Longevidade · Saúde pública · Envelhecimento
A expectativa de vida no Reino Unido praticamente voltou ao patamar anterior à pandemia. A expectativa de vida saudável, não. No triênio 2022-2024, o número de anos que um britânico pode esperar viver em boa saúde recuou ao menor nível desde o início da série histórica, em 2011-2013, segundo o Office for National Statistics (ONS)2. O dado desloca a pergunta central do envelhecimento: não se trata apenas de quantos anos a população ganha, mas de em que condições ela os atravessa.
É esse descompasso que a epidemiologista Devi Sridhar coloca no centro de sua coluna no The Guardian1. A leitura interessa ao Brasil por um motivo simples: o país envelhece mais depressa do que o Reino Unido envelheceu, e os primeiros indicadores nacionais apontam para o mesmo tipo de lacuna.
Os números do descompasso britânico
Pelos dados do ONS, a expectativa de vida saudável ao nascer no Reino Unido foi de 60,7 anos para homens e 60,9 anos para mulheres em 2022-20242. No mesmo período, a expectativa de vida total chegou a 83,0 anos para as mulheres3 e, conforme a coluna de Sridhar, a 79,1 anos para os homens1. Na prática, um homem britânico passa cerca de 18 anos fora da condição de boa saúde; uma mulher, perto de 22. Os homens vivem em boa saúde 77% da vida, e as mulheres, 73%2.
A média nacional esconde fraturas territoriais. O próprio ONS registra que as áreas com maior expectativa de vida saudável se concentram em Londres e no Sudeste da Inglaterra, e que a diferença entre extremos locais chegou a 14,7 anos para homens e 15,8 anos para mulheres2. Na Escócia, Sridhar lembra que os números ficam ainda abaixo da média britânica, em 59,1 anos para homens e 59,4 para mulheres1.
Há um detalhe de método que importa para qualquer comparação: o indicador britânico se baseia na saúde geral autodeclarada em pesquisas domiciliares. O ONS também reconhece que parte do impacto da covid-19 ainda aparece no triênio mais recente2.
Por que o tema chegou ao centro da política britânica
A coluna não surge no vácuo. Andy Burnham, que assumiu o cargo de primeiro-ministro em julho de 2026, anunciou na abertura da conferência anual do Partido Trabalhista uma proposta de serviço universal de cuidados, gratuito no ponto de uso e com custo distribuído por toda a população. Segundo a Reuters, o plano só será apresentado aos eleitores na próxima eleição geral, prevista até meados de 2029, e a forma de financiamento ainda não foi detalhada4.
Sridhar reconhece a importância do debate, mas propõe inverter a ênfase. Em vez de concentrar o capital político em como cuidar de quem já perdeu autonomia, o governo deveria perseguir, em todas as áreas, o objetivo de ampliar os anos vividos com saúde1. O argumento tem uma lógica fiscal evidente: cada ano de dependência evitado é um ano a menos de pressão sobre o NHS, sobre o sistema de cuidados e sobre as famílias.
A janela que se abre aos 40 anos
A tese central da autora é que o envelhecimento saudável se decide, em grande parte, entre os 40 e os 60 e poucos anos. Nessa fase, a prevenção e o manejo precoce de diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardíacas e câncer pesam tanto quanto a alimentação e a manutenção da força muscular necessária para tarefas cotidianas, como subir escadas, ir ao mercado ou tomar banho sem ajuda1. Sridhar insiste ainda que a saúde na velhice depende do ambiente: áreas verdes, transporte público, moradia, emprego e vínculos comunitários.
A ideia dialoga com um conceito clássico da gerontologia, a compressão da morbidade, formulado pelo médico americano James Fries. O objetivo não é só adiar a morte, mas encurtar o período final da vida vivido com doença e incapacidade. Foi esse o conceito que orientou o trabalho do epidemiologista japonês Ichiro Tsuji na formulação das metas de saúde do Japão, como ele próprio relata no JMA Journal5.
Calçada esburacada também é política de longevidade.
Japão e Singapura: quando longevidade vira meta de Estado
O Japão incluiu a extensão da vida saudável entre as metas prioritárias do programa Health Japan 21, lançado em 2000. Mais tarde, o Plano de Extensão da Expectativa de Vida Saudável fixou alvos para 2040: ganhar pelo menos três anos em relação a 2016 e chegar a no mínimo 75 anos de vida saudável para homens e mulheres5. Os dados mais recentes do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, relativos a 2022 e divulgados pelo Nippon.com, mostram 75,45 anos para as mulheres, já acima da meta, e 72,57 anos para os homens, ainda distantes dela6.
Singapura seguiu outro caminho, menos centrado em um número e mais em desenho intersetorial. O primeiro Plano de Ação para o Envelhecimento Bem-sucedido, de 2015, reuniu dezenas de iniciativas em áreas como saúde, aprendizado, trabalho, moradia, transporte e espaços públicos. Em 2023, o governo renovou o plano em torno de três eixos, Cuidado, Contribuição e Conexão, depois de consultar mais de 5 mil cidadãos, segundo o Ministério da Saúde de Singapura7. Entre as medidas estão transporte adaptado a idosos e travessias com tempo estendido para pedestres. Na avaliação de Sridhar, os dois países lideram hoje os rankings globais de expectativa de vida total e saudável1.
O Brasil no espelho
O brasileiro nunca viveu tanto. A expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024, o maior valor desde o início da série do IBGE, em 1940, com 73,3 anos para homens e 79,9 para mulheres, segundo as Tábuas Completas de Mortalidade8.
Mas a qualidade desses anos avança mais devagar. Estudo publicado em julho de 2026 na The Lancet Public Health, com base no Global Burden of Disease 2023, estima que o brasileiro passa em média 12,5 anos convivendo com doenças, limitações ou incapacidades. Em 1990, eram 10,4 anos, um aumento de cerca de 20%. Com esse resultado, o Brasil ocupa a 16ª posição entre 204 países e territórios no ranking de anos vividos em más condições de saúde, conforme reportagem sobre o estudo9.
O retrato funcional é igualmente eloquente. A terceira onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), conduzido pela Fiocruz Minas e pela UFMG com financiamento do Ministério da Saúde, aponta que 20,4% das pessoas com 60 anos ou mais têm dificuldade para realizar ao menos uma atividade básica da vida diária, como tomar banho, vestir-se, comer ou levantar da cama. São cerca de 6,5 milhões de pessoas, e só 37,9% delas recebem algum tipo de ajuda, segundo a Rede Geronto10. O mesmo levantamento mostra que 42,7% dos idosos em áreas urbanas têm medo de cair por causa de defeitos em calçadas e vias próximas de casa, como noticiou O Tempo10. É um exemplo concreto do argumento de Sridhar: autonomia na velhice também se constrói no urbanismo.
A pressão demográfica é conhecida. O Censo 2022 contou 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, 10,9% da população e um salto de 57,4% em relação a 2010. O índice de envelhecimento chegou a 55,2 idosos para cada 100 crianças de até 14 anos, contra 30,7 doze anos antes11.
Do lado das políticas públicas, o país deu um passo relevante com a Lei 15.069/2024, que instituiu a Política Nacional de Cuidados, e com o Decreto 12.562/2025, que criou o Plano Nacional de Cuidados12. O desenho, porém, está voltado sobretudo à oferta de cuidado e ao reconhecimento de quem cuida, remunerado ou não. É o mesmo eixo da proposta de Burnham. A pergunta que Sridhar faz a Londres vale para Brasília: quanto da dependência que o país se prepara para atender poderia ser adiada, ou evitada, se a saúde dos 40 aos 60 anos fosse tratada como política de Estado?
O que se mede, se governa
A principal contribuição da coluna de Sridhar talvez seja deslocar o indicador de sucesso. Um país que envelhece bem não é apenas aquele que financia cuidados de longa duração, mas o que consegue estender o período em que as pessoas se mantêm independentes. Japão e Singapura transformaram essa ideia em metas e planos intersetoriais; o Reino Unido discute o tema pela porta do custo dos cuidados.
O Brasil já dispõe de parte dos instrumentos para esse debate: uma série longa de mortalidade do IBGE, um estudo longitudinal nacional sobre envelhecimento e uma política de cuidados em implantação. O que ainda falta é tratar os anos de vida saudável como meta pública explícita, acompanhada com a mesma atenção dedicada à expectativa de vida. Com 12,5 anos médios vividos com doença ou limitação, o custo de não medir já está sendo pago, em grande parte pelas famílias.
Perguntas frequentes
O que é expectativa de vida saudável?
É a estimativa de quantos anos, em média, uma pessoa viverá em boa saúde, sem limitações relevantes nas atividades do dia a dia. Diferente da expectativa de vida total, ela mede a qualidade dos anos vividos, e não apenas a sua quantidade.
Qual é a expectativa de vida saudável no Reino Unido?
Segundo o ONS, em 2022-2024 foi de 60,7 anos para homens e 60,9 anos para mulheres, o menor nível desde o início da série, em 2011-2013.
Quantos anos o brasileiro vive com problemas de saúde?
Estudo da The Lancet Public Health com dados do Global Burden of Disease 2023 estima 12,5 anos em média, ante 10,4 anos em 1990.
O que Japão e Singapura fazem de diferente?
O Japão fixou metas nacionais de vida saudável para 2040. Singapura mantém desde 2015 um plano de ação para o envelhecimento que integra saúde, moradia, transporte, trabalho e vida comunitária, renovado em 2023.
O Brasil tem política nacional para o cuidado de pessoas idosas?
Sim. A Lei 15.069/2024 criou a Política Nacional de Cuidados, regulamentada pelo Decreto 12.562/2025, que instituiu o Plano Nacional de Cuidados.