Uma cúpula pensada para exibir a economia americana como modelo global terminou marcada por queixas. Na reunião de ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do G20, realizada em Asheville, na Carolina do Norte, entre 31 de agosto e 1º de setembro, representantes de países aliados dos Estados Unidos usaram parte dos debates para criticar publicamente os efeitos da guerra tarifária e do conflito com o Irã sobre suas economias.1
O anfitrião do encontro, o secretário do Tesouro americano Scott Bessent, dedicou boa parte das sessões a elogiar o desempenho da economia dos Estados Unidos sob o governo Trump e a convidar as demais nações a seguirem o mesmo caminho.1 Em uma conversa pública com o apresentador da Fox Business Larry Kudlow, Bessent afirmou que o país vive "um momento muito especial" por liderar a corrida da inteligência artificial e da capacidade computacional global.1
O atrito por trás dos sorrisos protocolares
Nem todos os presentes compraram o otimismo. Segundo o economista Eswar Prasad, da Universidade Cornell e ex-chefe da divisão para a China do Fundo Monetário Internacional, mesmo aliados tradicionais dos Estados Unidos manifestaram publicamente divergências em relação às prioridades do governo Trump.1
O vice-chanceler alemão Lars Klingbeil resumiu o desconforto europeu ao citar os conflitos tarifários americanos, incluindo o impasse crescente com o Canadá, como fatores que corroem a confiança no comércio internacional.1 Já o presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, relatou que a crítica europeia à decisão unilateral de Bessent de vender reservas em euros para sustentar o iene japonês parece ter sido compreendida pelos americanos, já que a medida não foi coordenada previamente com a Europa.1
O atrito mais aberto ocorreu com o Canadá. Bessent minimizou o país em entrevista à CNBC, argumentando que não faz sentido uma disputa tarifária equilibrada com uma economia treze vezes menor que a americana.1 O ministro das Finanças canadense, François-Philippe Champagne, respondeu que seu país "vai defender seus trabalhadores, suas indústrias".1
O que os números do FMI mostram
Os atritos diplomáticos não são apenas retórica. O próprio Fundo Monetário Internacional reconheceu, em sua atualização de julho do World Economic Outlook, que a escalada da guerra entre Estados Unidos e Irã pressionou os preços de energia e contribuiu para revisar a inflação global de 2026 para cima, a 4,7%.2 Mesmo assim, a economia americana deve crescer 2,3% neste ano, ritmo superior ao da maioria das economias desenvolvidas, sustentado pelo consumo das famílias e pelo ciclo de investimentos em inteligência artificial e data centers.3
A zona do euro, por outro lado, teve sua projeção de crescimento para 2026 reduzida de 1,1% para 0,9%, com a Alemanha crescendo apenas 0,7% no ano, um reflexo direto dos custos energéticos elevados e da guerra tarifária com Washington.3
A conexão brasileira
O Brasil não foi protagonista dos embates em Asheville, mas está longe de ficar imune ao ambiente que os motivou. Depois de um tarifaço de 50% imposto em agosto de 2025 sobre boa parte dos produtos brasileiros, derrubado meses depois pela Suprema Corte dos Estados Unidos, o governo americano abriu em junho de 2026 uma nova frente, com uma tarifa adicional de 25% baseada em investigação da Seção 301, mirando setores como máquinas, calçados, móveis e têxteis.4
O Banco Central estima que as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram de US$ 40,4 bilhões em 2024 para US$ 37,7 bilhões em 2025, queda equivalente a cerca de 0,1% do Produto Interno Bruto nacional, com efeito mais concentrado nos estados do Sudeste e do Sul.5 Ainda assim, o resultado agregado do comércio exterior brasileiro seguiu positivo, em parte porque exportadores redirecionaram cargas para outros mercados, como a China.5
Esse redirecionamento ajuda a explicar por que o FMI tem revisado para cima as projeções de crescimento do Brasil ao longo de 2026: de 1,9% em abril para 2,4% na atualização de julho, a maior revisão positiva entre as economias avaliadas pela instituição naquele relatório.6 O Fundo destaca que reservas internacionais elevadas, menor dependência de dívida em moeda estrangeira e câmbio flutuante ajudam o país a absorver choques externos como os que dominaram a pauta em Asheville.7
Contraponto
A leitura de Bessent e de parte da equipe econômica de Trump é que o crescimento americano acima da média das economias ricas valida a aposta em tarifas e desregulamentação. Em Asheville, o secretário disse que 19 dos 20 membros do G20 concordaram em enfrentar o problema das "exportações baratas" que distorcem o comércio global, uma referência direta ao excedente chinês, com a China como única dissidente.8
Para essa visão, os atritos com Europa e Canadá seriam um custo de curto prazo de uma reorganização necessária do comércio mundial, não um sinal de fracasso da política americana. Economistas mais céticos, no entanto, apontam que a fragmentação comercial e a imprevisibilidade das medidas tendem a elevar custos de forma persistente, inclusive para os próprios Estados Unidos, à medida que parceiros comerciais buscam alternativas de médio prazo.
O que observar daqui para frente
Bessent adiantou que o encontro entre Trump e o presidente chinês Xi Jinping deve pautar a próxima fase da disputa comercial, ao lado de novas sanções contra bancos ligados ao Irã dentro do que a equipe do Tesouro chama de "Operação Pária Econômico".9 Para o Brasil, o desfecho da investigação da Seção 301 e o comportamento do câmbio seguem como variáveis centrais para dimensionar o impacto real do ambiente tarifário sobre a indústria de transformação nos próximos meses.4
Perguntas frequentes
O que foi discutido na reunião do G20 em Asheville?
Ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do G20 se reuniram em Asheville, na Carolina do Norte, entre 31 de agosto e 1º de setembro de 2026, para discutir crescimento global, imbalanceamentos comerciais e coordenação de sanções. O encontro foi marcado por críticas de aliados dos Estados Unidos às tarifas e à guerra com o Irã.
Por que a Europa criticou os Estados Unidos no G20?
Representantes europeus, como o vice-chanceler alemão Lars Klingbeil e o presidente do Bundesbank Joachim Nagel, criticaram os efeitos das tarifas americanas, da guerra com o Irã e de uma intervenção cambial não coordenada envolvendo a venda de reservas em euros pelos Estados Unidos.
Como as tarifas dos Estados Unidos afetam o Brasil em 2026?
O Brasil enfrenta uma nova tarifa adicional de 25% sob investigação da Seção 301, após um tarifaço anterior de 50% ter sido derrubado pela Suprema Corte americana. O Banco Central estima perda de cerca de US$ 2,7 bilhões em exportações aos Estados Unidos entre 2024 e 2025, concentrada no Sudeste e no Sul do país.
Qual a projeção do FMI para o crescimento do Brasil em 2026?
O Fundo Monetário Internacional elevou a projeção de crescimento do Brasil para 2026 para 2,4% na atualização de julho, ante 1,9% em abril, citando resiliência do país diante do ambiente externo adverso e menor exposição a choques de energia.
Qual a diferença entre o crescimento dos Estados Unidos e da zona do euro em 2026?
O FMI projeta que os Estados Unidos cresçam 2,3% em 2026, enquanto a zona do euro deve avançar apenas 0,9%, com a Alemanha crescendo 0,7%, pressionada por custos de energia e pelo atrito comercial com Washington.