Em menos de um ano, os data centers deixaram de ser um assunto técnico restrito a especialistas em infraestrutura para se tornar um dos raros temas capazes de unir a esquerda e a direita nos Estados Unidos contra o mesmo alvo. Pesquisas do site Heatmap News mostram que a rejeição a novos data centers no entorno de onde as pessoas moram saltou de cerca de quatro em cada dez entrevistados para sete em cada dez em menos de um ano. Governadores republicanos propuseram cartas de direitos contra a inteligência artificial, senadores de esquerda pediram moratórias e Nova York chegou a suspender por um ano a construção de novos data centers de grande porte em seu território.
O fenômeno foi discutido em detalhe em episódio recente do podcast "The Ezra Klein Show", do jornal americano The New York Times, com a jornalista Jasmine Sun, que passou semanas visitando comunidades em Wisconsin e Michigan onde novos complexos de data centers estão sendo erguidos. A conversa descreve paisagens rurais cortadas por galpões industriais sem janelas, moradores que cronometram em quanto tempo um data center desaparece pelo retrovisor na rodovia e um ressentimento que mistura barulho, uso de água e eletricidade com desconfiança em relação às big techs e à própria promessa da inteligência artificial.
O mesmo roteiro, com sotaque brasileiro
O que poderia soar como um fenômeno estritamente americano já tem paralelo direto no Brasil. Em Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, a Scala Data Centers negociou a instalação da chamada "Scala AI City" em um terreno de 700 hectares, com investimento inicial anunciado de R$ 3 bilhões e potencial de chegar a R$ 300 bilhões em fases futuras. O acordo entre governo estadual e empresa foi fechado ainda em 2024, poucos meses depois de a cidade ter sido uma das mais atingidas pelas enchentes que devastaram o estado. Reportagens do Intercept Brasil e do Brasil de Fato relatam que a prefeitura local se recusou a conceder entrevistas sobre o projeto e que não houve, até o momento, audiência pública nem consulta prévia aos moradores, agricultores familiares, assentados da reforma agrária e aldeias guarani situadas na área de influência direta do empreendimento — entre elas a Tekoa Pekuruty, a cerca de 2,5 quilômetros do terreno.
O paralelo com as NDAs (acordos de confidencialidade) descritas por Jasmine Sun no episódio do Times aparece sob outra roupagem no caso gaúcho: não é sigilo contratual formal, mas uma combinação de licenciamento simplificado, protocolo de intenções fechado entre governo e empresa e ausência de canais institucionais de consulta que, segundo reportagem do blog Ambiental, levou o Ministério Público Federal a abrir procedimento para apurar possíveis impactos sobre comunidades indígenas próximas ao empreendimento.
"Data centers têm sido associados a impactos como diminuição da qualidade da água e do acesso a ela, problemas no fornecimento e alto custo da energia nas comunidades locais."
A frase, atribuída a um especialista consultado em reportagem sobre o caso gaúcho, resume a mesma tríade de preocupações identificada por Sun nos Estados Unidos: processo decisório, impacto direto sobre água e energia, e desconfiança de fundo em relação à indústria de inteligência artificial. No Ceará, o padrão se repete: um projeto de data center que prevê consumo de até 300 megawatts na fase de expansão — o equivalente ao uso diário de 2,2 milhões de pessoas — motivou lideranças do povo Anacé a ocupar a sede do órgão ambiental estadual, a Semace, denunciando que o licenciamento ignorou o direito à consulta livre, prévia e informada garantido pela Constituição e pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.
Água, eletricidade e o problema da opacidade
Assim como nos Estados Unidos, a discussão sobre consumo de água no Brasil mistura dados reais e imprecisão retórica. Pesquisadores da Unifesp têm defendido que a legislação brasileira precisa detalhar exigências específicas para data centers, já que hoje nada impede que água potável seja usada para resfriamento e não há obrigação de relatórios públicos de consumo hídrico e energético como condição para instalação. Um cluster de data centers na região metropolitana de São Paulo já opera dentro da bacia do Alto Tietê, classificada pela Agência Nacional de Águas como de alto estresse hídrico e responsável por abastecer mais de 20 milhões de pessoas — a mesma bacia que enfrentou racionamento na crise hídrica de 2014 e 2015.
Há também a chamada "água virtual": segundo pesquisa citada pelo Instituto Humanitas Unisinos, mais de 46% do consumo hídrico atribuível a data centers não sai das torneiras dos próprios prédios, mas evapora dos reservatórios das hidrelétricas que geram a eletricidade consumida por eles. Isso significa que mesmo sistemas de resfriamento em circuito fechado — como o que a Scala afirma adotar em Eldorado do Sul, com recirculação e uso direto relativamente baixo — não eliminam a pressão indireta sobre bacias hidrográficas, porque o Brasil depende fortemente de hidrelétricas para gerar a energia que os equipamentos consomem.
Contraponto
Defensores do setor argumentam que comparações com regiões áridas dos Estados Unidos distorcem o quadro brasileiro. A Associação Brasileira de Data Centers sustenta que empreendimentos modernos usam tecnologia de resfriamento cada vez mais eficiente e que a matriz elétrica brasileira, majoritariamente renovável, torna a operação local menos poluente do que em países dependentes de carvão ou gás. O governo federal aposta no regime tributário Redata, com renúncia fiscal estimada em R$ 5,2 bilhões só em 2026, para atrair investimentos que, segundo a Câmara dos Deputados, exigirão contrapartidas como destinação mínima de capacidade ao mercado interno, investimento em pesquisa e uso de energia renovável.
Prefeituras como a de Eldorado do Sul também defendem os projetos como motor de reconstrução após as enchentes de 2024, citando geração de empregos e arrecadação tributária em municípios historicamente pobres em oportunidades industriais.
Do "populismo de IA" à disputa por confiança
Um dos conceitos centrais da entrevista com Jasmine Sun é a ideia de "populismo de IA": a visão de que a inteligência artificial não é apenas uma tecnologia normal, mas um projeto político de elite a ser resistido. Segundo essa leitura, a oposição aos data centers nos Estados Unidos não decorre principalmente de desinformação, mas de uma sensação de que decisões que afetam paisagem, água e energia local estão sendo tomadas por um pequeno grupo de bilionários de Vale do Silício sem consentimento das comunidades atingidas — e sem que os benefícios prometidos (curas de doenças, ganhos de produtividade) sejam sentidos no dia a dia das pessoas antes das perdas, como possível impacto sobre empregos.
No Brasil, essa desconfiança encontra terreno fértil em episódios recentes de licenciamento ambiental considerado apressado, na ausência de uma legislação específica para data centers — a Fundação Estadual de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul reconhece que, por não existir enquadramento próprio para o setor, municípios e órgão estadual têm avaliado os projetos "por analogia" a ramos industriais já existentes — e no aumento da conta de luz, tema sensível às vésperas das eleições de meio de mandato de novembro. Levantamentos citados pela imprensa especializada indicam que a expansão acelerada de data centers já é apontada, em parte da opinião pública e por parlamentares, como fator de pressão sobre tarifas de energia elétrica em um momento de alta geral do custo de vida.
Uma onda que não é só americana
A repercussão do episódio do Times chega em um momento no qual reportagens internacionais já descrevem uma "onda global" de protestos contra data centers, da Irlanda ao Arizona, do Chile ao Rio Grande do Sul, movida por resistência a projetos que consomem grandes volumes de água e energia em nome da corrida por inteligência artificial. Investidores institucionais também têm cobrado mais transparência: segundo reportagem da revista IstoÉ Dinheiro, Amazon, Google e Microsoft chegaram a recuar ou pausar projetos multibilionários de data centers nos Estados Unidos diante de pressão de comunidades locais e de analistas que reclamam de dados insuficientes sobre consumo hídrico e impacto socioambiental.
Pesquisadores brasileiros reunidos em julho na Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Niterói, alertaram para um risco específico do caso nacional: repetir, com data centers, uma lógica histórica de exportação de recursos naturais sem garantir contrapartidas de desenvolvimento para o país — desta vez, o recurso exportado sendo capacidade computacional, e não minério ou grãos.
Nesta reportagem
Em números
Linha do tempo
Glossário
- Hyperscaler
- Data center de escala industrial operado por grandes provedores de nuvem ou empresas de IA, com capacidade de dezenas a milhares de megawatts.
- Sistema de circuito fechado
- Tecnologia de resfriamento que recircula a mesma água continuamente, reduzindo — mas não eliminando — o consumo hídrico direto.
- Água virtual
- Volume de água evaporado na geração de energia (sobretudo hidrelétrica) consumida indiretamente por um data center.
- Redata
- Regime tributário brasileiro que desonera equipamentos de data center em troca de contrapartidas como uso de energia renovável.
Referências
- Klein, E. & Sun, J. "The Data Center Backlash Uniting Left and Right". The New York Times, 4 ago. 2026. nytimes.com
- Intercept Brasil. "Eldorado do Sul abre portas para projeto bilionário de data center que esconde impactos e ignora população". intercept.com.br
- Brasil de Fato. "Data center em terra firme, população embaixo d'água: a 'cidade das máquinas' de Eldorado do Sul". brasildefato.com.br
- Ambiental/blogdopedlowski. "Maior data center da América do Sul terá licenciamento simplificado no RS". blogdopedlowski.com
- Agência EcoNordeste. "Movimentos pedem ao MP fim de licença de data center no CE". agenciaeconordeste.com.br
- Unifesp. "Data centers avançam no Brasil e acendem debate sobre água e energia". portal.unifesp.br
- Instituto Humanitas Unisinos (IHU). "Os data centers aceleram o esgotamento do planeta". ihu.unisinos.br
- IstoÉ Dinheiro. "1 trilhão de litros: consumo de água dos data centers acende alerta vermelho; Amazon, Google e Microsoft recuam". istoedinheiro.com.br
- Agência Brasil. "Brasil precisa garantir contrapartidas para receber data centers". agenciabrasil.ebc.com.br
- Sindpd. "Câmara aprova projeto que incentiva data centers no Brasil". sindpd.org.br
- Revista Movimento. "Uma onda global de protestos contra os data centers está varrendo o mundo". movimentorevista.com.br