Economia · Inteligência Artificial
Caderno Economia · O Tecido · Atualizado em 20 de setembro de 2026 · Leitura de 9 min

Nos últimos meses, a inteligência artificial deixou de ser apenas uma corrida tecnológica para se tornar também uma corrida financeira, e é essa segunda corrida que começa a incomodar economistas. As estimativas de bancos como Goldman Sachs e JPMorgan apontam para algo em torno de US$ 6 trilhões em investimentos até 20301, um volume de capital que ajuda a explicar boa parte do crescimento recente da economia americana e que já elevou a valorização de empresas como Nvidia, Meta e Alphabet a múltiplos vistos poucas vezes na história do mercado.

O apetite por essa tecnologia é real e mensurável: squads inteiras de produto, dentro e fora do Brasil, já reorganizam roadmaps em torno de agentes e modelos de linguagem. O que está em debate não é se a IA transforma processos, mas se o ritmo do capital investido tem como se pagar no prazo que os investidores esperam.

Uma engrenagem bilionária maior que muitas economias nacionais

Anthropic, responsável pelo Claude, e OpenAI, dona do ChatGPT, caminham para aberturas de capital que prometem redefinir o próprio conceito de IPO bilionário. A avaliação cogitada para a Anthropic gira em torno de US$ 2 trilhões, superando o valor atingido pela SpaceX em sua entrada recente no mercado1. A OpenAI, por sua vez, adiou a própria oferta pública, alegando questões de segurança, embora tenha seguido captando rodadas bilionárias de investidores como Amazon, Nvidia e SoftBank, que elevaram sua avaliação para a casa dos US$ 730 bilhões no início do ano2.

É justamente esse contraste, entre discursos de cautela e captações recordes, que chamou atenção do investidor Michael Burry, conhecido por ter previsto a crise de 2008. Para ele, declarações de executivos sobre os riscos da própria tecnologia funcionam menos como alerta genuíno e mais como parte da narrativa que sustenta avaliações infladas antes de um IPO1.

Emissão de dívida das gigantes de tecnologia nos EUA Em US$ bilhões, captados nos mercados de dívida 2025 217 2026 (até ago.) 445 2026 (projeção) 600
Elaboração O Tecido com dados de Morgan Stanley citados por El País (20/09/2026).

A conta que ainda não fecha

O economista Stijn Van Nieuwerburgh, da Universidade Columbia, calcula que o volume total de investimento em IA entre 2025 e 2032 pode chegar a US$ 10 trilhões. Para que esse capital gere um retorno de apenas 10% ao ano, algo considerado modesto para o setor de tecnologia, a receita anual do segmento precisaria saltar para US$ 3,7 trilhões até 2032. Hoje, OpenAI e Anthropic somadas faturam algo próximo de US$ 100 bilhões por ano1, uma fração pequena diante da meta necessária para justificar o volume investido.

"Para poder gerar um retorno de 10%, que não é muito alto, a receita anual da IA precisaria chegar a US$ 3,7 trilhões em 2032" Stijn Van Nieuwerburgh, professor de Negócios da Universidade Columbia, em cálculos citados por El País

Dívida, contratos de aluguel e o que não aparece no balanço

Parte relevante desse ciclo de investimento não é financiada com caixa próprio das empresas, mas com dívida, e uma fatia crescente dessa dívida sequer aparece nos balanços oficiais. O caso do data center Hyperion, da Meta, na Louisiana, ilustra o mecanismo: a maior parte dos US$ 30 bilhões do projeto vem de um acordo de aluguel de vinte anos, estruturado por meio de uma joint venture com a gestora Blue Owl. A Meta ficou apenas com uma fatia minoritária da sociedade, o que permite manter boa parte do compromisso financeiro fora do próprio balanço1. Levantamento do Goldman Sachs identificou acordos desse tipo somando até US$ 1,5 trilhão no mercado.

Os acordos circulares e o efeito dominó

Outro ponto de atenção são os contratos cruzados entre as próprias empresas de IA. A Amazon investiu US$ 50 bilhões na OpenAI e, ao mesmo tempo, garantiu contratos de computação de US$ 100 bilhões com a mesma empresa. A Nvidia, por sua vez, comprometeu-se a investir até US$ 100 bilhões na OpenAI, que gasta parte desse dinheiro em serviços de nuvem de Oracle, Amazon e Microsoft, clientes centrais da própria Nvidia1,3. A gestora Sona Asset Management mapeou 176 transações desse tipo, somando ao menos US$ 3,6 trilhões em conexões financeiras cruzadas, segundo análise citada pelo Financial Times1. Esse desenho circular preocupa porque, num eventual recuo de demanda, o impacto se espalharia rapidamente entre fornecedores, clientes e investidores da mesma cadeia.

O pano de fundo monetário também mudou. Na quarta-feira anterior à publicação do El País, o Federal Reserve elevou os juros americanos pela primeira vez em três anos, para a faixa de 3,75% a 4%, encarecendo justamente o crédito que sustenta boa parte dessa expansão1.

Contraponto: nem toda euforia significa colapso

Nem todos os analistas leem o cenário como uma bolha prestes a estourar. O banco suíço UBS argumenta que uma eventual desaceleração no ritmo de investimento não significa necessariamente corte de gastos, já que dois terços da demanda por computação hoje vêm da inferência, ou seja, do uso dos modelos já treinados, e não apenas do treinamento de novos sistemas1. A pesquisa mensal da Bank of America com gestores de fundos, realizada em setembro, mostrou confiança ainda forte no ciclo de investimento em IA, com queda na proporção de gestores que esperam desaceleração1. Fica também o argumento histórico: ferrovias, rádio e internet passaram por bolhas e sobreviveram a elas. Empresas frágeis desapareceram, a tecnologia em si permaneceu.

O Brasil entra na disputa por data centers, e no mesmo otimismo

O debate sobre excesso de capital não fica restrito a Wall Street. O Brasil se posiciona hoje como o principal polo de data centers da América Latina, concentrando cerca de 48% da capacidade instalada da região e 71% do que está em construção4. A aprovação do Redata pelo Senado, em setembro, criou incentivos tributários para equipamentos de data center, e representantes do setor projetam algo entre R$ 1,5 trilhão e R$ 2 trilhões em investimentos ao longo da próxima década, cifra citada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin5,6. A Brasscom estima que, somente entre 2025 e 2031, o país deve receber US$ 92 bilhões em investimentos no setor7, enquanto projetos como o da americana RT-One, com cerca de R$ 6 bilhões só na unidade de Uberlândia, já saem do papel8.

Esse otimismo também aparece na ponta do investidor pessoa física. Segundo a B3, o número de brasileiros investindo em BDRs (recibos que representam ações estrangeiras negociadas aqui) já passa de 996 mil, com volume diário acima de R$ 985 milhões, impulsionado justamente pela alta de índices como Nasdaq e S&P 5009. Papéis ligados às chamadas Magnificent Seven, entre eles Nvidia, Microsoft e Amazon, tornaram-se opção comum de diversificação para quem busca exposição internacional pela bolsa brasileira10. É um movimento que amplia o acesso do investidor local à mesma tecnologia que hoje divide opiniões entre economistas, e também à mesma volatilidade.

Enquanto isso, gestores como Ray Dalio classificam o momento como um estágio inicial de bolha11, e pesquisas setoriais mostram que a maioria dos gestores de fundos já reconhece o risco, mesmo sem apostar em uma correção imediata12. Para o investidor brasileiro que passou a comprar BDRs de IA nos últimos dois anos, a lição prática talvez não seja prever o estouro, mas entender o tamanho da exposição que está assumindo.

Perguntas frequentes

O que é a "bolha da IA" da qual economistas falam?

É o risco de que as valorizações de mercado e o volume de investimento em infraestrutura de inteligência artificial estejam descolados da receita real gerada pela tecnologia, um padrão observado em ciclos anteriores como ferrovias, rádio e internet.

Quais empresas concentram os maiores investimentos em IA?

Amazon, Microsoft, Alphabet, Meta e Oracle lideram os gastos em infraestrutura, enquanto Nvidia domina o fornecimento de chips e mantém participações relevantes na OpenAI.

Por que os acordos circulares entre empresas de IA preocupam analistas?

Porque criam dependência mútua entre fornecedores, clientes e investidores da mesma cadeia, o que pode amplificar perdas em caso de desaceleração da demanda.

Como o Brasil está entrando na corrida por infraestrutura de IA?

Por meio do programa Redata, que oferece incentivos tributários, e de projetos privados de data centers que já somam bilhões de reais, colocando o país como líder regional em capacidade instalada e em obras.

Investidores brasileiros estão expostos a esse risco?

Sim, principalmente via BDRs de empresas de tecnologia americanas, um mercado que cresceu de forma acelerada entre pessoas físicas nos últimos anos.

Este artigo usa como ponto de partida a reportagem "El otro miedo de la IA: ¿y si estalla una burbuja?", de Amanda Mars, publicada pelo jornal El País em 20 de setembro de 2026, com apuração e fontes complementares levantadas pela equipe de O Tecido.