Há uma cena curiosa que se repete em cada grande onda tecnológica: enquanto parte da sociedade teme perder empregos, outra parte — a dos empreendedores atentos — enxerga nas mesmas forças que destroem um tipo de trabalho, a semente de mercados inteiramente novos. Estamos vivendo exatamente esse momento. E os dados mostram com clareza onde estão as oportunidades.

Trabalhadores necessários para gerar US$ 1 bilhão em valor bruto adicionado

Fonte: BEA, BLS — análise BCG Center for Macroeconomics. Dados até 2021. Valores reais em US$(2012).

Bens duráveis
Total manufatura
Bens não duráveis

O ciclo virtuoso que a maioria ignora

Quando uma empresa adota tecnologia que reduz o número de funcionários necessários para produzir a mesma quantidade, ocorre algo que parece paradoxal à primeira vista: a economia como um todo não encolhe — ela se reorganiza e, frequentemente, cresce. O mecanismo é relativamente simples: menos trabalhadores significa menor custo de produção, o que pressiona para baixo o preço final dos produtos. Com produtos mais baratos, os consumidores liberam renda que antes estava comprometida — e passam a demandar outros bens e serviços. Surgem, então, novos mercados, novas empresas e, com elas, novos empregos.

A tecnologia não simplesmente elimina empregos — ela os dissolve num setor e os recria, multiplicados, em outro. O empreendedor que entende esse mecanismo não teme a disrupção: ele a antecipa.

Esse ciclo não é teórico. Ele já aconteceu com a manufatura de bens duráveis. Desde 1990, o número de trabalhadores necessários para gerar um bilhão de dólares em valor bruto na indústria de bens duráveis caiu de aproximadamente 25 mil para menos de 5 mil pessoas — uma redução de quase 80%. O que poderia parecer catástrofe gerou, na prática, produtos manufaturados muito mais acessíveis e a migração de consumo e renda para outros setores da economia.

Os serviços: um campo que a tecnologia ainda não domou

Enquanto isso, o setor de serviços conta uma história diferente. Com exceção da área de informação — que viveu sua própria revolução com a internet e as plataformas digitais a partir dos anos 2000 —, a maior parte dos serviços manteve praticamente constante o número de trabalhadores necessários para gerar o mesmo valor econômico. Saúde, educação e transporte continuam demandando, proporcionalmente, tanto trabalho humano hoje quanto décadas atrás.

Para o empreendedor, essa estabilidade não é conforto — é sinal de alarme e, ao mesmo tempo, de oportunidade. Significa que existe um campo vasto, ainda pouco transformado pela tecnologia, onde ganhos de produtividade extraordinários estão esperando por quem tiver coragem de construí-los.

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Leitura recomendada

Shock, Crises, and False AlarmsPhilipp Carlsson-Szlezak & Paul Swartz — Uma análise rigorosa sobre tecnologia, crescimento e os ciclos que moldam a economia global.
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Saúde: o paradoxo que é uma janela de oportunidade

A área da saúde merece atenção especial. Diferente da manufatura — onde o objetivo da tecnologia foi, em grande medida, produzir o mesmo com menos gente —, na saúde o desafio é inverso: atender muito mais pessoas sem precisar multiplicar proporcionalmente o número de profissionais. O envelhecimento populacional em praticamente todas as economias desenvolvidas e emergentes cria uma pressão crescente por atendimento médico. Ao mesmo tempo, a formação de novos profissionais de saúde é lenta e cara.

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Duas apostas para o empreendedor de hoje

Diante desse panorama, quem está construindo um negócio — ou pensando em construir — tem à frente dois vetores claros de oportunidade nesta era de aceleração tecnológica:

O primeiro vetor são os novos serviços criados pela própria disrupção. À medida que a automação libera renda dos consumidores (por meio de produtos mais baratos), surgem demandas por experiências, conveniências e serviços que antes eram inacessíveis ou simplesmente inexistentes. O histórico da economia mostra que esses mercados emergentes tendem a absorver boa parte do trabalho deslocado pela automação — mas com formato, escala e proposta de valor completamente diferentes.

O segundo vetor é a saúde. Não como setor a ser "disrompido" no sentido convencional do termo, mas como campo onde a tecnologia pode construir pontes entre a demanda que cresce e a capacidade de atendimento que não acompanha. Empreendedores que entenderem a dinâmica humana dos profissionais de saúde — e desenvolverem ferramentas que os amplifiquem, não que os substituam — terão diante de si um dos maiores mercados da próxima geração.

Como Carlsson-Szlezak e Paul Swartz argumentam em Shock, Crises, and False Alarms (disponível aqui), os alarmismos em torno da tecnologia frequentemente ignoram o histórico de resiliência e adaptação das economias. Cada onda de automação que "destruiu" empregos criou, em médio prazo, mais oportunidades do que eliminou. A diferença entre quem perde e quem ganha nessa transição é, quase sempre, a capacidade de enxergar onde a próxima onda vai chegar antes que ela se forme.

Para o empreendedor brasileiro — inserido em um país com desafios enormes na saúde pública e com uma base de consumidores que responde rapidamente a quedas de preço —, esse mapa de oportunidades tem contornos ainda mais nítidos. A pergunta não é se a tecnologia vai transformar esses setores. A pergunta é: quem vai construir essa transformação?