Economia · Pagamentos e Inteligência Artificial

Este artigo parte da entrevista de Antony Cahill, CEO da Visa Europa, publicada pelo jornal espanhol El País em 22 de setembro de 2026 (leia o original). O texto não reproduz nem traduz a entrevista: concentra-se no tema dos pagamentos executados por agentes de IA, amplia a apuração com outras fontes e acrescenta o contexto brasileiro.

Em resumo

  • Pagamento agêntico é a transação iniciada e concluída por um agente de IA em nome de uma pessoa, dentro de limites que ela definiu.
  • O CEO da Visa Europa afirma que esse mercado avança mais devagar do que a empresa esperava e aponta quatro entraves: interoperabilidade, prontidão do consumidor, modelo de negócio e responsabilidade por falhas.
  • A OpenAI desistiu do checkout dentro do ChatGPT em março de 2026, seis meses após lançá-lo.
  • Nos EUA, só 23% dos consumidores confiam na IA generativa para pagar em seu nome.
  • No Brasil, a primeira transação ocorreu em março de 2026. Pix, Open Finance e alta tokenização favorecem o país, mas não há regras específicas de responsabilidade.

Durante quase dois anos, a indústria de pagamentos tratou o agente de inteligência artificial como o próximo grande cliente: um software capaz de pesquisar, comparar, escolher e pagar sem que a pessoa precise abrir o aplicativo do banco. Em entrevista ao jornal espanhol El País publicada nesta terça-feira (22), Antony Cahill, CEO da Visa Europa, ofereceu um diagnóstico menos eufórico. Segundo ele, os pagamentos executados por IA "van más despacio de lo que esperábamos", ou seja, andam mais devagar do que a própria Visa previa.1

A declaração pesa pela origem. A Visa está entre as empresas que mais investiram para se colocar como a camada de confiança do chamado comércio agêntico. Mantém desde 2025 o portfólio Visa Intelligent Commerce, levou em abril de 2026 à América Latina o programa Agentic Ready, que testa pagamentos iniciados por agentes com cartões e comerciantes reais, e anunciou em junho uma parceria com a OpenAI para processar compras feitas por agentes.2,3 Quando um dos principais interessados admite que o calendário escorregou, a frase deixa de ser ruído de mercado e passa a ser informação.

O que é um pagamento agêntico

Pagamento agêntico é uma transação iniciada e concluída por um agente de IA em nome de uma pessoa ou empresa, dentro de limites que o titular estabeleceu antes. A diferença em relação ao débito automático ou ao Pix Automático é que o agente não executa uma cobrança já conhecida. Ele interpreta um objetivo, como "compre a passagem mais barata para Recife na sexta à noite", escolhe o fornecedor e dispara o pagamento.

Para que isso funcione com segurança, a indústria monta quatro peças. A primeira é a tokenização: o número real do cartão ou da conta é substituído por uma credencial emitida para aquele agente, que pode ser revogada a qualquer momento. A segunda são os limites de valor, de categoria e de prazo. A terceira é a prova de intenção, um registro verificável de que o titular autorizou aquele tipo de compra; em março de 2026, Mastercard e Google abriram o código do Verifiable Intent, proposta de padrão para esse fim.9 A quarta é a identidade do agente, porque o comerciante precisa saber se quem está do outro lado é um robô legítimo ou um script fraudulento.

Os quatro freios apontados pela Visa

Na entrevista, Cahill listou os obstáculos sem rodeios. O primeiro são os desafios de interoperabilidade tecnológica entre os sistemas de agentes, lojas, bancos e redes. O segundo é a dúvida sobre se os consumidores estão prontos. O terceiro é a ausência de um modelo de negócio: a indústria ainda não sabe se a receita virá de assinaturas mensais, anuais ou de serviços gratuitos. O último é a confiança, que o executivo resumiu em duas perguntas: o que acontece se algo der errado e de quem será a culpa.1

Cahill acrescentou que todo pagamento que cruza a rede da Visa passa por centenas de verificações em milissegundos, mesmo a compra de um café, e que o mesmo valerá para agentes, o que exige monitorá-los antes que comecem a transacionar.1 É uma descrição honesta do problema e, ao mesmo tempo, um argumento comercial. Se a confiança é o gargalo, quem já opera a infraestrutura de verificação se apresenta como parte indispensável da solução.

O recuo da OpenAI e a matemática da conversão

O caso mais eloquente do descompasso veio da empresa que popularizou os assistentes de IA. Em setembro de 2025, a OpenAI lançou o Instant Checkout, que permitia concluir compras dentro do ChatGPT, apoiado no Agentic Commerce Protocol, desenvolvido com a Stripe. Em março de 2026, cerca de seis meses depois, a empresa recuou. Segundo a CNBC, os usuários pesquisavam produtos no chatbot, mas não fechavam a compra ali, e a nova estratégia passou a ser direcionar a transação para aplicativos dos próprios varejistas, que devolvem o cliente ao ambiente de pagamento da loja.4

Análises do setor atribuíram o recuo a um problema de conversão. A consultoria Digital Applied relatou que o Walmart mediu, no checkout dentro do ChatGPT, uma conversão cerca de três vezes menor do que a obtida quando o usuário clicava para o site da rede, embora o chatbot trouxesse proporcionalmente mais clientes novos.5 A leitura que se consolidou no varejo americano é a de que a IA venceu na etapa da descoberta, mas não na do pagamento.

Nem todos aceitam essa conclusão. Em artigo na Forbes, o analista de varejo Jason Goldberg argumentou que o recuo refletia mais a posição competitiva da OpenAI, que perdia participação entre usuários diários de aplicativos de IA nos EUA, do que falta de demanda por compras mediadas por agentes.6 Três meses depois, a própria OpenAI voltou ao tema pela porta da Visa.

Confiança, o dado que ninguém contorna

Usar IA não é o mesmo que deixar a IA pagar Nos EUA, 72% já usaram assistente de IA, 61% confiariam na Visa para transações agênticas e 23% confiam na IA generativa para pagar. Em outra pesquisa, 58% se dizem abertos a comprar via assistente de IA e 6% já o fizeram. Usar IA não é o mesmo que deixar a IA pagar VISA TRUST INDEX · HARRIS POLL · EUA · MAIO 2026 Já usou assistente de IA 72% Confiaria na Visa para pagar 61% Confia na IA para pagar 23% PESQUISA RADIAL · EUA · 2026 Aberto a comprar via IA 58% Já comprou via IA 6% Percentual de adultos americanos entrevistados. Fontes: Visa/Harris Poll (n=2.065) e Radial.
Elaboração: O Tecido, com dados do Visa Trust Index (setembro de 2026) e da pesquisa da Radial (março de 2026).

As pesquisas mais recentes reforçam o diagnóstico de Cahill. O Visa Trust Index, levantamento da Harris Poll com 2.065 adultos americanos feito entre 26 e 28 de maio e divulgado em 9 de setembro de 2026, mostra que 72% já usaram um assistente de IA, mas apenas 23% confiam na IA generativa para executar um pagamento em seu nome. Quando a pergunta envolve uma marca de pagamentos, o quadro muda: 61% disseram que confiariam na Visa para processar transações agênticas.7 A pesquisa foi encomendada pela própria Visa e o resultado lhe é favorável, o que recomenda cautela na leitura do segundo número.

Um levantamento da operadora logística Radial aponta o mesmo abismo entre intenção e comportamento: 58% dos consumidores americanos se dizem abertos a fazer pedidos por meio de um assistente de IA, mas apenas 6% já o fizeram.8 Do lado da oferta, a Checkout.com constatou que 72% dos comerciantes acreditam que os consumidores vão adotar as compras por agentes mais rápido do que as lojas conseguem se preparar.10 A expectativa, portanto, corre à frente da prática nos dois lados do balcão.

Quem responde quando o agente erra

A pergunta sobre a culpa é a que mais pesa. No cartão tradicional existe um arcabouço maduro de contestação: o consumidor que não reconhece uma compra aciona o emissor, que recorre ao estorno, o chamado chargeback. Com agentes surgem situações sem precedente claro. O software pode interpretar mal uma instrução, comprar o item errado dentro do limite autorizado ou ser manipulado por comandos escondidos em uma página da web. Nesses casos, a falha é de quem delegou, de quem desenvolveu o agente, do comerciante ou do banco que aprovou a operação?

No Brasil, não há regime jurídico específico para a responsabilização em transações autônomas de IA, como registrou o portal Finsiders Brasil ao ouvir bancos e empresas de infraestrutura.11 Em análise publicada no mesmo veículo, especialistas listam erros de desenho a evitar, entre eles tratar a resposta de um modelo de linguagem como se fosse uma autorização, permitir que o agente amplie os próprios limites e colocar o modelo diretamente na rota de liquidação. A recomendação é que a IA interprete objetivos e formule planos, mas que a execução continue passando por sistemas determinísticos, controles de risco e instituições autorizadas.12

A tecnologia para o agente pagar já existe. O que ainda não existe é um acordo sobre quem responde quando ele erra.

A questão se cruza com a de fraude. Cahill disse ao El País que a fraude em compras da Visa sem cartão presente está abaixo de 0,1% e que os golpistas migraram para transferências entre contas e para a falsificação de identidade; segundo ele, 75% dos europeus foram expostos a alguma tentativa de golpe no último ano.1 Um agente que paga sozinho é uma nova superfície de ataque, e por isso a identidade do agente virou prioridade técnica de bandeiras e bancos.

Protocolos demais, padrão de menos

O primeiro obstáculo citado por Cahill, a interoperabilidade, fica evidente quando se lista o que está em disputa. OpenAI e Stripe mantêm o Agentic Commerce Protocol (ACP). O Google promove o Universal Commerce Protocol (UCP) e o Agent Payments Protocol (AP2). A Visa tem o Trusted Agent Protocol. Stripe e Tempo lançaram, com contribuições da Visa, o Machine Payments Protocol (MPP). E o x402, incubado por Coinbase e Cloudflare e hoje sob a Linux Foundation, liquida pagamentos em stablecoins. A resposta da Visa a essa fragmentação é o Intelligent Commerce Connect, em piloto, que promete uma única integração para aceitar vários desses protocolos, inclusive com cartões de outras bandeiras.13

Há ainda um segmento em que o cartão não é o trilho natural: os micropagamentos entre máquinas, como a cobrança por chamada de API ou por fração de capacidade de processamento. Estudo encomendado pela própria Visa, com dados da Artemis Analytics, calcula que o x402 movimentou cerca de US$ 15 milhões em aproximadamente 109,6 milhões de transações desde maio de 2025, o que dá um valor médio de centavos por operação.14 Tíquetes desse tamanho não comportam a estrutura de tarifas do cartão, e é nesse espaço que stablecoins e sistemas de pagamento instantâneo disputam terreno com as bandeiras.

O Brasil larga com vantagem de infraestrutura

No Brasil, a primeira transação agêntica foi realizada pelo Banco do Brasil em 11 de março de 2026, com a plataforma Visa Intelligent Commerce, em ambiente de produção controlado.15 Em seguida, a Visa lançou no país o programa Agentic Ready com Banco do Brasil, Bradesco, Santander, XP e Dock, enquanto a Mastercard desenvolve aqui o Agent Pay.16 A Elo, em parceria com a Decolar, testa uma jornada que busca, compara e paga passagens aéreas numa única conversa, via WhatsApp ou assistentes de IA, combinando Pix, cartão e programas de fidelidade.9

O vice-presidente de produtos e inovação da Visa do Brasil, Frederico Succi, foi direto em entrevista à Central do Varejo: "Caso em escala mesmo, ainda não tem". A empresa espera os primeiros usos em escala até o fim deste ano. Succi classificou o Brasil como o mercado mais preparado do mundo, com 80% das credenciais bancárias já tokenizadas, mas apontou que falta avançar em autenticação, a etapa que comprova que o consumidor autorizou a compra feita pelo agente.17

A particularidade brasileira é que a disputa não se limita às bandeiras. O Pix respondeu por 44% do checkout online no país em 2026, contra 41% dos cartões, segundo o relatório Beyond Borders, da EBANX.18 Em maio, a fintech Iniciador lançou um servidor MCP (o protocolo que conecta agentes de IA a serviços externos) para pagamentos via Pix, apoiado no Pix Biometria, modalidade do Open Finance regulada pelo Banco Central, com confirmação biométrica a cada transação.18 O detalhe revela uma escolha de desenho: o agente monta o pagamento, mas a pessoa confirma. É menos autonomia e, pela lógica das pesquisas de confiança, possivelmente mais adoção.

O paralelo com a Europa é inevitável. O El País perguntou a Cahill sobre o Bizum, sistema espanhol de pagamentos entre contas, e sobre o euro digital que o Banco Central Europeu prepara; nos dois casos, ele defendeu competição em igualdade de condições e disse que o consumidor escolherá.1 No Brasil, esse debate já está parcialmente resolvido por um trilho público, o Pix, operado pelo Banco Central. Se os agentes de IA se conectarem preferencialmente a ele, a fatia das bandeiras no comércio agêntico brasileiro tende a ser menor do que em mercados onde o cartão domina. O Banco Central ainda não editou regra específica para pagamentos iniciados por agentes, e o mercado espera que o regulador se posicione.19 Enquanto isso, segundo levantamento da Febraban citado pela Finsiders, os bancos devem destinar R$ 3 bilhões a inteligência artificial em 2026, e a federação inclui o comércio agêntico entre as frentes a reforçar.11

Europa: a soberania entra na conta

Na Europa, o primeiro pagamento executado de ponta a ponta por um agente de IA dentro de uma estrutura bancária regulada foi anunciado em 2 de março de 2026 por Santander e Mastercard, com o Agent Pay rodando na infraestrutura real do banco. As empresas frisaram que se tratava de piloto, sem lançamento comercial.20 Ao mesmo tempo, o debate sobre soberania ganhou peso. Na entrevista, Cahill disse compreender a preocupação europeia e citou o plano da Visa de investir 500 milhões de euros e construir um centro de dados na Europa continental.1 Para os reguladores, a pergunta deixa de ser apenas quem processa o pagamento e passa a incluir quem controla o agente que decide a compra.

O que observar nos próximos meses

Três marcos devem indicar se a lentidão é passageira ou estrutural. O primeiro é a chegada, prometida pela Visa para o fim de 2026, de casos de uso em escala no Brasil, com emissor, comerciante, bandeira e agente operando juntos fora do ambiente de teste. O segundo é a convergência, ou não, entre os protocolos concorrentes. O terceiro, provavelmente decisivo, é a definição de regras de responsabilidade, seja por normas do Banco Central e dos reguladores europeus, seja por contratos entre redes, bancos e desenvolvedores de agentes.

Projeções como a da McKinsey, que estima entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões movimentados globalmente pelo comércio agêntico até 2030, dependem desses três fatores e devem ser lidas como cenário, não como dado.21 Até que eles se resolvam, o agente de IA segue mais útil para escolher do que para pagar.

Perguntas frequentes

O que são pagamentos agênticos?

São transações iniciadas e concluídas por um agente de inteligência artificial em nome de uma pessoa ou empresa, dentro de limites de valor, categoria e prazo definidos previamente pelo titular. O agente interpreta um objetivo, escolhe o fornecedor e dispara o pagamento.

Por que os pagamentos feitos por agentes de IA estão avançando devagar?

O CEO da Visa Europa aponta interoperabilidade entre sistemas, prontidão dos consumidores, modelo de negócio indefinido e confiança, incluindo quem responde por erros. Nos EUA, apenas 23% dos consumidores confiam na IA generativa para pagar em seu nome.

Já existem pagamentos agênticos no Brasil?

Sim, em fase de testes. A primeira transação foi feita por Banco do Brasil e Visa em 11 de março de 2026, em ambiente de produção controlado. Visa, Mastercard, Elo e fintechs como a Iniciador conduzem pilotos, mas ainda não há uso em escala.

Quem é responsável se um agente de IA fizer uma compra errada?

Não há resposta consolidada. O Brasil não tem regime jurídico específico para transações autônomas de IA. A indústria aposta em mandatos verificáveis, limites de gasto e registros de autorização para distribuir a responsabilidade entre consumidor, desenvolvedor, comerciante e banco.

O Pix pode ser usado por agentes de IA?

Sim. Desde maio de 2026 há solução que permite a agentes iniciarem Pix pelo Pix Biometria, modalidade do Open Finance regulada pelo Banco Central, com confirmação biométrica do usuário em cada operação.

O que aconteceu com o checkout dentro do ChatGPT?

A OpenAI lançou o Instant Checkout em setembro de 2025 e recuou em março de 2026, porque os usuários pesquisavam no ChatGPT mas não concluíam a compra ali. As transações passaram a ser direcionadas a aplicativos dos varejistas.

Ewerton Lopes — Curador Editorial
O Tecido · Caderno Economia