A Arábia Saudita passou dois anos participando de um dos experimentos mais ambiciosos da era das moedas digitais: uma rede que permite a bancos centrais trocar valor diretamente entre si, sem passar pelo dólar nem pelo sistema Swift. Em setembro de 2026, o Financial Times revelou que o país deixou essa rede, chamada mBridge, silenciosamente, um ano antes de a informação vir a público1. A notícia, aparentemente técnica, toca num nervo geopolítico sensível: até onde os parceiros históricos de Washington estão dispostos a caminhar ao lado da China na construção de alternativas ao poder financeiro americano.
O Banco Central saudita, conhecido pela sigla SAMA, confirmou ao jornal britânico que encerrou sua participação depois de concluir uma prova de conceito em 13 de maio de 2025, e descreveu a saída como parte do plano original, não como uma ruptura repentina1. Ainda assim, o momento da revelação, poucos meses depois de a Arábia Saudita reforçar seus laços de segurança e comércio com os Estados Unidos, alimentou a leitura de que a decisão carrega peso político, mesmo que a origem tenha sido apenas o fim de um teste técnico2.
O que é o mBridge e por que ele incomoda Washington
Lançado em 2021 sob o guarda-chuva do Bank for International Settlements (BIS), o mBridge nasceu para resolver um problema antigo do comércio internacional: pagamentos entre países ainda dependem, na maioria dos casos, de uma cadeia de bancos correspondentes que passa pelo dólar, mesmo quando nenhuma das partes envolvidas é americana. Isso encarece e atrasa transações, e também dá a Washington um ponto de observação e controle sobre praticamente qualquer fluxo financeiro global3.
A plataforma usa infraestrutura de razão distribuído para permitir que bancos centrais liquidem operações usando suas próprias moedas digitais (CBDCs, na sigla em inglês), cortando o dólar como intermediário1. China, Hong Kong, Tailândia e Emirados Árabes Unidos formaram o núcleo original ao lado da Arábia Saudita, que entrou como observadora em 2023 e virou participante plena em 20244. O próprio BIS, no entanto, deixou o projeto em outubro de 2024, entregando sua condução a um grupo liderado por Pequim, num movimento que já sinalizava o desconforto das instituições ocidentais com a iniciativa5.
O ponto cego do movimento antidólar
A saída saudita expõe uma tensão que atravessa todo o discurso de desdolarização promovido por China e parceiros do Sul Global: a diferença entre testar tecnologia e assumir um compromisso político. Pessoas ligadas ao caso disseram ao Financial Times que seria um erro tirar conclusões amplas da decisão da SAMA, já que sua participação sempre foi limitada, embora o país continue engajado de forma mais discreta com o projeto1.
O economista Eswar Prasad, da Universidade Cornell e da Brookings Institution, resumiu esse dilema ao comentar o caso: para muitos aliados dos Estados Unidos, projetos como o mBridge são atraentes economicamente, mas esses mesmos países permanecem extremamente sensíveis à reação de Washington sempre que o assunto é reduzir o papel do dólar, e mais ainda quando o benefício disso recai sobre o renminbi chinês6.
É essa cautela que explica por que o real teste da desdolarização não está nos protocolos técnicos, já amplamente validados, mas na disposição de cada país de sustentar politicamente uma rota alternativa ao dólar quando ela de fato passa a movimentar volumes relevantes. A Arábia Saudita, cuja moeda segue atrelada ao dólar e cuja segurança nacional depende em larga medida da aliança com Washington, ilustra bem os limites dessa equação2.
O projeto segue vivo, mesmo sem os sauditas
Isso não significa que o mBridge tenha perdido fôlego. Em meados de 2026, a Autoridade Monetária de Macau ativou sua conexão à rede, ampliando o grupo de participantes justamente no momento em que a Arábia Saudita se afastava4. Paralelamente, a China segue construindo canais próprios de liquidação internacional em yuan digital: em julho, o Industrial and Commercial Bank of China concluiu o primeiro pagamento em yuan digital entre China e Cingapura por um sistema alternativo, sinal de que Pequim não depende de um único trilho para avançar sua agenda monetária4.
Contraponto
Vale questionar se a narrativa de "recuo saudita" não superdimensiona um evento, na prática, previsível. A própria SAMA sempre tratou sua presença no mBridge como uma prova de conceito com prazo definido, não como adesão estratégica de longo prazo. Interpretar a saída como sinal de fracasso do projeto ignora que o BIS já havia se retirado em 2024 sem que isso interrompesse o desenvolvimento da plataforma, e que Macau ingressou justamente no período em que a Arábia Saudita saía.
Por outro lado, tratar o episódio como irrelevante também simplifica demais a questão. O fato de um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, com relação estreita e crescente com a China, optar por não seguir adiante é informação relevante para quem monitora se o petroyuan,汉 a hipótese de o petróleo ser precificado em yuan, tem chance real de avançar no curto prazo. A resposta, por ora, parece ser não.
O que isso tem a ver com o Brasil
O Brasil observa esse debate de um ângulo particular, porque já caminha, com passos mais lentos, em duas frentes parecidas. A primeira é o comércio direto em yuan com a China: desde 2023, bancos como o ICBC operam uma câmara de compensação (clearing house) em reais e renminbi no país, e empresas como Eldorado Brasil, Suzano e Vale já realizaram operações liquidadas diretamente na moeda chinesa, embora a maior parte do comércio bilateral continue denominada em dólar7. Em junho de 2026, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, sinalizou a Pequim a intenção do Brasil de emitir títulos soberanos em yuan, os chamados panda bonds, como parte de uma estratégia de diversificação do financiamento externo7.
A segunda frente é o Drex, a moeda digital do Banco Central brasileiro, ainda em fase piloto e com cronograma sucessivamente revisado para 2026 e 20278. Diferentemente do mBridge, o Drex nasceu com foco doméstico, voltado à eficiência do sistema financeiro interno e à tokenização de garantias de crédito, não a pagamentos internacionais8. Ainda assim, a arquitetura técnica de CBDCs é a mesma que sustenta projetos como o mBridge, e um estudo do Ipea sobre a presidência brasileira do BRICS em 2025 conclui que o bloco tem priorizado avanços em pagamentos com moedas locais, sem prever, no curto prazo, uma moeda comum ou uma adesão mais ambiciosa a redes de liquidação alternativas ao dólar9.
O paralelo com a Arábia Saudita é direto. Também o Brasil precisa equilibrar o interesse econômico em reduzir custos de transação e depender menos de um único sistema de pagamentos com a manutenção de relações estáveis com os Estados Unidos, ainda o principal destino de investimento estrangeiro e parceiro relevante em tecnologia financeira. A diferença é que, até aqui, o país optou por avançar de forma incremental e discreta, testando o terreno sem assumir compromissos que sejam politicamente custosos de reverter, exatamente a postura que a própria SAMA descreveu ao justificar sua saída do mBridge.
O que observar daqui para frente
Três sinais devem indicar se a desdolarização de fato ganha tração ou permanece, por ora, um experimento técnico sem peso político suficiente para se sustentar: o volume real de transações liquidadas fora do dólar, e não apenas o número de países que assinam memorandos de intenção; a disposição de exportadores de commodities, como a própria Arábia Saudita e o Brasil, de aceitar pagamento em moedas alternativas de forma recorrente, não apenas pontual; e a reação de Washington a cada novo avanço, que tem se mostrado o fator mais determinante sobre quem permanece e quem recua nesses projetos.
Perguntas frequentes
O que é o mBridge e quem participa dele hoje?
É uma plataforma de pagamentos transfronteiriços baseada em moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), criada em 2021 sob o BIS e hoje liderada por China, Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e, desde 2026, Macau. O BIS deixou a coordenação em 2024 e a Arábia Saudita encerrou sua participação em maio de 2025.
Por que a Arábia Saudita saiu do mBridge?
Segundo o Banco Central saudita (SAMA), a saída seguiu o plano original, seu papel se limitava a uma prova de conceito concluída em maio de 2025. Fontes ouvidas pelo Financial Times, porém, associam o momento da revelação ao estreitamento das relações entre Riade e Washington.
A saída saudita significa que o mBridge fracassou?
Não há evidência disso. O projeto seguiu avançando mesmo após a saída do BIS em 2024, e Macau se juntou à rede em 2026. A saída saudita reflete mais os limites políticos de cada participante do que um problema técnico da plataforma.
O Brasil participa do mBridge ou de algo parecido?
O Brasil não integra o mBridge. Mantém, porém, uma câmara de compensação direta entre yuan e real desde 2023 e desenvolve o Drex, sua própria moeda digital, hoje voltada principalmente a operações domésticas de crédito, não a pagamentos internacionais.
O real algum dia poderá circular fora do sistema dólar-Swift, como o mBridge propõe para outras moedas?
Tecnicamente sim, a arquitetura de CBDCs permite isso. Na prática, estudos como o do Ipea sobre a agenda do BRICS mostram que o avanço tem sido gradual e concentrado em acordos bilaterais de moeda local, sem sinal de adesão brasileira, no curto prazo, a uma rede multilateral como o mBridge.