Política · Geopolítica · Estados Unidos

26 de setembro de 2026 · Análise · Leitura de 12 minutos

Em resumo

Avril Haines, diretora de Inteligência Nacional dos Estados Unidos de 2021 a 2025 e nova presidente do Carnegie Endowment for International Peace a partir de 28 de setembro de 2026, afirmou ao Financial Times que Donald Trump dá mais peso à intuição do que à análise especializada. Na entrevista, publicada em 25 de setembro, ela descreve os cenários de uso nuclear que Washington considerou na guerra da Ucrânia em 2022, defende que as sanções começam a pesar sobre a Rússia e comenta as chances de um acordo entre Trump e Xi Jinping sobre Taiwan. As três frentes afetam diretamente o Brasil, cujo principal cliente é a China e que está exposto às novas sanções americanas contra compradores de energia russa.

Nota de atribuição: este texto parte da entrevista de Roula Khalaf com Avril Haines publicada na série Lunch with the FT, do Financial Times, em 25 de setembro de 2026. O Tecido não reproduz nem traduz o original. As passagens atribuídas ao FT estão creditadas; o restante da análise se apoia em fontes independentes listadas ao final.

Uma analista de riscos diante de um presidente de intuições

O cenário da conversa pouco combina com o assunto. Foi no café do terraço da British Library, em Londres, a poucos metros de cópias originais da Magna Carta, que a editora do Financial Times, Roula Khalaf, almoçou com Avril Haines para falar de guerra, armas nucleares e da Casa Branca de Donald Trump1. O título da entrevista condensa a tese que atravessa a conversa: segundo Haines, Trump "confia mais no instinto do que no conhecimento especializado"1.

A frase tem peso pela origem. Haines comandou durante quatro anos o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional (ODNI), o órgão criado depois do 11 de Setembro para coordenar as 18 organizações da comunidade de inteligência americana e transformar o que elas sabem em avaliações para o presidente. A crítica chega também num momento de sobrecarga: na mesma semana, Washington lidava com a guerra na Ucrânia, com o conflito contra o Irã que mantém o Estreito de Ormuz fechado e com a visita de Estado de Xi Jinping, cuja reunião principal com Trump ocorreu em 24 de setembro5.

Quem é Avril Haines

Haines foi a primeira mulher a chefiar a inteligência nacional dos Estados Unidos. Confirmada pelo Senado por 84 votos a 10 em janeiro de 2021, tornou-se a primeira integrante do gabinete de Joe Biden a assumir o posto e, na sabatina, prometeu entregar avaliações apolíticas mesmo quando fossem incômodas para o governo4. Antes disso, foi vice-diretora da CIA e vice-conselheira de Segurança Nacional no governo Barack Obama.

A trajetória é pouco convencional para o cargo. Estudou física na Universidade de Chicago, formou-se em direito em Georgetown e, nos anos 1990, abriu com o marido um café-livraria em Baltimore, instalado num prédio que o governo havia apreendido numa operação antidrogas. Ao FT, ela relembra a descoberta do imóvel e conta que o casal, ambos pilotos, restaurava um bimotor com o plano de cruzar o Atlântico1.

Depois de uma temporada como pesquisadora visitante no All Souls College, em Oxford3, Haines assume em 28 de setembro a presidência do Carnegie Endowment for International Peace, um dos centros de estudos de política externa mais antigos dos Estados Unidos, sucedendo Mariano-Florentino Cuéllar2. A mudança altera o estatuto de suas declarações: deixam de ser memórias de uma ex-funcionária e passam a sinalizar a agenda de uma instituição que influencia o debate em Washington.

Instinto contra evidência: o que está em jogo na frase

A comunidade de inteligência não produz certezas. Produz estimativas com graus de confiança, redigidas numa linguagem padronizada que distingue o "provável" do "muito provável" e do "quase certo". O valor desse trabalho depende de uma premissa simples: que quem decide leia, pondere e, quando discordar, discorde com base em outra evidência. Quando a intuição do líder vira o filtro principal, as avaliações passam a competir com impressões pessoais, contatos diretos entre chefes de Estado e cálculos de negociação.

A crítica de Haines não é inédita, mas o contexto a torna mais concreta. Nos três dossiês que ela comenta ao FT (Rússia, China e o risco de guerra entre potências), a margem de erro é estreita e os custos de uma leitura equivocada são, literalmente, globais.

O ponto central da entrevista não é a preferência de um presidente, mas o que acontece com um sistema de alerta quando quem deveria ouvi-lo decide com base em outra coisa.

Leitura editorial de O Tecido

Taiwan na mesa de Trump e Xi

Trump e Xi se encontraram duas vezes em 2026: em Pequim, em maio, e na Casa Branca, em setembro16. A pauta de Washington foi resumida por analistas como a cúpula dos "três Ts": Taiwan, tecnologia e comércio, sem expectativa de grandes avanços6. Segundo a agência estatal chinesa Xinhua, Xi pediu a Trump que se opusesse à independência de Taiwan e tratasse o tema com prudência; até a publicação da cobertura da Al Jazeera, Reuters e AP, a Casa Branca não havia divulgado sua própria versão da conversa5.

O ponto mais sensível é um pacote de armas de cerca de US$ 14 bilhões para Taipé, cuja aprovação final Trump adiou após a reunião de maio e que ele já descreveu como moeda de troca nas negociações com Pequim5,6. Para parte dos especialistas, essa lógica transacional corrói a chamada ambiguidade estratégica, a política americana de não deixar claro se defenderia a ilha militarmente. Um ensaio da Foreign Policy argumenta que a nova postura de Washington equivale, na prática, a imprevisibilidade7.

A opinião pública americana está dividida. Uma pesquisa Economist/YouGov de maio mostrou empate técnico (36% a 35%) entre os que priorizam boas relações com Pequim e os que priorizam impedir que a China assuma o controle de Taiwan; menos de 40% apoiam o uso de força militar para isso5. É sobre esse terreno que Haines comenta ao FT as chances de um entendimento entre os dois líderes a respeito da ilha1. Há ainda uma alavanca econômica com prazo: a suspensão chinesa dos controles de exportação de terras raras vence em 10 de novembro6.

Fim de 2022: o que Washington temia

O trecho mais revelador da entrevista trata do período em que a comunidade de inteligência avaliou a possibilidade real de uso nuclear pela Rússia. Haines descreve Vladimir Putin como alguém que intimidava os Estados Unidos e seus aliados com ameaças, mas afirma que a inteligência americana identificou pessoas dentro do próprio sistema de poder russo pressionando-o a cumpri-las. Aliados hesitantes eram outro fator a administrar1.

Entre as opções que Moscou poderia ter usado, segundo ela, estavam uma detonação na atmosfera, com efeito demonstrativo, ou um emprego muito limitado no campo de batalha. Em ambos os casos, o ataque poderia ser pequeno o bastante para dificultar uma reação rápida dos Estados Unidos e até a atribuição imediata de responsabilidade1. O relato é coerente com o que a CNN revelou em 2024: no fim de 2022, com o risco de colapso das linhas russas no sul da Ucrânia, o governo Biden preparou-se de forma sistemática para a hipótese de um ataque nuclear tático9.

O dado ajuda a dimensionar o que significa "tabu nuclear". Desde 1945 nenhuma arma atômica foi usada em combate, e esse limite depende tanto da dissuasão quanto da leitura precisa das intenções do adversário. Segundo o SIPRI, o mundo tinha cerca de 12.241 ogivas nucleares em janeiro de 2025, com Rússia e Estados Unidos concentrando perto de 90% do total14.

Sanções: a aposta de longo prazo

Haines mantém a tese que defendeu no governo: fortalecer a capacidade militar ucraniana e, ao mesmo tempo, secar as receitas russas acabaria por alterar o cálculo de Putin e levá-lo à mesa. Na avaliação dela, as sanções começam a produzir efeito, e Putin aceitará concessões quando concluir que não vence no campo de batalha e que o custo econômico ficou alto demais1. Sobre o temor europeu de um ataque russo ao continente, ela considera o cenário possível, mas improvável: com Trump no poder, Moscou não teria necessidade de arriscar, e uma ofensiva desse tipo acabaria unindo a aliança ocidental contra a Rússia1.

A política americana caminha, neste momento, na direção de mais pressão. Em 16 de setembro, a Câmara dos Representantes aprovou por 262 votos a 159 um projeto que prevê tarifas de até 100% sobre países compradores de petróleo e gás russos, além de sanções contra a chamada frota sombra de petroleiros. O texto seguiu para sanção presidencial, o Kremlin afirmou que as medidas dificultam a negociação de paz, e uma nova rodada de conversas entre Kiev, Washington e Moscou é esperada para outubro10.

Terceira guerra mundial: plausível não é o mesmo que provável

A chamada da entrevista informa que Haines trata uma terceira guerra mundial como um cenário que não pode ser descartado1. A distinção importa. No vocabulário da inteligência, um cenário plausível é aquele que tem uma sequência coerente de causas e, por isso, merece planejamento; não é uma previsão. Trabalhar com cenários plausíveis é o que permite a governos preparar respostas antes que a crise se instale.

Na leitura de O Tecido, o que torna esse exercício mais urgente em 2026 é a simultaneidade. Pela primeira vez em décadas, os Estados Unidos administram ao mesmo tempo uma guerra de alta intensidade na Europa com um adversário nuclear, um conflito aberto no Golfo Pérsico que afeta o fluxo global de energia e uma disputa por Taiwan que envolve a segunda maior economia do mundo. Crises paralelas multiplicam as chances de erro de cálculo, sobretudo quando a comunicação entre as potências depende da relação pessoal entre líderes.

O que isso significa para o Brasil

China como pilar da balança comercial. No primeiro semestre de 2026, 31,6% de tudo o que o Brasil exportou teve a China como destino, e o superávit com o país asiático (US$ 19,8 bilhões) respondeu por 47% de todo o saldo comercial brasileiro, segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China repercutido pela imprensa13. A China absorveu 69,5% da soja exportada pelo país13. Qualquer escalada em torno de Taiwan, seja um bloqueio naval, sejam sanções cruzadas, atingiria o principal comprador brasileiro e as rotas marítimas do Pacífico.

Superávit comercial brasileiro no 1º semestre de 2026 Do saldo total de 42,4 bilhões de dólares, 19,8 bilhões vieram do comércio com a China e 22,6 bilhões com os demais parceiros. SALDO COMERCIAL DO BRASIL, JAN A JUN 2026 (US$ BILHÕES) China: 19,8 (47%) Demais parceiros: 22,6 (53%) Saldo total no semestre: US$ 42,4 bilhões Fonte: CEBC e Secex/MDIC, dados do 1º semestre de 2026
Quase metade do superávit brasileiro depende de um único parceiro, o que amplia a exposição do país a uma crise no Estreito de Taiwan.

Diesel russo e o risco tarifário. O Brasil nunca aderiu às sanções unilaterais contra Moscou; a diplomacia brasileira sustenta que só aplica medidas aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU12. O país importa cerca de 30% do diesel que consome, e a Rússia foi fornecedora central desde 2022. Entre janeiro e agosto de 2026, as compras brasileiras da Rússia somaram US$ 7,15 bilhões, mas vêm caindo: de US$ 1,38 bilhão em abril para US$ 433,8 milhões em agosto, segundo dados do MDIC reunidos pela Gazeta do Povo11. Os ataques ucranianos a refinarias encareceram o produto russo e empurraram importadores para fornecedores dos Estados Unidos e da Índia11,12. Ainda assim, com o país já atingido por sobretaxas americanas de 25% e de 12,5% em julho11, a nova lei de sanções acrescenta um risco comercial concreto à agenda de Brasília.

Não proliferação como interesse nacional. A Constituição de 1988 só admite atividade nuclear para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso Nacional15. O Brasil integra o Tratado de Não Proliferação (TNP) e o Tratado de Tlatelolco, que fez da América Latina uma zona livre de armas nucleares, e mantém com a Argentina um sistema bilateral de salvaguardas. O relato de Haines sobre 2022 lembra que a erosão do tabu nuclear, mesmo num conflito distante, afeta diretamente um país que construiu sua política externa sobre esse compromisso.

Autonomia com exposição. A posição brasileira, que combina relações próximas com a China, participação nos BRICS e diálogo com Washington, dá margem de manobra em tempos de rivalidade entre potências. Mas essa margem encolhe quando as potências passam a cobrar alinhamento por meio de tarifas, como mostra o projeto aprovado no Congresso americano.

Contraponto

A crítica ao "instinto" tem limites. Defensores do estilo de Trump lembram que a comunidade de inteligência também erra, e que o caso mais citado é a avaliação de 2002 sobre armas de destruição em massa no Iraque, que sustentou uma guerra baseada em premissas falsas. Para esse grupo, desconfiar do consenso técnico não é necessariamente irracional.

Diplomacia pessoal produz resultados. A relação direta entre Trump e Xi rendeu uma trégua comercial e canais de diálogo que reduzem o risco de incidentes. O senador republicano Rand Paul resumiu essa visão ao defender o encontro com a fórmula "talk more, war less" (conversar mais, guerrear menos)5.

As sanções ainda não entregaram o prometido. Mais de quatro anos após a invasão, a Rússia segue em guerra, adaptou-se com frotas paralelas e novos compradores, e críticos observam que os tetos de preço anteriores tiveram efeito limitado. A tese de Haines sobre o desgaste russo continua, portanto, uma aposta.

Quem fala. Haines foi indicada por dois presidentes democratas e hoje dirige um centro de estudos com posições próprias. Suas avaliações têm base técnica reconhecida, mas não estão isentas de perspectiva política, e devem ser lidas como tal.

Perguntas frequentes

Quem é Avril Haines?

Avril Haines é advogada e especialista em segurança nacional. Foi diretora de Inteligência Nacional dos Estados Unidos de janeiro de 2021 a janeiro de 2025, primeira mulher no cargo, e antes foi vice-diretora da CIA e vice-conselheira de Segurança Nacional no governo Obama. Em 28 de setembro de 2026 assume a presidência do Carnegie Endowment for International Peace.

O que Avril Haines disse sobre Donald Trump ao Financial Times?

Em entrevista publicada em 25 de setembro de 2026, Haines afirmou que Trump confia mais no próprio instinto do que no conhecimento especializado, o que, na leitura dela, reduz o peso das avaliações de inteligência nas decisões de política externa.

Os Estados Unidos temeram que a Rússia usasse armas nucleares em 2022?

Sim. Segundo Haines, a inteligência americana considerou cenários como uma detonação na atmosfera ou um uso limitado no campo de batalha, possivelmente pequeno o suficiente para dificultar uma reação rápida. Reportagem da CNN de 2024 já havia revelado que o governo Biden se preparou para essa hipótese no fim de 2022.

O que foi discutido sobre Taiwan na cúpula Trump-Xi de setembro de 2026?

Segundo a agência chinesa Xinhua, Xi Jinping pediu a Trump que se opusesse à independência de Taiwan. Um pacote americano de armas de cerca de US$ 14 bilhões para a ilha segue com aprovação adiada, e Trump já o descreveu como moeda de troca. Não houve anúncio de acordo formal sobre o tema.

Como as novas sanções americanas contra a Rússia podem afetar o Brasil?

O projeto aprovado pela Câmara dos EUA em 16 de setembro de 2026 prevê tarifas de até 100% sobre países que compram petróleo, gás e derivados russos. O Brasil importou US$ 7,15 bilhões da Rússia entre janeiro e agosto de 2026, principalmente diesel, embora as compras venham caindo nos últimos meses.

Haines acredita que a Rússia vai atacar a Europa?

Ela considera o cenário possível, mas improvável. Na avaliação dela, com Trump na Casa Branca Putin não teria necessidade de correr esse risco, e um ataque acabaria fortalecendo a união da aliança ocidental.