Por décadas, a prova padronizada foi o instrumento que universidades e empregadores usaram para separar quem sabia de quem não sabia. Bastava memorizar, aplicar uma fórmula, redigir um texto dentro das regras. Essa lógica está rachando. Hoje um estudante pede a um chatbot que resolva uma equação, escreva um código ou resuma um artigo acadêmico em segundos — e o resultado, muitas vezes, é indistinguível do que um aluno dedicado levaria horas para produzir sozinho.
A pergunta que ronda educadores no Brasil e no mundo não é mais "a IA vai substituir o professor", mas algo mais incômodo: se uma máquina resolve a prova tão bem quanto o aluno, o que exatamente essa prova está medindo? Um artigo recente do acadêmico John Quelch, vice-chanceler executivo da Duke Kunshan University, na China, resume o dilema ao propor que a resposta não é abandonar a avaliação, e sim redesenhá-la para medir o que a inteligência artificial ainda não faz: julgamento, criatividade, curiosidade e resiliência diante de problemas sem solução óbvia[1].
No Brasil, esse debate deixou de ser hipotético. Uma pesquisa do Observatório Fundação Itaú, conduzida entre novembro e dezembro de 2024 com quase dois mil estudantes de todo o país, mostrou que 84% dos alunos e 79% dos professores já haviam usado alguma ferramenta de inteligência artificial generativa em atividades escolares. O dado mais revelador, porém, é outro: apenas 32% dos estudantes afirmaram ter recebido qualquer orientação da escola sobre como usar essas ferramentas de forma responsável[2]. A tecnologia chegou à sala de aula antes das regras — e antes, também, de qualquer critério claro sobre como avaliar o que ela produz.
O Enem também está mudando
A resposta institucional brasileira começa a tomar forma em duas frentes distintas. A primeira é técnica: o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) confirmou que o Enem 2026 vai incorporar inteligência artificial ao processo de elaboração e pré-testagem das questões do Banco Nacional de Itens, tornando o modelo híbrido — combinando análise automatizada com avaliação humana — em resposta a falhas identificadas no método atual, que dependia quase inteiramente de interações presenciais[3]. O Inep foi claro ao afirmar que a IA vai complementar, não substituir, as etapas conduzidas por especialistas humanos.
A segunda frente é regulatória. O Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou em votação inicial, em 11 de maio de 2026, as primeiras diretrizes federais para o uso de inteligência artificial na educação básica e superior, com base em texto de referência do Ministério da Educação. A proposta passou por consulta pública até 14 de junho e, ao final de julho, ainda seguia para votação em plenário e homologação antes de virar norma oficial[4]. Um dos pontos centrais em debate é justamente como as instituições devem tratar o uso de IA em avaliações — se apenas como ferramenta de apoio ou como algo que precisa ser declarado e supervisionado por professores.
Enquanto a regulamentação nacional avança devagar, alguns estados já se anteciparam. O Piauí tornou-se, segundo a Secretaria de Inteligência Artificial, Economia Digital, Ciência, Tecnologia e Inovação do estado, o primeiro território das Américas a incluir inteligência artificial como disciplina obrigatória, tanto no 9º ano do Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio[5]. A justificativa do secretário André Macedo é direta: a IA não é um fim em si mesma, mas um instrumento — e a educação apareceu como uma das prioridades mais óbvias dessa agenda.
Um exame internacional também está de olho nisso
O movimento não é só brasileiro. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) confirmou que o Pisa — o principal exame comparativo internacional, aplicado a estudantes de 15 anos em dezenas de países — vai incluir a partir de 2029 uma nova área de avaliação batizada de MAIL (Media and Artificial Intelligence Literacy, ou letramento em mídia e inteligência artificial). Segundo Luís Francisco Vargas Madriz, especialista da OCDE à frente do desenvolvimento da nova matriz, a intenção é medir se os jovens aprenderam a agir de forma crítica e responsável em um ambiente mediado por plataformas digitais e sistemas de IA[6]. Madriz observa que o histórico do Pisa mostra seu poder de indução curricular: temas como matemática financeira e pensamento criativo, incluídos em edições anteriores, acabaram influenciando o que se ensina em escolas brasileiras depois.
É exatamente esse o ponto que Quelch levanta em seu artigo para o China Daily: se dois alunos entregam ensaios igualmente bem escritos, um simplesmente aceitando um rascunho gerado por IA com revisão mínima, e o outro usando a ferramenta como um interlocutor que questiona, verifica evidências e desenvolve um argumento original, a avaliação tradicional talvez não veja diferença nenhuma entre os dois. Uma avaliação mais sofisticada, argumenta o autor, precisa olhar para o processo de pensamento que produziu o resultado — não apenas para o produto final[1]. Na Duke Kunshan, essa lógica já orienta o "Signature Work", projeto de pesquisa ou trabalho criativo obrigatório para todo aluno de graduação, avaliado pela capacidade de formular perguntas relevantes e sintetizar conhecimento entre disciplinas, não apenas pelo domínio de conteúdo[1].
Contraponto
Nem todos veem essa transição com o mesmo otimismo. Pesquisadores que estudam o tema no Brasil apontam um risco de desigualdade: avaliações que dependem de discussão em sala, apresentações orais e acompanhamento próximo do processo de aprendizagem exigem turmas menores, professores mais bem formados e infraestrutura tecnológica estável — recursos distribuídos de forma desigual entre redes públicas e privadas e entre regiões do país[7].
Há também quem questione se cobrar que o aluno declare e compare seu uso de IA, como sugerem algumas propostas pedagógicas, não acaba punindo justamente os estudantes com menos acesso a orientação sobre como usar essas ferramentas de forma estratégica — o mesmo grupo que, segundo a pesquisa da Fundação Itaú, é o que menos recebe essa orientação nas escolas[2]. Para esses críticos, redesenhar a avaliação sem antes universalizar o acesso e a formação docente corre o risco de aprofundar, em vez de reduzir, as desigualdades educacionais já existentes no país.
O que fica de fato em jogo
Nenhuma das mudanças em curso — no Enem, no CNE, no Pisa ou nas universidades chinesas citadas por Quelch — propõe abandonar o conhecimento factual. O próprio autor do China Daily reconhece que um aluno não consegue pensar criticamente sobre aquilo que não entende. O que está em discussão é outra coisa: se a escola vai continuar recompensando quem produz a resposta certa, ou se vai passar a valorizar também quem sabe formular a pergunta certa, avaliar uma evidência contraditória e explicar não só o que decidiu, mas por que e como chegou até ali.
É uma mudança de critério, não de conteúdo. E talvez seja também a mudança mais difícil de implementar em qualquer sistema educacional: trocar um instrumento de medição que é rápido, padronizado e barato de aplicar por outro que exige mais tempo, mais formação de professores e mais tolerância à subjetividade. O Brasil está apenas começando esse movimento — e o ritmo em que cada rede de ensino vai adaptá-lo pode se tornar, nos próximos anos, uma nova forma de desigualdade educacional, ou uma oportunidade real de repensar o que a escola deveria ensinar desde sempre.
Compartilhe esta reflexão
Voz do Leitor
O que você achou deste artigo? Deixe sua opinião, crítica ou sugestão. Queremos tecer essa conversa com você. Suas visões são fundamentais e podem ser publicadas em nossa seção de "Cartas dos Leitores".
Por que existimos?
Entenda os valores que guiam nossa curadoria e o debate de alto nível.
Ver ManifestoTem uma ideia?
Damos todo suporte caso você tenha apenas uma ideia concebida, mas queira evoluir seu artigo.
Entrar em ContatoFaça parte do tecido
Seja um editor colaborador