Profissões · Bancos e Inteligência Artificial

22 de outubro de 2026 · Leitura de 9 minutos · Por Evelyn Cordeiro

O Barclays anunciou nesta quinta-feira (22) que vai eliminar 5 mil postos de trabalho, o equivalente a cerca de 5% de seu quadro global, em um programa de redução de custos apoiado na adoção de inteligência artificial em larga escala. A informação foi publicada pelo The Wall Street Journal1, no mesmo dia em que o banco britânico apresentou um lucro antes de impostos abaixo das projeções do mercado para o terceiro trimestre. Segundo o jornal, cerca de mil desligamentos já ocorreram no primeiro semestre de 2026, e os outros 4 mil se concentram no segundo.

Para quem acompanha o mundo do trabalho, o número importa menos do que o padrão que ele confirma. Em 2026, quatro grandes bancos europeus já vincularam publicamente cortes de pessoal à inteligência artificial. E as funções atingidas não são as que o senso comum costuma apontar como as primeiras da fila.

O que o Barclays anunciou

De acordo com a reportagem do WSJ1, o banco afirma estar concentrado em simplificar a organização, com ganhos de eficiência tecnológica impulsionados pela IA. O CEO, C.S. Venkatakrishnan, descreveu a inteligência artificial como o arremate de um ciclo mais longo de investimento em tecnologia, usando a imagem da cobertura de um bolo. A diretora financeira, Anna Cross, disse que os cortes de custo acumulados no ano equivalem a aproximadamente o dobro do registrado nos dois anos anteriores.

Os números operacionais ajudam a entender o momento. O banco obteve reduções estruturais de custo de 201 milhões de libras no trimestre e prevê outros 300 milhões no quarto. O lucro antes de impostos ficou em 2,32 bilhões de libras, abaixo do consenso de 2,42 bilhões, pressionado pela fraqueza em renda fixa. O programa de recompra de ações anunciado, de 500 milhões de libras, também ficou abaixo do que analistas esperavam1.

Não é a primeira vez que o Barclays corta nessa escala. Em 2023, o banco já havia removido cerca de 5 mil posições, a maioria na área de suporte Barclays Execution Services e na diretoria de operações do Reino Unido, com redução de camadas de gestão, como registrou a LBC2. A diferença entre os dois episódios está no vocabulário. O que três anos atrás era apresentado como "programa de eficiência" agora chega ao mercado com a IA como justificativa central.

Um padrão europeu, não um caso isolado

Em maio, o alemão Commerzbank anunciou o corte de 3 mil vagas e investimentos de cerca de 600 milhões de euros em IA entre 2026 e 2030, segundo a People Matters3. O modelo de linguagem interno do banco, o CobaGPT, já seria usado por mais de 14,5 mil funcionários. A CEO Bettina Orlopp disse à agência alemã dpa, em declaração reproduzida pelo bluewin4, que a IA responde por uma parcela muito grande desses cortes.

No mesmo mês, o Standard Chartered apresentou um plano para reduzir cerca de 15% das funções corporativas até 2030, algo próximo de 7.800 postos concentrados em recursos humanos, risco, compliance e operações, conforme o South China Morning Post5. Em 6 de outubro, foi a vez do norueguês DNB, que anunciou a eliminação de cerca de 400 posições em tempo integral na sua divisão de Tecnologia e Serviços. Segundo a Fintech Futures6, o banco atribui a decisão a agentes de IA que já trazem ganhos em gestão de dados de clientes, verificação de identidade (KYC), desenvolvimento de tecnologia e programação.

CORTES ANUNCIADOS EM 2026 COM IA COMO JUSTIFICATIVA Standard Chartered~7.800 Barclays5.000 Commerzbank3.000 DNB~400
Horizontes diferentes: Standard Chartered até 2030; Barclays em 2026; Commerzbank em plano anunciado em maio de 2026; DNB até o fim de 2026. Fontes: WSJ, SCMP, People Matters, Fintech Futures. Elaboração: O Tecido.

Os prazos e bases de comparação variam, e nem todo corte decorre exclusivamente da tecnologia. No caso do Commerzbank, por exemplo, a reestruturação também funciona como defesa contra a oferta hostil do italiano UniCredit. Ainda assim, o padrão é claro: a IA deixou de ser apresentada como ferramenta de apoio e passou a figurar nos comunicados como motivo explícito para encolher estruturas.

A anatomia do corte: onde a IA encontra as funções

Quando se olha para onde os cortes caem, aparece um desenho consistente. Os alvos são áreas de suporte e de controle: operações, cadastro, verificação de clientes, relatórios regulatórios, recursos humanos, parte do compliance. São atividades com regras escritas, alto volume e resultado verificável. É exatamente o perfil de trabalho que agentes de IA conseguem decompor em etapas, executar e documentar.

Há também um segundo alvo, menos comentado: as camadas intermediárias de gestão que existiam para coordenar esses fluxos. Quando o fluxo passa a ser orquestrado por software, parte da supervisão humana perde a razão de existir. Foi o que o próprio Barclays descreveu em 2023, e é o que o vocabulário de "simplificação organizacional" sugere agora.

O caso do DNB acrescenta uma camada incômoda. Os 400 cortes estão na divisão de tecnologia, e o banco cita programação entre as tarefas em que os agentes já rendem. A recomendação genérica de "aprender a programar" como seguro contra a automação não se sustenta diante desse dado. Um relatório do Goldman Sachs de março de 2026, citado pela People Matters7, estima que entre 6% e 7% dos trabalhadores podem perder o emprego por efeitos da IA ao longo da próxima década. O número agregado esconde a distribuição: a exposição se concentra em funções de processamento, e não em setores inteiros.

A unidade de análise deixou de ser o cargo. Passou a ser a tarefa, e cada cargo bancário é um pacote de tarefas com prazos de validade diferentes.Análise · O Tecido

"Capital humano de menor valor": quando a linguagem vira risco

A forma como os bancos comunicam essas decisões virou parte do problema. Em maio, o CEO do Standard Chartered, Bill Winters, afirmou em uma conferência com investidores que a automação substituiria, em alguns casos, "capital humano de menor valor" por capital financeiro e de investimento. Diante da reação negativa, publicou um pedido de desculpas no LinkedIn, segundo a BBC, reproduzida pelo The Star5. Federações sindicais internacionais consideraram a retratação insuficiente, de acordo com a Bloomberg Law12.

O episódio interessa por um motivo prático. Os funcionários que permanecem serão justamente os que vão operar, corrigir e auditar os agentes. Um discurso que trata pessoas como custo a substituir afeta a disposição desses profissionais em ensinar ao sistema o que sabem. O DNB tomou o caminho oposto: sua CEO, Kjerstin Braathen, falou em adaptar a organização a uma "nova realidade" e em conduzir os desligamentos de forma ordenada e em diálogo com representantes dos empregados6.

E no Brasil?

Os bancos brasileiros seguem na mesma direção, com orçamento crescente e cautela pública maior no discurso sobre empregos. A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 20268, conduzida pela Deloitte, mostra que o setor pretende investir cerca de R$ 3 bilhões em inteligência artificial, analytics e big data neste ano, alta de 8% sobre 2025, dentro de um orçamento total de tecnologia de R$ 50,4 bilhões. Para 92% das instituições, o principal benefício da IA é acelerar tarefas rotineiras, e 76% citam a automação de processos internos como uso principal de agentes inteligentes.

O mesmo levantamento informa que os bancos devem investir R$ 29,4 milhões em treinamento de profissionais em IA e IA generativa, alta de 31%. O crescimento é real, mas a proporção merece atenção: o valor representa cerca de 0,06% do orçamento total de tecnologia do setor. A comparação não esgota o esforço de requalificação, já que bancos mantêm outros programas de formação, mas indica onde está o peso da decisão. A tecnologia recebe bilhões; a adaptação das pessoas que vão conviver com ela recebe milhões.

Os dados de emprego confirmam a direção. Segundo números do Dieese compilados pela Distrito10, o setor bancário fechou 8.910 postos em 2025, enquanto a área de tecnologia da informação teve saldo positivo, com 6.314 admissões e 5.469 desligamentos. Reportagem do O Povo11 sobre a mesma pesquisa da Febraban indica que quatro em cada dez bancos pretendem ampliar seus quadros de tecnologia, com aumento médio previsto de 22%. Os perfis mais procurados são desenvolvedores, engenheiros de IA, engenheiros de dados, arquitetos corporativos e engenheiros de DevOps.

O Brasil já atravessou uma primeira onda: o fechamento de agências e a migração do atendimento para o celular. A segunda onda, a que Barclays e DNB ilustram, atinge os escritórios centrais. E há sinais de que ela ainda não chegou à maturidade por aqui. Segundo o IT Forum9, cerca de 60% das instituições pesquisadas ainda estão em fases iniciais de adoção de IA, percentual maior no caso da IA generativa.

O que muda para quem trabalha em banco

A pergunta útil para o profissional não é se o seu cargo vai acabar, mas quais tarefas dele são executáveis por um agente com supervisão mínima. A tabela abaixo organiza essa leitura a partir dos casos anunciados em 2026.

Tarefas mais expostasTarefas que ganham peso
Verificação documental e cadastral (KYC de rotina)Análise de casos de exceção e decisões com responsabilidade legal
Conciliações, relatórios padronizados e controles repetitivosAuditoria e supervisão de agentes de IA, com registro de decisões
Atendimento de primeiro nível e triagem de demandasRelacionamento consultivo em operações complexas
Coordenação de fluxos operacionais por camadas de gestãoDesenho de processos e tradução entre negócio e tecnologia
Código de manutenção e testes de baixa complexidadeGovernança de modelos, risco algorítmico e cibersegurança

A segunda coluna tem um traço comum: em todas as tarefas, alguém precisa responder pelo resultado. Agentes executam etapas, mas reguladores, clientes e tribunais continuam exigindo um responsável humano. No mercado brasileiro, a própria Febraban aponta que cerca de 10% do orçamento de tecnologia de 2026, algo em torno de R$ 5 bilhões, vai para cibersegurança, prioridade para todos os bancos pesquisados, segundo o Bora Investir, da B313. Quanto mais decisões passam por software, maior o valor de quem sabe onde o software erra.

Perguntas frequentes

Quantas vagas o Barclays vai cortar e por quê?

Cerca de 5 mil, aproximadamente 5% do quadro global, segundo o WSJ. O banco associa a decisão à simplificação da organização e a ganhos de eficiência obtidos com inteligência artificial, em um ano de corte estrutural de custos.

Quais outros bancos anunciaram cortes ligados à IA em 2026?

Commerzbank (cerca de 3 mil vagas), Standard Chartered (cerca de 7.800 funções corporativas até 2030) e DNB (cerca de 400 posições na área de tecnologia e serviços).

Quais funções bancárias são mais afetadas pela IA?

Funções de suporte e controle com regras claras e alto volume: verificação de clientes (KYC), cadastro, operações, relatórios, parte do compliance e camadas intermediárias de gestão. O caso do DNB mostra que tarefas de programação também estão expostas.

Os bancos brasileiros estão cortando vagas por causa da IA?

O setor bancário brasileiro fechou 8.910 postos em 2025, segundo dados do Dieese, enquanto a área de TI teve saldo positivo. Os bancos devem investir R$ 50,4 bilhões em tecnologia em 2026, mas não anunciaram cortes atribuídos explicitamente à IA na escala dos europeus.

Quanto os bancos brasileiros investem em treinamento em IA?

R$ 29,4 milhões em 2026, alta de 31%, segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária. O valor equivale a cerca de 0,06% do orçamento total de tecnologia do setor.

Nota de atribuição: este artigo foi inspirado na reportagem de Michael Hennessey publicada pelo The Wall Street Journal em 22 de outubro de 2026. O texto não é tradução nem reprodução do original. As informações atribuídas ao WSJ estão creditadas ao longo do artigo, e a análise e o contexto brasileiro são de responsabilidade da autora, com base em fontes independentes.