Profissões · Mercado de Trabalho

Regulação recém-aprovada pelo Banco Central transforma criptoativos em área regulada, e a demanda por profissionais híbridos, capazes de transitar entre tecnologia, direito e finanças, cresce nos maiores bancos do país.

Até pouco tempo atrás, o profissional de criptoativos era associado a um estereótipo específico: alguém operando sozinho, de madrugada, acompanhando gráficos de preços em telas múltiplas. Essa imagem, no entanto, já não corresponde ao mercado de trabalho que se consolida em bancos, fintechs e consultorias ao redor do mundo. Reportagem publicada pelo jornal espanhol Cinco Días (grupo El País) no dia 17 de agosto mostrou que instituições como CaixaBank, Unicaja, Santander e Trade Republic, além da consultoria EY, disputam abertamente especialistas capazes de unir conhecimento técnico de blockchain à compreensão regulatória do setor financeiro1. No Brasil, o mesmo movimento ganha contornos próprios, puxado por um calendário regulatório que começa a valer neste ano.

Da Europa ao Brasil, um mercado que se profissionaliza

Na Espanha, a reportagem descreve como o avanço do regulamento europeu MiCA (Markets in Crypto-Assets) empurrou grandes bancos a estruturar áreas dedicadas a ativos digitais. O Santander, por exemplo, buscou um especialista para liderar globalmente sua estratégia de stablecoins antes mesmo de anunciar participação em um consórcio internacional para desenvolver esse tipo de moeda digital1. Unicaja, por sua vez, afirma à publicação espanhola que reforça suas equipes de blockchain por conta do potencial de negócio em tokenização de ativos, meios de pagamento e infraestrutura de mercado, combinando competências técnicas com conhecimento regulatório1.

O paralelo com o Brasil não é coincidência. Embora o país siga uma trajetória regulatória própria, o efeito sobre o mercado de trabalho é semelhante: à medida que criptoativos deixam de ser um nicho especulativo e passam a integrar o sistema financeiro regulado, cresce a demanda por profissionais que entendam tanto a tecnologia quanto as regras do jogo.

O novo marco regulatório muda o jogo no Brasil

O ponto de virada para o mercado brasileiro tem data marcada. Depois de anos de vácuo regulatório desde a sanção da Lei 14.478, em 2022, e da definição do Banco Central como órgão responsável pelo setor por meio do Decreto 11.563, em 2023, o Banco Central publicou, no fim de 2025, as Resoluções BCB 519, 520 e 521, que finalmente estruturam as regras para prestadores de serviços de ativos virtuais (as chamadas PSAVs)2. As normas entram em vigor em 2 de fevereiro de 2026 e passam a exigir autorização prévia do Banco Central para empresas que intermedeiam, custodiam ou negociam criptoativos para terceiros, num modelo equiparado ao de instituições financeiras tradicionais3.

As regras de câmbio associadas ao novo marco começam a valer em 4 de maio de 2026, e as empresas já existentes no mercado têm até novembro do mesmo ano para se adaptar às exigências de governança, compliance e capitalização3. Esse cronograma cria uma janela concreta de contratação: bancos, corretoras e as próprias PSAVs precisam montar, em poucos meses, estruturas jurídicas e técnicas capazes de atender à supervisão do Banco Central.

Perfis que combinam tecnologia blockchain, tokenização e regulação financeira seguem escassos, e por isso estão entre os mais disputados do setor. Segundo relatos de instituições financeiras citados por Cinco Días (El País), agosto de 2026

Quem está contratando no país

Historicamente, bancos como BTG Pactual, Nubank e XP, além de corretoras como Binance e Mercado Bitcoin, já abriram vagas voltadas a blockchain e ativos digitais no Brasil, de analistas de produto a engenheiros de segurança especializados em criptomoedas45. O que muda agora é o motivo da contratação: menos foco em compra e venda de criptomoedas para clientes de varejo, mais foco em tokenização de ativos reais, infraestrutura de custódia institucional e adequação regulatória.

Esse deslocamento fica evidente no comportamento do próprio Banco Central. Em 2025, a autoridade monetária reformulou o projeto do real digital, o Drex, abandonando o uso de blockchain pública em sua primeira fase e redirecionando o piloto para resolver um problema mais concreto: a reconciliação de garantias em operações de crédito6. Enquanto isso, o mercado privado de tokenização de ativos reais (RWA, na sigla em inglês) cresceu 2.249% em um ano no Brasil, somando cerca de R$ 2,876 bilhões em ativos tokenizados até o início de 2026, segundo levantamento do setor6. Esse tipo de crescimento explica por que tokenizadoras, escritórios de advocacia especializados e empresas de compliance também entraram na disputa por talento, ao lado dos bancos tradicionais.

Contraponto

Nem todos concordam que se trata de uma tendência estrutural de longo prazo. Parte do setor de recrutamento de tecnologia no Brasil pondera que vagas explicitamente rotuladas como "blockchain" ou "cripto" ainda representam uma fatia pequena do total de contratações em tecnologia, concentradas majoritariamente em poucas empresas do setor financeiro e em corretoras nativas do ecossistema7.

Há também quem argumente que o abandono da blockchain pública no piloto do Drex, anunciado pelo próprio Banco Central em 2025, é sintoma de um ceticismo institucional mais amplo sobre a tecnologia como infraestrutura de missão crítica, mesmo com o crescimento do mercado privado de tokenização6. Nessa leitura, a demanda por especialistas seria real, porém concentrada e sujeita a oscilações conforme o apetite regulatório e de mercado.

Quanto vale esse conhecimento

Colocar um número exato sobre o valor desse tipo de especialização ainda é tarefa difícil. O Guia Salarial 2026 da consultoria Robert Half, uma das referências do mercado brasileiro de recrutamento, aponta que quase metade das empresas de tecnologia no país planeja ampliar equipes e que profissionais com certificações e competências diferenciadas tendem a receber propostas salariais acima da média8. No campo mais amplo de tecnologia, cargos associados a competências emergentes, como inteligência artificial, já aparecem no guia com remuneração inicial relatada acima de R$ 19 mil mensais para posições especializadas, um indicativo do prêmio que o mercado paga por habilidades escassas9.

Já plataformas de vagas voltadas especificamente ao setor cripto apontam faixas salariais bastante variadas e, em alguns casos, pouco compatíveis com o porte das vagas de bancos e consultorias mencionadas nesta reportagem, o que reforça a necessidade de cautela na leitura desses números até que dados mais consolidados estejam disponíveis10.

Como se preparar para essas vagas

Os anúncios de vagas analisados, tanto na Europa quanto no Brasil, convergem para um conjunto de competências recorrentes: conhecimento técnico de arquiteturas blockchain e infraestrutura DLT (tecnologia de registro distribuído), familiaridade com o arcabouço regulatório de ativos virtuais, experiência prévia em instituições financeiras reguladas e, cada vez mais, formação jurídica voltada a compliance e prevenção à lavagem de dinheiro. Advogados que já atuam com direito digital destacam que o novo marco brasileiro estende às PSAVs praticamente todas as obrigações já aplicadas a bancos e corretoras tradicionais, o que deve elevar a demanda por profissionais jurídicos especializados no tema ao longo de 20263.

Esta reportagem foi inspirada no artigo "Se busca experto en 'blockchain': bancos, fintech y consultoras se disputan el talento cripto", publicado por Elisa Tasca no jornal espanhol Cinco Días (El País) em 17 de agosto de 2026. O conteúdo original não foi traduzido ou reproduzido integralmente; a reportagem acima traz apuração e fontes independentes voltadas ao contexto brasileiro.

Perguntas frequentes

Quando as novas regras do Banco Central para criptoativos entram em vigor?

As Resoluções BCB 519, 520 e 521 entram em vigor em 2 de fevereiro de 2026. As regras específicas de câmbio associadas ao novo marco passam a valer em 4 de maio de 2026, e as empresas já em operação têm até novembro de 2026 para se adaptar plenamente.

O que é uma PSAV?

PSAV é a sigla para Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais, categoria criada pela regulamentação do Banco Central para empresas que intermedeiam, custodiam ou negociam criptoativos para terceiros no Brasil, agora sujeitas a autorização prévia do órgão regulador.

Quais empresas contratam profissionais de blockchain no Brasil?

Bancos como BTG Pactual, Nubank e XP, corretoras como Binance e Mercado Bitcoin, além de consultorias e escritórios de advocacia especializados em compliance regulatório, já abriram vagas relacionadas a ativos digitais e tecnologia blockchain no país.

Que competências são mais valorizadas para trabalhar com criptoativos e blockchain?

As vagas analisadas priorizam profissionais que combinem conhecimento técnico de blockchain e infraestrutura DLT com entendimento do arcabouço regulatório financeiro, experiência em instituições reguladas e, em muitos casos, formação jurídica voltada a compliance.

O Drex, moeda digital do Banco Central, ainda usa blockchain?

Não em sua concepção original. Em 2025, o Banco Central reformulou o piloto do Drex, abandonando o uso de blockchain pública em sua primeira fase e redirecionando o projeto para resolver problemas de reconciliação de garantias em operações de crédito.

Texto assinado por Ewerton Lopes — Curador Editorial, O Tecido.

Em números

R$ 74 bi em criptoativos declarados por brasileiros à Receita Federal (dado de 2024, ABCripto/Receita Federal)
+2.249% crescimento em um ano do mercado de ativos reais tokenizados (RWA) no Brasil
02/02/2026 data de entrada em vigor das novas regras do Banco Central para PSAVs

Linha do tempo regulatória

  • 2022Sanção da Lei 14.478, primeiro marco legal para ativos virtuais no Brasil.
  • 2023Decreto 11.563 define o Banco Central como regulador do setor.
  • Nov/2025Publicação das Resoluções BCB 519, 520 e 521.
  • Fev/2026Entrada em vigor das regras de autorização de PSAVs.
  • Mai/2026Início da vigência das regras cambiais associadas.
  • Nov/2026Fim do prazo de adaptação para empresas já em operação.

Glossário

PSAV
Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais, categoria regulada pelo Banco Central.
DLT
Tecnologia de registro distribuído, base técnica da blockchain.
MiCA
Regulamento europeu de mercados de criptoativos, referência internacional.
Drex
Projeto de moeda digital do Banco Central do Brasil, hoje sem uso de blockchain pública.
RWA
Real World Assets, ativos do mundo físico ou financeiro representados em blockchain.
Travel Rule
Norma internacional de compartilhamento de dados para prevenção à lavagem de dinheiro.

Referências

  1. Tasca, E. "Se busca experto en 'blockchain'...". Cinco Días / El País, 17 ago. 2026. Acessar matéria
  2. Agência Brasil. "Banco Central estabelece regras para o mercado de criptoativos", nov. 2025. Acessar matéria
  3. ConJur. "Enfim, as regras do Banco Central sobre ativos virtuais", nov. 2025. Acessar artigo
  4. Livecoins. "XP, Nubank e BTG Pactual abrem vagas focadas em criptomoedas". Acessar matéria
  5. Exame. "Quer trabalhar com blockchain e criptomoedas? Confira vagas no setor". Acessar matéria
  6. DeFin Insights. "Drex e tokenização: o que o piloto do Banco Central sinaliza para crédito em 2026". Acessar artigo
  7. LuizTools. "Como encontrar vagas para web3 e blockchain no Brasil?". Acessar artigo
  8. Robert Half. "Guia Salarial 2026". Acessar guia
  9. Canaltech. "Salário de R$ 19 mil: guia mostra as profissões de tecnologia em alta em 2026". Acessar matéria
  10. BeBee. "Vagas de Crypto em Brasil". Acessar plataforma