Opinião · Relações Internacionais & Memória
Um lago não muda de nome por decreto de humor. Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou em 27 de agosto de 2026 a ordem executiva que rebatiza o lago Ontário como "Lake America", o gesto foi tratado por boa parte da imprensa americana como mais um capítulo de uma disputa comercial com o Canadá. Mas para os povos wendat e wyandotte, cujos ancestrais deram nome às águas entre Nova York e Ontário séculos antes da existência dos dois países, o episódio tem um peso diferente: o de ver uma palavra da própria língua tratada como propriedade descartável de um governo estrangeiro.
A ordem instrui agências federais americanas a usar "Lake America" em mapas, contratos e documentos oficiais, alterando o registro do Sistema de Informação de Nomes Geográficos (GNIS) dos Estados Unidos. Ela não tem, porém, efeito fora do território americano: o Canadá manteve o nome original em toda a sua cartografia oficial, e até o Google passou a exibir a denominação de forma diferente conforme a localização do usuário, gerando a situação inusitada de um mesmo lago com dois nomes dependendo de qual margem se está navegando no mapa digital.
O gesto reacendeu um debate que ultrapassa a política comercial entre os dois países. Em artigo publicado no jornal canadense La Presse em 8 de setembro, o Grande Chefe da Nação Wendat, Pierre Picard, descreveu a mudança como uma afronta à memória coletiva de seu povo, lembrando que "Ontario" vem da língua wendat e antecede tanto o Canadá quanto os Estados Unidos como entidades políticas. Para Picard, apagar esse nome equivale a negar séculos de presença contínua de uma nação no território.
De onde vem a palavra "Ontario"
A etimologia é bem documentada, ainda que existam pequenas variações entre pesquisadores. Segundo a Wyandotte Nation, com sede em Oklahoma, o termo deriva da palavra wendat "Ontari'io", que significa "o lago é bonito" ou "o lago é grande". Já a coalizão Chiefs of Ontario associa a origem a uma palavra da língua mohawk, "Oniatari:io", com sentido semelhante de "lago bonito" ou "água cintilante". As duas explicações não se excluem: wendat e mohawk pertencem à mesma família linguística iroquesa, e o nome já aparecia registrado por europeus desde 1641, muito antes de existir qualquer fronteira entre Canadá e Estados Unidos.
O que os pesquisadores concordam é que não existe dúvida sobre a raiz indígena da palavra. Como resumiu à agência ICT o professor Scott Manning Stevens, da Universidade de Syracuse, "basta dizer que é uma palavra indígena iroquesa". A região do lago Ontário, aliás, nunca pertenceu a um único povo: abrigou também os haudenosaunee, os anishinaabe e o grupo que os franceses chamaram de "nação neutra", cada um com sua própria relação histórica com aquelas águas.
A reação política dos dois lados da fronteira
A resposta canadense foi rápida e transpartidária. O primeiro-ministro Mark Carney publicou que o nome "tem mais de 400 anos, antecedendo tanto a Confederação do Canadá quanto a Declaração de Independência dos Estados Unidos". O premier de Ontário, Doug Ford, ergueu um painel na orla do lago, em Grimsby, com os dizeres "Lake Ontario — Now and Always", enquanto a governadora do estado de Nova York, Kathy Hochul, também democrata, afirmou que o estado americano simplesmente não vai adotar o novo nome.
Entre as lideranças indígenas, a indignação atravessou a fronteira. O chefe da Wyandotte Nation, Billy Friend, chamou a medida de "um tapa na cara" e disse que a nação pretende enviar carta formal de protesto ao governo americano. A Seneca Nation, por sua vez, declarou que "o presidente não pode se apropriar da nossa cultura nem apagá-la por meio de uma ação política irresponsável". Do lado quebequense, o próprio artigo de Pierre Picard destaca o apoio recebido também de cidadãos americanos comuns, num sinal de que a controvérsia não se resume a uma disputa entre governos.
Contraponto
Vale ponderar, no entanto, que a prática de renomear lugares por decisão política não nasceu com Trump nem é exclusividade de governos hostis a povos originários. O próprio Brasil viveu, entre as décadas de 1930 e 1940, um movimento oficial de "tupinização" de municípios, quando o Estado Novo de Getúlio Vargas substituiu nomes de origem portuguesa por termos inspirados no tupi antigo, muitas vezes criados artificialmente em gabinetes e sem relação direta com comunidades indígenas vivas da época. O geógrafo Milton Santos relatou como sua cidade natal, no interior baiano, teve o nome trocado de Itapira para Ubaitaba, dois termos que significam a mesma coisa, mas que romperam a memória afetiva de gerações. O episódio mostra que a troca de topônimos pode ser usada tanto para apagar quanto para instrumentalizar uma herança indígena, e que o critério decisivo não é apenas a direção da mudança, mas se ela é feita em diálogo com os povos aos quais o nome pertence ou imposta de cima para baixo, como ocorreu no caso do lago Ontário.
O que isso significa para o Brasil
Embora o caso do lago Ontário se passe a milhares de quilômetros daqui, ele toca em uma questão que o Brasil conhece bem: a fragilidade da memória toponímica indígena diante de decisões de gabinete. Segundo o Atlas Toponímico do Brasil, da Universidade de São Paulo, cerca de 20% dos nomes de municípios do estado de São Paulo têm origem ou etimologia indígena, um patrimônio linguístico que convive, no entanto, com episódios históricos de apagamento. Cidades da região amazônica como Santarém, Barcelos e Portel perderam seus nomes indígenas originais ainda no período colonial, substituídos por topônimos portugueses por decisão da metrópole.
No plano jurídico, o Brasil avançou nas últimas décadas em mecanismos de reconhecimento. A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo país, garante o direito à autodeterminação dos povos indígenas, e o Conselho Nacional de Justiça editou em 2012 a Resolução nº 3, que permite a indígenas retificar nomes próprios impostos por registros civis. A Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei 9.985/2000) também recomenda que a nomeação de novas unidades de conservação dê preferência a designações que homenageiem povos indígenas. São instrumentos distintos do caso canadense, mas que partem da mesma premissa defendida por Pierre Picard: nomes carregam história, e mexer neles sem consulta é mexer na identidade de quem os criou.
Por que isso importa além da geografia
O episódio do "Lake America" tornou-se, em poucos dias, um símbolo maior do que um lago. Especialistas já cunharam o termo "narcisismo toponímico" para descrever a tendência de usar a nomeação de lugares como instrumento de afirmação pessoal de poder, prática que inclui também a renomeação do Golfo do México para "Golfo da América" em janeiro de 2025. A diferença, no caso do lago Ontário, é que o nome alterado não vinha de uma disputa entre nações modernas, mas de uma palavra viva, ainda usada e defendida por comunidades indígenas que continuam existindo, no Canadá e nos Estados Unidos, apesar de séculos de deslocamento forçado.
É esse o ponto central do artigo de Pierre Picard: o problema não é apenas simbólico. Trata-se de reconhecer que, se o precedente for aceito sem contestação, nada garante que o mesmo não se repita com outros rios, montanhas e cidades cujos nomes também vêm de línguas originárias, no Canadá, nos Estados Unidos ou em qualquer outro país que carregue, na sua cartografia, palavras mais antigas do que o próprio Estado que hoje as administra.
Perguntas frequentes
Por que Trump decidiu renomear o lago Ontário?
Trump ligou a decisão à disputa comercial com o Canadá, afirmando que o país vizinho "não trata bem" os Estados Unidos em questões de comércio. A ordem executiva foi assinada em 27 de agosto de 2026, dias depois de as negociações comerciais entre os dois países terem fracassado.
De onde vem o nome "Ontario"?
O nome deriva de uma palavra da família linguística iroquesa, associada tanto ao wendat "Ontari'io" quanto ao mohawk "Oniatari:io", ambos com o sentido aproximado de "lago bonito" ou "lago grande". O termo já era usado por europeus em registros desde 1641.
A mudança de nome vale fora dos Estados Unidos?
Não. A ordem executiva obriga apenas agências federais americanas a usar "Lake America" em documentos oficiais. O Canadá manteve o nome Lake Ontario em toda a sua cartografia, e até estados americanos, como Nova York, declararam que não vão adotar a nova denominação.
O Brasil tem alguma proteção legal para topônimos indígenas?
O país conta com instrumentos como a Convenção 169 da OIT, que garante autodeterminação a povos indígenas, a Resolução nº 3 (2012) do Conselho Nacional de Justiça, que permite retificação de nomes impostos por registros civis, e a Lei 9.985/2000, que recomenda priorizar nomes indígenas na designação de unidades de conservação.
Quantos municípios brasileiros têm nomes de origem indígena?
Segundo o Atlas Toponímico do Brasil, da USP, cerca de 20% dos municípios do estado de São Paulo têm nomes de origem ou etimologia indígena, um padrão que se repete em diferentes proporções em outras regiões do país, especialmente na Amazônia e no Sul.
Referências
- Pierre Picard, "Sacrifier les noms, c'est sacrifier l'histoire", La Presse, 8 de setembro de 2026. Disponível em: lapresse.ca.
- Wikipédia (inglês), "Lake Ontario naming dispute".
- NPR, "Canada claps back at Trump's efforts to rename Lake Ontario as 'Lake America'".
- TIME, "The Trouble With Trump's Attempt to Rename Lake Ontario".
- Al Jazeera, "Can Trump really rename Lake Ontario, 'Lake America'?".
- ICT News, "Tribal leaders call Trump's move to rename Lake Ontario a 'slap in the face'" e "'It's an Indigenous, Iroquoian word'".
- Wyandotte Nation, comunicado oficial sobre a manutenção do nome Lake Ontario.
- Museum of Indigenous People, "What Is in a Name? Ontario".
- IBGE / Atlas Toponímico do Brasil (USP), pesquisa sobre topônimos de origem indígena.
- Tupi Antigo, "Santarém, Barcelos, Portel: cidades que perderam os nomes indígenas".
- ANOREG/UOL, "Temos direito a nomes indígenas?", por Julie Dorrico.