A solidão no século XXI vem se demonstrando um elemento cruelmente significativo quando falamos a respeito de doenças ou até mesmo de suicídio. Ela chega até nós em momentos de vulnerabilidade e, sorrateiramente, nos convida a sentar, oferecendo-nos uma reclusão social que, à primeira vista, pode soar até mesmo confortável, mas que, sem que percebamos, nos empala dia após dia com baionetas silenciosas, tornando-se inevitavelmente uma armadilha mortal, orquestrada pelo próprio indivíduo.
Mas de que forma ela chega até nós? Ou quão mortal pode ser? Aqui, primeiramente, devemos citar o termo individualidade, ou seja, cada um possui sua própria vida, rotina, círculo social, desafios, sonhos e assim por diante. O ponto-chave se estabelece na seguinte base:
Essa individualidade, na sociedade contemporânea e diante dos padrões atuais, torna-se coletiva quando encontra um pilar específico: a mudança drástica na forma como vivemos, tendo como princípio a clara evolução global nas formas de comportamento e comunicação.
Isso é observável na correria rotineira à qual estamos submetidos, em que são poucos os momentos de qualidade, em decorrência do estresse diário que varre nossas mentes com preocupações, achismos e comparações. Cada cidadão se comunica, mas já não necessariamente interage. Ou seja, as conversas, embora nem sempre, frequentemente possuem caráter momentâneo. São poucas as interações que realmente agregam ou passam a significar algo. Indubitavelmente, o ser humano cai em uma espiral de vivências sociais rasas e, sem perceber, enfraquece brutalmente seu próprio bem-estar em termos de convívio com o outro, desfazendo laços humanos que nossos antecessores tanto valorizavam e que agora se tornaram apenas lembranças de uma época em que o contato transmitia, antes de tudo, conforto.
Em contrapartida, é inegável apontar que a popularização e o aumento demasiado dos meios virtuais de mídia e comunicação também são responsáveis por essa espécie de “pandemia invisível de reclusão e solidão”. O contato através das telas disseminou uma nova forma de fazer amizades, iniciar relacionamentos e até mesmo alterou as interações profissionais. No entanto, também produziu uma geração de pessoas dependentes do meio digital, que cada vez mais se afasta das formas tradicionais de interação. Talvez por praticidade ou agilidade, mas, na realidade, trata-se da dificuldade crescente do ser humano em firmar conexões, justamente pela poluição digital e pela evolução global dos comportamentos, fatores que caminham lado a lado.
Porém, também há aquela parcela da sociedade que, amparada de alguma forma pela consciência e pelo senso reflexivo, acaba por não se encaixar nos padrões que a atualidade impõe. Essas pessoas observam, discordam, conjecturam e pensam sem limites. Isso as transforma em cidadãos críticos, mas, principalmente, isolados em termos de sociabilidade, pois não encontram profundidade e muito menos emoção na civilização contemporânea, sentindo tédio diante da busca pela adaptação.
Ademais, é fundamental pontuar que essa é uma questão em evolução gradativa e infeliz. Os estudos comportamentais progridem, mas ainda não são capazes — e simplesmente jamais serão capazes — de compreender o que se manifesta na mente humana e como nela se manifesta a solidão. Não se trata apenas de analisar, pesquisar e dissertar, mas também de se aproximar da individualidade que cada um possui. Essa é uma tarefa difícil, pois não são poucas as vezes em que não conseguimos verbalizar nossas emoções de forma clara. E, como cada indivíduo é distinto dos demais, o desafio só aumenta.
Sendo assim, é inquestionável que estamos diante de um labirinto reflexivo, pois uma questão abre caminho para outra, e vice-versa. O que podemos deixar explícito é apenas uma conclusão: as formas de interação e as transformações na maneira como vivemos moldam um novo paradigma de relacionamento em comunidade, cujas consequências poderão ser sérias.