Economia · Previdência

Pense em uma aposentada que encerrou a vida profissional no início de 2026 com um benefício de três salários mínimos: R$ 4.863 por mês. Ela não é uma pessoa real, mas sua situação é a de milhões de brasileiros que contribuíram acima do piso. No ano que vem, o benefício dela vai subir, e no seguinte também. Mesmo assim, daqui a 15 anos ela vai receber menos de dois salários mínimos. Não haverá corte nem confisco. Ela estará sujeita a uma regra de reajuste que, sem fazer barulho, a afasta do salário mínimo um pouco mais a cada ano.

Essa regra se chama desindexação, ou desvinculação, do benefício em relação ao salário mínimo. O tema entrou na campanha presidencial depois que reportagens atribuíram à equipe econômica do candidato Flávio Bolsonaro (PL) a proposta de estender esse modelo a todas as aposentadorias, pensões e ao Benefício de Prestação Continuada (BPC)[3]. Antes de discutir a proposta, porém, vale entender a mecânica. O caso da aposentada de três salários mínimos é o melhor ponto de partida, porque para ela isso já não é hipótese.

Duas regras de reajuste, dois ritmos

Hoje o Brasil reajusta o salário mínimo e os benefícios previdenciários por regras diferentes. O mínimo recebe a inflação medida pelo INPC acumulada em 12 meses até novembro, mais um ganho real ligado ao crescimento do PIB de dois anos antes. Desde o pacote fiscal aprovado no fim de 2024, esse ganho real fica limitado a um intervalo entre 0,6% e 2,5% ao ano[1]. Em 2026, a soma deu 6,79%, e o piso passou de R$ 1.518 para R$ 1.621[1].

Quem recebe exatamente o piso acompanha esse aumento, porque a Constituição proíbe que um benefício que substitui o salário seja menor que o mínimo[8]. Já quem recebe acima do piso tem o benefício corrigido apenas pelo INPC do ano anterior. Em janeiro de 2026, esse índice foi de 3,90%[2].

A diferença entre 6,79% e 3,90% parece pequena. Não é, porque ela se repete todo ano sobre uma base que já ficou para trás. Composta, a defasagem equivale a cerca de 2,78% ao ano. Para entender o efeito ao longo do tempo, é preciso olhar a série inteira.

A simulação: 20 anos de uma aposentadoria de 3 salários mínimos

A tabela abaixo projeta o salário mínimo e o benefício da aposentada repetindo, ano após ano, os reajustes de 2026: 6,79% para o mínimo e 3,90% para a aposentadoria. A última coluna mostra quanto ela receberia a menos, por mês, em comparação com um benefício que continuasse valendo três salários mínimos.

Salário mínimo × aposentadoria desindexada (valores nominais, em R$)
AnoSalário mínimoAposentadoriaEm salários mínimosSe valesse 3 SMDiferença mensal
20261.621,004.863,003,004.863,000,00
20271.730,995.052,662,925.192,97140,31
20281.848,445.249,712,845.545,32295,61
20291.973,885.454,452,765.921,64467,19
20302.107,815.667,172,696.323,43656,26
20312.250,835.888,192,626.752,49864,30
2032 (6 anos)2.403,566.117,832,557.210,681.092,85
20332.566,626.356,422,487.699,861.343,44
20342.740,806.604,322,418.222,401.618,08
2035 (9 anos)2.926,786.861,892,348.780,341.918,45
20363.125,377.129,512,289.376,112.246,60
20373.337,457.407,562,2210.012,352.604,79
2038 (12 anos)3.563,907.696,462,1610.691,702.995,24
20393.805,747.996,622,1011.417,223.420,60
20404.064,058.308,492,0412.192,153.883,66
2041 (15 anos)4.339,738.632,521,9913.019,194.386,67
20424.634,218.969,191,9413.902,634.933,44
20434.948,679.318,991,8814.846,015.527,02
20445.284,449.682,431,8315.853,326.170,89
20455.643,0210.060,051,7816.929,066.869,01
20466.025,8910.452,391,7318.077,677.625,28

Premissas: INPC de 3,90% e reajuste do mínimo de 6,79% ao ano, iguais aos de 2026. Com outros índices, os valores em reais mudam, mas a coluna "em salários mínimos" depende apenas do ganho real do piso. Simulação elaborada por O Tecido.

Mil reais em seis anos, e depois cada vez mais rápido

A diferença mensal leva seis anos para chegar a R$ 1 mil: em 2032, a aposentada recebe R$ 6.117,83, enquanto três salários mínimos somariam R$ 7.210,68. A partir daí, o ritmo muda. Em mais três anos, no nono ano, a diferença se aproxima de R$ 2 mil. No 12º ano, chega a R$ 3 mil. Por volta do 14º ano e meio, passa de R$ 4 mil.

Os intervalos encurtam porque a defasagem é aplicada sobre uma base que cresce. É o mesmo mecanismo dos juros compostos, só que contra o aposentado: cada ano de ganho real do mínimo que não chega ao benefício se soma aos anteriores e serve de base para os seguintes.

Em 15 anos, a diferença mensal equivale a metade do que a aposentada efetivamente recebe.

Em 2041, a distância entre o benefício e os três salários mínimos é de R$ 4.386,67, cerca de 51% dos R$ 8.632,52 que ela recebe naquele ano. Dito de outra forma, para voltar à posição relativa que tinha ao se aposentar, ela precisaria de um reajuste de quase 51% de uma só vez. Em 2046, o benefício vale 1,73 salário mínimo. Os três salários mínimos com que ela se aposentou ficaram reduzidos a pouco mais de um e meio.

O que a conta não diz

É preciso precisão aqui. Pela regra simulada, o poder de compra da aposentada se mantém, porque o INPC repõe a inflação. O que ela perde é posição relativa: em relação ao piso nacional e, por extensão, à renda de quem está na ativa, que cresce em termos reais. Para uma pessoa idosa, essa perda tem efeitos concretos. Serviços cujo preço acompanha a renda média, como cuidadores, planos de saúde e mão de obra doméstica, ficam proporcionalmente mais caros para quem ficou parado.

Há também um efeito de achatamento. Como o piso sobe mais rápido, os benefícios acima dele se aproximam do mínimo com o passar dos anos. Quem contribuiu sobre três salários mínimos termina, duas décadas depois, recebendo menos de duas vezes o valor de quem contribuiu sobre o piso.

Do caso de 3 salários mínimos ao piso: o que está em debate

Tudo o que a tabela mostra já é a regra atual para quem se aposentou acima do piso. A proposta atribuída à campanha de Flávio Bolsonaro, revelada pela imprensa em 8 de outubro, estenderia o modelo a quem recebe exatamente um salário mínimo. Aposentadorias, pensões e o BPC passariam a ser corrigidos só pelo INPC, mesmo quando o mínimo dos trabalhadores ativos tivesse ganho real[3]. Segundo a Folha de S.Paulo, cerca de 70% dos segurados do INSS e todos os beneficiários do BPC recebem o piso[3]. Para eles, a mesma defasagem de 2,78% ao ano faria o benefício cair de 1 para cerca de 0,87 salário mínimo em cinco anos e para 0,58 em vinte.

Há um obstáculo jurídico. Hoje, nenhum benefício que substitua o rendimento do trabalho pode ser inferior ao salário mínimo, e o BPC é definido como um salário mínimo[8]. Desvincular o piso exigiria, portanto, uma emenda constitucional, aprovada por três quintos da Câmara e do Senado em dois turnos, e não apenas uma lei ou medida provisória.

As estimativas de economia variam bastante. A Folha relatou que a equipe da campanha estudava um pacote de R$ 250 bilhões[3]. Críticos, como a Fundação Perseu Abramo, falam em cerca de R$ 1,1 trilhão em dez anos[7]. Antes, o coordenador-geral da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), já havia defendido que aposentadorias e BPC deixassem de acompanhar o ganho real do mínimo[6]. O candidato, por outro lado, negou publicamente a intenção. Em 8 de outubro, chamou a acusação de notícia falsa e afirmou que, se eleito, dará reajuste acima da inflação às aposentadorias[4][5]. O segundo turno acontece em 25 de outubro.

Contraponto

O argumento fiscal

Os defensores da desvinculação partem de um problema real. Cerca de dois terços dos benefícios do INSS estão atrelados ao salário mínimo, então cada real de ganho real concedido ao trabalhador da ativa vira automaticamente despesa obrigatória na Previdência e na assistência social. Economistas de linha fiscalista chamam isso de armadilha do gasto indexado: o governo não consegue valorizar o piso salarial sem pressionar o orçamento, e a despesa previdenciária cresce mais rápido que a receita em uma população que envelhece.

Por esse argumento, separar as duas coisas permitiria manter o ganho real para quem trabalha e, ao mesmo tempo, preservar o poder de compra dos benefícios pela inflação, liberando espaço fiscal para reduzir a dívida e os juros. Os críticos respondem que o piso previdenciário é, para a maioria dos idosos de baixa renda, a única renda da casa, e que a perda relativa empurraria essa população para mais perto da linha da pobreza com o passar do tempo.

Como ler a escolha

A simulação não resolve o debate, mas mostra o que está em jogo. A desindexação não reduz o valor nominal de nenhum benefício e preserva o poder de compra pela inflação. Ao mesmo tempo, transfere para o aposentado, ano após ano, a diferença entre o crescimento da economia e o reajuste do benefício. No curto prazo, a diferença é pequena e quase imperceptível. No longo prazo, por causa do efeito composto, ela deixa de ser pequena. Para quem se aposenta com três salários mínimos, isso já acontece. Para quem recebe o piso, é a questão em aberto nesta eleição.

Perguntas frequentes

O que é desindexar a aposentadoria do salário mínimo?

É deixar de reajustar o benefício pela mesma regra do salário mínimo. O benefício passa a ser corrigido apenas pela inflação (INPC), sem o ganho real que o mínimo recebe quando a economia cresce.

Quem recebe acima do piso já tem o benefício desindexado?

Sim. Benefícios acima de um salário mínimo já são corrigidos apenas pelo INPC. Em 2026, o reajuste foi de 3,90%, enquanto o mínimo subiu 6,79%.

O valor da aposentadoria diminui em reais?

Não. O valor nominal sobe todo ano e o poder de compra é mantido pela inflação. O que diminui é quantos salários mínimos o benefício representa.

A desvinculação do piso é uma proposta oficial de campanha?

Ela foi atribuída à equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL) em reportagens de outubro de 2026 e defendida antes pelo coordenador da campanha, Rogério Marinho. O candidato nega a intenção e promete reajuste acima da inflação.

É possível pagar uma aposentadoria menor que o salário mínimo?

Não pelas regras atuais. A Constituição proíbe benefício substitutivo da renda do trabalho abaixo do mínimo e fixa o BPC em um salário mínimo. Mudar isso exigiria emenda constitucional.

Nota de método: a tabela é uma simulação elaborada por O Tecido com base nos reajustes oficiais de 2026, mantidos constantes por 20 anos. Não se trata de previsão: os índices futuros vão variar. A aposentada citada no texto é um caso ilustrativo.