Economia · Política Fiscal e Mercados

Recompras bilionárias de títulos, ameaças de sanções e um confronto público com seu mentor Stanley Druckenmiller expõem até onde vai a tentativa do secretário do Tesouro dos EUA de dobrar o mercado de dívida antes das eleições de meio de mandato.

Scott Bessent chegou ao Tesouro dos Estados Unidos vendendo a imagem de um investidor de Wall Street capaz de acalmar mercados nervosos com o carisma sulista e a experiência de quem ajudou a "quebrar" o Banco da Inglaterra em 1992, ao lado do investidor George Soros. Dezoito meses depois, o secretário está testando essa reputação contra um adversário mais difícil de convencer: o mercado de títulos públicos americanos, hoje avaliado em 28 trilhões de dólares.

A intervenção que não convenceu o mercado

Em meados de agosto, com os rendimentos dos títulos de longo prazo nas máximas em quase duas décadas, o Tesouro anunciou que ao menos dobraria o tamanho das operações de recompra de dívida de prazo mais longo, de 2 bilhões para pelo menos 4 bilhões de dólares por operação, a partir de setembro[1]. A notícia derrubou os juros na hora. Mas a calmaria durou menos de 24 horas: os rendimentos dos títulos de 10 e 30 anos voltaram a subir e apagaram integralmente o alívio inicial, superando inclusive os níveis anteriores ao anúncio[2][3].

Pressionado a reagir, Bessent afirmou publicamente que o teto de 4 bilhões de dólares era apenas um piso, não um limite, e que o Tesouro tem "um grande arsenal" de ferramentas além das recompras[4]. Segundo apurações posteriores, uma dessas ferramentas seria a Conta Geral do Tesouro (TGA, na sigla em inglês), o equivalente à conta corrente do governo americano junto ao Federal Reserve, hoje com cerca de 950 bilhões de dólares acumulados, bem acima da faixa de 550 a 600 bilhões mantida na gestão anterior[5].

"Você não compra sua saída de uma conversa sobre solvência com ferramentas de liquidez. Só consegue adiar a conversa e aumentar o preço final." Stanley Druckenmiller, ex-sócio de George Soros e mentor de Bessent, em artigo no The Wall Street Journal

A crítica de Druckenmiller carrega um peso particular: foi ele quem, décadas atrás, ensinou Bessent a operar mercados no fundo de investimentos de Soros. Segundo reportagem do The New York Times sobre a trajetória do secretário, o próprio Bessent reconheceu, em entrevista à imprensa americana, que a lógica por trás das recompras é também de sinalização: mostrar que a equipe econômica acredita que os juros atuais "não refletem os fundamentos" da economia americana[6].

O tamanho do problema, em números

O pano de fundo da disputa é fiscal. A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de 40 trilhões de dólares em 19 de agosto, mais que o dobro do valor registrado em janeiro de 2017[7]. Os juros sobre essa dívida já consomem perto de 1,2 trilhão de dólares por ano, a terceira maior despesa do governo federal americano, atrás apenas da Previdência e do Medicare[7]. Em julho, o déficit mensal chegou a 432 bilhões de dólares, o quarto maior da história, em parte por causa de reembolsos de tarifas alfandegárias que geraram receita negativa pelo terceiro mês seguido[8].

Foi nesse cenário que o rendimento do título de 30 anos chegou a 5,3% ao ano, patamar não visto desde antes da crise financeira de 2008[8]. Analistas ouvidos por veículos americanos apontam uma combinação de fatores por trás da alta: preocupação com a trajetória fiscal, temor inflacionário alimentado pelo conflito com o Irã e o apetite crescente das próprias empresas de tecnologia por emissão de dívida para financiar investimentos em inteligência artificial, o que cria concorrência direta com os papéis do Tesouro pela atenção dos investidores.

Paralelamente à frente fiscal, Bessent também elevou o tom na política externa. Na mesma semana, o Tesouro anunciou uma nova rodada de sanções batizada de "Operação Economic Outcast", ameaçando países que mantiverem relações comerciais com o Irã. Questionado sobre o risco de a medida abalar a confiança no dólar como moeda de reserva global, o próprio secretário reconheceu o dilema publicamente, ao perguntar de forma retórica por que ele "gostaria de explodir o sistema financeiro global".

Contraponto: o histórico de "falar com o mercado" não é animador

A estratégia de tentar convencer investidores por meio de declarações públicas, sem mudança estrutural na política fiscal, tem precedentes recentes que terminaram mal. Na crise europeia de 2011, o então premiê italiano Silvio Berlusconi tentou, sem sucesso, aliviar o temor do mercado sobre a dívida da Itália antes de renunciar com os juros disparados. Em 2022, a premiê britânica Liz Truss não conseguiu convencer os investidores de que o crescimento resolveria os problemas fiscais do Reino Unido e caiu do cargo em pouco mais de um mês. Economistas como Kenneth Rogoff, de Harvard, avaliam que Bessent chegou ao cargo com bastante credibilidade acumulada em Wall Street, mas que está "gastando" esse capital político nessa aposta específica.

Por que isso chega até o Brasil

Para o investidor brasileiro, o episódio não é só uma disputa de bastidores em Washington. Os títulos do Tesouro americano funcionam como a principal referência global de juros: quando seus rendimentos sobem, outros países, inclusive economias emergentes como o Brasil, precisam oferecer remunerações maiores para seguir atraindo capital estrangeiro[9]. Reportagens recentes mostraram o Tesouro Nacional brasileiro elevando a remuneração de títulos como o Tesouro IPCA+ 2032 para 8,26% ao ano, o maior nível da série recente, em resposta direta à reprecificação dos juros longos americanos[10].

O episódio da recompra de agosto ilustra bem esse contágio. Após o anúncio inicial do Tesouro americano, as taxas futuras no Brasil chegaram a recuar, mas o alívio durou apenas uma sessão de negociação: assim que os rendimentos americanos voltaram a subir, os juros futuros brasileiros e as taxas do Tesouro Direto seguiram o mesmo movimento[11]. Analistas brasileiros também têm chamado atenção para a ironia da situação: por décadas, o Brasil conviveu com juros reais elevados e desconfiança do mercado sobre sua trajetória fiscal, e agora observa os Estados Unidos enfrentar, em menor escala, um dilema parecido[12].

Perguntas frequentes

Por que Scott Bessent está recomprando títulos do Tesouro americano?

Porque os rendimentos dos títulos de longo prazo, sobretudo o de 30 anos, subiram para os maiores níveis em quase duas décadas, refletindo preocupação dos investidores com o tamanho da dívida pública dos EUA, hoje acima de US$ 40 trilhões. As recompras tentam reduzir a oferta de papéis no mercado para conter essa alta.

A estratégia de Bessent está funcionando?

Até o fechamento desta reportagem, de forma limitada. O primeiro anúncio de recompra ampliada derrubou os juros por menos de 24 horas antes de os rendimentos retomarem a alta, sinal de que investidores seguem céticos quanto à capacidade do Tesouro de resolver, sozinho, um problema de natureza fiscal.

O que isso tem a ver com o Brasil?

Os títulos do Tesouro americano são a principal referência global de juros. Quando seus rendimentos sobem, países emergentes como o Brasil tendem a pagar mais para atrair capital estrangeiro, o que já apareceu na alta recente das taxas do Tesouro Direto brasileiro.

Quem é Stanley Druckenmiller e por que sua crítica pesa tanto?

Druckenmiller foi sócio do investidor George Soros e mentor de Bessent no início da carreira deste no mercado financeiro. Ele defende que intervenções de liquidez não substituem uma correção fiscal estrutural, apenas adiam o ajuste.

Referências

  1. Bloomberg. "Bessent Deploys Debt Buybacks in Sign of Concern Over Yield Rise", 19 ago. 2026. bloomberg.com
  2. CNBC. "Treasury doubles debt buybacks as Bessent moves to steady bond market", 19 ago. 2026. cnbc.com
  3. CNBC. "Longer-dated Treasury yields rise as Bessent's bond buyback rally fizzles out", 21 ago. 2026. cnbc.com
  4. Euronews. "Bessent vows bigger buybacks after bond yields erased the US Treasury's relief rally", 21 ago. 2026. euronews.com
  5. CNBC. "Bessent could tap near $1 trillion Treasury General Account to fund bond buybacks", 24 ago. 2026. cnbc.com
  6. The New York Times. Alan Rappeport. "Bessent Faces Credibility Test in Quest to Tame Markets", 26 ago. 2026. nytimes.com
  7. TV Sim Brasil. "Por que a dívida de US$ 40 trilhões dos EUA pode encarecer o crédito no Brasil", ago. 2026. tvsimbrasil.com.br
  8. NeoFeed. "Os EUA 'descobrem' o déficit fiscal e a dívida pública elevada: bem-vindos ao Brasil", ago. 2026. neofeed.com.br
  9. Poder360. "Juros longos dos EUA elevam custo da dívida do Brasil", 1 ago. 2026. poder360.com.br
  10. ISTOÉ Dinheiro. "Alívio dura apenas um dia e taxas do Tesouro Direto voltam a subir após intervenção nos EUA", ago. 2026. istoedinheiro.com.br
  11. Vermelho. "Entenda os mecanismos que regem as dívidas do Brasil e dos EUA", 20 ago. 2026. vermelho.org.br
Nota editorial: esta reportagem foi inspirada em cobertura do The New York Times sobre a trajetória e a atuação recente de Scott Bessent (ver referência 6), com apuração e fontes adicionais e independentes listadas acima. Nenhum trecho do texto original foi traduzido ou reproduzido integralmente; citações diretas atribuídas a terceiros seguem a fonte original indicada entre aspas.