Caderno Longevidade · Japão · Trabalho e propósito
Num escritório apertado do bairro de Kanda, em Tóquio, funciona uma empresa de uma funcionária só. A dona é Mieko Miyata, ex-higienista dental que, aos 56 anos, abriu uma consultoria em saúde bucal. Ela pensava em parar de trabalhar; os amigos a convenceram do contrário. A cena, registrada pela jornalista Nathalie Collard e pelo fotógrafo David Boily numa reportagem do jornal canadense La Presse1, resume uma mudança que o Japão trata como projeto nacional: a idade da aposentadoria deixou de marcar o fim da vida produtiva e passou a marcar o começo de outra.
O pano de fundo é demográfico. Em setembro de 2026, o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar japonês contabilizou 107.677 pessoas com 100 anos ou mais, a primeira vez que o país passa da marca de 100 mil desde o início da série, em 1963, quando eram apenas 1532. Quase 88% são mulheres. Cerca de 30% da população japonesa tem 65 anos ou mais, segundo os dados oficiais citados pelo La Presse1. Quando se espera viver até os 100, sair do mercado aos 60 significa atravessar quatro décadas sem papel social definido. É esse vazio que o Estado japonês decidiu ocupar.
De um best-seller britânico a projeto de Estado
A expressão "vida de 100 anos", onipresente no debate japonês, tem origem inglesa. Vem do livro The 100-Year Life, publicado em 2016 pelos economistas Lynda Gratton e Andrew Scott, da London Business School4. A tese central é que o modelo de três etapas (estudar, trabalhar, aposentar) não resiste a vidas tão longas e precisa dar lugar a trajetórias com várias transições. O então primeiro-ministro Shinzō Abe adotou o conceito, criou um conselho governamental sobre o tema e convidou Gratton para integrá-lo. Termos como "economia da longevidade" e "sociedade sem idade" passaram a circular em documentos oficiais1.
A tradução legal veio em etapas. Desde abril de 2021, a Lei de Estabilização do Emprego de Pessoas Idosas impõe às empresas uma obrigação de esforço para garantir oportunidades de trabalho até os 70 anos, seja elevando a idade de aposentadoria, abolindo-a, recontratando o funcionário ou mantendo contratos de prestação de serviço3. Em abril de 2025 terminou o período de transição que ainda permitia restringir a garantia de emprego até os 65. Na prática, trabalhar depois dos 70 não é raridade no arquipélago.
O motor dessa política não é apenas filosófico. Estimativas mencionadas pela reportagem indicam que o Japão terá um déficit de 11 milhões de trabalhadores até 2040, num país que historicamente resiste a ampliar a imigração1. Manter os mais velhos ativos é, também, uma política de mão de obra.
A infraestrutura da segunda carreira
O que distingue o caso japonês é a existência de instituições desenhadas para a transição. Três exemplos descritos pelo La Presse ajudam a entender o desenho1.
Escolas para redesenhar a vida
O Life Redesign College da Universidade Waseda, em Tóquio, oferece um programa de um ano para pessoas com 50 anos ou mais que querem repensar os próximos passos. Cada turma reúne cerca de cem alunos, com média de idade de 65 anos, vindos das mais diversas carreiras. Foi por ali que Mieko Miyata passou antes de abrir o próprio negócio. O programa combina formação e convivência, dois fatores que a literatura sobre envelhecimento associa a menor isolamento.
Crédito e incubação para empreendedores maduros
O Tokyo Senior Business Grand Prix, iniciativa do governo metropolitano de Tóquio, premia pessoas de 55 anos ou mais que querem empreender, com empréstimo a juros preferenciais, mentoria e acesso a uma incubadora. Hideki Dezuka, 58 anos, ex-profissional da área da saúde, foi finalista e abriu uma empresa de equipamentos médicos. O plano dele é vender o negócio e, com o dinheiro, realizar o sonho de ter um vinhedo.
Trabalho de bairro, pago e subsidiado
Os Centros de Recursos Humanos Silver, subsidiados pelos municípios, somam 1.335 unidades no país e oferecem pequenos trabalhos a idosos: jardinagem, cuidado de crianças, tarefas administrativas simples. O governo central financia ainda bancos de horas de voluntariado trocáveis por recompensas e subsídios a empresas que mantêm funcionários depois dos 651. No bairro de Komagome, Nobuko Heerile, 89 anos, viúva, cozinha como voluntária num espaço comunitário que serve refeições coletivas a idosos. O argumento dela é simples: mora sozinha, os dias são longos, e ali se sente útil.
No Japão, a longevidade deixou de ser tratada como problema individual de saúde e passou a ser um problema de desenho institucional: onde estudar, com quem conviver e como ser útil depois dos 60.Ewerton Lopes, O Tecido
O que a ciência diz sobre o ikigai
A palavra que atravessa essas histórias é ikigai, traduzida como "razão de ser" ou "aquilo que faz a vida valer a pena". Fora do Japão, o termo virou mercadoria de autoajuda, frequentemente ilustrado por um diagrama de quatro círculos que é uma adaptação ocidental recente, sem relação direta com o uso cotidiano da palavra no Japão. Dentro do país, porém, o conceito tem décadas de pesquisa epidemiológica.
O estudo mais citado é a coorte de Ohsaki, publicada em 2008 na revista Psychosomatic Medicine. Os pesquisadores da Universidade de Tohoku acompanharam 43.391 adultos de 40 a 79 anos durante sete anos. Quem respondeu não ter ikigai apresentou risco de morte por qualquer causa 1,5 vez maior do que quem afirmou tê-lo, depois de ajustes por outros fatores. O excesso de risco se concentrou em doenças cardiovasculares e causas externas, não em câncer5.
A associação foi investigada em escala ainda maior no Japan Collaborative Cohort Study, com mais de 71 mil participantes em 45 municípios, que examinou como o propósito de vida se relaciona à mortalidade cardiovascular conforme a situação de emprego6. Fora do Japão, uma meta-análise de dez estudos prospectivos, somando mais de 137 mil pessoas e apresentada em 2015 nas sessões científicas da American Heart Association, apontou menor risco de morte e de eventos cardiovasculares entre pessoas com forte senso de propósito7.
Esses resultados indicam associação, não prova de causa. Pessoas mais saudáveis tendem a ter mais projetos e vínculos, o que torna difícil separar o efeito do propósito do efeito da saúde prévia. Ainda assim, a consistência dos achados em populações diferentes é o que sustenta a aposta japonesa.
Brasil: envelhecimento mais rápido, rede mais fina
O Brasil chega a essa discussão com outro calendário. Segundo o Censo 2022, o país tem 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, alta de 56% em doze anos. A população de 65 anos ou mais passou de 7,4% para 10,9% do total no mesmo período8. As projeções do IBGE indicam que a população brasileira para de crescer em 2041 e que, em 2070, cerca de 37,8% dos habitantes terão 60 anos ou mais9. O Japão levou décadas para percorrer esse caminho; o Brasil fará trajetória parecida com renda per capita muito menor.
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 1980 e Projeções da População (2024). *Projeção.
A regra previdenciária também mudou. A Emenda Constitucional 103, de 2019, fixou idade mínima de 65 anos para homens e 62 para mulheres no regime geral11. O que o Brasil não construiu, em escala nacional, foi o equivalente às instituições japonesas de transição: escolas de recomeço, crédito dedicado e trabalho comunitário remunerado.
Mesmo sem essa estrutura, os brasileiros mais velhos já estão empreendendo. Um estudo do Sebrae com base na PNAD Contínua contou 4,5 milhões de donos de negócio com 60 anos ou mais no quarto trimestre de 2025, alta de 59% sobre 2012. O mesmo levantamento mostra o abismo entre formalidade e informalidade: o empreendedor sênior formalizado ganhava em média R$ 7.458 por mês, mais de três vezes os R$ 2.152 do informal10. Em março de 2026, o Sebrae lançou o programa Futuridade 60+, voltado a capacitar e articular esse público10. É um começo, ainda distante do alcance municipal dos centros japoneses.
O que pode ser importado, e o que não pode
A experiência japonesa não se transplanta inteira, mas oferece pistas concretas. A primeira é que a transição precisa de endereço: programas universitários de redesenho de carreira, como o de Waseda, dialogam com iniciativas brasileiras de universidades abertas à pessoa idosa, que poderiam incorporar formação para empreender e voltar ao mercado, não apenas lazer e cultura. A segunda é que crédito e incubação para maiores de 55 atacam justamente o ponto fraco revelado pelo Sebrae, que é a informalidade e a baixa renda do empreendedor sênior. A terceira é que o trabalho comunitário remunerado, organizado pelos municípios, combate o isolamento ao mesmo tempo que gera renda complementar.
O que não se importa é a premissa de pleno emprego. O Japão estimula os idosos a trabalhar porque faltam trabalhadores; o Brasil ainda convive com desemprego e informalidade entre adultos jovens. Uma política brasileira de longevidade ativa precisa, portanto, evitar que o incentivo ao trabalho depois dos 60 vire pressão sobre quem já não tem saúde ou renda para escolher. A pergunta que o caso japonês deixa não é se os brasileiros devem trabalhar mais tempo, mas se o país vai construir as condições para que isso seja escolha, e não falta de alternativa.
Perguntas frequentes
O que é ikigai e ele tem relação comprovada com a saúde?
Ikigai é um conceito japonês que designa aquilo que faz a vida valer a pena. Estudos de coorte no Japão, como o de Ohsaki (2008), com 43.391 adultos, associaram a ausência de ikigai a um risco 1,5 vez maior de morte por qualquer causa. Trata-se de associação estatística, não de prova de causa.
Qual é a idade de aposentadoria no Japão?
As empresas japonesas são obrigadas a garantir emprego até os 65 anos, regra plenamente em vigor desde abril de 2025. Desde abril de 2021, também têm a obrigação de se esforçar para oferecer oportunidades de trabalho até os 70 anos.
O que são os Centros de Recursos Humanos Silver?
São centros subsidiados pelos municípios japoneses que oferecem pequenos trabalhos remunerados a idosos, como jardinagem e tarefas administrativas. Segundo o jornal La Presse, há 1.335 unidades no país. São elogiados por reduzir o isolamento e criticados por funcionar como mão de obra barata.
Quantos empreendedores com 60 anos ou mais existem no Brasil?
Segundo o Sebrae, com base na PNAD Contínua do IBGE, o Brasil tinha 4,5 milhões de donos de negócio com 60 anos ou mais no quarto trimestre de 2025, alta de 59% em relação a 2012. Os formalizados ganhavam em média R$ 7.458 por mês, contra R$ 2.152 dos informais.
O modelo japonês de longevidade ativa pode ser aplicado no Brasil?
Parcialmente. Escolas de transição de carreira, crédito para empreendedores maduros e trabalho comunitário municipal são adaptáveis. Mas a política japonesa responde à falta de trabalhadores, enquanto o Brasil ainda tem desemprego e alta informalidade, o que exige cuidado para que o trabalho depois dos 60 seja escolha e não necessidade.
Este artigo tem como ponto de partida a reportagem "La deuxième vie des Japonais", de Nathalie Collard (texto) e David Boily (fotos), publicada pelo jornal canadense La Presse. Os trechos atribuídos à reportagem foram resumidos e contextualizados; a análise sobre o Brasil e os dados complementares foram apurados de forma independente por O Tecido.