Tecnologia · Série: IA no Canadá — Parte 1
Publicado em O Tecido · Caderno Tecnologia · Tempo de leitura estimado: 7 min

Nos dias 16 e 17 de setembro, Montreal recebe a quarta edição da ALL IN, o maior evento de tecnologia e inteligência artificial do Canadá, reunindo mais de 7.500 líderes de negócios vindos de cerca de 40 países. O detalhe que interessa a quem acompanha política tecnológica fora da América do Norte não é o tamanho da plateia, mas a escolha do país homenageado: a Alemanha. A decisão não é protocolar. Ela formaliza, em público, uma aliança que Ottawa e Berlim já vinham costurando desde fevereiro, quando os dois governos assinaram uma declaração de intenção e lançaram a chamada Aliança para a Soberania Tecnológica.

O gesto ilustra um movimento que se repete em várias partes do mundo: países de porte médio, que não têm escala para competir sozinhos com Estados Unidos e China na corrida por modelos de fronteira, estão formando blocos bilaterais para dividir o que cada um faz melhor. O caso canadense e alemão é revelador porque expõe, com clareza pouco comum, o que significa lecionar essa lição na prática, e o que fica de fora quando um país decide seguir sozinho, como tem feito o Brasil.

Duas potências médias, duas especialidades complementares

O Canadá ocupa lugar histórico na pesquisa de base em IA, com institutos como Mila, Amii e Vector Institute, além de empresas como a Cohere. O problema, segundo especialistas locais, é que essa vantagem em pesquisa não se converteu em capacidade aplicada. Conforme aponta Richard St-Pierre, conselheiro sênior em soberania quântica e digital na Levio, o Canadá é reconhecido pelo talento conceitual, mas não pela infraestrutura: os grandes data centers e as empresas de ponta como OpenAI e Anthropic estão em outros lugares.

É nesse ponto que a Alemanha entra. O país reúne a maior economia industrial da Europa e uma tradição consolidada de aplicar tecnologia em manufatura, mobilidade, saúde e administração pública, segundo descrevem a embaixadora Tjorven Bellmann e o embaixador Matthias Lüttenberg, representantes da Alemanha no Canadá. A lógica da aliança é simples de enunciar e difícil de executar: trocar cérebro por músculo industrial.

"O Canadá é pioneiro mundial em pesquisa de IA. A Alemanha traz a maior economia industrial da Europa e ampla experiência em aplicar IA na manufatura, na mobilidade, na saúde e na administração pública. Nossos ativos são altamente complementares." Tjorven Bellmann e Matthias Lüttenberg, embaixadora e embaixador da Alemanha no Canadá

De declaração diplomática a resultado mensurável

O que distingue esse acordo de tantas outras cartas de intenção assinadas em cúpulas internacionais é a insistência dos dois governos em amarrar a cooperação a entregas concretas. Segundo os embaixadores, o objetivo prático é que pesquisadores colaborem com mais facilidade, que empresas desenvolvam soluções conjuntas e que os governos troquem práticas sobre uso de IA em serviços públicos. A meta declarada na ALL IN é ainda mais direta: gerar mandatos reais e negócios concretos entre empresas dos dois países, como resume Isabelle Turcotte, cofundadora e CEO do evento.

Essa ênfase em resultado tangível responde a um problema que os próprios organizadores da conferência reconhecem: a inovação em IA segue fragmentada, com pesquisadores, empresas e governos trabalhando em paralelo em vez de coordenados, num contexto geopolítico em que essa fragmentação pesa contra quem a pratica. A aposta germânico-canadense é que a coordenação bilateral, mesmo limitada a dois países, produz mais eficiência do que a tentativa isolada de competir em todas as frentes da cadeia de IA ao mesmo tempo.

O contraste brasileiro: sozinho na corrida por infraestrutura

O Brasil não tem, hoje, um equivalente dessa aliança. O país aposta suas fichas no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028, direcionados a infraestrutura computacional, capacitação de servidores públicos, governança e apoio regulatório. Em agosto, o governo federal anunciou um novo pacote de R$ 2,2 bilhões para ampliar a capacidade nacional de processamento, incluindo um supercomputador e uma iniciativa de nuvem soberana batizada de "Nuvem Brasileira".

A diferença central em relação ao modelo canadense e alemão está na natureza das parcerias. Uma das duas novas infraestruturas de computação previstas pelo PBIA, a ser instalada no Rio de Janeiro, terá implantação conduzida pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa em parceria com as chinesas Huawei e iFlytek. Não se trata, portanto, de uma aliança estratégica entre potências médias com visões regulatórias próximas, como fizeram Ottawa e Berlim, mas de contratos de fornecimento pontuais com fornecedores de infraestrutura. A distinção importa: parceria estratégica implica coordenação de pesquisa, intercâmbio de talentos e alinhamento regulatório de longo prazo; contrato de fornecimento resolve um gargalo técnico imediato sem necessariamente construir um ecossistema compartilhado.

CANADÁ + ALEMANHA Aliança estratégica formal Pesquisa + capacidade industrial Metas de negócio conjuntas Governança compartilhada BRASIL Plano nacional isolado (PBIA) Contratos pontuais de fornecimento Sem parceiro estratégico fixo Foco em soberania de infraestrutura

Essa lacuna aparece também nos números de adoção. Um levantamento da IDC divulgado em maio mostrou que 61,1% das organizações governamentais brasileiras ainda não usam IA soberana, mas planejam investir nos próximos 12 a 18 meses, um percentual próximo da média global de 60,5%. A distância aparece quando se olha para quem já está investindo de forma significativa: apenas 8,3% das organizações brasileiras fazem isso hoje, contra 15,5% no plano global. O Brasil declara ambição de soberania tecnológica no mesmo tom que Canadá e Alemanha, mas sem uma aliança bilateral equivalente que reparta custos, riscos e capacidades entre pares.

Contraponto

Nem todo especialista em política tecnológica vê alianças bilaterais como solução automática. Um argumento recorrente é que acordos como o do Canadá e da Alemanha também criam dependência, apenas trocam um fornecedor único (geralmente americano) por outro parceiro estrangeiro, sem resolver o problema de fundo: a ausência de capacidade produtiva própria em semicondutores e data centers de ponta.

Sob essa leitura, a estratégia brasileira de diversificar fornecedores, incluindo parcerias asiáticas ao lado de investimento público direto, pode ser lida não como desorganização, mas como uma forma distinta de reduzir dependência de um único bloco geopolítico. O ponto em aberto é se essa diversificação sem eixo estratégico definido consegue produzir a mesma coordenação de pesquisa e capacitação que uma aliança formal proporciona.

Por que essa aliança interessa ao leitor brasileiro

A produtividade é o fio que conecta as duas histórias. Richard St-Pierre descreve a fase atual da IA aplicada como a passagem de ferramentas de apoio, como tradução automática ou anotação de reuniões, para soluções que se integram a cadeias de suprimento, proteção de infraestrutura crítica e eficiência de processos industriais. O Canadá tem um dos piores índices de produtividade entre os países do G7 há anos, e a expectativa declarada por Isabelle Turcotte é que a união entre cérebros canadenses e força industrial alemã ajude a reverter esse quadro.

O Brasil enfrenta um desafio de produtividade industrial de magnitude comparável, e a pergunta que fica após observar o modelo germânico-canadense é se o país tem, hoje, um parceiro estratégico definido para essa etapa de aplicação industrial da IA, ou se seguirá tentando resolver sozinho, com fornecedores trocados conforme a conveniência do momento, um problema que outros países de porte médio decidiram enfrentar em dupla.

Nesta reportagem

  1. Duas potências médias, especialidades complementares
  2. De declaração a resultado mensurável
  3. O contraste brasileiro
  4. Contraponto
  5. Por que isso interessa ao Brasil

Em números

7.500+líderes de negócios na ALL IN 2026
~40países representados no evento
R$ 23 biinvestimento previsto no PBIA (2024-2028)
8,3%organizações brasileiras investindo de forma significativa em IA soberana

Linha do tempo

  • Fevereiro de 2026Canadá e Alemanha assinam declaração de intenção e lançam a Aliança para a Soberania Tecnológica.
  • Agosto de 2026Governo brasileiro anuncia pacote adicional de R$ 2,2 bilhões para infraestrutura de IA e nuvem soberana.
  • 16 e 17 de setembro de 2026Quarta edição da ALL IN em Montreal, com a Alemanha como país homenageado.

Glossário

ALL IN
Maior conferência de tecnologia e inteligência artificial do Canadá, realizada anualmente em Montreal.
PBIA
Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, estratégia federal de investimento em IA para o período 2024-2028.
IA soberana
Capacidade de um país controlar seu próprio ecossistema de dados, modelos e infraestrutura de IA, reduzindo dependência de fornecedores estrangeiros.
Aliança para a Soberania Tecnológica
Iniciativa bilateral lançada por Canadá e Alemanha em fevereiro de 2026 para coordenar pesquisa, infraestrutura e regulação de IA.

Referências

  1. Julie Chaumont. "L'Allemagne et le Canada, une relation qui n'a rien d'artificiel". La Presse, 14 de setembro de 2026.
  2. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028.
  3. Agência Brasil. Cobertura sobre investimentos de R$ 23 bilhões em IA soberana.
  4. Forbes Brasil. Reportagem sobre adoção de IA soberana por organizações brasileiras (pesquisa IDC).
  5. Capital Digital. Cobertura sobre parceria com Huawei e iFlytek na infraestrutura de IA no Rio de Janeiro.
Esta reportagem usa como ponto de partida a matéria original de Julie Chaumont, publicada em La Presse em 14 de setembro de 2026, com dados e contexto adicionais levantados por O Tecido. Trechos citados diretamente da reportagem original permanecem de autoria da jornalista e do veículo canadense.

Perguntas frequentes

O que é a Aliança para a Soberania Tecnológica entre Alemanha e Canadá?

É uma iniciativa bilateral lançada em fevereiro de 2026, após a assinatura de uma declaração de intenção entre os dois governos, com o objetivo de coordenar pesquisa em IA, infraestrutura computacional, intercâmbio de talentos e práticas regulatórias entre Canadá e Alemanha.

Por que a Alemanha é o país homenageado na ALL IN 2026?

Porque os organizadores do evento identificam complementaridade entre os dois ecossistemas: o Canadá concentra pesquisa de base em IA, enquanto a Alemanha tem experiência consolidada em aplicar tecnologia à indústria, mobilidade, saúde e administração pública.

Como o Brasil se compara em termos de investimento em IA soberana?

O Brasil prevê R$ 23 bilhões em investimentos via Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) até 2028, mas apenas 8,3% das organizações brasileiras investem hoje de forma significativa em IA soberana, ante 15,5% na média global, segundo pesquisa da IDC.

O Brasil tem uma aliança estratégica de IA equivalente à do Canadá com a Alemanha?

Não no mesmo formato. O Brasil firma contratos de fornecimento de infraestrutura, como a parceria com as chinesas Huawei e iFlytek para uma unidade de computação no Rio de Janeiro, mas não possui, até o momento, uma aliança bilateral formal de coordenação estratégica em pesquisa e regulação de IA comparável à assinada por Canadá e Alemanha.