Opinião · Política Internacional

Um ensaio sobre os grandes nomes da Centroeuropa reacende uma frase pronunciada por Hitler em seu último refúgio. A repetição não é acidental: é o roteiro que os populismos atuais, europeus e, em menor escala, brasileiros, continuam seguindo.

Em abril de 1945, cercado nas ruínas de Berlim, Adolf Hitler ainda se descrevia como a última chance de salvação para um continente que ele próprio havia incendiado.[1] A frase, resgatada pelo jornalista Paco Cerdà em artigo publicado no jornal espanhol El País nesta semana, não é uma curiosidade histórica isolada.[1] É um roteiro retórico que qualquer observador atento reconhece em 2026: o do líder que se apresenta como único capaz de conter um perigo que ele mesmo ajuda a inflar.

O eco de uma frase que não devia voltar

O artigo de Cerdà parte da leitura de Siete perfiles de una Centroeuropa, ensaio do tradutor Adan Kovacsics sobre o papel de escritores como Stefan Zweig, Joseph Roth e Paul Celan na construção da ideia de uma Europa plural, cosmopolita e refratária a bandeiras únicas.[1] Esses autores escreveram sob a sombra de duas guerras mundiais e sabiam, na prática, o custo de deixar que um só homem se autoproclamasse salvador de um continente inteiro.

Quase um século depois, o mesmo discurso circula outra vez, só que fragmentado em centenas de lideranças regionais e amplificado por algoritmos que não existiam na Viena de Zweig. Não é mais um único ditador dizendo "eu sou a última oportunidade". São dezenas de vozes, em países diferentes, repetindo variações da mesma promessa a públicos que se sentem esgotados por décadas de precarização, imigração descontrolada nas manchetes e serviços públicos que não acompanham o custo de vida.

Os números por trás do mal-estar

O avanço não é retórica de opinião, aparece nas urnas. Na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD) chegou a 43,8% dos votos na Saxônia-Anhalt em setembro de 2026, região que integrava a antiga Alemanha Oriental.[3] Na Itália, o Fratelli d'Italia de Giorgia Meloni, que obteve cerca de 26% dos votos em 2022 e subiu para perto de 29% nas eleições europeias de 2024, sustenta hoje o governo mais duradouro da história republicana italiana, superando 1.400 dias em setembro de 2026.[3] Na França, o Rassemblement National de Marine Le Pen consolidou-se como a principal força eleitoral do país, à espera de uma chance real de chegar ao Eliseu.[4] Na Áustria, o FPÖ terminou em primeiro lugar nas legislativas de 2024, e na Flandres o Vlaams Belang liderou as eleições europeias do mesmo ano.[4]

"Nadie parece captar bien el sentido del malestar que impulsa el populismo ultra en unos países anémicos de esperanzas."

A frase de Cerdà resume o problema central: os partidos tradicionais sabem nomear o avanço da extrema-direita, mas poucos conseguem explicar, com precisão, por que ele acontece, e menos ainda oferecer alternativas concretas que não sejam abstrações sobre valores europeus ou apelos morais que já não convencem quem está preocupado com aluguel, emprego e segurança.

O perigo de idealizar o passado

Um dos pontos mais interessantes do ensaio de Kovacsics, destacado por Cerdà, é a desconstrução de O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig, obra que idealiza a Viena anterior à Primeira Guerra como uma "era da segurança". Kovacsics lembra que, naquele mesmo período, quase metade dos apartamentos vienenses tinha inquilinos de aluguel e mais de 60 mil pessoas viviam como hóspedes de cama, dormindo em cozinhas ou cantos de cômodos divididos.[1] A "Europa perfeita" que se evoca hoje como padrão de comparação também não existiu como se lembra.

O paralelo é incômodo, mas útil: sociedades que idealizam um passado que nunca foi tão sólido quanto parece na memória ficam mais vulneráveis a quem promete restaurá-lo. É exatamente esse território fértil, o da nostalgia seletiva, que os populismos atuais exploram, seja em relação a uma Europa "de antes da imigração em massa", seja em relação a qualquer outro período romantizado em discursos de campanha ao redor do mundo.

Contraponto

Nem todo avanço eleitoral de partidos rotulados como extrema-direita segue o mesmo roteiro ou tem as mesmas raízes. Há divisões relevantes dentro desse campo: em 2024, o próprio Rassemblement National francês rompeu publicamente com a AfD alemã no Parlamento Europeu, após controvérsias internas do partido germânico.[4] Tratar populismos nacionalistas de países, históricos e eleitorados distintos como um bloco único simplifica demais um fenômeno que tem tantas variações quanto os contextos locais que o produzem.

O que isso tem a ver com o Brasil

A pergunta que Cerdà deixa em aberto sobre a Europa cabe, com os devidos ajustes, ao debate público brasileiro às vésperas das eleições de 2026. O Tribunal Superior Eleitoral aprovou, em março deste ano, 14 resoluções voltadas a orientar o pleito, com foco especial em inteligência artificial, propaganda digital e responsabilidade das plataformas na moderação de conteúdo.[7] Entre as novas regras está a proibição de publicar ou impulsionar conteúdo gerado por IA nas 72 horas antes da votação e nas 24 horas seguintes.[8]

Levantamentos recentes mostram que influenciadores já investigados pelo Supremo Tribunal Federal e pelo próprio TSE por desinformação e pela tentativa de golpe de 8 de janeiro seguem ativos nas redes durante a campanha de 2026, alguns repercutindo declarações de autoridades estrangeiras sobre o processo eleitoral brasileiro.[6] A pesquisa do DataSenado, citada em cobertura recente sobre o tema, aponta que o eleitorado entre 16 e 29 anos se informa majoritariamente por redes sociais, exatamente o ambiente onde a checagem de fatos chega depois, quando o estrago já foi feito.[8]

O paralelo com a Europa não é uma equivalência de gravidade, os contextos institucionais são diferentes, mas o mecanismo psicológico é o mesmo descrito por Cerdà: uma população cansada, desconfiada das instituições tradicionais e exposta a narrativas simplificadas é terreno fértil para quem promete ser a única saída.

Café, e não bunker

Cerdà termina seu artigo evocando a imagem de um café europeu qualquer, espaço onde pessoas diferentes convivem sem se odiar, em contraste com o "búnquer" retórico de quem se apresenta como salvador único.[1] É uma boa metáfora para qualquer democracia que hoje se pergunte por que discursos de décadas atrás voltam a soar familiares. A resposta raramente está em condenar moralmente quem vota nesses partidos, e quase sempre está em entender, com dados e sem complacência, por que tantas pessoas deixaram de acreditar que as instituições existentes resolvem seus problemas reais.

Este texto se baseia, em parte, no artigo de opinião "Hitler ya dijo 'yo soy la última oportunidad para Europa'", de Paco Cerdà, publicado no jornal El País em 10 de setembro de 2026. Leia o original: elpais.com.

Perguntas frequentes

Por que a extrema-direita está crescendo na Europa em 2026?

Analistas apontam uma combinação de estagnação econômica, insatisfação com fluxos migratórios, desconfiança em instituições tradicionais e o uso intensivo de redes sociais para difundir narrativas simplificadas. Partidos como AfD, Fratelli d'Italia, Rassemblement National e FPÖ capturaram esse descontentamento em diferentes graus e formatos.

O que Hitler disse sobre ser a "última oportunidade" da Europa?

Segundo o artigo de Paco Cerdà no El País, Hitler proferiu essa frase enquanto estava cercado em seu búnquer em Berlim, em 1945, pouco antes de sua morte, ainda se apresentando como o único capaz de proteger a Europa dos inimigos que ele mesmo havia definido.

Existe relação entre o populismo europeu e o cenário eleitoral brasileiro em 2026?

Os contextos institucionais são diferentes, mas ambos compartilham o mesmo mecanismo: uso intenso de redes sociais, desinformação e discursos de liderança única em ambientes de desconfiança institucional. O TSE brasileiro aprovou 14 resoluções em março de 2026 justamente para conter esses riscos durante o pleito.

O que é a "cerca sanitária" mencionada em análises sobre a extrema-direita europeia?

É o termo usado para descrever o pacto informal entre partidos tradicionais de isolar formações de extrema-direita, recusando alianças de governo com elas. Esse pacto vem se enfraquecendo em vários países europeus à medida que esses partidos crescem eleitoralmente.