Caderno Educação · Inteligência artificial no ensino superior
A cena seria ficção científica há poucos anos: um empreendedor ensaia, de madrugada, a apresentação que fará a investidores e recebe comentários em vídeo de um professor de Harvard. O professor está dormindo. Quem responde é a sua réplica digital. Desde abril de 2026, é assim que funciona o HBS Foundry, programa on-line da Harvard Business School, que já tem companhia do outro lado do Atlântico, no Imperial College London, conforme reportagem do EL PAÍS publicada nesta segunda-feira (19).[1]
O movimento marca uma inflexão no debate sobre inteligência artificial na educação. A pergunta que dominou a última década, se a máquina substituiria o professor, deu lugar a outra, mais desconfortável: o que acontece quando a máquina passa a falar com o rosto e a voz de um professor específico? A resposta envolve pedagogia, mas também direito de imagem, propriedade intelectual, governança universitária e, no caso brasileiro, uma regulação que ainda não chegou.
O que Harvard e o Imperial College estão fazendo
O HBS Foundry é um curso de oito semanas voltado a fundadores de startups, vendido por US$ 699. A plataforma usa avatares em vídeo de sete docentes da escola, produzidos pela empresa americana HeyGen, com os quais os participantes simulam conversas com investidores, ligações de venda e reuniões de conselho.[1] Segundo reportagem do The New York Times repercutida pela Entrepreneur, o curso já foi testado com mais de cem universidades americanas.[2] Um porta-voz de Harvard informou à Fortune, conforme a PYMNTS, que cerca de 760 fundadores passaram pelo programa desde a abertura.[3]
O preço chama atenção. A anuidade do MBA de Harvard para o ano letivo 2026-2027 é de US$ 84.760, de acordo com a Le Grand Continent, o que coloca o Foundry abaixo de 1% desse valor.[4] A lógica econômica é transparente: o professor grava uma vez, e sua réplica atende milhares.
No Imperial College, a experiência é anterior e mais artesanal. O professor David Shrier, que leciona inteligência artificial e inovação na escola de negócios da instituição, mantém desde janeiro de 2024 uma réplica que os alunos apelidaram de Davatar. Segundo o EL PAÍS, o sistema foi alimentado com mais de meio milhão de palavras de textos e materiais do docente e atende a disciplina AI Ventures, que cresceu de 78 para cerca de 200 alunos.[1] A trajetória de Shrier dá ao caso um contorno particular: uma instituição em que ele lecionou antes continuou usando vídeos gravados por ele para promover um curso depois de sua saída, sem remuneração, e ele precisou contratar advogado para retirá-los do ar.[1] O avatar atual, ele faz questão de frisar, pertence a ele.
A promessa: escalar a prática, não a informação
Os defensores do modelo não vendem os avatares como substitutos da aula expositiva. O argumento é outro. Informação já é abundante; o que é escasso, sobretudo em escolas de negócios, é a oportunidade de praticar diante de alguém que reage. A equipe do Foundry sustenta, segundo o EL PAÍS, que a IA permite ampliar o acesso à prática, e não apenas ao conteúdo, e que um rosto conhecido reduz a sensação de conversar com uma caixa-preta.[1]
A recepção parece ter surpreendido a própria Harvard. Katharina Rings, diretora do programa, contou ao TechCrunch que o projeto começou como um assistente em texto, no formato dos chatbots, e migrou para o vídeo depois de testes com estudantes. Jeff Bussgang, professor da escola e rosto mais visível do curso, admitiu à mesma publicação que acha a própria réplica um tanto perturbadora, embora relate boa aceitação entre os alunos.[5]
O que ainda não se sabe
O ponto frágil está na evidência. Harvard reconhece que o Foundry é recente demais para ter resultados longitudinais que comparem quem treinou com avatares e quem não treinou.[1] O que existe são pesquisas de satisfação: participantes relatam chegar mais tranquilos às reuniões, e investidores dizem tê-los achado mais precisos nas apresentações. É um dado relevante, mas é um dado de percepção, coletado pela própria instituição que vende o curso.
Enrique Dans, professor de inovação da IE University, resumiu o problema ao jornal espanhol. Os avatares podem até entregar resultados equivalentes a um custo menor, ou alcançar quem hoje não recebe orientação nenhuma, mas, nas palavras dele, "sem avaliação independente, só temos uma ferramenta de marketing com aparência de docente".[1]
A autoridade emprestada
O risco mais discutido é o erro. Sistemas de IA generativa produzem afirmações falsas com fluência, fenômeno conhecido como alucinação. O EL PAÍS lembra que, em fevereiro de 2024, um teste do Wall Street Journal com o Khanmigo, tutor da Khan Academy, encontrou falhas em subtrações elementares e uma resposta errada sobre o teorema de Pitágoras aprovada com entusiasmo pelo sistema.[1]
O avatar acrescenta uma camada nova ao problema. Quando um chatbot genérico erra, o estudante tende a atribuir a falha à máquina. Quando o erro sai da boca de um catedrático reconhecível, chega revestido da credibilidade daquele professor. Dans descreve exatamente esse deslocamento: o aluno não enxerga uma falha algorítmica, enxerga uma afirmação do mestre.[1] Por isso, a pergunta sobre quem revisa o que o avatar diz deixa de ser detalhe operacional e passa a ser questão central de responsabilidade acadêmica.
Quando o rosto é de um professor conhecido, o erro deixa de parecer defeito de software e passa a soar como opinião de especialista.Análise O Tecido
As respostas variam entre os próprios docentes. Em Harvard, cada professor pode revisar e corrigir o que sua réplica diz. Bussgang, porém, contou que deixou de acompanhar as conversas e passou a confiar na equipe do programa e no algoritmo. Shikhar Ghosh, outro professor clonado, faz o caminho oposto: atualiza o avatar conforme muda de opinião e recebe alertas quando alguém tenta levar a simulação para fora do tema, como o usuário que pediu ajuda para redigir um acordo pré-nupcial. Shrier negociou com a Star Echo, empresa que opera seu avatar, limites sobre o que a réplica pode gerar.[1] Em resumo, a qualidade da supervisão depende hoje da disposição individual de cada professor, e não de uma regra institucional.
Professores fora da mesa de decisão
A adoção acelerada encontra resistência organizada nos Estados Unidos. Em julho de 2025, a Associação Americana de Professores Universitários (AAUP) publicou o relatório Artificial Intelligence and Academic Professions, baseado em cerca de 500 respostas de associados de quase 200 campi. Para 71% deles, as decisões sobre IA nas instituições são conduzidas de forma esmagadora por gestores, com pouca participação de docentes, funcionários ou estudantes. Ao mesmo tempo, 90% disseram que suas instituições já integram IA ao ensino e à pesquisa.[6]
O relatório aponta ainda implicações para a propriedade intelectual dos professores, preocupação que, segundo o EL PAÍS, também predomina entre os docentes do Imperial College, ao lado do receio de que a IA lhes atribua opiniões equivocadas ou desatualizadas.[1]
A lei corre atrás
No plano regulatório, o mapa é fragmentado. Os Estados Unidos não têm lei federal sobre réplicas digitais; estados como Califórnia e Tennessee já tratam do assunto, e o projeto No Fakes, que criaria uma norma nacional, passou em junho pela comissão de Justiça do Senado e segue em tramitação. Na União Europeia, o artigo 50 do Regulamento de Inteligência Artificial passou a exigir, desde 2 de agosto de 2026, que usuários sejam informados quando interagem com uma IA e que conteúdos que imitam pessoas reais sejam rotulados. Na Espanha, o Conselho de Ministros aprovou em 7 de julho um projeto de lei orgânica que considera ilegítimo o uso não autorizado da voz ou da imagem de alguém, por meio de IA, para fins publicitários ou comerciais.[1]
Nenhum desses instrumentos foi desenhado para a sala de aula. Como observou a Le Grand Continent, nem a legislação americana de direitos autorais nem os contratos de trabalho universitários foram pensados para regular a reprodução digital de um professor.[4]
E o Brasil?
No Brasil, avatares de professores ainda não viraram notícia, mas os ingredientes do debate já estão sobre a mesa. O primeiro é a adoção. A pesquisa TIC Educação 2024, do Cetic.br/NIC.br, indicou que 58% dos professores e 70% dos alunos do ensino médio já usavam ferramentas de IA generativa em atividades escolares, segundo levantamento publicado pelo Extra Classe. Um estudo setorial do mesmo centro, divulgado em novembro de 2025, mostrou que esse uso intenso ocorre sem diretrizes claras e que muitos docentes se sentem despreparados.[7]
O segundo é a orientação oficial. O MEC lançou em 2026 o Referencial para o Desenvolvimento e Uso Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação, depois de consulta pública aberta em outubro de 2025. O documento organiza princípios, mas, como lembra coluna publicada no Brasil de Fato, não tem força normativa e não vincula mantenedoras públicas ou privadas.[8]
O terceiro é a educação superior a distância, setor em que a tentação de escalar professores por meio de réplicas seria maior. O Decreto nº 12.456, de maio de 2025, instituiu a Nova Política de Educação a Distância, vedou graduações inteiramente remotas e reforçou exigências sobre corpo docente e mediação pedagógica, incluindo quantidade de professores compatível com o número de estudantes.[9] A norma não menciona avatares. Fica em aberto uma pergunta que reguladores e instituições terão de enfrentar: uma réplica digital pode cumprir funções que o decreto atribui a docentes e mediadores, ou deve ser tratada apenas como material didático sofisticado?
O quarto é a regulação geral da IA. O PL 2.338/2023, que cria o marco legal da inteligência artificial, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e tramita na Câmara dos Deputados, onde é analisado por comissão especial. Propostas sobre identificação e rotulagem de conteúdos gerados por IA, como o PL 1.528/2026, também correm no âmbito dessa comissão.[10]
Enquanto a lei específica não chega, o ordenamento já oferece balizas. A Constituição protege a imagem como direito fundamental, o Código Civil permite impedir o uso não autorizado da imagem com fins comerciais, e a Lei Geral de Proteção de Dados classifica dados biométricos como dados pessoais sensíveis.[11] Um avatar que reproduz rosto e voz de um professor trata, em tese, exatamente esse tipo de dado. A contratação de réplicas por universidades brasileiras exigiria, no mínimo, consentimento específico, finalidade definida e regras claras sobre o destino do clone quando o vínculo termina, o mesmo problema que Shrier enfrentou na prática.
O que observar daqui em diante
- Avaliação independente. Sem estudos controlados conduzidos fora das instituições que vendem os cursos, o ganho de aprendizagem continua sendo hipótese.
- Consentimento e remuneração. Quem é dono do avatar, por quanto tempo ele pode ser usado e como o docente é remunerado quando sua réplica atende milhares de alunos.
- Rastreabilidade. Se o estudante consegue saber quando uma resposta foi revisada pelo professor e quando foi gerada sem supervisão humana.
- Enquadramento regulatório no Brasil. Se o MEC e o Congresso vão tratar réplicas digitais como docência, como material didático ou como categoria própria.
Bussgang disse ao EL PAÍS que não consegue imaginar ambiente em que o formato não funcione.[1] Talvez esteja certo sobre a tecnologia. A educação, porém, sempre dependeu de algo que não se clona com meio milhão de palavras: a responsabilidade de quem assina aquilo que ensina.
Perguntas frequentes
O que é um avatar de professor com inteligência artificial?
É uma réplica digital que reproduz a aparência, a voz e o estilo de um docente real. Ela é treinada com materiais do próprio professor e conversa com alunos em texto ou vídeo, sem a presença dele em tempo real.
Quais universidades já usam avatares de professores?
A Harvard Business School usa avatares de sete docentes no programa HBS Foundry, lançado em abril de 2026 e vendido por US$ 699. No Imperial College London, o professor David Shrier mantém desde janeiro de 2024 uma réplica chamada Davatar para a disciplina AI Ventures.
Os avatares de IA melhoram o aprendizado?
Ainda não há comprovação. Harvard admite não ter resultados longitudinais que comparem alunos que treinaram com avatares e alunos que não treinaram. Os dados disponíveis são pesquisas de satisfação feitas pela própria instituição.
Quais são os principais riscos dos clones digitais de professores?
O principal é o erro com autoridade emprestada: uma resposta incorreta dada pelo avatar parece vir do professor real. Há também questões de direito de imagem, propriedade intelectual, uso de dados biométricos e falta de participação docente nas decisões institucionais.
Existe lei sobre réplicas digitais de professores?
Não há lei específica para o ensino. Nos Estados Unidos, alguns estados regulam réplicas digitais e o projeto federal No Fakes segue em tramitação. Na União Europeia, desde 2 de agosto de 2026, o artigo 50 do Regulamento de IA exige aviso ao usuário e rotulagem de conteúdos que imitam pessoas reais.
Como o Brasil trata o uso de IA na educação?
O MEC publicou em 2026 um Referencial para o uso responsável de IA na educação, sem força normativa. O marco legal da IA, PL 2.338/2023, tramita na Câmara. A LGPD trata dados biométricos como sensíveis, e o Decreto nº 12.456/2025 reforçou exigências de corpo docente na educação a distância, sem mencionar avatares.
Nota de atribuição. Este artigo tem como ponto de partida a reportagem "Llegó la hora de los avatares en las aulas: Harvard clona a sus docentes", de Luis Enrique Velasco, publicada pelo EL PAÍS em 19 de outubro de 2026. O Tecido não reproduz nem traduz o texto original; as informações atribuídas ao jornal espanhol foram parafraseadas e creditadas, e a análise, o contexto brasileiro e as demais fontes são de responsabilidade desta publicação.