Economia · Mercado de capitais & inteligência artificial

Depois de levantar US$ 65 bilhões em maio, avaliada em US$ 965 bilhões, a Anthropic entrou na reta final de um processo que pode redefinir o que significa precificar uma empresa de inteligência artificial. A companhia responsável pelo chatbot Claude protocolou de forma confidencial um pedido de abertura de capital junto à Securities and Exchange Commission (SEC) e mira uma oferta pública inicial em outubro que, segundo relatos do mercado, pode avaliar o negócio em até US$ 2 trilhões1.

O valor chamou atenção justamente por não ter um ponto de comparação óbvio. A Anthropic não tem um concorrente listado em bolsa com modelo de negócio parecido, e boa parte do que sustenta a conta ainda é projeção. Uma reportagem do Financial Times resume o desafio: ao longo da história dos mercados de capitais, investidores já precisaram avaliar mineração no fundo do mar e colônias em Marte, mas raramente um ativo trouxe ao mesmo tempo tanto potencial de lucro e tanto risco existencial embutido no próprio produto1.

Três formas de calcular o preço

O jornal britânico descreve três caminhos possíveis para chegar a um número. O primeiro é olhar para múltiplos de receita de empresas que já se beneficiam do boom de infraestrutura de IA, como a Palantir e a provedora de nuvem Nebius, negociadas a algo perto de 55 vezes a receita em 20262. O segundo é projetar a receita anualizada da própria Anthropic, que passou de cerca de US$ 9 bilhões no fim de 2025 para aproximadamente US$ 47 bilhões em maio e teria superado US$ 65 bilhões ao final de julho, segundo estimativas privadas circuladas entre investidores3. O terceiro caminho é simplesmente observar o que o mercado paralelo já está disposto a pagar: contratos de negociação pré-IPO no mercado cripto vinham precificando a empresa acima de US$ 2 trilhões dias antes da divulgação oficial do prospecto4.

Se a Anthropic está crescendo 800% ao ano, no cenário mais conservador ela deveria ser negociada a 30 vezes a receita. Essa conta sozinha chega a US$ 3 trilhões.Investidor ouvido pelo Financial Times

No segundo trimestre de 2026, a receita da companhia teria somado entre US$ 11,5 bilhões e US$ 11,6 bilhões, um salto de mais de dez vezes sobre o mesmo período do ano anterior, e a empresa teria registrado pela primeira vez um resultado operacional positivo, algo em torno de US$ 599 milhões, revertendo um prejuízo de cerca de US$ 5,6 bilhões em 20245. Bancos como Morgan Stanley, Goldman Sachs e JPMorgan atuam como coordenadores da oferta, prevista para a Nasdaq, e a Nvidia é apontada como possível investidora âncora, com aporte que pode chegar a US$ 10 bilhões6.

O adiamento da OpenAI muda o tabuleiro

A disputa pela liderança do mercado de IA generativa ganhou um contraponto direto. Em entrevista à revista Fortune publicada em 12 de setembro, o presidente-executivo da OpenAI, Sam Altman, descartou uma oferta pública em 2026 e afirmou que, diante do estágio atual das discussões sobre segurança da tecnologia, este seria um momento pouco recomendável para abrir capital7. A OpenAI também havia protocolado um pedido confidencial de listagem, uma semana depois da Anthropic, mas Altman sinalizou que o processo deve empurrar a decisão para 2027, mantendo a rival como a primeira grande laboratório de IA a efetivamente testar o apetite da bolsa7.

Contraponto

Nem todo analista compra a tese. Uma parte relevante do argumento a favor de US$ 2 trilhões depende de projeções de receita para 2028, entre US$ 190 bilhões e US$ 200 bilhões, o que embutiria algo como 10 vezes a receita futura estimada e cerca de 31 vezes a receita anualizada atual3. Críticos apontam que a avaliação privada da própria Anthropic mais que dobrou em três meses, de US$ 965 bilhões em maio para a marca pretendida no IPO, um ritmo de valorização que, para céticos, lembra menos um negócio maduro e mais uma corrida especulativa8. Se o crescimento de receita desacelerar antes de a empresa provar lucratividade sustentada, o desconto pode ser rápido e severo.

O ângulo brasileiro

Para o mercado brasileiro, o teste de precificação da Anthropic funciona como termômetro, mesmo sem acesso direto às ações. O país não é apenas consumidor de modelos de linguagem: tornou-se peça central na cadeia física que sustenta a IA. Segundo a Brasscom, o investimento em inteligência artificial no Brasil deve somar R$ 736,6 bilhões entre 2026 e 2029, crescendo 20% ao ano, dentro de um ciclo total de R$ 2 trilhões em tecnologia da informação e comunicação no período9. O Brasil também concentra cerca de 48% da capacidade instalada de data centers em operação na América Latina e 71% de tudo o que está em construção na região, segundo levantamento da consultoria imobiliária JLL10.

O debate sobre bolha, tão presente nas conversas em torno da Anthropic e da OpenAI, também atravessa a análise de casas locais. Estrategistas do Santander vêm defendendo que olhar múltiplos isoladamente pode induzir o investidor ao erro, já que o contexto macroeconômico e setorial muda a leitura do que é caro ou barato11. Já o economista-chefe global do Andbank argumenta que o ciclo atual ainda está longe do pico especulativo das pontocom, entre outros motivos porque as grandes empresas de tecnologia financiam boa parte da expansão com fluxo de caixa próprio, e não com dívida12. Para o investidor brasileiro exposto a data centers, energia e semicondutores ligados à cadeia de IA, a forma como o mercado americano precificar a Anthropic em outubro deve servir de referência direta para o apetite por esse tipo de risco em 2027.

Perguntas frequentes

Por que a Anthropic quer abrir capital agora?

A empresa aproveita um ciclo de forte crescimento de receita e de demanda institucional por exposição a inteligência artificial para buscar liquidez e capital em uma escala que rodadas privadas dificilmente ofereceriam.

De onde vem a avaliação de US$ 2 trilhões?

Ela combina múltiplos de receita aplicados a empresas de tecnologia comparáveis, projeções de receita para 2028 e a precificação observada em mercados paralelos de negociação pré-IPO, sem que exista ainda um balanço público auditado que confirme os números.

A Anthropic já dá lucro?

A empresa reportou um resultado operacional positivo preliminar no segundo trimestre de 2026, revertendo prejuízos anteriores, mas analistas tratam o dado como recente e ainda sujeito a confirmação no prospecto oficial.

O adiamento do IPO da OpenAI afeta a Anthropic?

Sim. Ao empurrar sua própria listagem para 2027, a OpenAI deixa a Anthropic como a primeira grande referência de mercado para o setor de laboratórios de IA generativa, concentrando nela toda a atenção de investidores neste momento.

Este texto usa como referência inicial a reportagem “Lex in depth: Anthropic at $2tn isn’t far-fetched”, assinada por John Foley e publicada pelo Financial Times. O conteúdo original não é reproduzido ou traduzido de forma integral; dados e contexto adicionais foram apurados em fontes independentes listadas na seção de referências.