como a ciência deveria funcionar.1

A história, porém, não terminou em 2011, e é aqui que o princípio da revisão permanente ganha atualidade. Em março de 2025, a colaboração internacional DESI, que mapeia a distribuição de matéria no cosmos, divulgou análises de três anos de dados indicando que a energia escura talvez não seja constante e possa estar enfraquecendo com o tempo. Os próprios pesquisadores ressalvaram que a evidência ainda não alcançou o patamar de cinco sigma, o padrão exigido em física para declarar uma descoberta.3 Se confirmada, a hipótese obrigaria a atualizar o modelo cosmológico padrão. É a ciência fazendo exatamente o que Cox descreve: medindo a própria incerteza antes de afirmar algo.

O físico também revela que escreve, com um colega, um livro sobre o "nada", isto é, o vácuo. Queria chamá-lo de Nout, forma dialetal do norte da Inglaterra, mas a editora vetou o trocadilho.1 O tema não é piada: a aceleração cósmica sugere que o espaço vazio carrega propriedades que ainda não compreendemos.

"Como sabemos?": o método por trás dos fatos

Cox afirma que o aspecto mais interessante da divulgação científica não é transmitir fatos, mas mostrar como eles foram obtidos. Como sabemos que o universo primitivo era quente e denso? Como medimos a distância até uma galáxia? A pergunta "como sabemos?" é, para ele, o centro do trabalho de quem comunica ciência.1

O argumento tem consequência prática quando o assunto é clima. Na entrevista, Cox separa dois planos que o debate público costuma misturar. A ciência climática, diz, não é controversa em nenhum sentido relevante; ela trabalha com medições, séries históricas e modelos, e quantifica suas incertezas com barras de erro, assim como a física de partículas. A controvérsia legítima está na resposta política: que impostos, tecnologias ou regulações adotar. O que ele considera ilegítimo é atacar a evidência porque não se gosta da ação que ela pode exigir. Contestar a calibração de um satélite é ciência; rejeitar a conclusão por desagrado, segundo o físico, não tem conteúdo.1

A herança de Sagan e a unidade do conhecimento

Cox credita a Carl Sagan, e à série Cosmos, boa parte de sua visão de educação. O episódio final da série original, lembra ele, era na prática uma denúncia dos riscos da guerra nuclear: um programa de astronomia que discutia evolução e escalas cósmicas e, ao final, perguntava o que essas ideias significam para a forma como nos tratamos. Daí vem a defesa que Cox faz de uma unidade do conhecimento e sua rejeição a hierarquias que colocam a ciência acima da filosofia, da história ou das artes.1

"Segregar o conhecimento é contraproducente."

Brian Cox, em entrevista ao The Telegraph (tradução livre)

A trajetória pessoal do físico ilustra o ponto. Antes da academia, Cox tocou teclado na banda Dare, chegou a abrir shows em arenas europeias e viu o grupo se desfazer no meio de uma turnê pela Alemanha. Voltou a Oldham, entrou no curso de física em Manchester e, já na universidade, integrou o D:Ream. A música, conta ele, nunca saiu de sua vida: seu espetáculo atual inclui uma canção que imagina o que as sondas Voyager diriam à Terra depois de quase 50 anos no espaço.1

Conhecimento como bifurcação: poder exige juízo

O otimismo de Cox tem lastro histórico: quanto mais entendemos a natureza, melhor tende a ser a vida humana. Mas ele insiste que conhecimento é poder, e poder corta nos dois sentidos. A física nuclear trouxe energia, imagens médicas e radioterapia contra o câncer, e também trouxe a bomba. A inteligência artificial, diz, coloca a sociedade diante da mesma encruzilhada. A questão central não é se o conhecimento avança, mas se saberemos usá-lo com sabedoria.1

Ao listar ameaças existenciais, o físico menciona impactos de asteroides e novas pandemias, e cita a meta de reduzir para cerca de 100 dias o intervalo entre a identificação de uma nova doença e a disponibilidade de uma vacina.1 A referência é à Missão 100 Dias, coordenada pela CEPI, coalizão internacional para inovação em preparação contra epidemias. A proposta foi apresentada pelo Reino Unido durante sua presidência do G7, em 2021, e endossada pelo G7 e pelo G20. Como comparação, a primeira vacina contra a covid-19 foi autorizada para uso emergencial 326 dias após a identificação do SARS-CoV-2; antes disso, o desenvolvimento mais rápido de uma vacina havia levado cerca de quatro anos.4

Comparação do tempo de desenvolvimento de vacinas: recorde anterior, covid-19 e meta da Missão 100 Dias Recorde pré-covid ≈ 4 anos Covid-19 (2020) 326 dias Meta Missão 100 Dias 100 dias
Tempo entre a identificação de um patógeno e a disponibilidade de uma vacina. Barras em escala aproximada. Fonte: CEPI.

Nenhuma dessas ameaças externas, porém, ocupa o topo da lista de Cox. Para ele, o maior risco é a incapacidade humana de evitar a autodestruição, a começar pelo perigo nuclear, que não desapareceu. Se a civilização estiver gravemente ferida daqui a um século, resume o físico ao Telegraph, a explicação mais provável é que tenhamos feito isso a nós mesmos.1

O que o argumento de Cox significa para o Brasil

A defesa da ciência como empreendimento coletivo e de longo prazo tem tradução direta no Brasil. O país tornou-se Estado Membro Associado do CERN em 13 de março de 2024, o primeiro das Américas com esse status. A cooperação formal existe desde 1990, e hoje instituições brasileiras participam dos quatro grandes experimentos do LHC, inclusive do ATLAS, onde Cox trabalha. A associação permite indicar representantes às reuniões do Conselho e do Comitê Financeiro do CERN, candidatar brasileiros a vagas e programas de pós-graduação e habilitar empresas nacionais a disputar contratos do laboratório.5 Segundo levantamento divulgado à época, cerca de 200 cientistas, engenheiros e estudantes brasileiros atuam nos experimentos do LHC.

Na cosmologia, a presença brasileira também é concreta. Desde meados dos anos 2000, pesquisadores do país integram o Dark Energy Survey por meio do Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia (LIneA), criado pelo Observatório Nacional, pelo CBPF e pelo LNCC, entre outras instituições.6 O mesmo laboratório coordena a participação nacional no Observatório Vera Rubin, no Chile: por meio de acordos internacionais, o Brasil pode indicar cerca de 170 pesquisadores para projetos com os dados do telescópio, e a contribuição do país se dá sobretudo em transmissão e processamento de dados, com um centro instalado no LNCC, em Petrópolis.7 Em outras palavras, cientistas brasileiros participam diretamente da investigação sobre a natureza da energia escura que Cox descreve como uma das grandes perguntas abertas da física.

O outro lado da equação é o público. A pesquisa Percepção pública da C&T no Brasil 2023, do CGEE e do MCTI, mostrou que 60,3% dos brasileiros se dizem interessados ou muito interessados em ciência e tecnologia, e que apenas 2,6% defendem reduzir o investimento em pesquisa. O mesmo levantamento registrou que quase 40% dos entrevistados se informam sobre ciência principalmente por redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas digitais, posição ocupada pela televisão até 2015. A parcela que vê a ciência como neutra, com benefícios e malefícios equivalentes, subiu de 18,9% em 2019 para 24,6% em 2023.8

Os números dialogam com o diagnóstico de Cox por dois caminhos. O interesse existe, mas circula cada vez mais em ambientes onde a pergunta "como sabemos?" raramente é feita. E a percepção crescente de ambivalência da ciência é, em certa medida, coerente com o que o próprio físico afirma: o conhecimento oferece bifurcações, e a escolha do caminho é política, não técnica. Para a divulgação científica brasileira, o desafio é ensinar o método, e não apenas os resultados.

Perguntas frequentes

Quem é Brian Cox?

Físico britânico de 58 anos, professor de física de partículas na Universidade de Manchester e pesquisador do experimento ATLAS no CERN. É conhecido por séries da BBC sobre astronomia e foi tecladista das bandas Dare e D:Ream antes de seguir carreira acadêmica.

Qual é, segundo Brian Cox, a maior ameaça ao futuro da humanidade?

Em entrevista ao The Telegraph publicada em outubro de 2026, Cox afirma que o maior risco é a incapacidade humana de evitar a autodestruição, com destaque para o perigo nuclear. Ameaças externas, como asteroides e pandemias, existem, mas ele considera mais provável um dano autoinfligido.

O que é energia escura e por que ela importa?

É o nome dado à causa desconhecida da aceleração da expansão do universo, descoberta em 1998 por meio da observação de supernovas distantes e premiada com o Nobel de Física de 2011. Dados do experimento DESI, divulgados em 2025, sugerem que ela pode variar com o tempo, mas o resultado ainda não é considerado definitivo.

O Brasil participa do CERN?

Sim. O Brasil é Estado Membro Associado do CERN desde 13 de março de 2024, o primeiro das Américas, e instituições brasileiras participam dos quatro grandes experimentos do LHC, incluindo o ATLAS.

O que é a Missão 100 Dias?

É uma meta coordenada pela CEPI e endossada pelo G7 e pelo G20 para que vacinas seguras e eficazes contra uma nova ameaça pandêmica estejam disponíveis em até 100 dias após a identificação do patógeno. Na covid-19, o intervalo foi de 326 dias.

Os brasileiros confiam na ciência?

A pesquisa Percepção pública da C&T no Brasil 2023, do CGEE e do MCTI, indica que 60,3% se interessam por ciência e tecnologia e só 2,6% querem reduzir o investimento em pesquisa. Ao mesmo tempo, cresceu a parcela que vê a ciência como neutra e a que se informa principalmente por redes sociais.

Nota de atribuição. Este texto é uma análise original de O Tecido elaborada a partir da entrevista de Brian Cox concedida a Sarah Ewing e publicada pelo The Telegraph em 19 de outubro de 2026. As declarações do entrevistado foram parafraseadas, com exceção de um trecho curto em tradução livre. Dados complementares vêm das fontes listadas nas referências.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido