A campanha eleitoral brasileira começa oficialmente em 16 de agosto sob um tipo de pressão que a redemocratização, iniciada nos anos 1980, ainda não havia experimentado: a de uma potência estrangeira interferindo abertamente no pleito. Nas últimas semanas, o governo de Donald Trump encadeou uma sequência de medidas que vão de tarifas comerciais a sanções pessoais contra um ministro do Supremo Tribunal Federal, alimentando a percepção, já registrada em pesquisas, de que a Casa Branca busca favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.
O tarifaço e o argumento da "caça às bruxas"
A escalada começou ainda em 2025, quando Trump impôs uma tarifa de 50% sobre parte das exportações brasileiras, vinculando publicamente a medida ao julgamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Boa parte daquela sobretaxa acabou revertida pela Suprema Corte dos Estados Unidos meses depois. Em julho de 2026, porém, o governo americano voltou à carga: anunciou uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros após uma investigação comercial e, dias depois, somou uma sobretaxa adicional de 12,5% associada a alegações de abusos trabalhistas.
A lista de produtos isentos chamou atenção de analistas brasileiros: carne bovina, madeira e minério de ferro, alguns dos maiores vetores de desmatamento na Amazônia, ficaram de fora das tarifas, mesmo quando a Casa Branca citou a devastação da floresta entre as justificativas da medida.
O que os brasileiros pensam da interferência
Uma pesquisa Datafolha divulgada em 27 de julho de 2026 mostrou que 52% dos eleitores brasileiros acreditam que o tarifaço tem como objetivo ajudar a campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência. Outros 37% discordam da avaliação, e 11% não souberam responder. O instituto também apurou que a maioria da população rejeita a retaliação: 74% defendem que o Brasil negocie uma saída para a crise comercial, contra apenas 2% favoráveis a aceitar integralmente as exigências de Washington (Datafolha via Diário do Grande ABC).
Vistos negados e a disputa pela integridade das urnas
Em 24 de julho de 2026, o Itamaraty negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado americano, Riley M. Barnes e Samuel Samson, que pretendiam viajar a Brasília. A reportagem do Washington Post que revelou o episódio apurou, com quatro autoridades brasileiras e americanas, que a missão tinha como objetivo levantar dúvidas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. A viagem seria feita um dia depois de o pré-candidato Flávio Bolsonaro questionar publicamente a segurança das urnas eletrônicas em evento com embaixadores em Brasília, citando documentos da CIA sobre supostas fraudes na Venezuela (Poder360).
O Tribunal Superior Eleitoral já rebateu publicamente as alegações sobre vulnerabilidade das urnas. O sistema eletrônico de votação brasileiro, em uso há três décadas, passa por auditorias de partidos, universidades, Ministério Público, Polícia Federal, OAB, Congresso Nacional, TCU e especialistas independentes em tecnologia, segundo levantamento sobre o episódio (Forças Terrestres).
A "emergência nacional" prorrogada e as sanções a Moraes
Em 28 de julho de 2026, o governo Trump publicou no Registro Federal a prorrogação, por mais um ano, da "emergência nacional" declarada em 2025 em relação ao Brasil. O documento oficial mantém como justificativa a alegação de que decisões do Supremo Tribunal Federal, incluindo a "censura e o encarceramento de pessoas que exercem a liberdade de expressão", representam uma ameaça à segurança e à economia dos Estados Unidos (Federal Register).
A ordem original, de julho de 2025, veio acompanhada de sanções ao ministro Alexandre de Moraes sob a Lei Magnitsky Global, mecanismo até então reservado a autoridades de países como Rússia, Irã e Venezuela. As sanções contra Moraes chegaram a ser suspensas no fim de 2025, em meio à normalização das relações entre os governos Lula e Trump, mas a manutenção da "emergência nacional" em 2026 indica que o instrumento legal que sustenta novas medidas contra autoridades brasileiras segue formalmente ativo (Chatham House).
Milei em campanha aberta pelo bolsonarismo
Em 25 de julho, o presidente argentino Javier Milei discursou na convenção do Partido Liberal que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Milei chamou Lula de "ladrão" e "presidiário" e classificou o ministro Alexandre de Moraes como "lixo careca", em referência à recusa de autorização para visitar Jair Bolsonaro na prisão. O episódio gerou crise diplomática: o Palácio do Planalto convocou o embaixador argentino no Brasil para prestar esclarecimentos (Revista Fórum).
Contraponto
Nem todos leem a sequência de medidas americanas como interferência eleitoral coordenada. Setores próximos ao governo Trump e à família Bolsonaro sustentam que as tarifas e sanções são resposta legítima a decisões do Judiciário brasileiro, que classificam como perseguição política e restrição à liberdade de expressão, não como instrumento de campanha. O Departamento de Estado americano, por meio de porta-voz, afirmou em 23 de julho de 2026 que os Estados Unidos têm "interesse histórico e global na liberdade de expressão e na integridade dos processos democráticos em todo o mundo, incluindo o Brasil".
Também há quem argumente, dentro do próprio establishment econômico brasileiro, que a resposta correta é a negociação técnica, e não a retórica de confronto soberanista, para evitar danos maiores às exportações e ao investimento estrangeiro. A pesquisa Datafolha citada acima mostra que essa é, de fato, a posição majoritária da população.
O tabuleiro eleitoral até outubro
O episódio recoloca em pauta uma inversão pouco usual no espectro político brasileiro: Lula, historicamente identificado com a esquerda, passou a apostar no discurso da soberania nacional, bandeira tradicionalmente empunhada pela direita, enquanto setores da própria direita nacionalista mostram disposição a alinhar-se ao governo americano. Como a interferência declarada de uma potência estrangeira vai repercutir entre o eleitorado não polarizado, especialmente diante da sobreposição entre retórica patriótica e proximidade com Washington, é uma das variáveis mais incertas da corrida presidencial que começa oficialmente em 16 de agosto.