No mesmo domingo, 4 de outubro, em que os brasileiros foram às urnas no primeiro turno, os eleitores da Bósnia-Herzegovina escolheram seu novo parlamento e a presidência tripartite do país. Na República Srpska, a entidade de maioria sérvia, o vencedor foi o partido de um homem que não estava na cédula: Milorad Dodik, separatista, aliado de Vladimir Putin e proibido pela Justiça de ocupar cargos públicos. Dois dias depois, uma reportagem do The New York Times revelou que dois dos estrategistas mais próximos de Donald Trump haviam trabalhado, mediante pagamento, para o governo controlado por Dodik às vésperas da votação.
Os nomes são conhecidos em Washington: Chris LaCivita, que dirigiu a campanha presidencial de Trump em 2024, e James Blair, ex-chefe adjunto de gabinete da Casa Branca e atual comandante do MAGA Inc., o comitê que arrecada e distribui recursos para candidatos republicanos. Segundo apuração repercutida pela CNN, cada um recebeu centenas de milhares de dólares por meio de um escritório de advocacia de Washington contratado pelo governo da República Srpska para aconselhamento eleitoral.2
O caso, detalhado pelo jornal espanhol El País, chega em momento delicado para os republicanos: faltam menos de quatro semanas para as eleições de meio de mandato de 3 de novembro, e as pesquisas apontam vantagem democrata na disputa pelas duas casas do Congresso.1
O que se sabe sobre a viagem a Banja Luka
De acordo com o Times, LaCivita e Blair estiveram na República Srpska na semana anterior às eleições. O jornal americano ressalta que o pagamento veio do governo da entidade, e não diretamente do partido SNSD, mas observa que, na prática, as duas estruturas se confundem, como registrou o site The Hill.3 Fontes ouvidas pela CNN afirmam que Trump não sabia da viagem nem do cliente até ser informado sobre a reportagem que seria publicada.2
A resposta do presidente veio na quarta-feira, 7 de outubro, em sua rede social. Trump descreveu os dois como consultores externos, autorizados a trabalhar para outros clientes como qualquer consultor de Washington, e prometeu perguntar a eles para quem mais trabalham.
"Se existir algum conflito, encerrarei nossa relação imediatamente."Donald Trump, em publicação na Truth Social, 7 de outubro de 2026 (tradução livre)
A reação dentro do Partido Republicano foi dura. O ex-governador de Nova Jersey Chris Christie, crítico antigo de Trump, disse ao site Politico que a expedição indicaria que até os assessores de confiança do presidente já planejam um futuro sem ele, segundo relato do El País.1 Também segundo o Politico, o ex-estrategista-chefe Steve Bannon cobrou uma revisão detalhada dos valores recebidos.
Não é a primeira incursão de LaCivita pelos Bálcãs. Em 2024, o mesmo Times revelou que sua empresa havia recebido US$ 1,6 milhão da oposição albanesa para assessorar a campanha do ex-presidente Sali Berisha, conforme lembrou o Daily Beast.9
O resultado das urnas na Bósnia-Herzegovina
Dodik não disputou nada, mas ganhou quase tudo o que pretendia. Pelos resultados preliminares, Savo Minić, nome de sua confiança, venceu a disputa pela presidência da República Srpska, e Željka Cvijanović manteve a cadeira sérvia na presidência tripartite do país, segundo a Balkan Insight.4 A presidência deve ser completada por Denis Bećirović (bosníaco, coalizão liderada pelo SDP) e Darijana Filipović (croata, HDZ BiH). A eleição teve o comparecimento mais baixo da série recente.
Na avaliação da Fundação Friedrich Naumann, o desempenho mais convincente foi justamente o do SNSD, que se firmou como a força dominante na Assembleia Nacional da entidade com perto de 40% dos votos.5
O resultado contrasta com a fragilidade exibida há menos de um ano. Na eleição antecipada de novembro de 2025, convocada após a cassação do mandato de Dodik, seu candidato Siniša Karan venceu com pouco mais de 50% dos votos, contra mais de 48% do opositor Branko Blanuša, de acordo com o portal European Western Balkans.6 O Centro de Estudos Orientais (OSW), de Varsóvia, já apontava então que a decisão do governo Trump de retirar as sanções contra Dodik havia fortalecido seu grupo.8
Quem é Milorad Dodik e o que ele quer
Dodik comanda a política sérvio-bósnia há quase duas décadas. A República Srpska foi proclamada pelos líderes sérvios em 1992, no início da guerra, e incorporada à estrutura do país pelo Acordo de Dayton em 1995. Seu primeiro presidente, Radovan Karadžić, foi condenado à prisão perpétua pelo genocídio de Srebrenica, como lembra a Al Jazeera.7
Em 2025, o Tribunal da Bósnia-Herzegovina condenou Dodik por desobedecer às decisões do Alto Representante internacional, o que resultou em seis anos de inabilitação para cargos públicos. Em agosto daquele ano, a Comissão Eleitoral Central cassou seu mandato.6 Cinco dias antes das eleições de outubro, ele esteve em Moscou com Putin e, após a vitória, agradeceu publicamente ao presidente russo e a Trump.1
Ouvido pelo El País, o cientista político Adi Ćerimagić, da European Stability Initiative, sustenta que a novidade não está no objetivo de Dodik, mas no método: apresentar o enfraquecimento do Estado bósnio e a secessão como um processo pacífico, condicionado ao aval de padrinhos em Washington e Moscou. Para o analista, a meta final oscila entre a independência e a união com a Sérvia, mas a constante é o fim da Bósnia como Estado funcional.1
A engrenagem do lobby em Washington
A viagem de LaCivita e Blair é a parte mais visível de uma estratégia mais ampla. Documentos registrados no Departamento de Justiça dos EUA sob a FARA, a lei que obriga agentes de governos estrangeiros a declarar suas atividades, indicam que a República Srpska gastou mais de US$ 4 milhões desde o início de 2025 com lobistas e consultores ligados ao entorno de Trump, segundo o Times. Ćerimagić estima o gasto total da entidade com lobby em Washington em cerca de US$ 9 milhões no mesmo período.1
A lista de contratados inclui o ex-governador de Illinois Rod Blagojevich, contratado semanas depois de receber indulto de Trump, e o general reformado Michael Flynn, ex-assessor de segurança nacional, que recebeu US$ 100 mil por um único mês de trabalho. Os contatos alcançam a família presidencial: em abril, Donald Trump Jr. visitou Igor Dodik, filho do líder sérvio-bósnio, em Banja Luka. Em 21 de setembro, Cvijanović foi recebida na Casa Branca pela chefe de gabinete Susie Wiles.1 Segundo o Financial Times, citado pelo El País, Katie Wiles, filha de Susie Wiles, trabalha para uma firma de lobby que assinou em fevereiro um contrato de US$ 35 mil mensais para representar a entidade.1
Os resultados dessa engrenagem são mensuráveis. As sanções americanas contra Dodik, em vigor havia quase dez anos, foram retiradas em outubro de 2025. Em maio de 2026, o Alto Representante Christian Schmidt, seu principal adversário institucional, anunciou a renúncia, segundo a agência ANSA.10 O jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung relatou que Washington pressionava havia meses por sua saída.6 Desde 1º de julho, o cargo é ocupado interinamente pelo americano Louis J. Crishock, sem que tenha havido acordo sobre um sucessor com plenos poderes.6
Os argumentos do outro lado
Há leituras que relativizam o escândalo. Contratar consultores eleitorais estrangeiros é prática comum e legal em muitas democracias, e a contratação foi feita por meio de um escritório registrado nos EUA, o que sugere declaração formal da atividade. Trump sustenta que seus estrategistas são prestadores externos, sem vínculo de exclusividade.
Do lado sérvio-bósnio, Dodik e seus aliados alegam que Schmidt nunca teve legitimidade, porque sua nomeação em 2021 não passou pelo Conselho de Segurança da ONU, onde Rússia e China se opunham. Para esse campo, a retirada das sanções e o esvaziamento do gabinete do Alto Representante representariam o fim de uma tutela internacional que já dura três décadas, e não uma vitória do separatismo. O próprio Ćerimagić reconhece, em entrevista ao European Western Balkans, que o debate sobre o Alto Representante virou sobretudo retórica de campanha para todos os lados.6
Também é preciso registrar que a oposição obteve quase metade dos votos em 2025 e que a abstenção recorde de 2026 limita qualquer leitura de apoio massivo ao projeto secessionista.
O que muda para a Europa
Para Ćerimagić, o distanciamento de Trump em relação aos assessores é uma notícia positiva, mas responde mais a controle de danos do que a uma mudança de política. Ele defende que a União Europeia use a influência que de fato tem, com linhas vermelhas claras e consequências definidas, na reunião de líderes europeus sobre ampliação do bloco prevista para a próxima semana em Bruxelas.1 O analista cita como sinal de alerta os funerais com honras quase oficiais de dois criminosos de guerra condenados, Ratko Mladić, em Belgrado, e Biljana Plavšić, em Banja Luka, realizados nas últimas semanas apesar das objeções europeias.
O ponto central para a política internacional é este: a estabilidade da Bósnia, sustentada desde 1995 por uma arquitetura mediada pelos próprios Estados Unidos, passou a ser disputada também no mercado de influência de Washington. Quando consultores que comandam a máquina eleitoral do partido no poder prestam serviços a um governo que trabalha pela fragmentação desse arranjo, a fronteira entre negócio privado e política externa se torna difícil de traçar.
Consultoria eleitoral sem fronteiras e um lobby sem regras
O Brasil tem regras rígidas contra o dinheiro estrangeiro na política: a Lei dos Partidos (Lei 9.096/1995) e a Lei das Eleições (Lei 9.504/1997) proíbem que partidos e campanhas recebam recursos de governos ou entidades estrangeiras. Mas o país ainda não tem um equivalente à FARA americana, nem sequer uma lei geral de lobby. O PL 2914/2022, aprovado pela Câmara em 2022 após 15 anos de tramitação, recebeu substitutivo do senador Izalci Lucas (PL-DF) e foi aprovado na Comissão de Transparência do Senado em dezembro de 2024, seguindo para a CCJ, conforme o Congresso em Foco.11 Cerca de 40 países já têm algum tipo de regulamentação da atividade.
O país também conhece o outro lado da moeda. Marqueteiros brasileiros exportaram campanhas para a América Latina e a África na década passada, e as investigações da Lava Jato mostraram que parte desses serviços foi paga por empreiteiras com interesses nos governos atendidos. A lição do caso bósnio vale para Brasília: sem registro público de quem representa interesses estrangeiros, e de quanto recebe, a fiscalização depende quase exclusivamente do jornalismo investigativo.
Perguntas frequentes
Quem são Chris LaCivita e James Blair?
São dois dos principais estrategistas políticos de Donald Trump. LaCivita dirigiu a campanha presidencial de 2024 e é conselheiro sênior do MAGA Inc. Blair foi diretor político da mesma campanha, chefe adjunto de gabinete da Casa Branca e, desde abril de 2026, comanda o MAGA Inc.
O que eles fizeram na Bósnia-Herzegovina?
Segundo o The New York Times, viajaram à República Srpska antes das eleições de 4 de outubro de 2026 e receberam centenas de milhares de dólares cada um, via escritório de advocacia de Washington contratado pelo governo da entidade, para assessoria eleitoral.
Quem é Milorad Dodik?
Líder do SNSD e principal figura política da República Srpska. Próximo de Vladimir Putin, defende a secessão da entidade. Foi condenado pela Justiça bósnia em 2025 e está proibido de exercer cargos públicos por seis anos.
Qual foi a reação de Donald Trump?
Trump afirmou que os dois são consultores externos, que podem ter outros clientes, e que encerraria a relação caso houvesse conflito de interesses.
Por que o caso importa para o Brasil?
O Brasil proíbe financiamento estrangeiro de partidos, mas não tem lei de lobby em vigor. A ausência de registro público de interesses estrangeiros dificulta a fiscalização de consultorias políticas transnacionais.
Nota de atribuição: este artigo foi produzido a partir da reportagem de Francisco Peregil e Macarena Vidal Liy publicada pelo jornal El País em 8 de outubro de 2026, complementada por apuração independente em fontes internacionais e brasileiras. Trechos citados foram traduzidos livremente e creditados.