Caderno Tecnologia · Geopolítica da inovação
Na terça-feira, 29 de setembro, o Ministério da Ciência e Tecnologia da China declarou que o país está deixando a condição de participante e colaborador da ciência global para assumir o papel de pioneiro e líder. No dia seguinte, um comentário da Xinhua publicado pelo People's Daily transformou a declaração em tese de Estado: a autossuficiência científica e tecnológica deixou de ser uma meta setorial e passou a ser o alicerce do modelo de desenvolvimento chinês para o período de 2026 a 2030.1
O texto tem a função esperada de uma peça oficial. Apresenta números, reconhece vulnerabilidades com economia de detalhes e rebate as críticas externas. O que interessa a um leitor brasileiro, no entanto, não é aderir ou rejeitar a narrativa, e sim separar o que os dados confirmam, o que eles relativizam e o que esse movimento diz sobre as escolhas que o Brasil vem adiando há mais de uma década.
Os números por trás do discurso
O ponto de partida é verificável. Em março, durante a sessão anual do Congresso Nacional do Povo, o ministro Yin Hejun informou que o gasto total chinês em P&D ultrapassou 3,92 trilhões de yuans em 2025, o equivalente a 2,8% do PIB.2 Um ano antes, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas da China, o montante havia sido de 3,61 trilhões de yuans, com intensidade de 2,68%.3 Convertido em dólares, o valor de 2025 fica entre US$ 569 bilhões e US$ 585 bilhões, a depender do câmbio adotado por cada veículo.
Dois dados ajudam a entender a direção, mais do que o volume. O primeiro é a meta: as diretrizes do 15º Plano Quinquenal preveem crescimento médio de pelo menos 7% ao ano no gasto nacional em P&D até 2030.2 O segundo é a composição. A pesquisa básica, aquela sem aplicação comercial definida, chegou a quase 280 bilhões de yuans, ou 7,08% do total, pela primeira vez acima da marca de 7%.2 É um recorde para a China e, ao mesmo tempo, um indicador de defasagem: análises citadas pela imprensa especializada lembram que economias líderes da OCDE costumam destinar entre 15% e 20% de seus orçamentos de P&D à pesquisa básica.4
Há ainda um traço estrutural que costuma escapar ao debate: o motor do gasto chinês é empresarial. Segundo o órgão oficial de estatísticas, as empresas respondem há anos por mais de 75% do dispêndio total em P&D do país.5 A política industrial define prioridades, mas quem executa a maior parte do investimento é o setor produtivo.
Onde a autossuficiência ainda não chegou
O comentário oficial admite que semicondutores avançados, equipamentos de manufatura de ponta e alguns materiais críticos ainda dependem de importação, e atribui aos controles de exportação dos últimos anos a lição de que tecnologias centrais precisam ser desenvolvidas internamente.1 A admissão é correta, mas o tamanho da lacuna aparece com mais nitidez em fontes setoriais.
Dados da associação chinesa da indústria de semicondutores, relatados pela publicação holandesa Bits&Chips, indicam que 35% dos equipamentos usados pela indústria de chips do país em 2025 eram de fabricação nacional, um salto de dez pontos em um ano, com avanços expressivos em gravação e deposição de filmes finos.6 A mesma fonte registra que, em litografia e metrologia, a substituição local segue bem mais baixa. E o próprio número agregado está em disputa: a consultoria Yole Group estimou a taxa de localização em 23,2% em 2025, partindo de 8% em 2021, e apontou a litografia avançada como a maior fraqueza do projeto chinês.7
A divergência não é detalhe técnico. Ela mostra que a autossuficiência é medida de maneiras distintas conforme quem mede, e que o discurso oficial tende a privilegiar os indicadores mais favoráveis. Mesmo projeções otimistas preservam a ressalva: analistas citados pela imprensa sul-coreana observam que as fundições chinesas continuam dependentes da ASML para litografia DUV avançada, e o Goldman Sachs vê pouca chance de redução relevante, no curto prazo, da distância em relação às líderes globais de memória DRAM.8
A autossuficiência chinesa é real nas etapas intermediárias da cadeia. No elo mais estratégico, a litografia, ela ainda é mais promessa do que capacidade instalada.
A tese da oportunidade compartilhada
A segunda metade do comentário responde a uma crítica recorrente: a de que o impulso tecnológico chinês seria ameaçador e voltado para dentro. O argumento oficial se apoia em três pilares. A China ampliaria a oferta global de inovação, com modelos de IA de código aberto adotados por desenvolvedores de vários países e avanços em baterias e energia limpa. Expandiria a fronteira do conhecimento em áreas como computação quântica e ciência espacial. E manteria acordos de cooperação científica com mais de 160 países e regiões.1
Parte disso encontra respaldo em métricas independentes. No Índice Global de Inovação de 2025, publicado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual, a China entrou pela primeira vez no grupo dos dez primeiros e passou a abrigar 24 dos 100 principais polos de ciência e tecnologia do mundo, com o eixo Shenzhen–Hong Kong–Guangzhou na liderança global.9 Para o Brasil, que depende de baterias, painéis solares e componentes chineses para sua transição energética, a escala produtiva chinesa é um fato econômico concreto, não uma abstração diplomática.
A tese, porém, convive com sinais em sentido contrário que o próprio texto oficial não menciona. Reportagem do Asia Times relata que Pequim teria orientado fabricantes de chips a elevar para 50% o uso de equipamentos nacionais, uma exigência sem documentação pública e aplicada por meio de licitações.10 Uma política de substituição compulsória de fornecedores é, por definição, voltada para dentro. Isso não a torna ilegítima, já que Estados Unidos e União Europeia adotam instrumentos parecidos, mas enfraquece a ideia de que a estratégia chinesa seria essencialmente aberta.
O que a leitura crítica acrescenta
Sobre os dados. Os números centrais do comentário vêm do próprio governo chinês. Eles são coerentes com séries históricas e com rankings internacionais, mas a disputa sobre a taxa de localização de equipamentos (35% segundo a associação setorial chinesa, 23,2% segundo a Yole) mostra que indicadores de autossuficiência admitem metodologias diferentes.
Sobre a qualidade da inovação. A fatia de 7% em pesquisa básica, ainda distante das economias de fronteira, sugere um sistema forte em engenharia, escala e aplicação, e mais frágil na produção de conhecimento original, justamente o que o discurso de "pioneirismo" reivindica.
Em defesa da estratégia. Por outro lado, a trajetória é difícil de contestar: o país subiu 25 posições no Índice Global de Inovação desde 2013, segundo a cobertura do Poder360, e os próprios controles de exportação ocidentais aceleraram a substituição de fornecedores que pretendiam conter.11 Tratar o projeto chinês apenas como propaganda subestima sua capacidade de execução.
O espelho brasileiro
A comparação com o Brasil é desconfortável, mas instrutiva. Segundo dados do MCTI apresentados à Mobilização Empresarial pela Inovação, o país investiu 1,19% do PIB em P&D em 2023, com o pico da última década em 2015 (1,28%) e o piso em 2017 (1,12%).12 O próprio representante do ministério descreveu o quadro como de certa estagnação. A mesma apresentação mostrou que cerca de metade do investimento vem do setor privado, contra mais de três quartos na China.
Há sinais de recomposição. O Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico atingiu orçamento recorde de R$ 14,6 bilhões, e o planejamento plurianual prevê R$ 96 bilhões para o fundo entre 2025 e 2029.12 Ainda assim, no Índice Global de Inovação de 2025 o Brasil caiu pelo segundo ano seguido e ficou em 52º lugar entre 139 economias, perdendo a liderança latino-americana para o Chile. Entre as economias de renda média-alta, ocupa a quinta posição, atrás de China, Malásia, Turquia e Tailândia.13
Semicondutores: a escolha pelo nicho
O contraste mais revelador está nos chips. Enquanto a China tenta dominar a cadeia inteira, o Brasil decidiu competir em um segmento específico. Depois de reverter a liquidação da Ceitec, em Porto Alegre, o MCTI anunciou R$ 220 milhões para adaptar a fábrica à produção em escala de semicondutores de carbeto de silício, componentes de potência usados em painéis fotovoltaicos e veículos elétricos.14
A justificativa é pragmática. O presidente da estatal, Augusto Gadelha, afirmou ao Diário do Comércio que produzir chips de silício para memória e celulares exigiria investimento estatal maciço, e que atualizar a planta para semicondutores de silício na faixa de 50 a 100 nanômetros custaria cerca de US$ 2 bilhões. A previsão era iniciar a fabricação dos chips de carbeto de silício no segundo semestre de 2026.15
A estratégia de nicho é coerente com a escala do orçamento brasileiro e com a vantagem do país em energia renovável. O risco está em outro lugar: a trajetória da Ceitec, criada, esvaziada, posta em liquidação e depois resgatada, é exatamente o tipo de descontinuidade que o modelo chinês evita. A lição da China para o Brasil não é gastar 2,8% do PIB amanhã. É sustentar uma prioridade por tempo suficiente para que ela produza capacidade.
O que está em jogo
O comentário publicado pelo People's Daily cumpre sua função política: apresenta a autossuficiência como necessidade doméstica e como benefício global ao mesmo tempo. Os dados confirmam a escala do esforço e a velocidade da ascensão, mas também mostram que o elo mais crítico, a litografia, continua fora do alcance, e que a base de pesquisa fundamental ainda é estreita para um país que se declara pioneiro.
Para o Brasil, a questão prática é de posicionamento. Um mundo em que China e Estados Unidos disputam cadeias tecnológicas inteiras abre espaço para países médios que escolhem nichos com clareza e os mantêm ao longo de vários governos. O país tem produção científica relevante e uma vantagem energética rara. O que lhe falta, segundo seus próprios indicadores, é constância no financiamento e maior participação das empresas no esforço de pesquisa.
Perguntas frequentes
Quanto a China investiu em P&D em 2025?
Mais de 3,92 trilhões de yuans, ou 2,8% do PIB, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia. Em dólares, entre US$ 569 bilhões e US$ 585 bilhões, conforme o câmbio.
O que é a autossuficiência científica no 15º Plano Quinquenal?
É a diretriz que torna o domínio próprio de tecnologias críticas a base do crescimento chinês entre 2026 e 2030, com meta de expandir o gasto em P&D em pelo menos 7% ao ano.
A China já é autossuficiente em chips?
Não. Cerca de 35% dos equipamentos usados em 2025 eram nacionais, segundo a associação setorial chinesa, mas a litografia avançada ainda depende da holandesa ASML.
Como o Brasil se compara?
O Brasil investiu 1,19% do PIB em P&D em 2023, patamar estável há uma década, com metade do gasto vindo de empresas. Na China, as empresas respondem por mais de 75%.
Qual é a aposta brasileira em semicondutores?
A Ceitec recebeu R$ 220 milhões para produzir semicondutores de carbeto de silício, voltados à eletrônica de potência e à transição energética, em vez de disputar chips de silício de fronteira.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido · Caderno Tecnologia