Economia · Comércio Exterior · África

Este artigo foi inspirado pela coluna "Does Africa have too few people?", de David Pilling, publicada no Financial Times e disponível (para assinantes) em ft.com. O texto do FT argumenta que a baixa densidade populacional histórica, e não o excesso de habitantes, explica boa parte do atraso econômico africano, e que o crescimento demográfico atual pode ser parte da solução. A reportagem abaixo é original, com apuração e fontes próprias, e não traduz nem reproduz o conteúdo do FT.

Enquanto Pequim distribui bilhões de dólares em linhas de crédito e projetos de infraestrutura pela África, uma parte do continente já resolveu, na prática, um problema que a China ainda tenta equacionar em laboratório: como movimentar dinheiro entre pessoas e empresas de forma instantânea, barata e sem depender do sistema bancário tradicional. É um contraste que passa quase despercebido no noticiário sobre a corrida geopolítica pelo continente, mas que tem consequências diretas para quem pensa em fazer negócios lá, inclusive empresários e profissionais brasileiros.

Uma população que deixou de ser um problema

Parte da explicação para esse apetite renovado, tanto chinês quanto potencialmente brasileiro, está em uma leitura pouco convencional sobre a demografia africana. Uma análise recente do Financial Times sustenta que a pobreza histórica do continente teve menos a ver com excesso de população e mais com o oposto: uma densidade populacional baixa demais, por séculos, para sustentar cidades, estradas e mercados consumidores em escala.12 Com a população africana projetada para quase dobrar, chegando a 2,5 bilhões de habitantes até 2050, e com uma idade mediana de apenas 19 anos, o continente estaria, segundo essa leitura, apenas agora atingindo o patamar de concentração populacional necessário para sustentar crescimento econômico consistente, algo que a Ásia já vivia por volta de 1960.12 Não é coincidência que economias como Etiópia e Costa do Marfim tenham registrado 15 anos seguidos de crescimento próximo a 7% ao ano.12

É esse mercado em formação, jovem, urbanizando-se e cada vez mais conectado, que atrai tanto o capital de Estado chinês quanto, em menor escala ainda, o interesse de exportadores brasileiros.

O tabuleiro chinês na África

A presença chinesa no continente africano não é novidade, mas sua escala segue crescendo. Na cúpula do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), realizada em Pequim em setembro de 2024, o presidente Xi Jinping anunciou financiamento de 360 bilhões de yuans (cerca de R$ 285 bilhões, ou US$ 50,7 bilhões) para o continente até 2027, distribuídos entre linhas de crédito, investimentos diretos de empresas chinesas e ajuda técnica.4 O montante superou em cinco vezes o valor prometido na cúpula anterior, em Dakar, em 2021.5

O dinheiro chega junto com infraestrutura digital. A China opera o Blockchain Service Network (BSN), plataforma que permite a governos e instituições africanas rodar aplicações em blockchain como se fosse um serviço de nuvem, e vem expandindo o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS), que entrou em operação com o sul-africano Standard Bank Group no fim de 2025, facilitando compensações em yuan para bancos de outros países africanos.5 É parte de uma estratégia mais ampla, batizada de Rota da Seda Digital, para tornar o yuan e a tecnologia chinesa parte estrutural da economia africana.

O objetivo declarado por analistas ligados ao setor é reduzir a dependência do dólar e do sistema SWIFT. Segundo especialistas ouvidos pela emissora russa RT, a arquitetura do yuan digital, baseada em blockchain, consegue reduzir liquidações internacionais para segundos, contra os três a cinco dias úteis típicos de uma transação via SWIFT.3

"Não é mais só sobre estradas e portos. A disputa agora é sobre quem vai definir o protocolo por trás de cada pagamento feito no continente." Leitura do cenário por analistas de finanças digitais na África, com base em relatórios do setor

A resposta africana: pagamentos que já superam Pequim

O detalhe que costuma escapar da narrativa sobre a influência chinesa é que boa parte da África não estava esperando por Pequim para resolver seus próprios gargalos financeiros. O Quênia é o exemplo mais citado: o M-Pesa, lançado em 2007 pela operadora Safaricom, transformou o país no maior mercado de dinheiro móvel do mundo, com mais de 90% dos adultos usando pagamentos por celular hoje em dia, mesmo em locais sem conexão de internet.8 O sistema já opera em sete países africanos e processa bilhões de transações por ano.

A Nigéria seguiu um caminho tecnicamente mais próximo do que o Brasil conhece com o Pix: o NIBSS Instant Payment (NIP), criado em 2011 pela entidade responsável pela compensação bancária do país, conecta bancos e fintechs em tempo real. Só em 2024, o sistema processou cerca de 10,5 bilhões de transações, movimentando o equivalente a aproximadamente US$ 700 bilhões.7 A Etiópia, por sua vez, viu o Telebirr ultrapassar 50 milhões de usuários poucos anos após o lançamento, em um país de 120 milhões de habitantes.7

É na camada seguinte, a das criptomoedas e stablecoins, que o descolamento em relação à China fica mais nítido. A fintech pan-africana Canza Finance movimentou mais de US$ 131 milhões em stablecoins sobre a rede Aptos, com alta de 300% em transações no último trimestre, oferecendo às empresas locais uma alternativa aos canais de pagamento internacionais, tradicionalmente caros: o custo médio de uma transação transfronteiriça na África gira em torno de 8,9% do valor movimentado.1 Em paralelo, a União Africana lançou em 2026 a iniciativa ADAPT, ligada à Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA), que soma identidade digital, pagamentos instantâneos e infraestrutura de dados para os 54 países membros, com potencial de destravar US$ 70 bilhões em comércio intra-africano.6

A soma desses movimentos, mobile money consolidado, sistemas de pagamento instantâneo entre bancos e uma camada crescente de stablecoins e blockchain pública, cria, em alguns nichos, uma infraestrutura de pagamentos mais ágil e descentralizada do que a arquitetura estatal e centralizada que a China está construindo em torno do e-CNY. A diferença não é de volume (o mercado chinês é ordens de grandeza maior), mas de modelo: enquanto Pequim aposta em controle centralizado do Estado sobre a moeda digital, parte da África caminhou para soluções plurais, tocadas por operadoras de telefonia, bancos privados e fintechs.

Contraponto: dívida e soberania digital

⚖ O outro lado da história

Nem tudo é oportunidade sem custo. A China detém hoje cerca de US$ 134 bilhões da dívida africana, aproximadamente 20% do total do continente, e projetos de baixo retorno financeiro, como algumas ferrovias, dificultaram o pagamento de países como Angola, Zâmbia e Quênia.9 Críticos falam em "diplomacia da armadilha da dívida", em que empréstimos acabam vinculados ao controle de recursos naturais estratégicos. Há também preocupação, levantada por pesquisadores de segurança internacional, de que a expansão de infraestrutura de blockchain controlada por atores chineses possa comprometer a soberania digital de países africanos sobre seus próprios dados financeiros.1 O ambiente de rápida digitalização também atraiu redes criminosas: uma operação internacional coordenada pela Interpol recuperou, em agosto de 2025, quase US$ 100 milhões ligados a fraudes envolvendo criptoativos na África.1

A porta que o Brasil ainda não abriu

Para empresários e profissionais brasileiros, o momento tem uma leitura direta: a África já é o terceiro maior destino das exportações brasileiras, atrás apenas de China e Estados Unidos, com US$ 15,9 bilhões em vendas em 2024, concentradas em commodities como açúcares, milho, minério de ferro e petróleo.2 Segundo a ApexBrasil, o continente reúne mais de 6 mil oportunidades comerciais mapeadas para produtos e serviços brasileiros, ainda pouco exploradas fora do agronegócio.10

A agência tem intensificado missões empresariais à região: em 2025, levou empresas à Nigéria, Gana, Costa do Marfim e Senegal, além de manter frentes na Namíbia, Botsuana, Moçambique, Tanzânia e no Magrebe (Argélia, Tunísia, Marrocos).10 O estoque de investimento estrangeiro direto africano no Brasil chegou a US$ 1,5 bilhão em 2023, com 21 investimentos greenfield entre 2015 e 2025, concentrados em mineração e telecomunicações, sinal de que a via de mão dupla já existe, mas segue estreita.10

É justamente na lacuna entre a pauta exportadora tradicional (commodities) e a nova economia digital africana que aparecem as oportunidades menos óbvias:

  • Consultoria em pagamentos e compliance: empresas brasileiras com experiência em Pix, open finance e regulação do Banco Central podem exportar conhecimento técnico para bancos e fintechs africanas que buscam interoperabilidade entre sistemas locais fragmentados.
  • Fintech e mobile money: o Brasil tem uma geração de desenvolvedores e produtos testados em escala continental, com potencial de parceria com operadoras como Safaricom (Quênia) ou fintechs como a Canza Finance.
  • Agritech e segurança alimentar: a ApexBrasil já lançou programas específicos para exportação de tecnologia e serviços de saúde e segurança alimentar ao continente, área em que o Brasil tem vantagem comparativa histórica.
  • Infraestrutura digital e energia limpa: a China anunciou 30 novos empreendimentos de energia limpa na África dentro do Plano de Ação de Pequim 2025-2027, um mercado em que empresas brasileiras de energia renovável também podem competir.4
  • Formação e intercâmbio profissional: com a economia digital africana projetada para alcançar US$ 712 bilhões até 2050, segundo estudo da IFC e do Google, cresce a demanda por profissionais de tecnologia, dados e finanças digitais, um mercado de trabalho em expansão para brasileiros dispostos a atuar no continente.11

O desafio prático, segundo a própria ApexBrasil, é que a pauta comercial brasileira com a África segue concentrada demais em poucos produtos. No caso da Etiópia, por exemplo, 88,5% das exportações brasileiras em 2025 corresponderam a apenas óleos combustíveis, mesmo com o país tendo importado US$ 8,9 bilhões no ano anterior em outras categorias.10 Diversificar essa pauta, especialmente rumo a serviços digitais e tecnologia, é a fronteira que ainda está em grande parte aberta.

A África está realmente à frente da China em pagamentos digitais?

Em volume total e em controle estatal centralizado, não: o mercado chinês é muito maior e mais integrado verticalmente. Mas em modelos específicos, como pagamentos instantâneos entre bancos (caso da Nigéria) e mobile money popularizado (caso do Quênia), alguns países africanos têm sistemas operando há mais tempo, em maior escala relativa à população bancarizada, e com arquitetura menos dependente de uma única moeda digital estatal do que o e-CNY chinês.

Por que a China investe tanto na África?

Os motivos combinam acesso a matérias-primas e minerais estratégicos, abertura de novos mercados consumidores, internacionalização do yuan como alternativa ao dólar e ganho de influência geopolítica em um continente com um terço da população mundial projetada para viver ali até o fim do século.

Como uma empresa brasileira pode começar a explorar o mercado africano?

O primeiro passo costuma ser consultar os estudos de mercado gratuitos da ApexBrasil sobre a região e participar de missões empresariais organizadas pela agência em parceria com o Ministério das Relações Exteriores, que já mapeou países prioritários como Nigéria, Gana, Costa do Marfim, Senegal, Namíbia, Botsuana, Moçambique e Tanzânia.

Quais riscos um investidor brasileiro deve considerar?

Fragmentação regulatória entre os 54 países africanos, variação cambial e de infraestrutura bancária, e a necessidade de devida diligência reforçada em parceiros locais, dado o crescimento também de fraudes ligadas a criptoativos identificado por operações internacionais recentes.

Leia também no caderno Tecnologia: como o Pix inspirou sistemas de pagamento em outros países emergentes