Aos 250 anos, a América que o Brasil já não reconhece
Entre o tarifaço, a Lei Magnitsky e a ameaça de romper relações diplomáticas, a potência que nasceu desconfiando de "alianças permanentes" chega ao seu bicentenário e meio tratando a América Latina — e o Brasil em particular — como extensão de sua política interna.
Há 250 anos, os fundadores dos Estados Unidos assinavam em Filadélfia uma declaração que prometia ao novo país distância dos entreveros das grandes potências. "É nossa política autêntica nos mantermos afastados de qualquer aliança permanente", escreveria George Washington pouco depois. Duas guerras mundiais, uma Guerra Fria e uma ordem liberal construída sob sua própria liderança mais tarde, a nação que temia se enredar no mundo tornou-se, para o bem e para o mal, o país que mais interferiu nele. E para o Brasil, que em 2025 e 2026 viu tarifas de 50%, sanções pessoais contra ministros do Supremo Tribunal Federal e ameaças de suspensão de relações diplomáticas, essa história deixou de ser abstração distante para virar política de Estado.
O contraste entre a retórica fundacional e a prática consolidada dos Estados Unidos é hoje um dos temas centrais dos debates sobre política externa em Washington, especialmente às vésperas do aniversário de 250 anos da independência americana, celebrado em 4 de julho. Levantamentos independentes mostram que o país lançou centenas de intervenções militares e políticas no exterior desde 1776, com forte concentração nas últimas décadas — um padrão que analistas associam tanto à hegemonia conquistada no pós-Guerra Fria quanto, mais recentemente, a uma guinada explicitamente transacional sob o segundo governo de Donald Trump.
Da "potência indispensável" ao "Grande Satã"
A ambivalência sobre o papel americano no mundo não é nova. A ex-secretária de Estado Madeleine Albright cunhou a expressão "potência indispensável" para descrever os Estados Unidos dos anos 1990, quando a vitória na Guerra Fria parecia inaugurar uma ordem liberal sob liderança de Washington. Do outro lado do espectro, o aiatolá Khomeini a chamou de "Grande Satã" — rótulo que sobrevive no vocabulário de regimes rivais até hoje. Entre esses dois extremos, a maior parte do mundo hoje ocupa uma posição intermediária, e cada vez mais cética.
É o que mostra a mais recente rodada da pesquisa global do Pew Research Center, que ouviu mais de 42 mil pessoas em 36 países entre fevereiro e maio deste ano. Globalmente, apenas 37% dos entrevistados têm hoje uma visão favorável dos Estados Unidos, ante 57% que expressam opinião desfavorável — e a confiança na liderança mundial de Donald Trump não passa de 23% na mediana dos países pesquisados1. O levantamento também mostra que a percepção de que Washington é um "parceiro confiável" caiu de forma acentuada em relação a anos anteriores, com quedas de mais de 30 pontos percentuais em países como França, Espanha, Itália e Reino Unido desde 20222.
"Apenas 32% dos brasileiros dizem acreditar que o governo americano respeita as liberdades individuais de seus cidadãos — o menor índice já registrado pelo Pew Research Center no país desde que a série histórica começou, em 2013."Pew Research Center, pesquisa global 2026
O Brasil ilustra bem essa deterioração. A avaliação positiva dos Estados Unidos entre brasileiros caiu de 64% em 2024 para 47% em 2026 — uma queda de 17 pontos em apenas dois anos, período que coincide com o agravamento da crise diplomática bilateral3. Apenas 36% dos brasileiros consideram hoje os EUA um parceiro confiável, e 76% acreditam que Washington interfere nos assuntos internos de outros países — percentual que sobe para 82% entre jovens de 18 a 29 anos3. Ainda assim, a rejeição a Trump entre os brasileiros é proporcionalmente menor do que na Europa Ocidental: 30% dizem confiar no presidente americano para tomar decisões corretas em assuntos mundiais, patamar próximo ao registrado para Emmanuel Macron (27%) e Xi Jinping (22%)3.
O Brasil como "laboratório"
Essa desconfiança crescente tem endereço concreto. Desde julho de 2025, Brasil e Estados Unidos atravessam a crise diplomática mais severa em décadas, motivada oficialmente pelo julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal. Trump impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, aplicou a Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa — sanção revogada apenas em dezembro de 2025 — e chegou a cancelar vistos de autoridades ligadas ao Judiciário brasileiro4. Reportagens da imprensa brasileira revelaram ainda um plano, encaminhado ao Departamento de Estado americano, que cogitava o descredenciamento da embaixadora do Brasil em Washington — medida que na prática suspenderia relações diplomáticas — usando o país como uma espécie de "laboratório" de pressão a ser depois replicado contra Colômbia e México5.
Para especialistas em relações internacionais, o episódio confirma um padrão mais amplo: a Casa Branca passou a tratar a América Latina como extensão da política doméstica americana. "As políticas internas na América Latina estão agora inseridas na política estadunidense de tal modo que já não são política exterior", afirmou o economista Francisco Rodríguez, da Universidade do Colorado, em entrevista ao jornal espanhol El País sobre o tema6. Roberto Goulart Menezes, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, vai na mesma direção ao analisar o tarifaço: a medida foi "corretamente interpretada pelo governo brasileiro como uma antecipação da atuação que o governo Trump deve ter na eleição brasileira" de outubro de 20267.
O peso relativo dos EUA encolhe — e Pequim observa
Parte da assertividade americana na região convive, paradoxalmente, com uma perda de peso econômico relativo. Em 1960, os Estados Unidos responderiam por 40% do PIB mundial; hoje essa fatia caiu para cerca de um quarto, enquanto a China, praticamente irrelevante economicamente sete décadas atrás, já responde por quase um quinto da economia global — um dado que, segundo analistas ouvidos pelo El País, ajuda a explicar tanto o tom mais defensivo de Washington quanto a disposição do Brasil em buscar alternativas de inserção internacional6.
É nesse contexto que ganha força, do lado brasileiro, a agenda de desdolarização discutida no âmbito dos BRICS. Durante a cúpula do bloco no Rio de Janeiro, em 2025, Lula defendeu a ampliação do uso de moedas locais no comércio entre os países-membros — proposta que Trump respondeu, ainda durante o evento, com a ameaça de tarifa adicional de 10% a qualquer país alinhado ao que chamou de "politicas antiamericanas" do BRICS8. Em fevereiro de 2026, em entrevista à imprensa indiana, Lula moderou o tom, classificando a desdolarização como "processo gradual" e descartando qualquer proposta de moeda comum do bloco9. Ainda assim, o simples fato de o Brasil ter sido o país a colocar o tema explicitamente na pauta multilateral é apontado por economistas como um dos fatores que azedou a relação com a Casa Branca de Trump10.
Um bicentenário sem consenso interno
A revisão do papel americano no mundo também divide os próprios americanos. Segundo o Pew Research Center, a satisfação da opinião pública dos EUA com a imagem do país no exterior, que chegou a 71% no auge do otimismo pós-Guerra Fria, hoje gira em torno de 38%6 — um recuo que acompanha o desgaste doméstico deixado pela guerra do Iraque, iniciada em 2003 sob a alegação, posteriormente desmentida, de que o regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, e pela crise financeira de 2008. Foi esse duplo desgaste — "guerras eternas" no exterior e estagnação econômica em casa — que analistas apontam como terreno fértil para as vitórias eleitorais de Trump em 2016 e 2024, ambas construídas sobre a promessa de reduzir o envolvimento americano em conflitos externos6.
Na prática, porém, o segundo mandato de Trump não reduziu o intervencionismo — apenas o redirecionou. Em 2026, os Estados Unidos capturaram o líder venezuelano Nicolás Maduro, lançaram ataques militares contra o Irã e classificaram facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, como organizações terroristas estrangeiras — decisão anunciada pouco antes de uma pesquisa da AtlasIntel apontar que 43,4% dos brasileiros temiam interferência americana nas eleições de outubro11. A diferença em relação a décadas anteriores, segundo pesquisadores do Conselho de Relações Exteriores dos EUA, é que a ação americana já não se apoia em ideais de democracia ou direitos humanos, ainda que retoricamente: o critério passou a ser puramente transacional6.
O que resta da confiança
Para diplomatas e pesquisadores brasileiros, o desafio dos próximos anos não é apenas administrar o atrito pontual com Washington, mas repensar a inserção internacional do país em um mundo que já não gira exclusivamente em torno do eixo atlântico. A quarenta e três por cento dos brasileiros, segundo o Pew, ainda avaliam que os Estados Unidos levam em conta os interesses de países como o Brasil ao formular sua política externa — uma minoria, mas não desprezível, que sugere que o rompimento de laços está longe de ser unânime ou irreversível3.
Mientras tanto, o establishment de política externa em Washington debate se o país poderá, um dia, recuperar a confiança perdida. "Não será possível voltar à liderança americana tal como estava", resumiu Mira Rapp-Hooper, ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional dos EUA no governo Biden, em simpósio recente sobre o tema, citada pelo El País6. Para o Brasil, a lição prática talvez seja menos sobre previsão do futuro americano e mais sobre autonomia própria: diversificar parceiros, blindar instituições e tratar a imprevisibilidade de Washington não como exceção passageira, mas como uma variável estrutural da próxima década.
Referências
- Pew Research Center. "How Do Views of Trump Compare With Other Global Leaders in a 2026 Survey?". Disponível em: pewresearch.org.
- Axios. "Trump foreign policy sinks U.S. trust abroad, Pew poll finds". Disponível em: axios.com.
- InfoMoney / Folhapress. "Confiança dos brasileiros nos EUA atinge menor nível da série histórica, diz pesquisa". Disponível em: infomoney.com.br.
- Wikipédia. "Crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos em 2025–2026". Disponível em: pt.wikipedia.org.
- CNN Brasil. "Novas sanções poderiam levar à suspensão da relação EUA-Brasil". Disponível em: cnnbrasil.com.br.
- El País. "¿'Gran Satán' o 'Potencia Indispensable'? En su 250 aniversario, EE UU se plantea su papel en el mundo". Disponível em: elpais.com.
- Brasil de Fato. "Ações de Trump na América Latina acendem alerta para eleições brasileiras de 2026". Disponível em: brasildefato.com.br.
- Gazeta do Povo. "Lula aposta nos Brics, mas barreiras dificultam negócios entre países do bloco". Disponível em: gazetadopovo.com.br.
- Exame. "Lula diz que 'desdolarização' no BRICS é gradual e descarta moeda única". Disponível em: exame.com.
- CNN Brasil. "Lula joga pelas eleições e atrapalha negociação com Trump, diz Dumas ao WW". Disponível em: cnnbrasil.com.br.
- Metrópoles. "Maioria se diz pouco ou nada preocupada com influência de Trump nas eleições no Brasil, diz AtlasIntel". Disponível em: metropoles.com.