Caderno Saúde Envelhecimento · Sono · 5 min de leitura

Dormir demais durante o dia, principalmente pela manhã, pode não ser apenas um hábito inofensivo de quem envelhece. Um conjunto crescente de pesquisas sugere que o padrão das sonecas diurnas — sua duração, frequência e, sobretudo, o horário em que acontecem — funciona como uma espécie de termômetro silencioso da saúde na terceira idade. O tema ganhou força após uma reportagem do jornal espanhol El País, que reuniu especialistas em cronobiologia e neurofisiologia do sono para explicar por que os cochilos mudam conforme os anos passam — e quando essa mudança deixa de ser trivial.

O sono que se transforma com a idade

A arquitetura do sono não é estática: ela se reorganiza ao longo da vida. Segundo o levantamento reunido pelo El País, um metaanálise de referência publicada em 2004 na revista Sleep mostrou que o tempo total de sono diminui de forma praticamente linear, numa perda de 10 a 12 minutos por década, até se estabilizar por volta dos 60 anos. A eficiência do sono também cai: aos 70 anos, a proporção do tempo na cama efetivamente dormindo gira em torno de 80%, ante 95% na adolescência.

Isso não significa que o corpo precise de menos horas de descanso, e sim que fica mais difícil sustentá-las durante a noite. A fragmentação do sono profundo, somada a um desajuste progressivo do ritmo circadiano — que antecipa o horário de dormir e de acordar — empurra muitos idosos para o cochilo diurno como forma de compensar o descanso perdido.

A soneca da manhã ou a soneca muito longa pode funcionar como um biomarcador: um sinal de que algo está acontecendo por baixo, seja uma alteração circadiana, uma doença cardiovascular ou um processo neurodegenerativo. Paráfrase de declaração de Sandra Giménez Badia, neurofisiologista clínica do Hospital de la Santa Creu i Sant Pau, ao El País

Quando o cochilo curto ajuda

Nem toda soneca é motivo de preocupação. Sonecas curtas, entre 15 e 30 minutos — o chamado power nap — estão associadas a ganhos de atenção, tempo de reação e humor, além de uma possível redução da pressão arterial e do estresse, conforme os estudos citados pelo El País. O problema começa quando o cochilo se torna longo, diário e concentrado no período da manhã.

O estudo que mede 19 anos de sonecas

A peça central por trás do debate é um estudo publicado em abril deste ano na revista JAMA Network Open, conduzido por pesquisadores do Mass General Brigham e da Rush University em parceria com a Harvard Medical School. A equipe, liderada por Chenlu Gao, acompanhou 1.338 idosos de 56 anos ou mais, participantes do Rush Memory and Aging Project, por até 19 anos, usando actigrafia — sensores vestíveis que medem objetivamente o sono, em vez de depender apenas do relato dos próprios participantes.

O resultado: sonecas mais longas e mais frequentes se associaram a maior mortalidade por qualquer causa, com um risco cerca de 13% maior a cada hora adicional de sono diurno. Mas o achado mais marcante foi o do horário — idosos que cochilavam regularmente pela manhã apresentaram um risco de mortalidade cerca de 30% maior do que os que preferiam a tarde, segundo dados do estudo publicado na JAMA Network Open e detalhados pelo Mass General Brigham.

Gao fez questão de frisar, em nota à imprensa, que a relação observada é de correlação, não de causa e efeito: o cochilo excessivo tende a ser consequência de uma condição de saúde já em curso, e não o seu gatilho.

A ponte com a demência

O elo entre sonecas e neurodegeneração já vinha sendo mapeado. Um estudo de 2022 publicado na revista Alzheimer's & Dementia, também com dados do Rush Memory and Aging Project, identificou uma relação bidirecional: sonecas diurnas excessivas antecipam um risco maior de doença de Alzheimer, enquanto o próprio avanço da doença acelera o aumento da duração e da frequência dessas sonecas — um ciclo que os autores, segundo cobertura da ScienceDaily, chamaram de "círculo vicioso". Pesquisas posteriores, como a publicada em 2025 na Communications Medicine, aprofundaram esse recorte ao mostrar que sonecas matinais especificamente se associam a maior risco de demência, enquanto cochilos no início da tarde se relacionaram a marcadores biológicos mais favoráveis.

Contraponto

Especialistas alertam para os limites dessas descobertas. Os próprios autores do estudo da JAMA Network Open reconhecem que a associação não prova causalidade: fatores como doenças cardiovasculares, apneia do sono não diagnosticada e depressão podem explicar tanto o padrão de sonecas quanto o risco de morte, sem que um cause o outro diretamente.

Geriatras também ponderam que alarmar indiscriminadamente idosos saudáveis que cochilam ocasionalmente pode ser contraproducente. A recomendação médica converge para a avaliação individualizada: uma mudança recente e progressiva no padrão de sono, e não o cochilo isolado, é o que merece investigação clínica.

O Brasil que envelhece também precisa da conversa

O tema ganha urgência particular no contexto brasileiro. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada em abril de 2026 pelo IBGE, pessoas com 60 anos ou mais já representam 16,6% da população do país, ante 11,3% em 2012 — um salto expressivo em pouco mais de uma década, enquanto a fatia de crianças e jovens encolhe. A pirâmide etária brasileira, segundo o levantamento do IBGE citado pela CNN Brasil, mostra base mais estreita e topo mais largo, um desenho que deve se acentuar nas próximas décadas.

Essa transformação demográfica pressiona a atenção primária à saúde a incorporar perguntas simples e ainda pouco frequentes nas consultas com pacientes idosos no Brasil: como está o sono à noite, os horários, os cochilos. Uma revisão de literatura publicada na Debates em Psiquiatria reforça esse ponto ao destacar a urgência de abordagens específicas para a qualidade do sono no idoso, associando alterações do ritmo circadiano e doenças crônicas a um envelhecimento menos saudável quando o sono é negligenciado.

O que os especialistas recomendam

A convergência entre os pesquisadores consultados pelo El País aponta para um conjunto de hábitos simples: aumentar o contraste entre dia e noite, com exposição à luz solar e atividade física pela manhã; reservar, se necessário, uma soneca curta ao meio-dia; e manter vida social e atividades estruturadas à tarde. A ideia central é evitar que o cochilo substitua o tédio ou a falta de rotina — preservando o dia como dia, e a noite como o momento do descanso mais longo.

Este artigo foi inspirado na reportagem "Dime cómo es tu siesta y te diré cómo estás de salud", publicada pelo jornal El País em 5 de agosto de 2026, assinada por Adrián Cordellat. Leia o texto original em: elpais.com. Dados e fontes complementares foram apurados de forma independente pela equipe de O Tecido — ver referências completas ao lado.

Nesta reportagem

  1. O sono que se transforma com a idade
  2. Quando o cochilo curto ajuda
  3. O estudo que mede 19 anos de sonecas
  4. A ponte com a demência
  5. Contraponto
  6. O Brasil que envelhece
  7. O que os especialistas recomendam

Em números

16,6%
da população brasileira tem 60 anos ou mais (PNAD Contínua/IBGE, 2025), ante 11,3% em 2012
+30%
de risco de mortalidade associado ao hábito de cochilar regularmente pela manhã, em estudo com 1.338 idosos por 19 anos
10–12 min
é a perda média de sono noturno a cada década de vida adulta, até os 60 anos
15–30 min
é a duração da soneca considerada benéfica ("power nap"), segundo a literatura sobre sono

Linha do tempo

  • 2004Metaanálise na revista Sleep documenta o declínio linear do tempo total de sono com a idade.
  • 2022Alzheimer's & Dementia descreve relação bidirecional entre sonecas excessivas e risco de Alzheimer.
  • 2025IBGE registra que idosos chegam a 16,6% da população brasileira, recorde histórico.
  • 2026JAMA Network Open publica estudo de 19 anos ligando padrão de sonecas à mortalidade em idosos.

Glossário

Actigrafia
Método que usa um sensor vestível para medir objetivamente padrões de sono e vigília, sem depender do autorrelato.
Ritmo circadiano
Ciclo biológico interno de aproximadamente 24 horas que regula os horários de sono, vigília e outras funções do corpo.
Biomarcador comportamental
Um comportamento observável — como o padrão de sonecas — usado como indicador indireto de um processo biológico subjacente.
Neurodegeneração
Perda progressiva de estrutura ou função de neurônios, presente em doenças como o Alzheimer.

Referências

  1. Cordellat, A. "Dime cómo es tu siesta y te diré cómo estás de salud". El País, 05/08/2026.
  2. Gao, C. et al. "Objectively Measured Daytime Napping Patterns and All-Cause Mortality in Older Adults". JAMA Network Open, 2026.
  3. Mass General Brigham. "Excessive Napping May Be a Warning Sign...". massgeneralbrigham.org.
  4. Li, P. et al. "Daytime napping and Alzheimer's dementia: A potential bidirectional relationship". Alzheimer's & Dementia, 2022 (via ScienceDaily).
  5. "Timing and intraindividual variability of daytime napping and Alzheimer's disease". Communications Medicine, 2025.
  6. IBGE. PNAD Contínua 2025 — proporção de idosos no Brasil. CNN Brasil.
  7. "Fatores fisiológicos e patológicos com impacto na qualidade do sono no idoso". Debates em Psiquiatria.