Política · Memória e Reparação
Oitenta e sete anos depois do fim da Guerra Civil Espanhola, o solo da Espanha continua entregando os seus mortos. É essa a tese central de País en ruinas, livro do arqueólogo galego Alfredo González Ruibal, vencedor do Prêmio Nacional de Ensaio da Espanha em 2024, que reúne quase duas décadas de escavações em fosas comuns, trincheiras, campos de concentração e bairros de barracos erguidos por famílias empobrecidas sob o franquismo (1939-1975). A obra, publicada pela editora Crítica, chega em um momento em que o Estado espanhol tenta, por meio de uma lei federal, dar conta de um passivo que a ditadura deixou soterrado: dezenas de milhares de corpos ainda sem nome nem sepultura.
González Ruibal, pesquisador do Instituto de Ciências do Patrimônio do CSIC (o principal órgão público de pesquisa científica da Espanha), argumenta que é impossível compreender o franquismo sem observar dois tipos de marca deixada no território: as trincheiras, que serviram de fonte de legitimidade heroica ao regime durante quatro décadas, e as fosas comuns, que neutralizaram fisicamente a oposição política e permitiram a Franco governar sobre o que o autor chama de "paz dos cemitérios".
O que as escavações revelam
Entre os achados mais impressionantes está o cemitério de Paterna, na província de Valência, onde mais de 2.200 pessoas foram fuziladas e enterradas em fosas tão profundas que atingiram o lençol freático. A umidade permanente saponificou parte dos corpos, transformando a gordura corporal em uma substância semelhante a sabão e preservando roupas, curativos de espancamentos e amarras de esparto nos punhos das vítimas. Em algumas dessas covas, os pesquisadores encontraram garrafas com bilhetes de identificação deixados pelo coveiro Leoncio Badía, que os colocava junto aos corpos na esperança de que familiares pudessem, um dia, reconhecê-los.
Um dos bilhetes, atribuído a um homem fuzilado em dezembro de 1942, dizia ter deixado filhos ao morrer, segundo reportagem publicada pelo jornal espanhol El País a partir do livro. Badía, que morreu sem saber se seu gesto seria útil, recebeu a título póstumo em 2019 a Alta Distinção da Generalitat Valenciana e hoje tem uma estátua no cemitério de Paterna.
Em Málaga, outra escavação recuperou os restos de 322 crianças menores de 10 anos, filhas de presas políticas, incluindo 16 recém-nascidos posicionados nas bordas das fosas para preencher espaços entre os corpos de fuzilados adultos, prática documentada também pelo historiador Francisco Espinosa. Já em Villaverde del Ducado, na província de Guadalajara, moradores de uma pequena vila cuidaram por 80 anos da sepultura anônima de um combatente desconhecido, depositando flores e, segundo a exumação de 2019, medalhas religiosas junto ao corpo de um jovem de cerca de 21 anos morto na guerra.
O livro também documenta a fome estrutural do pós-guerra: campos de concentração descritos como "tocas humanas", onde presos dormiam amontoados e envolviam os pés em sacos por falta de calçados, e um excesso de mortes por inanição e epidemias entre 1939 e 1942 que González Ruibal estima em pelo menos 200 mil pessoas. Nos destacamentos penais que construíram o Valle de los Caídos, hoje renomeado Vale de Cuelgamuros, foram encontradas armadilhas improvisadas para caçar pássaros e solados feitos de pneu, evidência do grau de penúria enfrentado pelos prisioneiros forçados a erguer o monumento.
Nem todo o espectro político espanhol concorda com o ritmo e o custo dessas exumações. Setores da direita, como o partido Vox e alas do Partido Popular, já defenderam publicamente a revogação da Lei de Memória Democrática, argumentando que a norma reabre feridas de uma guerra encerrada há mais de oito décadas, tem custo fiscal elevado e é usada de forma seletiva pelo governo de Pedro Sánchez para fins de disputa política atual. Defensores da lei rebatem que o direito à verdade e à identificação de desaparecidos é reconhecido internacionalmente como direito humano imprescritível, independentemente do tempo decorrido.
A lei que tenta fechar essa conta
A Lei de Memória Democrática (Lei 20/2022), sancionada em outubro de 2022 pelo governo de Pedro Sánchez, declarou ilegal o regime franquista para efeitos do Estado espanhol e transferiu à administração pública a responsabilidade de localizar desaparecidos, tarefa que até então dependia quase exclusivamente de associações privadas de familiares e de financiamento incerto de governos regionais. Um estudo de 2019 da Sociedade de Ciências Aranzadi, referência em antropologia forense na Espanha, estimou em cerca de 20 mil o número de vítimas ainda passíveis de exumação.
Segundo balanço divulgado pelo Ministério de Política Territorial e Memória Democrática em novembro de 2025, três anos após a lei entrar em vigor, quase 9 mil corpos já haviam sido recuperados e 1.614 declarações de reconhecimento e reparação foram entregues a vítimas e familiares. Ainda assim, mais de 10 mil corpos permanecem sob a terra. Parte do trabalho mais sensível ocorre hoje dentro do próprio Vale de Cuelgamuros, onde uma equipe científica multidisciplinar exuma e tenta identificar por DNA restos de opositores republicanos que foram transferidos para as criptas do monumento sem consentimento das famílias durante o franquismo.
Uma descoberta dentro da própria família
A pesquisa de González Ruibal ganhou uma camada pessoal inesperada. Ao investigar arquivos durante a escrita do livro, o arqueólogo descobriu que seu próprio avô materno havia atuado voluntariamente como promotor durante o período mais violento da repressão golpista, quando a promotoria solicitava e o juiz concedia penas de morte executadas por pelotões de fuzilamento. A descoberta partiu de uma fotografia do casamento do avô, no qual aparecem como padrinhos o governador militar de Segovia e Carlos Arias Navarro, que décadas depois seria o último chefe de governo da ditadura antes da transição democrática. González Ruibal dedicou o livro à sogra, María Mayorgas, filha de uma família do lado derrotado na guerra.
O espelho brasileiro
A discussão espanhola ressoa em processos ainda inacabados no Brasil. Na Vala de Perus, no Cemitério Dom Bosco, na zona norte de São Paulo, foram encontradas em 1990 as ossadas de 1.049 pessoas enterradas clandestinamente durante a ditadura civil-militar (1964-1985), entre opositores mortos sob tortura e vítimas de grupos de extermínio. Passados 35 anos, apenas cinco dessas ossadas foram identificadas: Dênis Casemiro, Frederico Eduardo Mayr, Flávio Carvalho Molina, Dimas Antônio Casemiro e Aloísio Palhano Pedreira Ferreira. Em março de 2025, o governo federal, por meio do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, pediu desculpas formais às famílias pela negligência do Estado brasileiro na condução desse processo, decisão que resultou de acordo judicial com o Ministério Público Federal.
A comparação expõe uma diferença institucional relevante. Enquanto a Espanha aprovou uma lei nacional específica que obriga o Estado a financiar e coordenar buscas, o Brasil ainda trata a identificação de desaparecidos políticos de forma fragmentada, dependente de acordos pontuais entre universidades, prefeituras e o Ministério Público, sem uma política de Estado permanente equivalente. O Relatório da Comissão Nacional da Verdade, publicado em 2014, documentou centenas de casos de mortos e desaparecidos, mas não criou, por si só, um mecanismo contínuo e financiado de busca e identificação como o que a legislação espanhola de 2022 estabeleceu.
Arqueologia como ato político
Para González Ruibal, escavar essas fosas não é apenas um exercício técnico de reconstrução histórica, mas uma forma deliberada de romper o silêncio institucional imposto por décadas de ditadura e, depois dela, por um pacto de esquecimento que marcou a própria transição democrática espanhola. O livro argumenta que a violência política do franquismo é relativamente bem documentada, mas o sofrimento social cotidiano das famílias pobres, sobretudo mulheres e crianças desnutridas nas periferias urbanas dos anos 1960, permanece uma história menos contada. Nesse sentido, os objetos recuperados nas escavações, de frascos de perfume a solados de pneu, funcionam como testemunhas materiais de um período que a documentação escrita, por si só, não conseguiria reconstituir por completo.
Perguntas Frequentes
O que é a Lei de Memória Democrática da Espanha?
É a Lei 20/2022, sancionada em outubro de 2022 pelo governo de Pedro Sánchez, que declara ilegal o regime franquista para efeitos do Estado espanhol e obriga a administração pública a localizar, exumar e identificar vítimas de desaparecimento forçado ocorridas durante a Guerra Civil e a ditadura.
Quantas pessoas ainda estão desaparecidas em fosas comuns na Espanha?
Segundo balanço oficial de novembro de 2025, cerca de 9 mil corpos já foram recuperados desde 2022, mas mais de 10 mil permanecem sob a terra, de um total estimado em cerca de 20 mil vítimas exumáveis, conforme estudo de 2019 da Sociedade Aranzadi.
Quem é Alfredo González Ruibal e o que é o livro "País en ruinas"?
É um arqueólogo do Instituto de Ciências do Patrimônio do CSIC, vencedor do Prêmio Nacional de Ensaio da Espanha em 2024. Seu livro "País en ruinas: historias enterradas de la España franquista (1939-1975)", publicado pela editora Crítica, reúne quase 20 anos de escavações em fosas comuns, trincheiras, campos de concentração e bairros de barracos do período franquista.
O Brasil teve um processo semelhante de busca por desaparecidos políticos?
Sim, embora de forma menos institucionalizada. A Vala de Perus, em São Paulo, revelou em 1990 as ossadas de mais de mil pessoas enterradas clandestinamente durante a ditadura militar (1964-1985), mas apenas cinco foram identificadas até 2025, e o Brasil não possui uma lei nacional específica equivalente à espanhola para financiar e coordenar essas buscas de forma permanente.