2 de setembro de 2026
Caderno Política · O Tecido
Análise · Linguagem e gasto público

Assistencialismo ou incentivo? Como a direita nomeia o gasto público nos EUA e no Brasil

Uma crítica recorrente feita a setores da direita — nos Estados Unidos e no Brasil — é que benefícios a famílias pobres são rotulados como risco ideológico, enquanto isenções e subsídios a empresas e a rendas altas são descritos como política econômica responsável. Os números por trás dessa disputa de linguagem, e a defesa que os críticos dessa leitura apresentam.

Há uma crítica que atravessa think tanks progressistas, parte da imprensa e, com menos frequência, também vozes libertárias: a de que o vocabulário usado para descrever gasto público muda de acordo com quem recebe o benefício. Um mesmo governo pode chamar a expansão de cobertura de saúde para famílias pobres de risco fiscal e, na página seguinte do orçamento, chamar a prorrogação de isenções para grandes contribuintes de estímulo ao crescimento. Essa tensão apareceu com força nos Estados Unidos em 2025 e 2026, em torno da megalei tributária de Donald Trump, e tem uma versão brasileira antiga, reaquecida a cada debate sobre o Bolsa Família e a reforma tributária.

Este texto não trata a crítica como veredito automático — ela tem uma resposta conservadora consistente, que também é apresentada abaixo — mas organiza os números que alimentam a controvérsia dos dois lados do Equador.

Estados Unidos: um trilhão de corte, um trilhão de isenção

A "One Big Beautiful Bill Act" (OBBBA), sancionada por Trump em 4 de julho de 2025, tornou-se o principal objeto dessa disputa retórica. Análise do Yale Budget Lab, distribuída antes da votação final, estimou que a lei reduziria a renda anual dos 20% mais pobres dos domicílios americanos em cerca de 2,9%, enquanto concentrava os maiores ganhos tributários nos domicílios de renda mais alta. O Center for American Progress, cruzando dados do Congressional Budget Office (CBO) e do Joint Committee on Taxation, chegou a uma simetria que se tornou símbolo do debate: aproximadamente 1 trilhão de dólares em cortes ao Medicaid ao longo de dez anos, praticamente equivalente ao 1 trilhão de dólares em cortes de impostos concentrados no 1% mais rico da população.

A Casa Branca nega que a lei seja regressiva no conjunto, argumentando que a maior parte dos cortes de impostos "mira squarely" a classe média — nas palavras de analistas tributários citados pela CBS News — e que a extensão dos cortes de 2017 evitou um aumento de impostos generalizado que ocorreria com a expiração automática da lei anterior. Defensores da lei também justificam as novas exigências de trabalho para o Medicaid como uma atualização da reforma da previdência social de 1996, sob Bill Clinton, que teria reduzido a dependência de programas assistenciais sem produzir o colapso social que os críticos previam à época.

"O corte de impostos das famílias trabalhadoras do presidente Trump está entregando alívio econômico de curto prazo e, ao mesmo tempo, lançando as bases para o crescimento de longo prazo."Porta-voz da Casa Branca, em nota à CBS News sobre a OBBBA

Críticos da lei — entre eles o think tank progressista Center for American Progress e o veículo In These Times — apontam que a linguagem de "reduzir dependência" e combater o "ocioso" tem sido usada seletivamente: pesquisas do KFF mostram que a maioria dos adultos cobertos pelo Medicaid já trabalha, e o apoio popular às novas exigências cai substancialmente quando os entrevistados são informados de que trabalhadores de baixa renda também podem perder a cobertura por falhas de verificação burocrática, e não apenas por não trabalhar.

A crítica que vem também da direita libertária

Um dado frequentemente ignorado nesse debate é que a crítica ao "subsídio ao bem-conectado" não vem só da esquerda. O Cato Institute — think tank libertário, historicamente favorável a cortes de impostos e à redução do Estado — publica há décadas estudos sobre o que chama de "corporate welfare": subsídios diretos a empresas de agronegócio, energia, semicondutores, aviação e outros setores. Um levantamento do Cato de março de 2025 estimou esse gasto em 181 bilhões de dólares anuais em subsídios empresariais no orçamento federal americano, e recomendou que o próprio Partido Republicano cortasse a cifra como parte de qualquer agenda de responsabilidade fiscal — recomendação que, segundo a própria instituição, nunca foi seguida de forma consistente por nenhum dos dois partidos.

Brasil: R$ 903 bilhões de renúncia contra R$ 158,6 bilhões de Bolsa Família

O paralelo brasileiro tem sua própria simetria numérica. Levantamento da Unafisco (associação dos auditores fiscais da Receita Federal), com base no Demonstrativo de Gastos Tributários de 2026, projeta que a União deixará de arrecadar R$ 903,3 bilhões em impostos em 2026 — um crescimento de 8% sobre 2025. Desse total, a entidade classifica R$ 619,6 bilhões (o equivalente aos benefícios do Demonstrativo somados a outros não listados) como "privilégios tributários" sem contrapartida clara em emprego ou desenvolvimento, concentrados majoritariamente na Região Sudeste. Os dez maiores benefícios — que incluem isenções para o agronegócio, o setor imobiliário e programas de refinanciamento de dívidas empresariais — somam R$ 479,6 bilhões.

Em contraste, o Bolsa Família, principal programa brasileiro de transferência de renda, atendeu 18,9 milhões de famílias (49,4 milhões de pessoas) em outubro de 2025, a um custo anual de R$ 158,6 bilhões — valor que já vinha caindo em relação aos R$ 168,2 bilhões de 2024, após revisão de cadastros. Ou seja: a renúncia fiscal projetada para 2026 é quase seis vezes maior do que o gasto anual com o principal programa de combate à pobreza do país.

Setores da imprensa conservadora brasileira usam esses mesmos números para argumento oposto. A Revista Oeste, em reportagem de outubro de 2025, descreveu o conjunto de programas sociais brasileiros — somando Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o programa educacional Pé-de-Meia — como uma despesa de mais de R$ 400 bilhões anuais com o que chama de "assistencialismo", alertando para risco de fraude e para a dificuldade política de cortar esses programas em ano eleitoral.

"[...] dificilmente haverá cortes expressivos, o que pode adiar o ajuste fiscal para 2027."Revista Oeste, sobre os programas sociais no orçamento de 2026

Defensores do desenho atual do Bolsa Família — incluindo estudo do Banco Mundial de 2021 sobre incentivos ao trabalho formal — argumentam que o programa tem taxa de desincentivo ao trabalho formal entre as mais baixas da OCDE (8% a 10%), justamente porque o valor médio do benefício é muito inferior ao salário mínimo, e que a checagem mensal de elegibilidade — ao contrário do estigma de "assistencialismo permanente" — torna o programa mais dinâmico do que transferências de renda de países com recuperação e desenvolvimento semelhantes.

Contraponto — duas leituras em disputa

Diferença filosófica genuína, não hipocrisia

Para essa leitura, a distinção não é arbitrária: incentivos a setores produtivos (agronegócio, indústria, semicondutores) buscam gerar emprego e investimento de forma indireta, enquanto transferências diretas a famílias são vistas por parte da direita como risco de dependência permanente se não vierem acompanhadas de contrapartida de trabalho. Nessa visão, tratar os dois tipos de gasto como equivalentes ignora que um mira o lado da oferta da economia e o outro, o consumo — e que ambos os partidos americanos, historicamente, sustentam algum nível de subsídio empresarial.

Inconsistência retórica documentada

Para essa leitura, o problema não é a existência de subsídios empresariais em si, mas a assimetria de linguagem: gasto com os mais pobres é enquadrado como risco moral ("dependência", "assistencialismo"), exigindo comprovação constante de merecimento, enquanto benefícios concentrados no topo da distribuição de renda raramente recebem o mesmo escrutínio público ou a mesma exigência de contrapartida — mesmo quando, como no caso do Cato Institute, a crítica a subsídios empresariais vem de dentro do próprio campo liberal-conservador.

O que os números não resolvem

Nenhuma tabela orçamentária decide sozinha qual enquadramento é o correto — isenção fiscal e transferência de renda cumprem funções econômicas diferentes, e comparar seus valores absolutos não substitui uma análise de custo-benefício de cada política. Mas os números acima explicam por que a acusação de dois pesos e duas medidas ressurge a cada ciclo orçamentário, nos Estados Unidos e no Brasil: quando o valor entregue a setores econômicos organizados supera, em múltiplos, o valor entregue a famílias de baixa renda, a linguagem usada para justificar cada um dos dois gastos se torna, ela mesma, parte do debate político.

Voz do Leitor

O que você achou deste artigo? Deixe sua opinião, crítica ou sugestão. Queremos tecer essa conversa com você. Suas visões são fundamentais e podem ser publicadas em nossa seção de "Cartas dos Leitores".

Faça login para participar da conversa

Números-chave

Cortes ao Medicaid na OBBBA (10 anos)US$ 1 tri
Cortes de impostos ao 1% mais rico (10 anos)US$ 1 tri
Corporate welfare anual nos EUA (Cato)US$ 181 bi
Renúncia fiscal total prevista, Brasil 2026R$ 903,3 bi
"Privilégios tributários" no total (Unafisco)R$ 619,6 bi
Custo anual do Bolsa Família (2025)R$ 158,6 bi

Linha do tempo

  • Jun/2025Yale Budget Lab publica análise distributiva da OBBBA no Senado.
  • 04/07/2025Trump sanciona a One Big Beautiful Bill Act.
  • Ago/2025Center for American Progress detalha cortes ao Medicaid e Medicare da lei.
  • Out/2025Revista Oeste publica levantamento sobre gasto com "assistencialismo" no Brasil.
  • Dez/2025Unafisco projeta R$ 903 bi em renúncia fiscal para 2026.
  • Mar/2025Cato Institute estima US$ 181 bi/ano em subsídios empresariais nos EUA.

Glossário

Renúncia fiscal
Receita que o governo deixa de arrecadar por isenção, redução ou benefício tributário concedido por lei.
Corporate welfare
Termo usado para descrever subsídios diretos ou indiretos do governo a empresas e setores específicos.
Work requirements
Exigência de comprovação de atividade laboral ou similar como condição para manter benefícios sociais.
Assistencialismo
Termo, geralmente usado de forma crítica, para políticas de transferência direta de renda percebidas como permanentes ou sem contrapartida.
Nota editorial: Esta reportagem foi inspirada por reportagens do Center for American Progress e da In These Times sobre a distribuição de custos e benefícios da One Big Beautiful Bill Act (americanprogress.org; inthesetimes.com), e por reportagem da Revista Oeste sobre o gasto social brasileiro (revistaoeste.com). É um texto original, redigido pela curadoria do O Tecido a partir de apuração própria e fontes independentes — incluindo a leitura crítica que o próprio Cato Institute, think tank liberal-conservador, faz dos subsídios empresariais nos EUA — listadas nas referências. Nenhum trecho das reportagens de origem foi reproduzido ou traduzido; os dois lados do debate (crítica e defesa) foram apresentados com suas respectivas fontes.
Nossa Missão

Por que existimos?

Entenda os valores que guiam nossa curadoria e o debate de alto nível.

Ver Manifesto
Suporte Editorial

Tem uma ideia?

Damos todo suporte caso você tenha apenas uma ideia concebida, mas queira evoluir seu artigo.

Entrar em Contato

Faça parte do tecido

Seja um editor colaborador