Economia · Energia · Indústria
Existe uma boa chance de que a primeira grande bateria contratada pelo sistema elétrico brasileiro, em leilão marcado para dezembro, tenha células fabricadas na China. Isso não diz nada de especial sobre o Brasil. Diz muito sobre o mercado. Segundo dados da Benchmark Mineral Intelligence citados pelo Financial Times, fabricantes chineses respondem por 95% das baterias de grande porte usadas para armazenar energia na rede elétrica.1 A consultoria Intertek CEA chega a um número parecido: mais de 96% das células para armazenamento estacionário produzidas no mundo em 2025 saíram de fábricas chinesas.2
Esse é o pano de fundo de uma das decisões de política industrial mais relevantes do setor elétrico brasileiro nesta década. O país perde uma fatia crescente da energia que seus parques eólicos e solares poderiam gerar, precisa de armazenamento para aproveitá-la e terá de escolher quanto está disposto a pagar para que parte desse equipamento seja produzida aqui.
De baterias para carros a baterias para a rede
A reportagem do FT, assinada de Ningde, na província de Fujian, acompanha a CATL, maior fabricante de baterias do mundo. Fundada em 2011 para abastecer o mercado de carros elétricos, a empresa hoje produz cerca de 40% das baterias de veículos elétricos do planeta, de acordo com o jornal britânico.1 O dado mais revelador, porém, está em outra linha de negócio: a produção de células para sistemas de armazenamento em larga escala, conhecidos pela sigla BESS (battery energy storage systems), é hoje a área que mais cresce na companhia. No primeiro semestre de 2026, a CATL ficou com 22% das vendas globais dessas células, liderando dentro e fora da China.1
O impulso veio do Estado. O FT relata que, por volta de 2021, Pequim concluiu que uma quantidade enorme de energia renovável estava sendo desperdiçada, porque usinas solares e eólicas geravam mais do que a rede conseguia absorver. A resposta foi exigir, em boa parte do país, que novos projetos eólicos e solares construíssem ou contratassem armazenamento como condição para aprovação. Com isso, a capacidade chinesa de baterias na rede saltou de 2,4 gigawatts em 2020 para mais de 140 GW no fim de 2025, segundo o Energy Institute citado pelo jornal. No primeiro semestre deste ano, o carvão caiu abaixo de 50% da geração elétrica chinesa pela primeira vez.1
O ponto que interessa ao leitor brasileiro é a sequência: o problema chinês de 2021 (renovável sobrando, rede sem espaço) é, com outra escala, o problema brasileiro de 2026.
O tamanho do mercado global
O armazenamento deixou de ser nicho. A BloombergNEF registrou 112 GW de baterias instaladas no mundo em 2025, o equivalente a 307 GWh, alta de 48% sobre o ano anterior. A China ficou com 54% das novas instalações e os Estados Unidos, com 16%. Para 2026, a projeção é de 158 GW (459 GWh).3 A Agência Internacional de Energia, lembra o FT, classifica as baterias como a tecnologia de geração e suporte à rede que mais cresce atualmente.1
Um indicador resume a mudança de patamar. Em 2016, o mundo instalava 56 MW de energia solar para cada 1 MW de bateria. Em 2025, a proporção caiu para 6 para 1, e a BNEF espera algo próximo de 4 para 1 em 2026, impulsionada sobretudo pela queda de mais de 90% no preço das baterias de íon-lítio em 15 anos.4
A dependência como risco de segurança energética
A outra face do boom é a concentração. O FT registra que governos de Washington a Bruxelas estão desconfortáveis com a própria dependência de equipamentos chineses.1 Nos Estados Unidos, o desconforto virou regra tributária. A lei orçamentária sancionada em julho de 2025 criou restrições a "entidades estrangeiras de preocupação" (FEOC): projetos de armazenamento que usem equipamento chinês acima de certo limite perdem o crédito fiscal de investimento. Para obras iniciadas em 2026, o limite de conteúdo não restrito é de 55%, subindo para 75% após 2029.5 Alguns desenvolvedores, relata o portal Energy-Storage.news, preferem abrir mão do crédito e continuar comprando da China, o que mostra o tamanho da diferença de preço.6
Mesmo assim, a demanda americana não recua. Segundo o FT, a agência de informação energética do governo dos EUA projeta que a capacidade de baterias na rede do país dobre entre 2025 e 2027, puxada pela corrida de energia para data centers. Andy Bowman, executivo-chefe da Jupiter Power, uma das maiores desenvolvedoras americanas, descreveu ao jornal o armazenamento como "a principal alavanca que resta" para atender à nova demanda.1
A reportagem também registra os limites técnicos. Sistemas de íon-lítio costumam fornecer energia por poucas horas, o que torna caro cobrir períodos longos de pouco vento e pouco sol. Por isso, empresas como o Google, segundo o FT, estão investindo em tecnologias de longa duração, como as baterias de ferro-ar da Form Energy, capazes de descarregar por até 100 horas, e o sistema de dióxido de carbono comprimido da italiana Energy Dome.1
O Brasil desperdiça o que a China armazena
O problema brasileiro tem nome técnico: curtailment, o corte forçado de geração determinado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) quando a rede não consegue escoar ou absorver a energia disponível. Levantamento do Canal Solar com dados do ONS mostra que, entre janeiro e agosto de 2026, os cortes de eólicas e solares cresceram cerca de 21% sobre o mesmo período de 2025. A energia não aproveitada passou de 18% para 20,9% da geração potencial das usinas analisadas, e o Nordeste concentrou cerca de 83% de todos os cortes.7
A mudança qualitativa é tão importante quanto a quantitativa. Os cortes por "razão energética", ou seja, por excesso de oferta diante da demanda e não por falha de transmissão, subiram de 9% para 14,4% da geração potencial. Isso significa que, em certas horas do dia, simplesmente não há quem consuma a energia produzida. É exatamente o tipo de problema que bateria resolve e linha de transmissão, sozinha, não resolve. A consultoria Volt Robotics contou 51 dias críticos até agosto de 2026, nos quais o corte superou 60% da geração renovável disponível em algum momento do dia; em 12 deles, passou de 80%.8
O custo já aparece nos balanços. A Abeeólica estima que os cortes causaram prejuízos de cerca de R$ 7,8 bilhões aos geradores entre setembro de 2023 e novembro de 2025.9
Dois leilões, uma escolha de política industrial
A resposta do governo é o primeiro Leilão de Reserva de Capacidade para Armazenamento (LRCAP), dividido em dois certames. Segundo a síntese regulatória do escritório Felsberg, o Leilão nº 05/2026, de "Armazenamento Nacional", exige baterias fabricadas no Brasil e está marcado para 2 de dezembro. O Leilão nº 06/2026, de "Armazenamento Geral", não tem essa exigência e ocorre em 4 de dezembro. Ambos preveem contratos de 15 anos, com início de suprimento em 1º de agosto de 2028.10
A régua de nacionalização segue o regulamento do Finame, do BNDES: mínimo de 15% de conteúdo local, somando componentes, mão de obra e serviços de engenharia e integração. Há quatro rotas de credenciamento, e a mais ambiciosa delas, a fabricação de células no país, ainda não existe no Brasil.11 Em termos práticos, a bateria "nacional" de 2028 deve ser montada aqui com o componente principal importado, muito provavelmente da Ásia.
A corrida já começou. WEG e Baterias Moura despontam como as principais apostas de capital nacional, enquanto grupos estrangeiros buscam parcerias para se habilitar: a chinesa Windey nacionaliza montagem na Bahia, segundo a eixos, e a UCB Power assinou memorando com a Jinko ESS para produzir sistemas no país.1213 O setor projeta que os investimentos em armazenamento por baterias no Brasil possam passar de R$ 22 bilhões até 2030.14
Há ainda uma pendência que pesa sobre o preço final. Os custos da contratação serão pagos por meio de um encargo rateado entre os geradores, inclusive os que já sofrem com os cortes, e a fórmula de divisão segue em aberto. Agentes do setor defendem mudar essa regra pelo Projeto de Lei nº 3.716/2026, conforme reporta o Canal Solar.15
Por que isso importa para o consumidor
Energia renovável cortada é investimento que não gera receita. Com o tempo, esse risco tende a ser embutido no preço de novos contratos, e o encargo das baterias também acaba circulando pela cadeia. A diferença de custo entre o leilão com exigência de conteúdo local e o leilão aberto, quando os resultados saírem em dezembro, será a medida mais objetiva do preço que o país está pagando pela política industrial.
Contraponto
Proteger a indústria ou comprar mais barato?
A favor da exigência de conteúdo local: fabricantes brasileiros argumentam que, sem encomendas garantidas, nenhuma cadeia de armazenamento se forma no país e o leilão seria inteiramente capturado por importações chinesas, beneficiadas por um excesso de oferta que derruba preços, segundo apuração da Reuters.16 A própria experiência americana mostra que grandes economias passaram a tratar baterias como tema de segurança, e não apenas de custo. O desenho em dois leilões também limita o risco: a exigência vale para uma parte da contratação, não para toda.
Contra, ou com ressalvas: com 15% de conteúdo mínimo e sem fabricação de células no país, a dependência tecnológica muda pouco no curto prazo, enquanto o custo adicional recai sobre geradores e, indiretamente, sobre consumidores. A associação do setor, a ABSAE, admitiu à Reuters que a política ainda divide opiniões e gera incertezas operacionais. Há também um limite físico: baterias de íon-lítio cobrem algumas horas, não semanas, e não substituem a expansão da transmissão, que analistas apontam como indispensável para o Nordeste.
O que observar daqui até dezembro
Três variáveis vão definir se o leilão resolve parte do problema ou apenas o adia. A primeira é o rateio do encargo: enquanto não houver fórmula definida, o risco de custo dos investidores fica difícil de precificar. A segunda é o preço relativo entre os dois certames, que mostrará quanto custa cada ponto de nacionalização. A terceira é a escala: o volume contratado precisa ser compatível com cortes que, em alguns dias, ultrapassam 20 GW programados, segundo a programação diária do ONS de 9 de agosto.17
A trajetória chinesa descrita pelo FT sugere uma lição desconfortável. Pequim não construiu sua liderança em baterias protegendo o consumidor do custo; construiu obrigando o mercado a comprar em escala, até que o volume derrubasse o preço e criasse campeões como a CATL. O Brasil tenta uma versão mais cautelosa dessa receita, com um mercado muito menor. Se a escala não vier, o país pode acabar com o pior dos dois mundos: baterias mais caras e a mesma dependência de células importadas.
Perguntas frequentes
Qual é a participação da China no mercado de baterias para armazenamento de energia?
Fabricantes chineses respondem por cerca de 95% das baterias de grande porte para a rede elétrica, segundo a Benchmark Mineral Intelligence citada pelo Financial Times. A Intertek CEA estima que mais de 96% das células para armazenamento estacionário produzidas em 2025 vieram da China.
O que é curtailment e quanto o Brasil perde com ele?
Curtailment é o corte de geração determinado pelo ONS quando a rede não consegue escoar ou consumir a energia disponível. Entre janeiro e agosto de 2026, os cortes atingiram 20,9% da geração potencial das usinas eólicas e solares analisadas, com cerca de 83% concentrados no Nordeste. A Abeeólica estima prejuízos de R$ 7,8 bilhões entre setembro de 2023 e novembro de 2025.
Quando acontece o primeiro leilão de baterias do Brasil?
O Leilão nº 05/2026 (Armazenamento Nacional, com exigência de fabricação no Brasil) está marcado para 2 de dezembro de 2026, e o Leilão nº 06/2026 (Armazenamento Geral, sem exigência de conteúdo local) para 4 de dezembro de 2026. Os contratos terão 15 anos, com suprimento a partir de 1º de agosto de 2028.
Qual é a exigência de conteúdo local para baterias no leilão?
No leilão nacional, os sistemas precisam ser credenciados pelo BNDES segundo as regras do Finame, com mínimo de 15% de conteúdo local entre componentes, mão de obra e serviços. A fabricação de células, principal componente da bateria, ainda não existe no Brasil.
Baterias resolvem o problema dos cortes de energia renovável?
Resolvem parte dele. Baterias são eficazes contra cortes por excesso de oferta em horários específicos, pois guardam energia para a noite ou para picos de consumo. Sistemas de íon-lítio, porém, costumam operar por poucas horas e não substituem a expansão da transmissão.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido · Caderno Economia