Se você chegou até este parágrafo sem pular para os tópicos em negrito, já está entre os que resistem a uma tendência que os dados começam a medir com precisão. Um levantamento recente do jornal espanhol El País descreveu esse fenômeno com uma sigla que veio da própria internet: TL;DR, "too long, didn't read"1. O argumento central é simples e incômodo. Não seria o leitor que mudou, mas o formato que o cerca, e essa mudança de ambiente estaria remodelando circuitos cerebrais inteiros, sobretudo os de quem nasceu já dentro dele.
O gatilho da reportagem foi o resultado mais recente do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), divulgado em 8 de setembro pela OCDE. No Brasil, o retrato é de estagnação em patamar baixo. Os estudantes de 15 anos somaram 408 pontos em leitura, dois pontos abaixo de 2022, com quase a metade do grupo avaliado (49%) sem atingir sequer o nível básico de proficiência2. A média de 23 países da OCDE ficou em 466 pontos em leitura, quase 60 pontos acima do desempenho brasileiro2.
O canário na mina da atenção
Ladislao Salmerón, catedrático de Psicologia Evolutiva da Universidade de Valência, estuda há duas décadas o efeito das telas sobre a leitura e resume o diagnóstico de forma direta: a atual é a primeira geração criada num ambiente inteiramente digital, e isso reconfigurou até interações pré-verbais entre pais e bebês que antes treinavam habilidades de diálogo hoje tidas como básicas1. Para ele, o problema não está nos adolescentes, mas no ambiente construído ao redor deles desde o berço.
Essa erosão tem métrica. A psicóloga Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, mede o tempo médio de atenção contínua em telas desde o início dos anos 2000. Em 2004 a média era de dois minutos e meio; em 2021, havia caído para 47 segundos1. O próprio relatório PISA 2025 aponta algo semelhante em outro eixo: entre 2018 e 2025, a proporção de estudantes que fazem uma leitura apressada, sem processar o conteúdo, quase dobrou, enquanto a habilidade de simplesmente localizar informação num texto permaneceu estável3. Ou seja, a competência que cede não é achar a resposta, e sim avaliar e refletir sobre o que se leu.
"A questão não é o que será dos livros num mundo de leitura eletrônica. A questão é o que será dos leitores que fomos."
A frase, do escritor Verlyn Klinkenborg citada na reportagem do El País1, ecoa um argumento mais amplo da neurocientista Maryanne Wolf, autora do livro Leitor, Volte para Casa. Wolf sustenta que a leitura não é uma habilidade inata, e sim uma conquista cultural recente na escala evolutiva humana, e que o cérebro segue uma máxima simples: o que não se usa, se perde. Por isso ela também admite a possibilidade inversa, de que a geração atual esteja desenvolvendo capacidades novas e ainda não mapeadas pelos testes tradicionais1.
O que os números brasileiros acrescentam ao quadro
A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br/NIC.br, ajuda a datar o início dessa exposição. Hoje, 92% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos acessam a internet no país, e 28% começaram a usá-la antes dos 6 anos de idade, quase o triplo do percentual registrado em 2016 (10%)4. É o mesmo fenômeno descrito por Salmerón na reportagem espanhola, só que com data e porcentagem nacionais: a infância brasileira está entrando mais cedo no ambiente que, segundo os pesquisadores, compete diretamente com a leitura sustentada.
O próprio PISA 2025 trouxe, pela primeira vez, um recorte sobre o uso de celulares nas escolas. Em 2022, apenas 37% dos estudantes brasileiros estudavam em instituições que restringiam o aparelho; em 2025, esse número saltou para 81%, acima da média da OCDE (49%)3. O salto não é coincidência: reflete a Lei nº 15.100/2025, sancionada em janeiro daquele ano, que limita o uso de eletrônicos portáteis por estudantes da educação básica em todo o país5.
Contraponto
Um ano depois da lei entrar em vigor, o quadro é mais animador do que os números de leitura do PISA sugerem isoladamente. Levantamento do MEC com mais de 8 mil escolas mostrou que 92% das redes participantes já implementaram a restrição, e uma pesquisa da Frente Parlamentar Mista da Educação com a plataforma Equidade.info, ligada ao Lemann Center da Stanford Graduate School of Education, encontrou que 80% dos estudantes relatam mais foco em aula desde a mudança6. Ao mesmo tempo, professores ouvidos em levantamento do Centro do Professorado Paulista apontam aplicação desigual entre redes públicas e privadas, e estudos acadêmicos recentes alertam que a restrição, isolada, não produziu efeitos estatisticamente significativos sobre bem-estar ou saúde mental dos estudantes7. A política de celular parece necessária, mas não suficiente.
O que a evidência sugere para a sala de aula
Cruzando os três conjuntos de dados, um padrão comum aparece. Primeiro, o problema começa antes da adolescência, na forma como bebês e crianças pequenas interagem com telas e com adultos. Segundo, a queda não é uniforme dentro da própria leitura: localizar informação resiste, avaliar e refletir sobre ela não. Terceiro, políticas de restrição ao aparelho, como a Lei 15.100, mudam comportamento observável em sala, mas não substituem o trabalho pedagógico de construir atenção sustentada e compreensão oral profunda, que David Bueno, geneticista do desenvolvimento da Universidade de Barcelona, associa diretamente à capacidade posterior de leitura1.
Para o Brasil, isso significa que medir sucesso apenas pela adesão à lei de celulares seria um alívio prematuro. O próprio documento do PISA 2025 pondera que talvez não se trate de "deterioração", mas de "reconfiguração" cognitiva, com estudantes desenvolvendo habilidades fora do que o exame mede, embora reconheça que essa leitura ainda é especulativa por falta de dados de longo prazo3. Entre o otimismo cauteloso de Wolf e o pragmatismo dos números do Inep, o caderno Educação deste jornal volta a esse tema à medida que novos dados forem publicados, incluindo os indicadores sobre aprendizagem autorregulada previstos para 2027.