Caderno Saúde · Longevidade

14 de agosto de 2026 · Leitura de 8 min · Inspirado em reportagem publicada por El País

O Brasil está envelhecendo mais depressa do que em qualquer outro momento de sua história recente, e a marca dos 100 anos, antes uma raridade estatística, começa a se tornar parte do horizonte demográfico do país. Segundo o Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de brasileiros centenários chegou a 37.814 pessoas, um salto de 67% em relação a 2010, quando eram 22.6761. A Bahia lidera o ranking estadual, com 5.336 centenários, seguida por São Paulo e Minas Gerais1.

O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Na Espanha, projeções do Instituto Nacional de Estadística (INE) apontam que o número de pessoas com 100 anos ou mais deve triplicar nos próximos 15 anos, saindo de cerca de 16 mil para mais de 46 mil até 2039. É a partir desse dado que a rádio espanhola Cadena SER construiu a série em podcast Vivir 100 años, apresentada pelo bioquímico e divulgador científico Pere Estupinyà, seis episódios que reúnem cientistas e figuras públicas para discutir o que significa, na prática, viver mais e melhor2.

A pergunta que estrutura o programa espanhol vale igualmente para o Brasil: viver mais tempo é, de fato, uma boa notícia? Para Estupinyà, a resposta é afirmativa, desde que a longevidade não seja confundida com anos adicionais de fragilidade. "O que conta não é apenas estender a vida, mas estender a parte saudável dela", resume o divulgador em entrevista à Cadena SER, ao defender que a ciência geriátrica atual já permite separar aumento de expectativa de vida de aumento de dependência2.

"Quando pensamos em viver mais, a primeira imagem que vem à mente é a de uma velhice prolongada e dependente — mas essa não é a única trajetória possível", resume a proposta central do programa espanhol.

O que os números brasileiros já mostram

Os dados do IBGE confirmam que a transição demográfica brasileira avançou em ritmo inédito entre os últimos dois censos. A proporção de idosos (60 anos ou mais) na população saltou de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023, e a projeção oficial é de que o Brasil chegue a 2070 com 37,8% de sua população nessa faixa etária3. A esperança de vida ao nascer, que havia recuado durante a pandemia de covid-19 (de 76,2 anos em 2019 para 72,8 anos em 2021), já mostrava recuperação em 2023, quando chegou a 76,4 anos, com expectativa de retomada da trajetória de crescimento pré-pandemia3.

Entre os centenários brasileiros, a desigualdade de gênero é acentuada: são 27.244 mulheres contra 10.570 homens acima dos 100 anos, reflexo direto da diferença de expectativa de vida entre os sexos no país — 80,5 anos para mulheres e 73,6 anos para homens, segundo o IBGE1. Quase metade dos centenários brasileiros vive na região Nordeste, com 16.317 pessoas, concentração que especialistas atribuem a uma combinação de fatores genéticos, alimentares e de estrutura familiar ainda pouco estudada em profundidade1.

Da terceira para a quarta idade: um conceito em construção

O termo "quarta idade" — cunhado por pesquisadores do envelhecimento para descrever a fase que normalmente se inicia após os 80 anos — vem ganhando espaço também no debate brasileiro. A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) aponta o crescimento dessa faixa etária como uma das mudanças demográficas mais relevantes do país, exigindo reorganização de políticas públicas e de modelos de cuidado que ainda foram pensados para uma pirâmide etária mais jovem4. A Organização Mundial da Saúde estima que, globalmente, o grupo de pessoas com 80 anos ou mais é o segmento etário que mais cresce, com a população mundial acima de 60 anos podendo chegar a 2 bilhões até 20504.

É justamente essa fronteira entre terceira e quarta idade que o livro ¿Qué quieres ser de mayor? Cómo convertir la madurez en la mejor etapa de tu vida, de Pere Estupinyà, e a série em podcast que dele deriva colocam em discussão. A tese central é que, no futuro, "haverá mais pessoas maduras, mas menos pessoas velhas" — ou seja, os anos ganhos tendem a se somar à etapa de vitalidade, e não necessariamente à etapa de dependência2. No programa, cientistas como o cardiologista Valentín Fuster e a imunologista María Mittelbrunn discutem os mecanismos biológicos por trás desse cenário, enquanto figuras públicas com mais de 80 anos, incluindo a escritora Rosa Montero e o advogado Antonio Garrigues Walker — que aos 92 anos continua jogando tênis e trabalhando diariamente — servem como exemplos práticos de que a percepção social sobre essa faixa etária mudou radicalmente nas últimas três décadas2.

Contraponto

Nem todos os especialistas em envelhecimento populacional compartilham do otimismo com a mesma ênfase. A própria SBGG reconhece, em cartas abertas anteriores, que o avanço da longevidade no Brasil ainda convive com fragilidades estruturais importantes: cobertura insuficiente de geriatras no Sistema Único de Saúde, sobrecarga de famílias cuidadoras e desigualdade regional de acesso a cuidados especializados5. Pesquisadores também alertam que dados censitários sobre centenários historicamente sofrem subnotificação e erros de declaração de idade, o que exige cautela na leitura de comparações internacionais6. Viver mais tempo, portanto, não elimina a chamada "quarta idade real" — a fase de maior vulnerabilidade —, apenas tende a adiá-la, e o desafio de estruturar cuidados para essa etapa permanece em aberto.

O que a ciência já recomenda

Ainda que o programa espanhol tenha como eixo entrevistas qualitativas, a literatura científica sobre longevidade saudável converge em alguns pontos consistentes, muitos deles reforçados por sociedades médicas brasileiras: atividade física regular e continuada até idades avançadas, controle de fatores de risco cardiovascular, manutenção de vínculos sociais ativos e diagnóstico precoce de fragilidade — o conjunto de sinais físicos que antecede a perda de autonomia. A SBGG tem alertado, por exemplo, que quedas aparentemente simples em pessoas idosas podem sinalizar fragilidades ainda não diagnosticadas, e recomenda avaliação geriátrica preventiva antes que a perda funcional se instale7.

Para o Brasil, o desafio tem uma dimensão adicional: o país envelhece antes de ter completado sua transição para uma economia de renda mais alta, o que pressiona simultaneamente o sistema previdenciário, a rede de saúde pública e os arranjos familiares de cuidado. Ainda assim, o mesmo raciocínio de Estupinyà se aplica: quanto mais cedo a sociedade brasileira tratar longevidade como um projeto de saúde ao longo da vida — e não apenas como um problema a ser gerido na velhice —, maior a chance de que os anos adicionais sejam vividos com autonomia.

Nota editorial

Este artigo foi inspirado pela reportagem "Vivir 100 años": Cadena SER adelanta los secretos de la cuarta edad en una España que triplicará en breve su número de centenarios, publicada por El País em 14 de agosto de 2026, assinada por Héctor Llanos Martínez. O texto original, em espanhol, pode ser lido na íntegra em: elpais.com.

Perguntas frequentes

Quantos brasileiros têm 100 anos ou mais atualmente?

Segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, o Brasil tinha 37.814 centenários, sendo 27.244 mulheres e 10.570 homens — um crescimento de 67% em relação ao Censo de 20101.

O que é a "quarta idade"?

É o termo usado por especialistas em gerontologia para descrever a fase da vida que geralmente se inicia após os 80 anos, marcada por maior probabilidade de fragilidade física e necessidade de cuidados, em contraste com a "terceira idade", associada a maior autonomia4.

Qual estado brasileiro tem mais centenários?

A Bahia lidera, com 5.336 pessoas de 100 anos ou mais, seguida por São Paulo (5.095) e Minas Gerais (4.104), segundo o Censo 20221.

Viver mais tempo significa necessariamente mais anos de dependência?

Não necessariamente. Especialistas ouvidos pela série espanhola Vivir 100 años defendem que avanços em medicina preventiva e geriatria podem estender o período de autonomia, e não apenas o tempo total de vida — embora a fase de maior vulnerabilidade não desapareça, apenas tenda a ser adiada2.