A Academia Chinesa de Ciências (CAS, na sigla em inglês) divulgou nesta segunda-feira (28) o plano de desenvolvimento que vai orientar seu trabalho durante o 15º Plano Quinquenal da China, de 2026 a 2030. O documento organiza as prioridades de avanço científico em três frentes (pesquisa básica, altas tecnologias estratégicas e desenvolvimento sustentável) e assume o compromisso de intensificar a pesquisa apoiada por inteligência artificial, segundo despacho da agência Xinhua publicado pelo People's Daily1.
A escala da instituição explica por que o anúncio interessa fora da China. A CAS ocupa o primeiro lugar entre todas as instituições do Nature Index 2026, ranking que mede a contribuição para artigos publicados em periódicos científicos de alto impacto, e lidera todas as áreas avaliadas com exceção de ciências da saúde e ciências sociais5. Quando a maior produtora de ciência de ponta do planeta redefine sua agenda, o efeito se espalha para colaborações, disputas por talentos e cadeias tecnológicas em outros países, inclusive no Brasil.
O que a Academia Chinesa de Ciências anunciou
O plano da CAS desdobra, no plano institucional, o 15º Plano Quinquenal nacional, aprovado em março pela Assembleia Popular Nacional. Segundo análise do International Institute for Strategic Studies (IISS), o plano nacional mantém a busca por autossuficiência tecnológica e fixa como meta um crescimento anual acima de 7% nos gastos com pesquisa e desenvolvimento8.
De acordo com o despacho da Xinhua, além das três frentes prioritárias, o documento da CAS pede capacidades científicas de base mais sólidas e uma coordenação melhor da distribuição regional da pesquisa1. A parte de reformas cobre seis eixos: integração entre educação, ciência e formação de talentos; construção de um think tank nacional de ciência e tecnologia; reforma e inovação gerencial das organizações de pesquisa; transferência e aplicação de resultados científicos; e intercâmbio e cooperação internacional1. A meta declarada é consolidar a academia como instituição de pesquisa de padrão mundial.
O South China Morning Post acrescenta que o plano destaca inteligência artificial e semicondutores entre as áreas de inovação e dá peso à formação da próxima geração de cientistas2. Até o fechamento desta edição, a íntegra do documento não estava disponível em inglês, o que recomenda cautela: o que se conhece são as diretrizes gerais, não metas numéricas nem orçamentos por área.
A IA deixa de ser tema e vira ferramenta
A menção à pesquisa habilitada por IA não parte do zero. Em abril, a CAS apresentou o ScienceOne 100, sistema de modelos de IA para pesquisa científica construído sobre o modelo fundacional ScienceOne. Ele reúne oito modelos especializados em matemática, física, ciência de materiais, astronomia, ciências ambientais, engenharia aeroespacial, geociências e biologia, e já estava em uso em mais de 50 institutos da academia, cobrindo mais de 100 cenários de pesquisa3. O sistema oferece três funções centrais: mapeamento da literatura científica, avaliação do grau de inovação de uma proposta e uma espécie de fábrica de agentes para automatizar etapas do trabalho3.
Em julho, durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Xangai, a academia lançou a versão 2.0 do ScienceOne Omni, capaz de compreender, raciocinar, prever e gerar resultados a partir de diferentes modalidades de dados científicos, com aplicações já registradas em mecânica, astronomia e química4.
O que o plano formaliza é uma mudança de estatuto: a inteligência artificial deixa de ser apenas objeto de pesquisa e passa a integrar o próprio método científico da instituição.
A leitura editorial é que o plano quinquenal transforma uma infraestrutura já existente em prioridade estratégica. A diferença é relevante. Em muitos sistemas científicos, a IA entra pela porta das iniciativas isoladas de laboratórios ou pesquisadores. Na CAS, o desenho é de plataforma compartilhada, com modelos de domínio mantidos centralmente e distribuídos para dezenas de institutos. Isso reduz duplicação de esforço, mas também concentra decisões sobre quais ferramentas e quais perguntas ganham prioridade.
Os números por trás do plano
O pano de fundo é um orçamento em expansão contínua. Segundo o ministro de Ciência e Tecnologia da China, Yin Hejun, o investimento total do país em P&D passou de 3,92 trilhões de yuans em 2025, o equivalente a 2,8% do PIB6. Dados do Escritório Nacional de Estatísticas divulgados pela CGTN apontam alta de 8,1% sobre o ano anterior7.
O dado mais relevante para entender a ênfase em pesquisa básica é outro. Os recursos para essa modalidade chegaram a quase 280 bilhões de yuans em 2025, 7,08% do total de P&D, a primeira vez que a fatia superou 7%6. É um avanço, mas também revela o ponto de partida: a maior parte do gasto chinês continua concentrada em desenvolvimento experimental, voltado a produtos e processos.
O espelho brasileiro
O Brasil investiu 1,19% do PIB em pesquisa e desenvolvimento em 2023, com metade do valor vindo do setor privado, segundo levantamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação apresentado em reunião da Mobilização Empresarial pela Inovação12. Em uma década, o índice oscilou entre 1,28% em 2015 e 1,12% em 201712. Análise do Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade do Ipea mostra que os países de alta renda que lideram o esforço de pesquisa aplicam mais que o dobro da proporção brasileira, e identifica sinais de reversão da tendência de queda em 2022 e 202313.
Há movimentos na mesma direção de fundo. O planejamento plurianual do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) prevê R$ 96 bilhões entre 2025 e 202912. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), coordenado pelo MCTI com apoio técnico do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, prevê R$ 23 bilhões até 202814. Entre as ações debatidas no Senado está a atualização do supercomputador Santos Dumont15.
A comparação útil não é só de volume. O plano chinês trata a IA como instrumento de produção científica dentro da principal instituição de pesquisa do país. O PBIA dá peso maior a serviços públicos, soberania de dados e infraestrutura. Nenhuma das escolhas é, por si, certa ou errada, mas a pergunta que o anúncio da CAS coloca para o Brasil é concreta: universidades, Embrapa, Fiocruz e INPE terão acesso a modelos de domínio compartilhados, treinados com dados científicos brasileiros, ou cada grupo continuará montando sua própria solução com ferramentas estrangeiras?
Onde Brasil e China já trabalham juntos
O capítulo de cooperação internacional do plano da CAS encontra no Brasil um parceiro com histórico. O programa CBERS, de satélites de sensoriamento remoto, foi firmado em 1988 e já produziu seis satélites, cujas imagens apoiam o monitoramento do desmatamento na Amazônia. Em abril de 2025, o MCTI recebeu a Administração Nacional do Espaço da China para negociar o CBERS-5, previsto para ser o primeiro da série em órbita geoestacionária16.
Em dezembro de 2025, conforme noticiou a Reuters, a estatal chinesa CETC, a Universidade Federal de Campina Grande e a Universidade Federal da Paraíba criaram um laboratório conjunto de tecnologia de radioastronomia, ligado ao radiotelescópio BINGO, projetado para estudar a estrutura do universo e a energia escura17. A mesma reportagem registra que os Estados Unidos vêm pressionando países latino-americanos a reduzir laços com a China no setor espacial17. A cooperação científica, portanto, ocorre num ambiente geopolítico que o Brasil precisa administrar com clareza de interesses próprios.
Perguntas frequentes
O que é o plano da Academia Chinesa de Ciências para 2026-2030?
É o plano de desenvolvimento da CAS para o período do 15º Plano Quinquenal chinês. Divulgado em 28 de setembro de 2026, define prioridades de avanço científico e tarefas de reforma institucional para os próximos cinco anos.
Quais são as três áreas prioritárias?
Pesquisa básica, altas tecnologias estratégicas e desenvolvimento sustentável. O plano também prevê fortalecer capacidades científicas de base e coordenar melhor a distribuição regional da pesquisa.
O que significa pesquisa habilitada por inteligência artificial?
É o uso de modelos de IA como instrumento do trabalho científico, em tarefas como revisão de literatura, formulação de hipóteses, simulação e análise de dados. A CAS já opera o ScienceOne 100, com oito modelos especializados aplicados em mais de 50 institutos.
Quanto a China investe em P&D em comparação com o Brasil?
A China investiu cerca de 3,9 trilhões de yuans em 2025, equivalentes a 2,8% do PIB. O Brasil investiu 1,19% do PIB em 2023, segundo o MCTI.
Brasil e China cooperam em ciência?
Sim. O programa CBERS existe desde 1988 e produziu seis satélites. Em 2025, universidades da Paraíba e a estatal chinesa CETC criaram um laboratório conjunto de radioastronomia ligado ao radiotelescópio BINGO.
Este texto parte do despacho da agência Xinhua publicado pelo People's Daily em 28 de setembro de 2026, a quem cabem os créditos pelas informações originais sobre o plano. O Tecido não reproduz nem traduz o conteúdo original; as análises e os dados complementares vêm de fontes independentes citadas ao longo do texto.