Sustentabilidade · Biodiversidade
Este texto tem como ponto de partida a reportagem de María Mónica Monsalve S. publicada pelo jornal El País (seção América Futura) em 7 de outubro de 2026. Dados complementares foram apurados de forma independente em fontes brasileiras e internacionais, citadas ao longo do texto.
A América Latina e o Caribe registraram uma queda média de 95% nas populações monitoradas de mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios entre 1970 e 2022. O número está no Relatório Planeta Vivo 2026, divulgado nesta semana pelo WWF em parceria com a Sociedade Zoológica de Londres (ZSL), e repete um padrão já conhecido: a região mais biodiversa do planeta é também a que mais perde.1,2 No mundo, o declínio médio ficou em 73%, o que equivale a uma retração de cerca de 2,5% ao ano ao longo de 52 anos.2
O relatório chega a onze dias da abertura da Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade, a COP17, marcada para 19 de outubro em Yerevan, na Armênia.2 Para o Brasil, que concentra a maior parcela da biodiversidade latino-americana, o documento traz uma mensagem dupla. Há casos de recuperação comprovada em território nacional, mas um dos mecanismos que o próprio relatório elogia está hoje enfraquecido por decisão de um órgão do Estado brasileiro.
O que o Índice Planeta Vivo mede, e o que ele não mede
O Índice Planeta Vivo acompanha a variação no tamanho de populações específicas de vertebrados desde 1970. Na edição de 2026, foram analisadas 35.803 populações de 5.790 espécies.2 Para a América Latina e o Caribe, segundo o El País, a base inclui 4.737 populações de 1.405 espécies.1
Esse desenho metodológico exige cuidado na leitura. O índice registra a mudança relativa média das populações acompanhadas, e não uma contagem de indivíduos. Como reconhece o próprio relatório, citado pelo jornal espanhol, o resultado não significa que existam 73% menos animais selvagens hoje do que em 1970, nem que 73% das espécies estejam em declínio.1 A Agência Brasil acrescenta outro ponto relevante: os números desta edição não são diretamente comparáveis aos de 2024, porque a base foi ampliada com 967 novas populações de 295 espécies e teve 669 populações atualizadas.2
Em outras palavras, o fato de a média global ter permanecido em 73%, mesmo valor da edição anterior, não deve ser lido como estabilização. Trata-se de uma série recalculada sobre outra base.
Por que a América Latina lidera as perdas
A explicação começa pela própria riqueza da região. Segundo o Metrópoles, o relatório aponta o sistema atual de produção de alimentos e agricultura como a principal causa da perda de biodiversidade no mundo.3 Na América Latina, essa pressão se concentra exatamente onde a densidade de espécies é maior: florestas tropicais, cerrados e grandes bacias hidrográficas convertidos em pastagem, lavoura e infraestrutura.
Ao El País, Carlos Mauricio Herrera, diretor de Conservação e Governança do WWF Colômbia, resumiu que a região é onde a perda avança em ritmo mais acelerado, justamente por concentrar mais diversidade.1 Há também um efeito estatístico: quanto mais espécies e populações uma região abriga, mais exposta ela fica quando o uso da terra muda em grande escala.
Água doce, o ambiente mais atingido
Entre os três grandes tipos de ecossistema, o de água doce teve o pior desempenho, com queda média de 85%, o equivalente a 3,6% ao ano. Ambientes terrestres caíram 69% e marinhos, 59%.2 O relatório atribui parte do problema a barragens e desvios de rios, que bloqueiam rotas de migração de peixes.2
Para o Brasil, esse dado tem peso particular. O país abriga algumas das maiores bacias do planeta e acumula décadas de expansão hidrelétrica na Amazônia e no Centro-Oeste. Em abril de 2026, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima publicou uma atualização específica da lista oficial de peixes e invertebrados aquáticos ameaçados, com cerca de 100 inclusões e 100 exclusões em relação a 2022, segundo a CNN Brasil.4 Somadas as listas, o país tem hoje mais de 1,2 mil espécies da fauna classificadas como ameaçadas, entre mais de 15 mil avaliadas pelo ICMBio, conforme balanço do MMA reproduzido pelo eCycle.5
O Brasil entre a recuperação e o retrocesso
O relatório dedica espaço considerável a casos em que a conservação funcionou. Segundo a Agência Brasil, metade das populações monitoradas pelo índice está estável ou em crescimento graças a esforços de proteção.2 O exemplo brasileiro mais citado é o da onça-pintada na Mata Atlântica, cuja população cresceu 280% entre 2019 e 2025 após uma ação coordenada entre governo, organizações do terceiro setor e produtores rurais.2
Helga Correa, especialista em Conservação do WWF-Brasil, afirmou à Agência Brasil que esses casos mostram que o declínio da natureza não é inevitável, desde que haja ação contínua, em escala e voltada às causas da perda.2 No plano global, o caso mais simbólico é o da tartaruga-verde, que em 2025 passou de "Ameaçada" para "Pouco Preocupante" na Lista Vermelha da UICN após cinco décadas de trabalho em mais de 80 países de desova.2
A contradição da Moratória da Soja
O relatório também cita a Moratória da Soja como uma das intervenções de cadeia de suprimentos mais bem-sucedidas do mundo.3 O acordo, criado em 2006 entre tradings, exportadores, organizações ambientais e governo, impede a compra de soja produzida em áreas da Amazônia desmatadas depois de 2008.6
O elogio chega em um momento delicado. Em 30 de setembro de 2025, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) manteve a suspensão preventiva do pacto a partir de 1º de janeiro de 2026, no âmbito de uma investigação por suposta conduta anticoncorrencial aberta após representação da Comissão de Agricultura da Câmara, como registrou o Poder360.6 Em fevereiro deste ano, pesquisadores do Inpa publicaram no Amazônia Real um texto pedindo a retomada do acordo e classificando seu encerramento como irresponsável.7
O resultado é uma situação pouco usual: um relatório internacional apresenta como modelo uma política brasileira que, dentro do Brasil, perdeu sustentação institucional. A distância entre o reconhecimento externo e a disputa interna deve aparecer nas discussões da COP17, em que a delegação brasileira também levará o Tropical Forest Forever Facility, fundo para florestas tropicais do qual o país é um dos fundadores e que o relatório menciona como iniciativa positiva.3
Sobre a metodologia. O Índice Planeta Vivo é alvo de críticas acadêmicas há anos. Um estudo publicado na revista Nature em 2020 (Leung e colaboradores) mostrou que a média global é fortemente influenciada por um pequeno grupo de populações em colapso extremo; retiradas essas populações, a tendência agregada muda de forma significativa. Os autores não negam a perda de biodiversidade, mas sustentam que ela é mais concentrada do que uma média única sugere. O próprio WWF reconhece que o índice é apenas um entre vários indicadores e, nesta edição, incorporou dados sobre risco de extinção e integridade da biodiversidade.2,8
Sobre a Moratória. Entidades do agronegócio, como a Aprosoja-MT e a CNA, argumentam que o pacto é mais restritivo que o Código Florestal, que permite desmatamento legal em parte da Amazônia, e que funcionaria como barreira comercial privada a produtores em situação regular. Para esse grupo, a decisão do Cade restabelece segurança jurídica.6
Onde está o dinheiro
O relatório estende a análise ao sistema financeiro. Segundo o El País, cerca de US$ 7,3 trilhões foram destinados em 2023 a atividades nocivas à natureza, contra apenas US$ 220 bilhões para atividades de proteção ou restauração.1 A Agência Brasil acrescenta que aproximadamente US$ 58 trilhões do PIB global de 2023 vieram de atividades que dependem, de alguma forma, da natureza.2
A diretora-geral do WWF Internacional, Kirsten Schuijt, afirmou que reverter a tendência exige transformar sistemas inteiros, da produção de energia e alimentos à forma como as economias são financiadas.2 Como contribuição à COP17, o relatório adota o conceito de "ponto de inflexão positivo", desenvolvido na Universidade de Exeter: o momento em que uma mudança favorável passa a se reforçar sozinha, tornando-se mais rápida, barata e difícil de reverter.2
Para o Brasil, a pergunta prática é qual dessas engrenagens será acionada primeiro. O país tem casos concretos de recuperação, instrumentos financeiros em negociação internacional e uma base técnica robusta de monitoramento de espécies. Tem também disputas regulatórias abertas que afetam diretamente a fronteira agrícola, principal vetor de perda apontado pelo relatório. O desempenho brasileiro em Yerevan dirá algo sobre como essas duas agendas convivem.
Perguntas frequentes
O que é o Relatório Planeta Vivo 2026?
É a edição bienal do relatório do WWF produzido com a Sociedade Zoológica de Londres. Ele acompanha 35.803 populações de 5.790 espécies de vertebrados entre 1970 e 2022 por meio do Índice Planeta Vivo.
Quanto caíram as populações de animais selvagens na América Latina?
A queda média foi de 95% entre 1970 e 2022 nas populações monitoradas, a maior entre todas as regiões. A média global foi de 73%.
A queda de 73% significa que existem 73% menos animais no planeta?
Não. O índice mede a variação média relativa de populações monitoradas. Ele não equivale a uma contagem total de animais nem indica que 73% das espécies estejam em declínio.
Qual ecossistema perdeu mais biodiversidade?
O de água doce, com queda média de 85%. Ambientes terrestres caíram 69% e marinhos, 59%.
Que exemplos brasileiros aparecem no relatório?
A recuperação de 280% da onça-pintada na Mata Atlântica entre 2019 e 2025, a Moratória da Soja e o Tropical Forest Forever Facility.
Quando acontece a COP17 de biodiversidade?
A conferência começa em 19 de outubro de 2026, em Yerevan, na Armênia.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido · Caderno Sustentabilidade