HISTÓRIA
17 de setembro de 2026 Leitura de 9 min Efeméride: 90 anos de nascimento

Em outubro, Václav Havel completaria 90 anos. A efeméride poderia passar quase despercebida fora da República Checa não fosse uma coincidência incômoda: o cenário que o dramaturgo e ex-presidente descreveu em seus ensaios sobre poder e conformismo voltou a ocupar o noticiário internacional, com guerras, autoritarismos e Estados policiais reaparecendo no vocabulário político do Ocidente. Foi essa constatação que levou a tradutora e jornalista Monika Zgustova a relembrar, em artigo de opinião publicado no jornal espanhol El País, três décadas de conversas mantidas com o ex-presidente checo, incluindo um encontro decisivo em Barcelona, em 1991, e a última conversa, já em 2011, poucos meses antes de sua morte.1

Este texto foi inspirado no artigo "Václav Havel, el hombre que ayudó a derribar el Muro de Berlín", de Monika Zgustova, publicado pelo jornal El País em 17 de setembro de 2026. Passagens específicas atribuídas à autora estão indicadas ao longo do texto; a reportagem original pode ser lida na íntegra em elpais.com.

Um dramaturgo que virou chefe de Estado

Nascido em Praga em 5 de outubro de 1936, Havel entrou para a vida pública como autor de peças de teatro do absurdo, escritas ainda nos anos 1950, quando o realismo socialista era doutrina obrigatória na literatura tchecoslovaca. Suas obras retratavam personagens perdidos na burocracia e na perda da identidade individual sob pressão do poder, um tema que Zgustova descreve como recorrente desde os primeiros anos da carreira do dramaturgo.1 Em 1977, tornou-se um dos primeiros signatários da Carta 77, manifesto de direitos humanos que denunciava o descumprimento dos Acordos de Helsinque pelo regime comunista, e passou por sucessivas prisões ao longo da década seguinte.

Foi na cadeia que escreveu as cartas à mulher, Olga, reunidas mais tarde no livro Cartas a Olga, redigidas deliberadamente em linguagem cifrada para escapar da censura dos carcereiros. Décadas depois, ao encontrar a própria tradutora espanhola do livro, Havel se mostrou mais interessado nas soluções linguísticas encontradas para tornar o texto compreensível do que nas formalidades protocolares do encontro, um detalhe que resume, segundo Zgustova, a prioridade do dissidente por questões éticas e de linguagem acima de qualquer cerimônia oficial.1

"O Poder dos Sem-Poder" e a mentira cotidiana

O ensaio que consolidou Havel como pensador político, e não apenas como dramaturgo dissidente, foi publicado em 1978: O Poder dos Sem-Poder. Nele, Havel parte de uma cena simples para explicar como um sistema em que ninguém acredita se sustenta por décadas: um quitandeiro coloca todas as manhãs, na vitrine da loja, um cartaz com os dizeres "Trabalhadores do mundo, uni-vos". Ele não adere ao slogan por convicção, mas para evitar problemas; e como todos os outros comerciantes fazem o mesmo, o ritual coletivo mantém a aparência de legitimidade do regime.2

Havel chamou esse comportamento de "viver dentro de uma mentira". Sua tese central é que o poder de regimes desse tipo não vem de sua verdade, mas da disposição generalizada de agir como se fossem verdadeiros; e que, por essa mesma razão, a fragilidade do sistema reside no fato de que, no momento em que uma única pessoa deixa de repetir o ritual, a ilusão coletiva começa a se desfazer.2 O conceito, elaborado num contexto de censura e vigilância soviéticas, sobreviveu ao fim do comunismo tchecoslovaco e passou a ser invocado, quase cinco décadas depois, em discussões sobre formas mais sutis de erosão institucional.

"A esperança não é a certeza de que algo vai dar certo, mas de que algo faz sentido, independentemente do resultado." Václav Havel, em entrevista relembrada por Monika Zgustova, El País

De Praga a Davos: um discurso que citou o quitandeiro

Em 20 de janeiro de 2026, no Fórum Econômico Mundial em Davos, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, recorreu à mesma alegoria do quitandeiro para descrever o momento vivido pela ordem internacional construída após 1945. Segundo Carney, países como o Canadá aderiram por décadas a instituições multilaterais e a regras comerciais sabendo, em algum nível, que sua aplicação era assimétrica e que as potências mais fortes se isentariam sempre que conveniente; uma acomodação coletiva que ele descreveu, nos termos de Havel, como "viver na mentira" do benefício mútuo da integração global.4

O discurso, considerado um dos mais comentados daquela edição do fórum, defendeu que havia chegado a hora de empresas e países "retirarem o cartaz da vitrine", isto é, deixarem de repetir compromissos com uma ordem que, na prática, já não funcionava como prometido. A referência histórica não passou despercebida: comentaristas notaram a ironia de um chefe de governo citar, num fórum de elites econômicas, um ensaio escrito por um dissidente perseguido justamente por recusar-se a repetir rituais de lealdade vazios.4

Contraponto

Nem todos os usos recentes da obra de Havel escapam à crítica. Biógrafos lembram que sua própria presidência foi marcada por tensões entre princípios e pragmatismo: Havel chegou a classificar as reformas econômicas de choque promovidas pelo então primeiro-ministro Václav Klaus, seu principal rival político na transição pós-comunista, como um "capitalismo mafioso", evidenciando que a passagem da teoria dissidente para a prática de governo produziu contradições que ele próprio reconheceu.3 Também há analistas que questionam a comparação direta entre o totalitarismo soviético descrito por Havel e processos contemporâneos de desgaste democrático em democracias eleitorais, incluindo críticas à própria metodologia de relatórios internacionais que classificam países ocidentais consolidados como em processo de autocratização, um debate presente inclusive na imprensa brasileira.8 A alegoria do quitandeiro é poderosa como diagnóstico moral, mas não substitui a análise institucional caso a caso.

O espelho brasileiro

A pergunta que atravessa o legado de Havel, sobre até que ponto sociedades toleram viver dentro de ficções institucionais, ganhou um contorno concreto no relatório de 2026 do V-Dem Institute, da Universidade de Gotemburgo, divulgado meses após o discurso de Carney. O levantamento aponta que a democracia, para o cidadão médio global, retornou a níveis equivalentes aos de 1978, o mesmo ano em que Havel publicava seu ensaio sobre o poder dos regimes pós-totalitários; e que quase três quartos da população mundial, cerca de 6 bilhões de pessoas, vive hoje sob algum tipo de regime autocrático.6

Nesse cenário de recuo generalizado, o Brasil aparece como um dos poucos países classificados como em processo de reversão da autocratização, ao lado de casos como Guatemala e Botsuana. O relatório atribui o movimento à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, que teria interrompido um processo de deterioração institucional iniciado com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e acelerado durante o governo de Jair Bolsonaro.5 Segundo o ranking de 2026, o país ocupa hoje a 28ª posição global em democracia liberal, à frente dos Estados Unidos, que caíram da 20ª para a 51ª colocação e perderam, pela primeira vez em cinco décadas, o próprio status de democracia liberal.7

O próprio V-Dem, porém, faz questão de temperar a boa notícia: a classificação como país em democratização não é, segundo os pesquisadores, um troféu, mas uma trajetória incompleta, condicionada à persistência da polarização social e ao teste que as eleições de 2026 representam para a solidez institucional recém-recuperada.5 É precisamente o tipo de aviso que Havel, cético quanto a vitórias definitivas mesmo depois da Revolução de Veludo, teria reconhecido: a diferença entre viver na verdade e viver na mentira nunca é uma conquista permanente, é uma escolha renovada todos os dias, inclusive pelo quitandeiro da esquina.

Um legado que resiste à tradução

Havel deixou a presidência checa em 2003 e morreu em 18 de dezembro de 2011, meses depois de confessar, numa das últimas conversas relatadas por Zgustova, que seu maior erro como presidente havia sido confiar demais no conhecimento técnico dos economistas e pouco em seu próprio instinto político.1 Quase quinze anos depois, a insistência com que líderes de tradições políticas distintas, de um primeiro-ministro social-democrata canadense a institutos acadêmicos suecos, seguem recorrendo ao seu vocabulário sugere que o problema que ele descreveu não foi resolvido pela queda do Muro de Berlim. Apenas mudou de forma.

Perguntas frequentes

Quem foi Václav Havel?

Dramaturgo, ensaísta e dissidente tchecoslovaco, autor de Cartas a Olga e O Poder dos Sem-Poder. Liderou a Revolução de Veludo em 1989 e tornou-se o último presidente da Tchecoslováquia e o primeiro da República Checa, cargo que ocupou até 2003.

O que significa "viver na mentira" na obra de Havel?

Expressão usada para descrever a adesão cotidiana e automática a rituais ideológicos em que ninguém acredita de fato, mas que sustentam a legitimidade de um regime graças à cooperação silenciosa da maioria das pessoas.

Por que o primeiro-ministro do Canadá citou Havel em Davos?

Mark Carney usou a alegoria do quitandeiro de Havel, em janeiro de 2026, para argumentar que países ocidentais vinham aceitando sem questionar uma ordem internacional que já não funcionava como prometido, defendendo que era hora de deixar de repetir esse ritual.

O que o relatório da V-Dem de 2026 diz sobre o Brasil?

O instituto classifica o Brasil como um dos poucos países em processo de reversão da autocratização no mundo, atribuindo o movimento à eleição de Lula em 2022, embora alerte que a trajetória ainda depende da redução da polarização e do resultado das eleições de 2026.

O legado de Havel ainda é relevante hoje?

Sim. Seus conceitos sobre poder, verdade e responsabilidade individual continuam sendo citados por líderes políticos, acadêmicos e institutos de pesquisa para descrever tanto o autoritarismo clássico quanto formas mais sutis de erosão democrática contemporânea.