Política · Europa · Análise
Na noite de 3 de outubro, enquanto a Alemanha celebrava 36 anos de reunificação, o chanceler Friedrich Merz embarcou num trem rumo a Kiev. Chegou na manhã seguinte sob sirenes de alerta antiaéreo. Poucas horas antes, a chancelaria russa havia recomendado a visitantes estrangeiros e diplomatas que evitassem a capital ucraniana, e, durante a visita, drones russos atingiram uma ponte da cidade, segundo o prefeito Vitali Klitschko, conforme registraram a emissora austríaca ORF e o jornal Tiroler Tageszeitung2.
Ao lado de Volodymyr Zelensky, Merz percorreu o prédio da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia, destruído parcialmente por um drone no fim de setembro, a poucas centenas de metros da embaixada alemã. Foi a quarta visita de um chefe de governo alemão ao país desde a invasão em larga escala de fevereiro de 2022 e, provavelmente, a mais arriscada2.
A cena serve de ilustração para o argumento que o historiador britânico Timothy Garton Ash, professor de Estudos Europeus na Universidade de Oxford, publicou nesta terça-feira (13) no El País. A tese é direta: Vladimir Putin trava duas guerras simultâneas, uma aberta contra a Ucrânia e outra encoberta contra o restante da Europa, e a segunda existe para corroer o apoio europeu à primeira. Por isso, sustenta o autor, a resposta mais eficaz aos ataques híbridos não é pulverizar recursos em mil frentes defensivas, mas ampliar a ajuda a Kiev, porque é em território ucraniano que o projeto russo pode ser contido de fato1.
Por que a Alemanha virou o eixo
A leitura de Garton Ash parte de uma constatação sobre a distribuição de forças no Ocidente. Desde o retorno de Donald Trump à Casa Blanca, os Estados Unidos deixaram de funcionar como contrapeso automático a Moscou, e a Europa, incluindo o Reino Unido, já supera Washington em volume de ajuda acumulada à Ucrânia. Somadas, as economias europeias são cerca de dez vezes maiores que a russa; a alemã, sozinha, tem o dobro do tamanho1.
Dentro desse bloco, Berlim ocupa o lugar central. Com base no Ukraine Support Tracker, do Instituto de Kiel para a Economia Mundial, o colunista aponta a Alemanha como maior doador individual depois dos Estados Unidos, com o dobro do aporte de Reino Unido ou França. Na defesa antiaérea, item decisivo para cidades como Kiev e Odessa, o país entregou 19 sistemas, entre eles cinco baterias Patriot, duas a mais do que os próprios americanos, fabricantes do equipamento1. O detalhe tem peso biográfico: no primeiro ano da guerra, o mesmo Garton Ash cobrava de Berlim uma responsabilidade histórica que, na avaliação dele, o governo ainda não cumpria. Agora afirma, sem ressalvas, que cumpre.
Os números oficiais, porém, pedem leitura cuidadosa. Em agosto, o governo alemão atualizou para cerca de € 100 bilhões o apoio acumulado até 30 de junho de 2026, sendo € 43,3 bilhões civis e € 57,6 bilhões militares. Uma análise do próprio Instituto de Kiel, noticiada pelo Odessa Journal, concluiu que apenas € 41,7 bilhões chegaram diretamente à Ucrânia, porque cerca de 80% da parcela civil foi gasta dentro da Alemanha, sobretudo com refugiados ucranianos. Mesmo com o ajuste contábil, o instituto mantém o país como o maior doador europeu de Kiev. Em abril, os dois governos firmaram ainda uma parceria estratégica para produção conjunta de armamentos, com foco em defesa aérea, drones e ataque de longo alcance3.
O orçamento militar e o espelho russo
A virada também aparece no caixa. Em 2025, o gasto alemão com defesa era de € 95 bilhões, com meta de chegar a € 162 bilhões em 2029, segundo informações da Reuters e da Bloomberg. O projeto de orçamento de 2027 aprovado pelo gabinete de Merz prevê mais de € 150 bilhões em defesa, já incluída a ajuda militar à Ucrânia, e mais de € 190 bilhões em 2030, o que coloca o país na rota da nova meta da Otan de 3,5% do PIB. O ministro das Finanças, Lars Klingbeil, admitiu que não é possível defender a Alemanha com orçamento equilibrado; a pasta estima endividamento líquido adicional de € 587 bilhões entre 2027 e 2030, segundo reportagem da imprensa financeira4.
Garton Ash cita a previsão do Ministério das Finanças de € 154 bilhões em 2028, valor que ele compara ao orçamento militar russo deste ano1. A comparação é retórica, mas reveladora: a maior economia da Europa precisou de quatro anos de guerra para equiparar, em projeção, o que Moscou já gasta hoje.
O imperialismo como método, segundo Schulze Wessel
Para explicar por que a guerra não deve terminar por cansaço russo, Garton Ash recorre ao livro Warum Russland nicht aufhören wird (Por que a Rússia não vai parar), do historiador Martin Schulze Wessel, professor de História da Europa Oriental na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique e autor de Der Fluch des Imperiums (A maldição do império), indicado ao Prêmio Alemão de Não Ficção em 2023. A obra situa a política de Putin numa tradição longa de expansão territorial e busca de hegemonia, sustentada por uma ideologia imperial com forte carga religiosa. Entre as evidências, figura a declaração de Putin em 2016 de que a fronteira da Rússia não termina em lugar nenhum1.
O segundo argumento do historiador é mais estrutural e, talvez, mais útil para quem observa o conflito de longe: a expansão russa avança quando Moscou encontra grandes potências dispostas a cooperar e trava quando potências de peso equivalente se opõem. Com Washington oscilando entre a omissão e a acomodação, caberia à Europa ocupar o papel de oposição1. Em entrevista à revista da Academia Bávara de Ciências, Schulze Wessel descreveu uma vitória russa como o rompimento de uma barragem para a ordem internacional vigente12.
Há aqui uma camada histórica que Garton Ash não deixa passar. A Alemanha já foi, alternadamente, facilitadora da expansão russa, como no pacto Hitler-Stalin de 1939, e sua principal ameaça. Nacionalistas ucranianos que apostaram no confronto germano-russo nas duas guerras mundiais colheram colonialismo imperial na primeira e genocídio nazista na segunda. Que a Alemanha democrática seja hoje um dos principais sustentáculos da soberania ucraniana é, na leitura do colunista, um dado com algo de redenção1.
A Alemanha virou o lugar onde a Europa testa se consegue sustentar, com voto e orçamento, uma guerra que não escolheu.
Análise O Tecido
A guerra híbrida tem endereço: Leipzig
Se Berlim é o pilar, é também o alvo. Na madrugada de 4 para 5 de agosto, um funcionário do aeroporto de Leipzig/Halle encontrou um drone com cerca de 600 gramas de explosivos pairando perto de aviões cargueiros Antonov ucranianos. O aeroporto é um polo logístico da Otan e das Forças Armadas alemãs e, desde 2022, rota de equipamentos militares destinados a Kiev. Em 1º de setembro, o ministro do Interior, Alexander Dobrindt, atribuiu formalmente a operação à Rússia, a primeira vez que Berlim responsabilizou Moscou por uma tentativa de ataque a um aeroporto alemão, segundo a Euronews e o Ukrainska Pravda. Dobrindt resumiu a situação dizendo que a Alemanha não está em guerra, mas é alvo diário de guerra híbrida. O Kremlin nega envolvimento5.
O episódio expôs ainda uma vulnerabilidade técnica: o sistema de detecção de drones do aeroporto não registrou o aparelho, conforme análise da revista The Week5. Garton Ash inclui Leipzig numa lista mais ampla, que vai de ameaças de morte contra executivos da indústria de defesa a interferência política encubierta e desinformação1. A lógica descrita por ele é coerente com o padrão: atingir o país que mais sustenta Kiev para encarecer politicamente esse apoio.
A frente interna é a mais frágil
O ponto mais vulnerável da estratégia talvez não esteja nos aeroportos, mas nas urnas. Pesquisa do instituto Insa realizada entre 14 e 18 de setembro mostrou a AfD com 29% das intenções de voto nacionais, nove pontos à frente da aliança CDU/CSU de Merz, com 20%, segundo levantamento divulgado pela agência dpa. Em agosto, o Politbarometer da emissora ZDF já registrava o chanceler no pior índice de avaliação pessoal de seu mandato, em meio à rejeição de 75% dos entrevistados a mudanças nas aposentadorias, conforme noticiou a imprensa regional alemã6.
Garton Ash descreve a AfD como o partido que hoje dita o ritmo da política alemã e que, no poder, entregaria a Ucrânia à Rússia. O fenômeno não é só alemão: ele menciona Marine Le Pen, na França, defendendo que o país não pode mais arcar com o nível atual de ajuda; dois partidos menores da direita polonesa abertamente hostis a Kiev; e uma pesquisa italiana de setembro em que mais da metade dos entrevistados rejeitou novos envios de armas1. O mapa sugere que a principal ameaça ao apoio europeu não vem de fora, mas da erosão gradual do consenso doméstico em países que ainda pagam a conta.
A conta de 2027 ainda não fecha
O desenho financeiro reforça a preocupação. Em 18 de dezembro de 2025, o Conselho Europeu aprovou um empréstimo de € 90 bilhões à Ucrânia para 2026 e 2027, financiado por endividamento conjunto da União Europeia no mercado de capitais e garantido pela margem do orçamento comunitário, conforme o registro legislativo do Parlamento Europeu. Do total, € 60 bilhões vão para defesa e € 30 bilhões para apoio orçamentário, segundo o Kyiv Post. O FMI estimava as necessidades de financiamento ucranianas no biênio em € 135,7 bilhões, num cenário que pressupunha o fim da guerra em 20267.
O empréstimo cobre cerca de dois terços dessa demanda. Em abril, o comissário europeu de Economia, Valdis Dombrovskis, afirmou que 2026 estava em grande parte assegurado, mas que o déficit de 2027 era a questão mais aguda: a Ucrânia precisará de ao menos € 64 bilhões em apoio internacional no próximo ano, divididos quase igualmente entre necessidades macrofinanceiras e militares, segundo a Euromaidan Press8.
É nesse ponto que entram os ativos do Banco Central russo. Em dezembro de 2025, a UE tornou por tempo indeterminado o congelamento de cerca de € 210 bilhões em ativos russos, a maior parte custodiada pela Euroclear, na Bélgica, conforme noticiado à época9. O uso desse dinheiro, porém, segue travado por riscos jurídicos e resistência política. Garton Ash relata ter encontrado em Bruxelas uma plateia firmemente pró-Ucrânia que recuou justamente quando o debate chegou aos ativos congelados. Ele cita estimativas de especialistas segundo as quais Kiev poderá precisar de até € 100 bilhões adicionais apenas em 2027, sem fonte de financiamento definida, em parte pelos danos à economia ucraniana e às exportações de grãos pelo Mar Negro1.
E o Brasil nessa equação?
O debate europeu toca diretamente a diplomacia brasileira, e a Alemanha é o ponto de contato mais concreto. No início de 2023, o Brasil recusou um pedido do governo alemão para fornecer munição de tanques à Ucrânia; o chanceler Mauro Vieira defendeu então que o país não pretendia apresentar uma solução pronta, mas articular um grupo de nações não envolvidas no conflito para negociar a paz, segundo o Correio Braziliense10.
A posição evoluiu sem mudar de eixo. Em 17 de junho de 2026, à margem da cúpula do G7 na França, Lula e Zelensky tiveram um encontro de cerca de 40 minutos que o presidente brasileiro classificou como a melhor conversa entre os dois desde o início da guerra, conforme o Jornal de Brasília. Dois dias depois, um assessor da presidência ucraniana informou que Kiev aceitou a oferta brasileira de ajudar a reativar a diplomacia. Lula insiste que a chave está com os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, segundo o SBT News11.
O caso alemão interpela a premissa brasileira de duas formas. A primeira é incômoda: se Schulze Wessel estiver certo e a Rússia avançar sempre que grandes potências se acomodam, a neutralidade tem efeitos que não são neutros. A segunda é favorável ao Itamaraty: a fadiga que Garton Ash identifica nas sociedades europeias indica que a via exclusivamente militar tem limites políticos, o que abre espaço para mediadores de fora do bloco ocidental. Entre as duas leituras está o princípio que a própria Constituição brasileira consagra no artigo 4º, ao combinar defesa da paz, solução pacífica dos conflitos e autodeterminação dos povos13. O conflito ucraniano obriga o Brasil a decidir como esses princípios convivem quando um dos lados ocupa território alheio.
Há ainda o interesse material. O Brasil importa fertilizantes da Rússia e disputa mercados de grãos com a Ucrânia. Uma guerra prolongada no Mar Negro afeta preços agrícolas globais e, por extensão, a balança comercial brasileira. A neutralidade, nesse sentido, também é uma forma de proteger cadeias produtivas que dependem dos dois lados.
O que observar neste inverno
Garton Ash identifica três testes interligados para os próximos meses: a disposição da Alemanha de manter o rumo, a capacidade das democracias de sustentar uma disputa longa contra uma ditadura e a coesão europeia em torno da causa1. Na prática, eles se traduzem em indicadores verificáveis:
- Financiamento de 2027: se a UE fecha o déficit ucraniano do próximo ano e se recorre, ou não, aos ativos russos congelados.
- Infraestrutura energética: a intensidade dos ataques russos à rede elétrica ucraniana durante o inverno.
- Resposta alemã à guerra híbrida: se Berlim converte a atribuição do caso Leipzig em medidas concretas de dissuasão.
- Termômetro eleitoral: a evolução da AfD e de partidos céticos à ajuda na França, na Polônia e na Itália.
- Diplomacia paralela: se a iniciativa brasileira junto aos membros permanentes do Conselho de Segurança produz algum canal efetivo.
O artigo do El País termina com uma convocação: "Nuestro deber es demostrarle que se equivoca", referindo-se à aposta de Putin de que as democracias europeias cederão diante de um autocrata determinado1. Para o leitor brasileiro, a pergunta relevante é outra. Não se trata de escolher um lado na torcida, mas de entender que o desfecho em Kiev ajudará a definir se fronteiras ainda podem ser redesenhadas pela força no século XXI. Essa resposta interessa a qualquer país que dependa do direito internacional para se proteger, e o Brasil é um deles.
Perguntas frequentes
Por que a Alemanha é considerada central no apoio europeu à Ucrânia?
Porque é o maior doador europeu de Kiev, com destaque para a defesa antiaérea, inclusive cinco baterias Patriot, e porque é a maior economia do continente num momento em que os Estados Unidos reduziram seu papel. Segundo Timothy Garton Ash, no El País, isso faz de Berlim o principal pilar europeu e também o alvo preferencial da guerra híbrida russa.
Quanto a Alemanha já destinou à Ucrânia?
O governo alemão declarou cerca de € 100 bilhões em apoio acumulado até 30 de junho de 2026. O Instituto de Kiel calcula que € 41,7 bilhões chegaram diretamente à Ucrânia, pois a maior parte da ajuda civil foi gasta na própria Alemanha, principalmente com refugiados ucranianos.
O que aconteceu no aeroporto de Leipzig?
Em agosto de 2026, um drone com cerca de 600 gramas de explosivos foi encontrado perto de aviões cargueiros ucranianos no aeroporto de Leipzig/Halle. Em 1º de setembro, o governo alemão atribuiu formalmente a operação à Rússia, classificando-a como ataque híbrido. Moscou nega.
A Ucrânia tem financiamento garantido para 2027?
Não integralmente. O empréstimo europeu de € 90 bilhões cobre cerca de dois terços das necessidades de 2026 e 2027. A Comissão Europeia reconhece um déficit para 2027, e especialistas citados pelo El País estimam necessidade adicional de até € 100 bilhões no próximo ano.
Qual é a posição do Brasil na guerra da Ucrânia?
O Brasil condena a ocupação territorial, mas mantém neutralidade, não envia armas e defende uma solução negociada. Em 2026, Lula retomou o diálogo com Zelensky, que aceitou a oferta brasileira de ajudar a reativar a diplomacia, com ênfase no papel dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.
Referências
- GARTON ASH, Timothy. A más ataques de Putin, mayor debe ser el apoyo de Europa a Ucrania. El País, 13 out. 2026. https://elpais.com/opinion/2026-10-13/a-mas-ataques-de-putin-mayor-debe-ser-el-apoyo-de-europa-a-ucrania.html
- ORF e Tiroler Tageszeitung. Cobertura da visita do chanceler Friedrich Merz a Kiev, 4 out. 2026.
- Instituto de Kiel para a Economia Mundial, Ukraine Support Tracker, conforme Odessa Journal, 2026.
- Reuters e Bloomberg, via Capital Brief, jun. 2025; projeto de orçamento federal alemão de 2027, conforme imprensa financeira.
- Euronews, Ukrainska Pravda e The Week. Cobertura do incidente no aeroporto de Leipzig/Halle, ago.-set. 2026.
- Insa/Bild am Sonntag, via dpa e Jüdische Allgemeine, set. 2026; ZDF Politbarometer, ago. 2026.
- Parlamento Europeu, Observatório Legislativo, procedimento 2026/0008(COD); Kyiv Post, 2026.
- Euromaidan Press. Declarações de Valdis Dombrovskis sobre o déficit de 2027, abr. 2026.
- Euromaidan Press. Congelamento por tempo indeterminado dos ativos russos na UE, dez. 2025.
- Correio Braziliense. Declarações do chanceler Mauro Vieira, fev. 2023.
- Jornal de Brasília e SBT News. Encontro entre Lula e Zelensky e resposta ucraniana, jun. 2026.
- Academia Bávara de Ciências, Akademie Aktuell, ed. 2/2026. Entrevista com Martin Schulze Wessel.
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, art. 4º.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido · Caderno Política