Durante quase toda a história humana, plantas não foram cenário. Foram divindades, intermediárias, oferendas, remédios e, em muitos casos, a própria condição para que existissem templos, reis e calendários. A bióloga e divulgadora espanhola Aina S. Erice decidiu escrever sobre essa dimensão menos prática da relação entre pessoas e vegetais. O resultado é El jardín de los dioses (Ariel, 2026), uma história vegetal da espiritualidade que ela apresentou em entrevista recente ao jornal espanhol El País.
A tese central é simples de enunciar e difícil de digerir: a sociedade contemporânea perdeu a capacidade de perceber as plantas como sujeitos de uma relação. Elas viraram insumo. E essa perda, argumenta a autora, tem custos culturais e ecológicos que ainda não sabemos medir.
Quem é Aina S. Erice
Nascida em Palma de Maiorca, Erice é bióloga com mestrado em Biologia das Plantas em Condições Mediterrâneas, segundo o perfil da autora na editora Planeta. Seu campo é a etnobotânica, disciplina que estuda como diferentes culturas classificam, usam e simbolizam as plantas. Mantém o blog Imaginando vegetales e produz o podcast La senda de las plantas perdidas.
A bibliografia mostra um percurso coerente. Em El libro de las plantas olvidadas (2019), ela recuperou usos tradicionais de cem espécies que, nas palavras da própria editora, não se adaptam ao "ecossistema supermercado". Em La invención del reino vegetal, lançado em 2015 e reeditado em 2022, tratou da domesticação, da estética e do sagrado. O novo livro, publicado em junho de 2026 com 392 páginas, aprofunda justamente esse último eixo.
O que propõe El jardín de los dioses
O argumento histórico parte das sociedades agrícolas. Milho, arroz e trigo ocuparam, em diferentes regiões, o estatuto de entidades protetoras ou divinas, o que faz sentido quando uma colheita perdida significava fome. Erice observa que, com a mecanização da agricultura, irrigação, estufas e fertilizantes transferiram para o controle humano aquilo que antes pertencia ao domínio do sagrado. A planta deixou de ser alguém a quem se pede e passou a ser algo que se administra.
Um dos exemplos mais eloquentes do livro está no Japão. O santuário mais importante do xintoísmo, o Grande Santuário de Ise, foi construído num estilo arquitetônico que reproduz os antigos celeiros de arroz, como documenta a World History Encyclopedia. O edifício é desmontado e reerguido a cada 20 anos; a reconstrução mais recente, a 62ª, ocorreu em 2013. Para Erice, a imagem ilustra uma hipótese conhecida da antropologia: hierarquias políticas tendem a surgir onde há excedente agrícola armazenável, porque quem controla o celeiro controla o poder.
O livro percorre ainda os mitos de origem vegetal, como a narrativa filipina de Malakas e Maganda, o primeiro homem e a primeira mulher nascidos de um bambu, e o papel místico do perfume, que acompanha oferendas, ritos funerários e cultos a divindades como Afrodite. A morte com sua foice, figura de camponesa, e a ressurreição associada ao retorno das flores na primavera aparecem como heranças agrícolas incrustadas em tradições que hoje parecem puramente religiosas.
"Seguimos vendo as plantas como 'algo', em vez de 'alguém'."
Aina S. Erice, em entrevista ao El País (tradução livre)A autora associa essa postura à hybris dos mitos gregos, o excesso de orgulho que sempre termina mal para os mortais. Na leitura dela, a humanidade ainda não criou nenhuma tecnologia equivalente à fotossíntese, e mesmo assim age como se fosse dona do reino vegetal.
Bruxas, ervas e um dado que pede cuidado
Um dos trechos mais discutíveis da entrevista trata da associação histórica entre mulheres, plantas e acusações de bruxaria. Erice sugere que a divisão do trabalho, marcada pela amamentação e pela menor mobilidade das mães, aproximou as mulheres do cultivo e do conhecimento das ervas. Ela também pondera que essa ideia está sendo revista e que usar plantas para curar vizinhos não levava, por si só, à fogueira.
Na entrevista publicada, a autora afirma que, nos arquivos escoceses, a maioria dos acusados de bruxaria seria de homens. Os dados do Survey of Scottish Witchcraft, da Universidade de Edimburgo, apontam o contrário: das 3.837 pessoas acusadas entre 1563 e 1736, 84% eram mulheres e 15% homens, conforme reportou a Smithsonian Magazine. O mesmo levantamento, porém, confirma a parte mais sólida do argumento: a cura popular aparece em apenas cerca de 4% dos casos. Ou seja, a imagem da curandeira queimada por conhecer ervas é minoritária nos registros. Regiões onde homens foram maioria entre os acusados existem, como Islândia, Estônia e Finlândia, mas a Escócia não está entre elas. É possível que a passagem tenha sofrido ruído na transcrição da entrevista.
Plantas de poder: hipótese ousada, terreno brasileiro
Erice dedica um capítulo às plantas que alteram a percepção, como ayahuasca, peiote e cannabis, e menciona a teoria, não comprovada, de que seu consumo teria dado vantagem evolutiva ao estimular criatividade, linguagem e pensamento abstrato. Ela também interpreta a procura atual por essas substâncias como resposta a um cristianismo ocidental centrado em dogmas e pobre em experiência mística.
No Brasil, essa discussão não é abstrata. O país é referência mundial na regulação do uso religioso da ayahuasca, bebida preparada com o cipó Banisteriopsis caapi e as folhas de Psychotria viridis. A Resolução nº 1 do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD), de 25 de janeiro de 2010, reconhece o uso em contexto religioso, enquanto o uso fora dele pode ser enquadrado na Lei de Drogas, como explica reportagem da Gazeta do Povo. A norma foi construída a partir de uma Carta de Princípios publicada em 1991 pelas próprias entidades religiosas, segundo a União do Vegetal. É um caso raro em que o Estado reconheceu uma planta como mediadora de experiência espiritual legítima, exatamente a dimensão que Erice considera esquecida.
"Sem folha não há orixá": a etnobotânica sagrada no Brasil
O livro tem foco europeu e latino-americano, mas o Brasil oferece talvez o exemplo vivo mais robusto da tese de Erice. Nos terreiros de candomblé, o provérbio iorubá Kosi ewé, kosi orixá ("sem folha não há orixá") resume uma liturgia em que as plantas não são enfeite, e sim fundamento. O sociólogo Roger Bastide chegou a afirmar que todo o segredo do candomblé estaria em suas ervas, como retoma pesquisa da Universidade Federal do Pará sobre o culto das folhas em Belém.
Há inclusive uma divindade dedicada ao reino vegetal, Ossaim, guardião do axé das folhas. A obra Ewé Òrìsà, de José Flávio Pessoa de Barros e Eduardo Napoleão, sistematizou a classificação vegetal jeje-nagô e mostra como espécies circularam entre África e Brasil por razões litúrgicas. Do ponto de vista de Erice, terreiros brasileiros são laboratórios de uma relação em que a planta continua sendo "alguém".
A impercepção botânica tem nome e tem números
O incômodo de Erice com a invisibilidade das plantas tem lastro científico. Em 1999, os educadores norte-americanos James Wandersee e Elisabeth Schussler cunharam o termo plant blindness para descrever a incapacidade de notar as plantas no próprio ambiente e de reconhecer sua importância. Em 2022, as pesquisadoras brasileiras Suzana Ursi e Antonio Salatino propuseram no Boletim de Botânica da USP substituir "cegueira botânica" por "impercepção botânica", evitando uma metáfora capacitista e preservando o diagnóstico.
O diagnóstico pesa num país que abriga uma das floras mais ricas do planeta. O IBGE reconhece 50.313 espécies de plantas no Brasil, mas apenas 15% delas tiveram o risco de extinção avaliado, e, entre as avaliadas, 42,7% estão ameaçadas, segundo as Contas de Ecossistemas do instituto. O projeto Flora do Brasil 2020, coordenado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, identificou mais de 25 mil espécies endêmicas e uma média de uma espécie nova descrita por dia, conforme a Agência Brasil.
Plantas são "alguém"? A ciência não fecha a questão
A provocação de Erice é cultural, mas encosta num debate científico aceso. Pesquisadores como o italiano Stefano Mancuso defendem que plantas exibem formas de comportamento, comunicação e memória que justificam falar em inteligência vegetal. Um grupo de fisiologistas liderado por Lincoln Taiz respondeu em 2019, na revista Trends in Plant Science, que plantas não possuem nem precisam de consciência, já que lhes faltam as estruturas associadas a ela em animais. Atribuir subjetividade às plantas, nessa visão, é uma metáfora que pode confundir mais do que esclarecer.
Também merece nuance a afirmação de que nenhuma tecnologia iguala a fotossíntese. Em eficiência bruta de conversão de energia solar, painéis fotovoltaicos comerciais já superam com folga as plantas, cujo teto teórico fica em torno de 4,6% a 6%, segundo estudo de Zhu, Long e Ort (2008). O que nenhuma tecnologia replica é o pacote completo: um sistema que se autorrepara, fixa carbono, produz alimento e se reproduz sozinho. A hybris denunciada pela autora talvez esteja menos em comparar eficiências e mais em ignorar essa integração.
Por que isso importa
Livros como o de Erice operam num ponto em que a divulgação científica encontra a história cultural. Não oferecem dados novos sobre fisiologia vegetal, e nem é essa a proposta. O valor está em mostrar que a relação utilitária com as plantas é recente e historicamente estreita. Para um país que discute ao mesmo tempo desmatamento, bioeconomia, regulação de plantas de poder e proteção de religiões de matriz africana, a pergunta que ela coloca tem aplicação direta: que tipo de relação queremos manter com a maior flora do mundo?
A resposta passa pela escola, onde a impercepção botânica é combatida com inventários de espécies e aulas de campo; passa pelas políticas de conservação, que ainda não avaliaram 85% das plantas conhecidas; e passa por reconhecer saberes que nunca deixaram de tratar a folha como presença. A botânica, sugere Erice, não precisa de mais utilidade. Precisa de mais atenção.
Conheça os livros de Aina S. Erice
Da recuperação de cem plantas esquecidas à história vegetal da espiritualidade, as obras da bióloga espanhola reúnem etnobotânica, mitologia e história cultural em linguagem acessível. Os títulos estão disponíveis em espanhol.
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Quem é Aina S. Erice?
Aina S. Erice é uma bióloga e divulgadora científica espanhola, nascida em Palma de Maiorca, especializada em etnobotânica. É autora de Cuéntame, Sésamo, El libro de las plantas olvidadas, La invención del reino vegetal e El jardín de los dioses, além de manter o blog Imaginando vegetales e o podcast La senda de las plantas perdidas.
Sobre o que é o livro El jardín de los dioses?
Publicado pela editora Ariel em junho de 2026, o livro é uma história vegetal da espiritualidade. Investiga como plantas moldaram mitos, ritos, religiões e formas de poder, das divindades agrícolas do milho e do arroz aos celeiros sagrados do Japão, ao perfume nos cultos antigos e às plantas que alteram a percepção.
O que é cegueira botânica ou impercepção botânica?
É a dificuldade humana de perceber as plantas no ambiente e de reconhecer sua importância biológica, social e econômica. O termo plant blindness foi criado por Wandersee e Schussler em 1999. Em 2022, pesquisadores brasileiros propuseram a expressão "impercepção botânica" como alternativa não capacitista.
O uso religioso da ayahuasca é legal no Brasil?
Sim. A Resolução nº 1 do CONAD, de 25 de janeiro de 2010, reconhece o uso da ayahuasca em contexto religioso. O uso recreativo ou fora do contexto religioso pode ser enquadrado na legislação de drogas.
Plantas têm consciência?
Não há consenso. Defensores da chamada neurobiologia vegetal apontam comportamentos complexos de comunicação e memória nas plantas. Críticos, como o grupo de Lincoln Taiz, argumentam que plantas não possuem nem necessitam de consciência por não terem estruturas equivalentes às de animais.
Por que o Santuário de Ise, no Japão, se parece com um celeiro?
O Grande Santuário de Ise segue um estilo arquitetônico exclusivo, o yuitsu-shinmei-zukuri, que reproduz as formas dos antigos celeiros de arroz. O santuário é reconstruído a cada 20 anos, tradição que Erice usa para ilustrar a ligação entre excedente agrícola, sagrado e poder.
Este texto tem como ponto de partida a entrevista de Rita Abundancia com Aina S. Erice publicada pelo El País em 13 de outubro de 2026. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido integralmente; a análise, a apuração complementar e o contexto brasileiro são do O Tecido.