Caderno Economia · Crédito e Inteligência Artificial · 17 de outubro de 2026

Durante três anos, a construção de data centers para inteligência artificial avançou sobre uma premissa raramente questionada: haveria sempre alguém disposto a emprestar. Nesta semana, o mercado de títulos começou a cobrar por essa premissa. A americana CoreWeave viu seus papéis de dívida serem negociados a preços de empresa em dificuldade, empréstimos vinculados a projetos da Oracle passaram a circular com desconto e o custo de proteção contra um calote da SoftBank subiu de forma expressiva. A pergunta que o mercado passou a fazer, como resumiu reportagem do The New York Times, é se essas empresas são apenas os elos frágeis da corrente ou o primeiro sinal de um problema maior na infraestrutura da IA.1

O que aconteceu com a CoreWeave

A CoreWeave aluga capacidade de computação para gigantes como Meta, Microsoft e OpenAI. Segundo o NYT, a empresa acumula cerca de US$ 72 bilhões em obrigações para operar 51 data centers, e os preços de seus títulos passaram a embutir uma probabilidade superior a 60% de que ela não consiga honrar seus compromissos.1 Na mesma semana, a ação recuou 24%.

Os números de mercado ajudam a dimensionar o movimento. Os títulos sem garantia com vencimento em 2032, emitidos com cupom de 9,625%, passaram a render cerca de 14,8% em 14 de outubro e superaram 16% no dia seguinte, enquanto o spread dos contratos de proteção contra calote (CDS) ultrapassou 1.000 pontos-base, conforme levantamento do Beinsure.2 Rendimento nesse patamar coloca a empresa no território do chamado junk bond, o título de alto risco.

O dado mais revelador, porém, está no balanço. No segundo trimestre de 2026, a despesa com juros chegou a US$ 640 milhões, sobre uma dívida financeira de US$ 35,6 bilhões, segundo análise da StockWireX.3 A receita cresce rápido, mas o custo de financiar esse crescimento cresce junto, e a empresa ainda opera com prejuízo.

Por que analistas lembram a WeWork

A comparação que incomoda a CoreWeave é com a WeWork, a empresa de escritórios compartilhados que quebrou ao assumir aluguéis longos e revendê-los em contratos curtos. O mecanismo, descrito pelo NYT, é parecido: a CoreWeave compra chips da Nvidia, se compromete com donos de data centers por 15 anos ou mais e subloca a capacidade a clientes por prazos menores.1 Os contratos com clientes costumam durar de três a cinco anos.3

Esse descasamento de prazos é o centro da questão. Se a demanda continuar crescendo, os contratos serão renovados e a conta fecha. Se os grandes clientes passarem a construir sua própria capacidade, ou se os equipamentos envelhecerem mais rápido do que o previsto, a empresa ficará com obrigações longas e receitas incertas. A CoreWeave rejeita a analogia. Seu executivo-chefe, Michael Intrator, classificou a reação do mercado como irracional em comunicado aos funcionários e destacou uma carteira de contratos a receber de US$ 104 bilhões.2

Oracle: quando o gargalo é a rede elétrica

O caso da Oracle mostra outro tipo de risco, menos financeiro e mais físico. A empresa tomou US$ 38 bilhões emprestados com um grupo de bancos para erguer dois campi, um no Texas e outro em Port Washington, no Wisconsin, batizado de Project Lighthouse. O plano era usar a receita do campus do Wisconsin para ajudar a pagar a dívida, que vence em 2030.1

O problema é que o Lighthouse ainda não tem energia garantida. O projeto, de 902 megawatts de carga computacional e 1,3 gigawatt de demanda elétrica total, depende de uma linha de transmissão de mais de US$ 2 bilhões que aguarda aprovação do regulador estadual. A consultoria Aterio projeta, no cenário-base, fornecimento integral apenas em outubro de 2028, com risco de deslizar para abril de 2029, segundo o The Register.4 Isso deixaria pouco mais de um ano entre o início da operação e o vencimento do empréstimo. Parte dessa dívida já é negociada a cerca de 90 centavos por dólar.1

No Novo México, o Project Jupiter enfrenta dificuldade semelhante para obter licenças de fornecimento de energia, e parte dos US$ 18 bilhões em dívida associada chegou a ser negociada perto de 80 centavos por dólar.1 A Oracle enviou notificação de força maior à desenvolvedora do projeto, buscando adiar pagamentos caso o campus atrase, embora afirme que o cronograma está mantido.4

O mercado não está dizendo que a inteligência artificial é uma bolha. Está dizendo que o prazo entre tomar o dinheiro e gerar receita ficou mais longo e mais incerto do que os contratos de dívida supunham.

SoftBank e a aposta alavancada na OpenAI

A SoftBank, de Masayoshi Son, fez uma das maiores apostas individuais na OpenAI e financiou boa parte dela com dívida. Em setembro, levantou US$ 11,1 bilhões em títulos em dólar e euro para cumprir o cronograma de aportes; concluído o plano, o investimento acumulado na OpenAI deve chegar a US$ 64,6 bilhões, equivalentes a cerca de 13% da empresa, segundo dados reportados pela Reuters e reproduzidos pela CXO Digital Pulse.5 Os juros dessa captação ficaram perto de 10%.1

O mercado reagiu no preço do seguro. Proteger US$ 1 milhão em dívida da SoftBank passou a custar mais de US$ 40 mil, ante menos de US$ 27 mil no início do ano.1 Ainda em março, a S&P Global havia colocado a nota BB+ do grupo em perspectiva negativa, alertando que a recomposição da liquidez da carteira poderia demorar mais do que o esperado, conforme a The Edge Malaysia, com dados da Bloomberg.6 A SoftBank argumenta que a proporção da dívida em relação aos ativos do grupo não mudou, porque os próprios ativos se valorizaram.1

Quanto subiu o preço do risco Aumento percentual em três indicadores de risco de crédito ligados à infraestrutura de IA: rendimento do título 2032 da CoreWeave sobre o cupom original, 54 por cento; custo de seguro contra calote da SoftBank desde o início do ano, cerca de 48 por cento; prêmio de risco da dívida de IA arriscada em seis meses, segundo o Barclays, mais de 50 por cento. QUANTO SUBIU O PREÇO DO RISCO (VARIAÇÃO %) CoreWeave 2032: rendimento vs. cupom +54% SoftBank: custo do seguro (início do ano a out.) +48% Prêmio da dívida de IA arriscada (6 meses, Barclays) +50% ou mais
Fontes: The New York Times (SoftBank e Barclays); Beinsure (CoreWeave, cupom de 9,625% e rendimento de 14,8% em 14/10/2026). Cálculo de variação: O Tecido. Escala ilustrativa até 100%.

Juros mais altos, dinheiro mais seletivo

O pano de fundo é monetário. Em 16 de setembro, o Federal Reserve elevou sua taxa básica para o intervalo de 3,75% a 4,00%, a primeira alta desde 2023, e a mediana das projeções do comitê indica mais um aumento ainda em 2026, de acordo com a Quiver Quantitative.7 A ata da reunião, divulgada pela Associated Press, aponta que a disparada nos preços de semicondutores, equipamentos e componentes elétricos, puxada pela própria corrida dos data centers, contribuiu para acelerar a inflação.8

Há aqui um circuito que se retroalimenta: a construção acelerada pressiona preços, os preços levam o banco central a subir juros e os juros encarecem a dívida que financia a construção. Segundo o Barclays, citado pelo NYT, o prêmio exigido para investir em dívida arriscada ligada à IA subiu mais de 50% em seis meses.1

Nem todos pagam a mesma conta. As grandes plataformas, como Alphabet, Amazon, Meta e Oracle, emitiram mais de US$ 228 bilhões em títulos neste ano até 13 de outubro, mais que o dobro de todo o ano de 2025, segundo dados da LSEG reportados pela CNBC e reproduzidos pelo InvestingLive.9 Ainda assim, as de maior porte e com balanço mais robusto têm conseguido captar pagando apenas um pouco mais.1 O mercado, em outras palavras, não fechou a torneira. Passou a separar quem tem caixa próprio de quem depende inteiramente de crédito.

Contraponto

O argumento de quem não vê crise sistêmica

Há leituras menos pessimistas. A CoreWeave cresceu 112% em receita no segundo trimestre e mantém uma carteira de contratos superior a US$ 100 bilhões; a média das recomendações de 42 analistas ainda aponta preço-alvo bem acima da cotação atual.2 Rendimentos e CDS elevados sinalizam estresse de financiamento, não um calote em curso.3

Um gestor da Janus Henderson ouvido pelo NYT avalia que a desaceleração no financiamento de novos projetos pode valorizar a infraestrutura que já existe.1 Nessa leitura, o ajuste é saudável: o mercado deixa de financiar qualquer projeto e passa a escolher. O risco desse argumento é que ele vale para os ativos prontos, não para os que ainda dependem de licença, rede elétrica e refinanciamento para sair do papel.

O que isso significa para o Brasil

O recado chega ao Brasil num momento particular. Em 15 de setembro, foi sancionada sem vetos a Lei 15.504/2026, que cria o Redata, regime especial que suspende por cinco anos o Imposto de Importação, PIS/Cofins e IPI sobre equipamentos para data centers, com renúncia fiscal estimada em R$ 5,2 bilhões ainda em 2026, segundo o Congresso em Foco.10 Em troca, as empresas habilitadas devem usar energia limpa, destinar ao menos 10% da capacidade ao mercado interno e investir 2% do valor dos equipamentos em pesquisa e desenvolvimento no país, conforme o Teletime.11

A ambição é grande. O executivo-chefe da Scala Data Centers, Marcos Peigo, estima ao Brazil Journal que o país tem hoje cerca de 650 megawatts processando dados domésticos e que, se virar polo exportador de capacidade, poderia chegar a 13 a 15 gigawatts em uma década, com investimentos próximos de US$ 1 trilhão.12 O argumento central é que a saturação do mercado americano abriria uma janela para o Brasil.

A crise de crédito desta semana complica essa tese em três pontos.

1. O capital fica mais caro e mais seletivo

Projetos de data center no Brasil são, em larga medida, financiados por capital estrangeiro. Com a Selic em 13,75% ao ano desde a reunião do Copom de 16 de setembro, segundo comunicado do Banco Central reproduzido pelo Atlas Público,13 o crédito doméstico dificilmente substitui esse dinheiro. Se investidores globais passam a exigir mais para financiar data centers nos Estados Unidos, tendem a exigir ainda mais para financiá-los em um mercado emergente com risco cambial.

2. O incentivo fiscal reduz o custo, mas não elimina a diferença

Estudo da Fundação Getulio Vargas citado pelo Times Brasil estima que um data center de 100 MW custa cerca de 27% mais no Brasil do que a referência americana; com o Redata, a diferença cairia para algo perto de 18%.14 Em um ambiente em que o custo de capital volta a pesar, esses nove pontos de vantagem podem ser absorvidos por um prêmio de risco maior. Além disso, o ICMS ficou fora do regime e depende de negociação no Confaz.12

3. A lição do Wisconsin vale para cá

O caso do Project Lighthouse mostra que o gargalo da IA não está apenas nos chips, mas na conexão com a rede elétrica e no tempo regulatório. O Brasil vende a abundância de energia renovável como trunfo, e ela é real. Mas energia gerada não é o mesmo que energia entregue no ponto certo, no prazo certo. Se projetos brasileiros forem financiados com dívida calculada sobre cronogramas otimistas de conexão, poderão reproduzir aqui o descompasso que hoje pesa sobre a Oracle.

Há também uma oportunidade. Se o mercado passar a valorizar capacidade já pronta e com energia contratada, como sugere o contraponto, o país que oferecer licenciamento previsível e conexão garantida pode ganhar vantagem real sobre concorrentes que só oferecem incentivo fiscal. A regulamentação do Redata, ainda pendente, é a próxima oportunidade de transformar a lei em segurança de prazo.11

O que observar nas próximas semanas

Três sinais dirão se o episódio é um ajuste localizado ou o início de algo maior. O primeiro é se a CoreWeave e empresas semelhantes conseguirão refinanciar dívidas sem aceitar juros punitivos. O segundo é a reunião do Fed de dezembro, que pode confirmar nova alta. O terceiro, no Brasil, é a decisão do Copom de 4 de novembro e o avanço da regulamentação do Redata, que definirão quanto do capital global, agora mais exigente, ainda estará disposto a cruzar o Equador.

Perguntas frequentes

Por que os títulos da CoreWeave caíram tanto?

Porque investidores passaram a duvidar da capacidade da empresa de pagar uma dívida elevada com contratos de clientes mais curtos que suas próprias obrigações de aluguel. Os títulos de 2032 chegaram a render cerca de 15% ao ano, patamar de dívida de alto risco.

A bolha da inteligência artificial estourou?

Não há evidência disso. O que mudou foi o preço do crédito: empresas muito endividadas pagam bem mais caro, enquanto grandes plataformas com caixa próprio seguem captando com custo pouco maior. O estresse está concentrado nos financiadores mais alavancados.

Qual é o problema da Oracle com o Project Lighthouse?

O campus no Wisconsin depende de uma linha de transmissão ainda não aprovada pelo regulador estadual. A consultoria Aterio projeta energia integral apenas em 2028 ou 2029, pouco antes do vencimento do empréstimo que financia a obra.

O que é o Redata e como ele se relaciona com essa crise?

É o regime especial de tributação para data centers criado pela Lei 15.504/2026, que suspende tributos federais sobre equipamentos. Ele reduz o custo de instalar data centers no Brasil, mas não protege os projetos do aumento global no custo do crédito.

O aumento de juros nos Estados Unidos afeta os data centers no Brasil?

Sim, indiretamente. Projetos brasileiros dependem de capital estrangeiro; quando o Fed sobe juros e investidores exigem mais prêmio para dívida de IA, o custo de financiar empreendimentos em mercados emergentes tende a subir ainda mais.

Nota de atribuição: este texto foi elaborado a partir da reportagem de Maureen Farrell e Rob Copeland, publicada pelo The New York Times em 17 de outubro de 2026, com apuração complementar em fontes internacionais e brasileiras. Informações atribuídas ao NYT foram parafraseadas e estão creditadas ao longo do texto. Leia a reportagem original em nytimes.com.