Ciência · Evolução Humana
Ilustração: crescimento do volume cerebral hominíneo ao longo de aproximadamente quatro milhões de anos, de cerca de 300 a 1.500 gramas. Arte: O Tecido
Em resumo
- Um estudo publicado na revista Science em 6 de agosto de 2026 modelou a demanda de glicose de hominíneos ao longo de quatro milhões de anos de evolução.
- A pesquisa, liderada por Jennie Brand-Miller (Universidade de Sydney) e Karen Hardy (Universidade de Glasgow), sugere que açúcares de frutas e mel, e não apenas a carne, sustentaram o crescimento do cérebro humano antes do domínio do fogo.
- O cérebro humano moderno consome cerca de 20% da energia do corpo, embora represente apenas 2% do peso corporal.
- Mulheres em fase reprodutiva têm a maior demanda diária de glicose entre todos os grupos analisados, de 200 a 250 gramas.
- O achado reabre o debate sobre o peso relativo de carne e carboidratos na evolução humana, com pesquisadores como a arqueóloga Marina Lozano (IPHES-CERCA) questionando a datação do domínio do fogo usada no modelo.
Por décadas, o relato mais repetido sobre a origem do cérebro humano colocou a carne no centro do palco. Foi ela, dizia-se, que forneceu a energia densa e as proteínas necessárias para sustentar um órgão que, no Homo sapiens, consome cerca de 20% de toda a energia do corpo mesmo representando apenas 2% do peso corporal. Um estudo publicado na revista Science em 6 de agosto de 2026 propõe uma correção importante nessa narrativa: antes da carne, foi o açúcar das frutas e do mel que teria sustentado boa parte desse crescimento.1
A pesquisa, conduzida por Jennie Brand-Miller, professora emérita de nutrição humana da Universidade de Sydney, e Karen Hardy, arqueóloga da Universidade de Glasgow, construiu um modelo com seis etapas evolutivas, do ancestral comum com os chimpanzés até o ser humano moderno, passando por Australopithecus afarensis, Homo habilis e duas fases de Homo erectus. Para cada etapa, as autoras calcularam o que chamam de demanda glicêmica obrigatória: a quantidade de glicose exigida pelo cérebro, pelos glóbulos vermelhos, pelos rins e pelos tecidos reprodutivos, incluindo placenta, glândulas mamárias e feto.2
Um cérebro que cresceu cinco vezes
Ao longo de aproximadamente quatro milhões de anos, o cérebro do gênero que deu origem aos humanos passou de cerca de 300 gramas, próximo ao de um chimpanzé, para os atuais 1.500 gramas. Segundo o modelo publicado na Science, essa expansão exigiu uma fonte de glicose disponível e relativamente fácil de obter, já que o amido cru presente em tubérculos e grãos não libera açúcar de forma eficiente sem cozimento. Como o controle amplo do fogo é um evento evolutivamente recente, a equipe argumenta que frutas e mel foram, por muito tempo, a alternativa mais viável.3
De acordo com reportagem do jornal espanhol El País sobre o estudo, a disponibilidade de carboidratos na dieta teria caído de cerca de 400 gramas diários no estágio equivalente aos chimpanzés, quando mais de 65% da energia vinha de frutas e outros alimentos doces, para aproximadamente 230 gramas diários no ser humano moderno, cuja energia se reparte hoje entre proteínas, açúcares e amidos em proporções mais equilibradas.1
O tecido cerebral não armazena glicose. Ele depende de um fornecimento praticamente contínuo, o que torna a disponibilidade de açúcar um fator evolutivo tão relevante quanto a caça.
A demanda pouco discutida das mulheres
Um dos achados mais destacados pelo estudo diz respeito à reprodução. Segundo o modelo, homens adultos precisariam de 150 a 200 gramas de glicose por dia, e crianças, de cerca de 125 gramas. Já mulheres em idade reprodutiva teriam a maior exigência entre todos os grupos, de 200 a 250 gramas diários, por causa das necessidades combinadas do cérebro, da placenta, do feto e das glândulas mamárias durante a lactação. As autoras argumentam que essa demanda tem recebido pouca atenção da antropologia, historicamente mais concentrada no papel da carne e da caça.12
O geneticista e as evidências dentárias reforçam parte dessa hipótese. Humanos modernos carregam, em média, muito mais cópias do gene responsável pela amilase salivar, enzima que inicia a quebra de carboidratos complexos ainda na boca, do que os chimpanzés. Para os autores do estudo, essa diferença genética é um indício de que a seleção natural favoreceu, ao longo do tempo, uma maior capacidade de extrair glicose de alimentos vegetais.5
Carne e carboidratos, não carne ou carboidratos
É importante notar que o estudo não descarta o papel da carne na evolução humana. Reduções no tamanho do intestino, dos dentes e da mandíbula ao longo da linhagem hominínea são atribuídas, em parte, à introdução progressiva de alimentos de origem animal, mais densos em energia e proteína. A proposta da equipe de Sydney e Glasgow é de complementaridade: carboidratos teriam garantido o combustível constante exigido pelo cérebro, enquanto a carne forneceria proteínas, gorduras e micronutrientes que as plantas por si só não ofereciam com a mesma densidade.3
Essa leitura dialoga com outra descoberta recente e amplamente divulgada no Brasil: a análise da química do esmalte dentário de sete indivíduos de Australopithecus que viveram entre 3,7 e 3,3 milhões de anos atrás na África do Sul, publicada também na Science em 2025, que indicou uma dieta com pouca ou nenhuma carne nesse gênero. Os dois estudos, tomados em conjunto, sugerem que a incorporação de proteína animal em quantidade relevante é mais tardia do que se supunha, o que reforça a importância dos carboidratos nas fases iniciais da evolução do gênero Homo.9
Contraponto
Nem todos os pesquisadores aceitam sem ressalvas as datas propostas pelo novo modelo. Marina Lozano, do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA), afirmou ao El País que o uso controlado e generalizado do fogo para cozinhar é mais recente do que o estudo sugere. Segundo a pesquisadora, espécies como o Homo antecessor, de cerca de 800 mil anos atrás, e os pré-neandertais, de 400 mil anos, já tinham cérebros grandes, entre mil e 1.200 centímetros cúbicos, sem evidências de terem dominado o cozimento de alimentos ricos em amido. Para Lozano, isso indica que outras fontes de glicose, como as próprias frutas, podem ter sido determinantes por um período ainda mais longo do que o modelo assume.1
O que isso muda na conversa sobre dieta hoje
As autoras do estudo fazem questão de separar o papel evolutivo dos açúcares naturais do papel do açúcar refinado na dieta contemporânea. Frutas e mel, dizem, vêm acompanhados de fibras, vitaminas e minerais que os doces e ultraprocessados industriais não oferecem. A mensagem central não é que o açúcar seja inofensivo, mas que a origem e a matriz nutricional da fonte de carboidrato importam tanto quanto a quantidade consumida.3
O tema tem relevância direta para o Brasil, um dos maiores consumidores de açúcar do mundo em termos per capita. Segundo dados da Embrapa, o brasileiro consome hoje entre 51 e 55 quilos de açúcar por ano, mais que o dobro da média mundial, estimada em 21 quilos por habitante. Levantamentos do IBGE mostram ainda que 85,4% da população brasileira costuma adicionar açúcar a alimentos e bebidas, embora essa proporção venha caindo lentamente nas últimas pesquisas de orçamento familiar.67
Para os autores do estudo publicado na Science, a lição prática não é evitar carboidratos, mas priorizar fontes de melhor qualidade, como frutas inteiras, leguminosas e grãos integrais, dentro de uma dieta variada. Trata-se de um argumento que ecoa, com base evolutiva, recomendações já conhecidas da nutrição contemporânea, mas que ganha agora um fundamento histórico mais detalhado sobre por que o cérebro humano permanece tão dependente de glicose até hoje.4
Perguntas frequentes
Qual estudo mostra que o açúcar, e não a carne, moldou o cérebro humano?
É um estudo liderado por Jennie Brand-Miller (Universidade de Sydney) e Karen Hardy (Universidade de Glasgow), publicado na revista Science em 6 de agosto de 2026, que modelou a demanda de glicose de hominíneos ao longo de quatro milhões de anos de evolução.
Quanto de glicose o cérebro humano precisa por dia?
Segundo o modelo, homens adultos precisam de 150 a 200 gramas de glicose por dia, crianças de cerca de 125 gramas, e mulheres em idade reprodutiva, o grupo com maior demanda, de 200 a 250 gramas diários.
O estudo descarta o papel da carne na evolução humana?
Não. A pesquisa propõe complementaridade: a carne teria fornecido proteínas, gorduras e micronutrientes densos, enquanto frutas e mel garantiam o suprimento constante de glicose exigido pelo cérebro, especialmente antes do domínio amplo do fogo para cozinhar.
Quanto açúcar o brasileiro consome em média por ano?
Segundo a Embrapa, o consumo médio no Brasil é de 51 a 55 quilos por habitante ao ano, mais do que o dobro da média mundial, de cerca de 21 quilos por pessoa.
Referências
- LOZANO DEL CAMPO, Ana. Antes de la carne fue la fruta: el cerebro humano evolucionó desde hace millones de años gracias al azúcar. El País, 6 ago. 2026. Disponível em: elpais.com.
- BRAND-MILLER, Jennie et al. A central role for dietary sugars in human evolution. Science, v. 393, n. 6811, p. 574-581, 2026. Disponível em: science.org.
- BRAND-MILLER, Jennie; HARDY, Karen. Fruit and honey fuelled the early evolution of the human brain. The Conversation, ago. 2026. Disponível em: theconversation.com.
- Study Points to Sugar, Not Just Meat, as Fuel for Human Brain Evolution. Sci.News, ago. 2026. Disponível em: sci.news.
- Early Humans Likely Ate Carbs and Sugary Foods. History.com, ago. 2026. Disponível em: history.com.
- Cana-de-açúcar: consumo interno. Embrapa. Disponível em: embrapa.br.
- Consumo de gorduras saturadas cai em dez anos, mas ingestão de açúcar e sal ainda é alta. Agência de Notícias IBGE. Disponível em: ibge.gov.br.
- Alimentos e evolução humana. Scientific American Brasil. Disponível em: sciam.com.br.
- Carne não fazia parte da dieta do australopiteco, aponta pesquisa. CNN Brasil, jan. 2025. Disponível em: cnnbrasil.com.br.