Caderno Saúde · Microbiota e câncer

Nas semanas de internação que cercam um transplante de medula óssea, o paciente recebe quimioterapia, às vezes radiação, quase sempre antibióticos e, entre uma medicação e outra, um cardápio pensado para evitar a desnutrição. Um estudo publicado nesta quarta-feira (30) na revista Nature sugere que parte desse cardápio, especificamente os alimentos ricos em açúcar, pode estar trabalhando contra o próprio tratamento.[2]

A pesquisa reuniu cientistas do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, da Escola de Medicina Grossman da Universidade de Nova York e do City of Hope, com Marcel van den Brink, Jonathan Peled e Jonas Schluter entre os autores principais. A conclusão central é direta: em pacientes com câncer no sangue submetidos ao transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas, comer mais alimentos açucarados enquanto se usa antibiótico de amplo espectro antecipou duas alterações na flora intestinal que o mesmo grupo já havia ligado a desfechos piores: a perda de diversidade bacteriana e a expansão do gênero Enterococcus.[2] A descoberta foi noticiada pelo jornal espanhol El País, que inspirou esta análise.[1]

O que o estudo mediu, e por que a medição importa

Estudos de nutrição costumam tropeçar no mesmo ponto: dependem da lembrança do paciente sobre o que comeu. Aqui, a dieta foi registrada em tempo real. Segundo a reportagem do El País, a equipe pesou em gramas 9.419 refeições de 173 pacientes transplantados e cruzou esses dados com 1.009 amostras de fezes de 158 deles.[1] Em comunicado do City of Hope, van den Brink destacou justamente esse diferencial, contrastando os registros meticulosos com os questionários imprecisos que sustentam boa parte da literatura nutricional.[3]

O contexto clínico explica a escolha da população. Todos os participantes receberam ao menos um antibiótico durante a internação, e 80% receberam um ou mais de amplo espectro, classe que elimina bactérias indiscriminadamente.[1] É um cenário extremo de agressão à microbiota, o que torna qualquer fator adicional mais fácil de detectar.

O número que resume o achado: cada 100 gramas a mais de doces consumidos nos dois dias anteriores à coleta da amostra, quantidade comparável ao açúcar de um milk-shake grande, associou-se a uma queda 24% maior na diversidade bacteriana, além daquela já provocada pelo antibiótico.[1] Entre os pacientes que obtinham do açúcar uma fatia maior das calorias, cada dia adicional de antibiótico de amplo espectro esteve associado a maior risco de morte.[1]

Mecanismo proposto: antibiótico abre espaço, açúcar alimenta o oportunista Três painéis mostram um intestino diverso, a perda de espécies após antibiótico e a expansão do Enterococcus quando há açúcar disponível. 1. Microbiota diversa espécies competem entre si → nichos vazios 2. Antibiótico diversidade despenca → 3. Antibiótico + açúcar Enterococcus domina
Infográfico O Tecido, com base na hipótese ecológica descrita pelos autores na Nature. Pontos vermelhos representam o Enterococcus; quadrados, o açúcar disponível. Representação esquemática, sem escala.

Do padrão ao mecanismo: o teste em camundongos

Associação em dados observacionais não prova causa. Por isso a equipe recorreu a experimentos com animais. Camundongos saudáveis que receberam uma dose do antibiótico biapenem tiveram expansão moderada de enterococos. Quando a sacarose entrou na dieta, o crescimento da bactéria foi multiplicado por cerca de 16 no terceiro dia e por cerca de 33 no sexto.[1] Glicose e frutose oferecidas separadamente produziram efeito semelhante, assim como um purê de frutas industrializado.[1]

O dado talvez mais revelador é o controle: animais com dieta rica em açúcar, mas sem antibiótico, mantiveram a diversidade bacteriana normal.[3] O açúcar, portanto, não aparece como vilão isolado. O problema é a combinação. Os autores também observaram que a sacarose prolongou a expansão de enterococos em camundongos que haviam recebido transplante de medula, aproximando o modelo da situação clínica.[2]

Expansão de Enterococcus em camundongos com antibiótico e sacarose Gráfico de barras: com antibiótico e sacarose, o crescimento do Enterococcus foi cerca de 16 vezes maior no terceiro dia e cerca de 33 vezes maior no sexto dia. Sacarose sem antibiótico não produziu o efeito. 0 17× 34× sem efeito Sacarose sem antibiótico ~16× Antibiótico + sacarose 3º dia ~33× Antibiótico + sacarose 6º dia
Multiplicação do crescimento de Enterococcus em camundongos tratados com biapenem quando a sacarose foi adicionada à dieta. Fontes: Nature (2026), conforme reportagens do El País e do City of Hope. Elaboração: O Tecido.

Por que a diversidade intestinal é um desfecho clínico

A queda de diversidade só preocupa porque tem consequência mensurável. Em 2020, Peled liderou no New England Journal of Medicine uma análise de 8.767 amostras fecais de 1.362 pacientes transplantados em quatro centros, nos Estados Unidos, na Alemanha e no Japão. O padrão se repetiu em todas as geografias: perda de diversidade e dominação por um único grupo bacteriano. Maior diversidade no momento da pega neutrofílica, quando a medula transplantada começa a funcionar, esteve associada a menor mortalidade.[5] O mesmo trabalho mostrou que amostras colhidas antes do transplante já exibiam sinais de desequilíbrio, e que diversidade baixa nessa fase também se associava a pior sobrevida.[5]

O Enterococcus faecium é o protagonista desse desequilíbrio. Em condições normais, convive de forma inofensiva no intestino, contido pela competição de outras bactérias; quando o antibiótico elimina os competidores, ele pode crescer sem freio.[4] Em transplantados, a dominação por enterococos está ligada a infecções na corrente sanguínea e pode agravar a doença do enxerto contra o hospedeiro, complicação em que as células doadas atacam tecidos saudáveis do receptor.[4]

O paradoxo do cardápio hospitalar

O ponto mais desconfortável do estudo está na rotina das enfermarias. Conforme relatou van den Brink ao El País, muitos dos itens oferecidos e até incentivados para pacientes internados, como suplementos nutricionais líquidos, smoothies e bebidas esportivas, têm alto teor de açúcar.[1] Eles não estão ali por descuido. Mucosite, náusea e perda de apetite tornam a alimentação sólida difícil, e a desnutrição é um risco real nessa fase.

No Brasil, o Consenso Brasileiro de Nutrição em Transplante de Células-Tronco Hematopoiéticas, elaborado por especialistas de 15 centros de referência e aprovado pela Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), trata o estado nutricional como fator de risco independente, capaz de afetar a qualidade de vida e a tolerância ao tratamento.[9] A questão que o novo estudo coloca, portanto, não é cortar calorias, mas discutir de onde elas vêm e em qual janela do tratamento.

"Saber que o que o paciente come terá impacto é importante porque se trata de um fator modificável."

Ildefonso Espigado, hematologista do Hospital Universitário Virgen Macarena (Sevilha), em declaração ao El País. Tradução livre.

Espigado, que não participou da pesquisa, lembrou ao jornal espanhol que a recomendação tradicional para esses pacientes eram dietas de baixa carga microbiana, com alimentos cozidos, pouco apetitosas e apoiadas em evidência limitada. Para ele, a tendência agora é dar mais atenção ao consumo de açúcares.[1]

O que o achado significa para o Brasil

O tema tem escala no país. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil realizou 3.993 transplantes de medula óssea em 2025, ano de recorde geral de transplantes, e o SUS financia cerca de 86% dos procedimentos no país, conforme balanço divulgado pela Agência Brasil.[6] Vale uma ressalva: esse total inclui transplantes autólogos, em que o paciente recebe as próprias células, e o estudo da Nature trata especificamente do transplante alogênico, com doador.

A oferta ainda está aquém da necessidade. Em apresentação à Câmara dos Deputados em dezembro de 2025, a Associação da Medula Óssea (AMEO) apontou, com dados do Datasus, que o SUS fez 3.178 transplantes de medula em 2024, ante cerca de 7.440 esperados pelo parâmetro de 500 por 10 milhões de habitantes, e que a distribuição dos centros deixa regiões inteiras sem atendimento.[7] Num sistema com leitos escassos, intervenções baratas que reduzam complicações e tempo de internação ganham peso desproporcional.

E a dieta é justamente um terreno de pouca padronização. Um inquérito publicado na Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia enviou questionários aos 45 centros de transplante listados pela SBTMO; apenas 17 responderam, e não havia consenso sobre quais alimentos deveriam ser proibidos logo após o transplante.[8] O consenso nacional de 2020 avançou na uniformização da terapia nutricional,[9] mas o teor de açúcar de suplementos e bebidas durante a antibioticoterapia é uma variável que, até aqui, não ocupava o centro da discussão. Caberá às sociedades médicas e às equipes multiprofissionais avaliar se a nova evidência justifica revisar protocolos.

Para além do transplante

O mecanismo descrito não depende do câncer. Antibióticos esvaziam nichos ecológicos no intestino, e açúcares podem alimentar as bactérias oportunistas que os ocupam; o efeito, lembre-se, apareceu em camundongos saudáveis, sem quimioterapia nem transplante.[1] Os autores se mostram cautelosos quanto a extrapolar o achado para a população geral, embora considerem plausível que limitar o açúcar durante o uso de antibióticos proteja também a microbiota de pessoas saudáveis.[1]

Há também uma implicação para a prescrição. Segundo van den Brink, o uso racional de antimicrobianos deveria incluir a consideração de como cada droga afeta o microbioma, já que algumas perturbam mais as bactérias benéficas do que outras.[10] Para quem está em tratamento, a orientação prudente continua sendo a mesma: qualquer mudança alimentar durante a internação deve ser discutida com a equipe médica e de nutrição, que conhece o quadro individual.

Perguntas frequentes

O que o estudo publicado na Nature descobriu?

Que pacientes com câncer no sangue submetidos a transplante alogênico de medula que consumiram mais alimentos açucarados durante o uso de antibióticos de amplo espectro tiveram maior perda de diversidade da microbiota intestinal e maior expansão da bactéria Enterococcus. Cada 100 g adicionais de doces associaram-se a uma queda 24% maior na diversidade.

O açúcar sozinho prejudica a microbiota?

Não segundo este estudo. Em camundongos, a dieta rica em açúcar sem antibiótico não alterou a diversidade bacteriana. O efeito apareceu na combinação: o antibiótico elimina competidores e o açúcar alimenta bactérias oportunistas como o Enterococcus.

Por que a diversidade da flora intestinal importa no transplante de medula?

Um estudo de 2020 no New England Journal of Medicine, com 1.362 pacientes em quatro centros de três continentes, mostrou que maior diversidade intestinal no momento da pega neutrofílica está associada a menor mortalidade após o transplante.

Quem toma antibiótico deve parar de comer açúcar?

Ainda não há base para essa recomendação geral. Um dos autores, Marcel van den Brink, considera prematuro orientar todas as pessoas em uso de antibióticos a evitar açúcar. Pacientes internados não devem cortar suplementos por conta própria, pois a desnutrição também é um risco.

Quantos transplantes de medula óssea o Brasil faz?

Segundo o Ministério da Saúde, foram 3.993 em 2025, somando transplantes autólogos e alogênicos. O SUS financia cerca de 86% dos transplantes no país.

Nota de atribuição. Este artigo foi inspirado na reportagem "El azúcar agrava el daño de los antibióticos en la flora intestinal de pacientes con cáncer y perjudica su supervivencia", de Daniel Mediavilla, publicada pelo El País em 30 de setembro de 2026. Dados e declarações atribuídos ao El País foram creditados no texto; a análise, o contexto brasileiro e as demais fontes são de responsabilidade de O Tecido. Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica.

Ewerton Lopes — Curador Editorial