Longevidade · Saúde pública · Envelhecimento

Esta análise parte da coluna de opinião de Devi Sridhar, professora de saúde pública global da Universidade de Edimburgo, publicada no The Guardian em 29 de setembro de 2026 (leia o original). O texto a seguir não é tradução: traz apuração independente, fontes adicionais e o contexto brasileiro.

A expectativa de vida no Reino Unido praticamente voltou ao patamar anterior à pandemia. A expectativa de vida saudável, não. No triênio 2022-2024, o número de anos que um britânico pode esperar viver em boa saúde recuou ao menor nível desde o início da série histórica, em 2011-2013, segundo o Office for National Statistics (ONS)2. O dado desloca a pergunta central do envelhecimento: não se trata apenas de quantos anos a população ganha, mas de em que condições ela os atravessa.

É esse descompasso que a epidemiologista Devi Sridhar coloca no centro de sua coluna no The Guardian1. A leitura interessa ao Brasil por um motivo simples: o país envelhece mais depressa do que o Reino Unido envelheceu, e os primeiros indicadores nacionais apontam para o mesmo tipo de lacuna.

Os números do descompasso britânico

Pelos dados do ONS, a expectativa de vida saudável ao nascer no Reino Unido foi de 60,7 anos para homens e 60,9 anos para mulheres em 2022-20242. No mesmo período, a expectativa de vida total chegou a 83,0 anos para as mulheres3 e, conforme a coluna de Sridhar, a 79,1 anos para os homens1. Na prática, um homem britânico passa cerca de 18 anos fora da condição de boa saúde; uma mulher, perto de 22. Os homens vivem em boa saúde 77% da vida, e as mulheres, 73%2.

A média nacional esconde fraturas territoriais. O próprio ONS registra que as áreas com maior expectativa de vida saudável se concentram em Londres e no Sudeste da Inglaterra, e que a diferença entre extremos locais chegou a 14,7 anos para homens e 15,8 anos para mulheres2. Na Escócia, Sridhar lembra que os números ficam ainda abaixo da média britânica, em 59,1 anos para homens e 59,4 para mulheres1.

Há um detalhe de método que importa para qualquer comparação: o indicador britânico se baseia na saúde geral autodeclarada em pesquisas domiciliares. O ONS também reconhece que parte do impacto da covid-19 ainda aparece no triênio mais recente2.

Por que o tema chegou ao centro da política britânica

A coluna não surge no vácuo. Andy Burnham, que assumiu o cargo de primeiro-ministro em julho de 2026, anunciou na abertura da conferência anual do Partido Trabalhista uma proposta de serviço universal de cuidados, gratuito no ponto de uso e com custo distribuído por toda a população. Segundo a Reuters, o plano só será apresentado aos eleitores na próxima eleição geral, prevista até meados de 2029, e a forma de financiamento ainda não foi detalhada4.

Sridhar reconhece a importância do debate, mas propõe inverter a ênfase. Em vez de concentrar o capital político em como cuidar de quem já perdeu autonomia, o governo deveria perseguir, em todas as áreas, o objetivo de ampliar os anos vividos com saúde1. O argumento tem uma lógica fiscal evidente: cada ano de dependência evitado é um ano a menos de pressão sobre o NHS, sobre o sistema de cuidados e sobre as famílias.

A janela que se abre aos 40 anos

A tese central da autora é que o envelhecimento saudável se decide, em grande parte, entre os 40 e os 60 e poucos anos. Nessa fase, a prevenção e o manejo precoce de diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardíacas e câncer pesam tanto quanto a alimentação e a manutenção da força muscular necessária para tarefas cotidianas, como subir escadas, ir ao mercado ou tomar banho sem ajuda1. Sridhar insiste ainda que a saúde na velhice depende do ambiente: áreas verdes, transporte público, moradia, emprego e vínculos comunitários.

A ideia dialoga com um conceito clássico da gerontologia, a compressão da morbidade, formulado pelo médico americano James Fries. O objetivo não é só adiar a morte, mas encurtar o período final da vida vivido com doença e incapacidade. Foi esse o conceito que orientou o trabalho do epidemiologista japonês Ichiro Tsuji na formulação das metas de saúde do Japão, como ele próprio relata no JMA Journal5.

Calçada esburacada também é política de longevidade.

Japão e Singapura: quando longevidade vira meta de Estado

O Japão incluiu a extensão da vida saudável entre as metas prioritárias do programa Health Japan 21, lançado em 2000. Mais tarde, o Plano de Extensão da Expectativa de Vida Saudável fixou alvos para 2040: ganhar pelo menos três anos em relação a 2016 e chegar a no mínimo 75 anos de vida saudável para homens e mulheres5. Os dados mais recentes do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, relativos a 2022 e divulgados pelo Nippon.com, mostram 75,45 anos para as mulheres, já acima da meta, e 72,57 anos para os homens, ainda distantes dela6.

Singapura seguiu outro caminho, menos centrado em um número e mais em desenho intersetorial. O primeiro Plano de Ação para o Envelhecimento Bem-sucedido, de 2015, reuniu dezenas de iniciativas em áreas como saúde, aprendizado, trabalho, moradia, transporte e espaços públicos. Em 2023, o governo renovou o plano em torno de três eixos, Cuidado, Contribuição e Conexão, depois de consultar mais de 5 mil cidadãos, segundo o Ministério da Saúde de Singapura7. Entre as medidas estão transporte adaptado a idosos e travessias com tempo estendido para pedestres. Na avaliação de Sridhar, os dois países lideram hoje os rankings globais de expectativa de vida total e saudável1.

Expectativa de vida dividida entre anos saudáveis e anos com limitações, Reino Unido 2022-2024 e Japão 2022 Reino Unido · H Reino Unido · M Japão · H Japão · M 60,760,972,675,5 18,422,18,511,6 anos saudáveis (RU) anos saudáveis (JP) anos com limitação
Anos de vida em boa saúde e com limitações, por sexo. Fontes: ONS (Reino Unido, 2022-2024) e Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão, via Nippon.com (2022). As metodologias são distintas: o Reino Unido usa saúde geral autodeclarada; o Japão, limitações nas atividades da vida diária. A comparação é indicativa, não direta.

O Brasil no espelho

O brasileiro nunca viveu tanto. A expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024, o maior valor desde o início da série do IBGE, em 1940, com 73,3 anos para homens e 79,9 para mulheres, segundo as Tábuas Completas de Mortalidade8.

Mas a qualidade desses anos avança mais devagar. Estudo publicado em julho de 2026 na The Lancet Public Health, com base no Global Burden of Disease 2023, estima que o brasileiro passa em média 12,5 anos convivendo com doenças, limitações ou incapacidades. Em 1990, eram 10,4 anos, um aumento de cerca de 20%. Com esse resultado, o Brasil ocupa a 16ª posição entre 204 países e territórios no ranking de anos vividos em más condições de saúde, conforme reportagem sobre o estudo9.

O retrato funcional é igualmente eloquente. A terceira onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), conduzido pela Fiocruz Minas e pela UFMG com financiamento do Ministério da Saúde, aponta que 20,4% das pessoas com 60 anos ou mais têm dificuldade para realizar ao menos uma atividade básica da vida diária, como tomar banho, vestir-se, comer ou levantar da cama. São cerca de 6,5 milhões de pessoas, e só 37,9% delas recebem algum tipo de ajuda, segundo a Rede Geronto10. O mesmo levantamento mostra que 42,7% dos idosos em áreas urbanas têm medo de cair por causa de defeitos em calçadas e vias próximas de casa, como noticiou O Tempo10. É um exemplo concreto do argumento de Sridhar: autonomia na velhice também se constrói no urbanismo.

A pressão demográfica é conhecida. O Censo 2022 contou 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, 10,9% da população e um salto de 57,4% em relação a 2010. O índice de envelhecimento chegou a 55,2 idosos para cada 100 crianças de até 14 anos, contra 30,7 doze anos antes11.

Do lado das políticas públicas, o país deu um passo relevante com a Lei 15.069/2024, que instituiu a Política Nacional de Cuidados, e com o Decreto 12.562/2025, que criou o Plano Nacional de Cuidados12. O desenho, porém, está voltado sobretudo à oferta de cuidado e ao reconhecimento de quem cuida, remunerado ou não. É o mesmo eixo da proposta de Burnham. A pergunta que Sridhar faz a Londres vale para Brasília: quanto da dependência que o país se prepara para atender poderia ser adiada, ou evitada, se a saúde dos 40 aos 60 anos fosse tratada como política de Estado?

O que se mede, se governa

A principal contribuição da coluna de Sridhar talvez seja deslocar o indicador de sucesso. Um país que envelhece bem não é apenas aquele que financia cuidados de longa duração, mas o que consegue estender o período em que as pessoas se mantêm independentes. Japão e Singapura transformaram essa ideia em metas e planos intersetoriais; o Reino Unido discute o tema pela porta do custo dos cuidados.

O Brasil já dispõe de parte dos instrumentos para esse debate: uma série longa de mortalidade do IBGE, um estudo longitudinal nacional sobre envelhecimento e uma política de cuidados em implantação. O que ainda falta é tratar os anos de vida saudável como meta pública explícita, acompanhada com a mesma atenção dedicada à expectativa de vida. Com 12,5 anos médios vividos com doença ou limitação, o custo de não medir já está sendo pago, em grande parte pelas famílias.

Perguntas frequentes

O que é expectativa de vida saudável?

É a estimativa de quantos anos, em média, uma pessoa viverá em boa saúde, sem limitações relevantes nas atividades do dia a dia. Diferente da expectativa de vida total, ela mede a qualidade dos anos vividos, e não apenas a sua quantidade.

Qual é a expectativa de vida saudável no Reino Unido?

Segundo o ONS, em 2022-2024 foi de 60,7 anos para homens e 60,9 anos para mulheres, o menor nível desde o início da série, em 2011-2013.

Quantos anos o brasileiro vive com problemas de saúde?

Estudo da The Lancet Public Health com dados do Global Burden of Disease 2023 estima 12,5 anos em média, ante 10,4 anos em 1990.

O que Japão e Singapura fazem de diferente?

O Japão fixou metas nacionais de vida saudável para 2040. Singapura mantém desde 2015 um plano de ação para o envelhecimento que integra saúde, moradia, transporte, trabalho e vida comunitária, renovado em 2023.

O Brasil tem política nacional para o cuidado de pessoas idosas?

Sim. A Lei 15.069/2024 criou a Política Nacional de Cuidados, regulamentada pelo Decreto 12.562/2025, que instituiu o Plano Nacional de Cuidados.