Tecnologia 16 de agosto de 2026

Nos últimos meses, uma pergunta incômoda passou a circular com mais insistência nas rodas de investidores, colunas de economia e corredores de universidades de tecnologia: e se a inteligência artificial for, antes de tudo, uma bolha financeira? O jornal canadense La Presse deu voz recente a essa dúvida numa crônica do jornalista Patrick Lagacé, que reuniu argumentos de críticos como o escritor Cory Doctorow para questionar se o modelo econômico por trás da corrida bilionária da IA realmente se sustenta1. A discussão, longe de ser um exercício acadêmico distante, já aparece em relatórios de bancos centrais, recomendações de gestoras de investimento e, também, na rotina de empresas brasileiras que apostam fichas crescentes na tecnologia.

O ponto de partida da crônica é numérico. Segundo dados citados por Doctorow em entrevistas recentes, as empresas do setor de IA já teriam desembolsado algo perto de 2,4 trilhões de dólares em investimentos, enquanto a receita conjunta gerada gira em torno de 50 bilhões de dólares por ano1. A conta, segundo o autor, não fecha: quanto mais o produto de IA é usado, maior seria o prejuízo operacional das empresas que o oferecem, um padrão que ele descreve como economicamente insustentável no longo prazo.

"A IA é uma bolha. E ela vai estourar." Foi assim que o escritor e ativista Cory Doctorow resumiu sua leitura sobre o setor, comparando as gigantes de tecnologia a negócios que vendem notas de 100 dólares por apenas um dólar.

Um coro cada vez maior de céticos

Doctorow não está sozinho. Em seu relatório anual de 2026, o Banco de Compensações Internacionais (BIS), instituição conhecida como o banco dos bancos centrais, comparou o atual ciclo de investimentos em IA a episódios históricos de euforia tecnológica, da mania das ferrovias britânicas no século XIX à bolha das pontocom nos anos 20002. Segundo a instituição, os cinco maiores provedores globais de computação em nuvem devem investir mais de um trilhão de dólares somente em 2026 em infraestrutura ligada à IA, incluindo centros de dados, chips e capacidade elétrica, um volume que já preocupa investidores quanto ao risco de excesso de capacidade instalada sem retorno financeiro proporcional2.

No mercado financeiro, o debate também ganhou força entre gestoras internacionais, que passaram a recomendar cautela redobrada na exposição a ativos ligados à inteligência artificial, sobretudo diante do custo de oportunidade elevado em economias como a brasileira, onde a taxa Selic segue em patamar restritivo3. A recomendação recorrente entre analistas é distinguir empresas que vendem infraestrutura, como chips e energia, daquelas que ainda tentam transformar aplicações de IA em receita recorrente e lucrativa.

Contraponto: nem todos veem bolha

Parte do mercado discorda do diagnóstico catastrofista. Projeções da consultoria Gartner apontam que os investimentos globais em IA devem somar 2,59 trilhões de dólares em 2026, alta de 47% sobre o ano anterior, um ritmo que, para otimistas, reflete demanda real e não apenas especulação4. Analistas argumentam ainda que, diferentemente da bolha pontocom, empresas como as grandes provedoras de nuvem já registram lucros efetivos e crescimento de receita, com taxas medianas saltando de 26% para 39% entre o fim de 2023 e o fim de 20255.

Para essa corrente, chamar a IA de bolha se tornou quase automático, funcionando mais como reflexo retórico do que como análise estruturada dos fundamentos econômicos do setor.

O termômetro brasileiro

Enquanto o debate sobre bolha avança lá fora, o Brasil segue em uma etapa anterior: a de adoção. Segundo a 16ª edição da pesquisa TIC Empresas, do Cetic.br, núcleo de estudos vinculado ao NIC.br, a proporção de empresas brasileiras que usam algum tipo de inteligência artificial saltou de 13%, em 2024, para 17%, em 2025, o maior patamar desde o início da série histórica6. Entre as grandes companhias, com mais de 250 funcionários, o avanço foi de 38% para 50% no mesmo período, enquanto as pequenas empresas, que representam a maior fatia do universo pesquisado, foram de 10% para 15%6.

Os números mostram um país que ainda está construindo sua relação com a tecnologia, distante da escala de investimento bilionário discutida nos Estados Unidos, mas já sentindo os efeitos da corrida global. O Banco Central brasileiro, por sua vez, tem monitorado riscos sistêmicos ligados à IA sob a ótica da segurança cibernética e da resiliência do sistema financeiro nacional, um recorte distinto do debate sobre bolha acionária, mas que revela como o tema já ocupa a agenda regulatória do país7.

O que dizem os livros que alimentam o debate

A crônica publicada no La Presse se apoia em duas obras recentes que ajudam a entender as raízes do ceticismo sobre a IA. Em Enshittification, Cory Doctorow descreve como plataformas digitais se deterioram progressivamente à medida que priorizam lucro de curto prazo em detrimento de usuários e criadores, um argumento que ele estende à economia da inteligência artificial. Já o francês Thibault Prévost, em Les prophètes de l'IA, mapeia declarações contraditórias de executivos como Sam Altman e Elon Musk ao longo dos anos, sugerindo que parte do entusiasmo público em torno da tecnologia é construída deliberadamente para atrair capital.

Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It Cory Doctorow Ver na Amazon
Les prophètes de l'IA Thibault Prévost Ver na Amazon
A Nova Roupa do Imperador Hans Christian Andersen Ver na Amazon

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Não por acaso, a coluna original recorre à fábula de Hans Christian Andersen, A Nova Roupa do Imperador, para sugerir que os líderes do setor de IA estariam, em certo sentido, desfilando nus diante de uma plateia que hesita em admitir o óbvio. A metáfora, escrita em 1837, permanece como um dos retratos mais eficazes sobre o poder do discurso coletivo em sustentar ilusões econômicas.

Isso não significa negar o valor real da tecnologia. Assim como a linha de montagem, o telégrafo e a internet transformaram suas épocas, a IA generativa já produz ganhos concretos de produtividade em setores como automação de processos, atendimento ao cliente e geração de texto, área que mais cresceu entre as empresas brasileiras pesquisadas pelo Cetic.br, saltando de 20% para 30% de adoção entre 2024 e 20256. A questão levantada pelos céticos não é se a tecnologia é relevante, mas se as promessas de retorno financeiro que sustentam trilhões de dólares em investimento vão se concretizar na escala prometida.

Este artigo foi inspirado na crônica "L'intelligence (très) artificielle", de Patrick Lagacé, publicada originalmente pelo jornal canadense La Presse em 16 de agosto de 2026. O texto não reproduz nem traduz o conteúdo original na íntegra; leia a versão completa em francês no site do La Presse: lapresse.ca.

Perguntas frequentes

O que significa dizer que a IA é uma "bolha"?

Significa que o volume de capital investido no setor superaria, de forma significativa, o retorno financeiro real gerado pela tecnologia até o momento, um padrão observado em ciclos históricos como a bolha das pontocom e a mania ferroviária do século XIX, segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS).

Quanto as empresas de IA já investiram globalmente?

Segundo dados citados por Cory Doctorow, o setor teria investido cerca de 2,4 trilhões de dólares até 2026, contra uma receita anual conjunta estimada em 50 bilhões de dólares. Já a consultoria Gartner projeta investimentos globais de 2,59 trilhões de dólares somente em 2026.

Qual é a situação da adoção de IA nas empresas brasileiras?

De acordo com o Cetic.br, 17% das empresas brasileiras usavam algum tipo de inteligência artificial em 2025, ante 13% em 2024. Entre as grandes empresas, a adoção chegou a 50%, praticamente dobrando a proporção observada dois anos antes.

Existe consenso entre economistas sobre o risco de bolha?

Não. Enquanto o BIS e críticos como Cory Doctorow apontam riscos sistêmicos relevantes, outras análises destacam que, diferentemente da bolha pontocom, grandes empresas de IA já apresentam lucro operacional e crescimento real de receita, o que tornaria o cenário atual mais sólido.

Nota editorial

Alguns dados sobre investimentos globais em IA citados neste artigo foram obtidos por meio de fontes secundárias e agências de notícias, e podem sofrer revisão conforme novos relatórios sejam publicados por BIS, Gartner e Moody's. Os números de adoção de IA no Brasil têm como base a pesquisa TIC Empresas 2025 do Cetic.br, divulgada em junho de 2026.

Números-chave

Investido globalmente em IA (est.)US$ 2,4 tri
Receita anual do setor (est.)US$ 50 bi
Capex de hyperscalers em 2026 (BIS)> US$ 1 tri
Empresas brasileiras que usam IA (2025)17%
Grandes empresas brasileiras com IA50%

Linha do tempo

  • 1837Hans Christian Andersen publica "A Nova Roupa do Imperador".
  • 2000-2001Estouro da bolha das empresas pontocom.
  • 2024Adoção de IA nas empresas brasileiras chega a 13%, segundo Cetic.br.
  • Jun/2026Cetic.br divulga alta da adoção de IA para 17% no Brasil.
  • Jul/2026BIS publica relatório anual comparando o boom de IA a bolhas históricas.
  • 16 ago/2026La Presse publica a crônica que inspirou esta reportagem.

Glossário

Hyperscaler
Empresa de tecnologia que opera infraestrutura de nuvem em escala massiva, como Amazon, Microsoft e Google.
Capex
Sigla em inglês para despesas de capital, investimentos em infraestrutura física como data centers e servidores.
Rentabilidade unitária
Medida de quanto lucro uma empresa gera a cada novo cliente ou nova compra.
BIS
Banco de Compensações Internacionais, instituição financeira que reúne bancos centrais do mundo todo.

Referências

  1. Patrick Lagacé. "L'intelligence (très) artificielle". La Presse, 16 ago. 2026. Disponível em: lapresse.ca.
  2. "BIS alerta que bolha de investimentos em IA pode ameaçar a economia global". CyberSec Brazil, jul. 2026. Disponível em: cybersecbrazil.com.br.
  3. "Ações de IA estão em uma bolha? Entenda por que grandes gestoras acenderam o alerta". IstoÉ Dinheiro, ago. 2026. Disponível em: istoedinheiro.com.br.
  4. "IA deve movimentar US$ 2,59 trilhões em infraestrutura em 2026". E-Commerce Brasil, 2026. Disponível em: ecommercebrasil.com.br.
  5. "Por inteligência artificial, big techs vão investir R$ 3,7 trilhões em 2026, mas despertam temor". ConvergênciaDigital, mar. 2026. Disponível em: convergenciadigital.com.br.
  6. "Uso de Inteligência Artificial por empresas brasileiras avança e atinge 17%". Cetic.br | NIC.br, jun. 2026. Disponível em: cetic.br.
  7. "BC alerta para uso de IA em ataques ao sistema financeiro". Finsiders Brasil, jun. 2026. Disponível em: finsidersbrasil.com.br.