Caderno Tecnologia · Análise
Uma pesquisa recente da Heatmap Pro e da Embold Research mostrou que três em cada quatro americanos se opõem à construção de um data center em sua comunidade. Não é uma pauta de nicho progressista: dois terços dos eleitores republicanos, quase 80% dos independentes e 83% dos democratas dizem a mesma coisa. Em pouco mais de um ano, a aprovação líquida de projetos locais nos Estados Unidos caiu 62 pontos percentuais, e mais de 500 jurisdições já aprovaram bane leis restritivas ao setor, segundo reportagem do site The Information. O fenômeno, descrito pelo colunista David Wallace-Wells em artigo de opinião publicado no New York Times neste domingo (31/8), levanta uma pergunta que já ecoa em Brasília, Fortaleza e nos gabinetes de licenciamento ambiental de pelo menos uma dezena de estados: o que acontece quando a corrida por infraestrutura de inteligência artificial esbarra na resistência das comunidades que ficam ao lado dos galpões?
A escala da oposição americana surpreende justamente por atravessar o espectro político. Governadores que há poucos meses disputavam para atrair investimentos em data centers mudaram de tom. No Texas, o governador republicano Greg Abbott suspendeu novas conexões de data centers à rede elétrica estadual até a conclusão de uma auditoria, alegando que "a prioridade é proteger a segurança e a qualidade de vida dos texanos". Na Pensilvânia, o governador democrata Josh Shapiro, que meses antes promovia projetos do setor, assinou uma ordem executiva impondo novas salvaguardas e chamou as empresas de "predatórias".
O artigo do Times argumenta que reduzir esse movimento a ambientalismo, a NIMBYismo ("não no meu quintal") ou a rejeição genérica à Big Tech simplifica demais o quadro. Usinas de carvão, por exemplo, são menos impopulares que data centers nas pesquisas americanas; fábricas de semicondutores e até usinas nucleares têm aprovação maior. O que parece unir o eleitorado, segundo a análise, é a combinação de preocupações concretas (uso de água e energia, ruído, efeito sobre a conta de luz) com uma desconfiança mais ampla em relação a quem está no comando do futuro tecnológico.
O Brasil já vive sua própria versão do conflito
Enquanto os Estados Unidos discutem moratórias, o Brasil corre para se tornar um dos principais destinos globais de data centers, e o atrito com comunidades locais já apareceu, com nome, data e território definidos. O caso mais visível é o do megaprojeto de data center anunciado pela ByteDance, dona do TikTok, em parceria com a Casa dos Ventos e a Omnia, no Complexo Portuário do Pecém, no Ceará. O investimento é estimado em mais de R$ 200 bilhões até 2035, mas o licenciamento ambiental avançou sem consulta prévia ao povo indígena Anacé, cujo território é limítrofe à obra.
Lideranças Anacé, como o cacique Roberto Ytaysaba Anacé, ocuparam a sede da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) em agosto de 2025 e voltaram a protestar em abril deste ano durante uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Ceará, chegando a bloquear as rodovias CE-085 e BR-222. A reportagem da Rest of World registrou que os indígenas recorreram à Justiça pedindo a suspensão da licença ambiental, alegando que o direito à consulta prévia, livre e informada, previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, foi ignorado. O Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União chegaram a recomendar que o empreendimento não entrasse em operação antes de cumprir novas exigências ambientais, e uma perícia técnica classificou como "tecnicamente inadmissível" tratar o impacto sobre os mananciais subterrâneos apenas como "alteração na qualidade da água".
Uma apuração do Intercept Brasil identificou que ao menos cinco dos 22 data centers em processo de autorização junto ao Ministério de Minas e Energia estão em municípios historicamente afetados por seca e desabastecimento hídrico, entre eles Igaporã (BA) e Campo Redondo (RN). A tensão entre a promessa de desenvolvimento e o risco a regiões já vulneráveis hidricamente é, guardadas as proporções, uma tradução direta do dilema descrito por Wallace-Wells nos Estados Unidos: o pacote de benefícios prometido (empregos, arrecadação, infraestrutura) frequentemente é anunciado sem que os custos concentrados sobre uma comunidade específica sejam plenamente discutidos com ela.
Contraponto: o setor também vê promessa de desenvolvimento
Nem todo mundo enxerga o mesmo risco. Segundo o TikTok, o data center de Pecém funcionará com energia 100% renovável, vinda de parques eólicos dedicados, e usará circuito fechado de reúso de água para resfriamento, medida apresentada como resposta direta às críticas ambientais. O setor também aponta que o Brasil tem matriz elétrica majoritariamente renovável, o que reduz a pegada de carbono do processamento de IA em comparação com outros países. Estudos citados por representantes do setor no debate norte-americano sugerem, inclusive, que a chegada de grandes cargas de data centers pode ajudar a modernizar redes elétricas antigas, embora o efeito sobre a tarifa varie muito de região para região.
Os números por trás da corrida brasileira
O apetite por infraestrutura de IA no Brasil é real e crescente. Segundo levantamento do GRI Hub, a capacidade instalada de data centers no país deve mais que dobrar até o fim de 2026, saltando de 826 MW para 1.746 MW, com um pipeline de investimentos estimado em US$ 20 bilhões e participação de fundos globais como Brookfield, DigitalBridge e KKR. O país já concentra 48% da capacidade operacional e 71% da capacidade em construção de data centers em toda a América Latina.
Esse crescimento, porém, avança sobre uma base regulatória ainda incompleta. O Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), instituído por medida provisória em setembro de 2025, perdeu validade em fevereiro de 2026 sem ser convertido em lei; um substitutivo aprovado na Câmara dos Deputados segue à espera de votação no Senado. Enquanto isso, segundo reportagem da InvestNews, o setor tecnológico já responde por parcela crescente do consumo elétrico nacional, um cenário que, em escala internacional, tem levado operadoras de rede a formar filas de espera de anos para novas conexões, como já ocorre na Virgínia, epicentro americano dos data centers.
Qual caminho o Brasil deve seguir
Pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em julho, defenderam que a instalação de grandes data centers precisa vir acompanhada de contrapartidas claras e maior participação da sociedade civil e da comunidade científica no debate. O professor Mauro Oliveira, do Instituto Federal do Ceará, alertou que o país corre o risco de repetir, com dados, uma lógica histórica de exploração de recursos naturais sem garantir retorno proporcional ao desenvolvimento nacional.
É exatamente o ponto em que a análise de Wallace-Wells se conecta ao debate brasileiro: o argumento de que data centers trazem arrecadação e empregos costuma ser verdadeiro, como mostram exemplos americanos de municípios que usaram receita do setor para reformar escolas e hospitais. Mas a confiança na promessa desmorona quando falta transparência sobre os contratos, os incentivos fiscais concedidos e, sobretudo, quando a comunidade afetada não é ouvida antes da decisão estar tomada. No Ceará, essa é precisamente a queixa dos Anacé; nos Estados Unidos, é a queixa recorrente de moradores de Loudoun County à Geórgia. A diferença é que, por lá, a reação já se transformou em política de Estado, com centenas de moratórias locais. No Brasil, o debate institucional ainda está em fase de formação, e é aí que as próximas decisões regulatórias, sobretudo a votação do Redata no Senado e as regras de licenciamento ambiental, vão definir se o país repete os atritos americanos ou aprende com eles antes da próxima onda de projetos.
Perguntas frequentes sobre data centers e a reação da sociedade
Por que os data centers de IA geram tanta oposição popular?
A oposição combina preocupações concretas, como consumo intenso de água e energia, ruído constante e efeito sobre tarifas de eletricidade, com desconfiança em relação às empresas de tecnologia e à falta de transparência nos contratos. Pesquisas nos Estados Unidos mostram rejeição que ultrapassa 70% em praticamente todas as regiões do país, atravessando divisões partidárias.
O Brasil já enfrenta conflitos parecidos com os dos Estados Unidos?
Sim. O caso mais notório é o do data center do TikTok em Pecém, no Ceará, onde o povo indígena Anacé protestou e recorreu à Justiça alegando falta de consulta prévia sobre o uso de água e território. Uma apuração do Intercept Brasil também identificou outros projetos de data center em processo de autorização localizados em regiões historicamente afetadas por seca.
Quanto o Brasil pretende investir em data centers até 2026?
Segundo o GRI Hub, a capacidade instalada de data centers no país deve saltar de 826 MW para 1.746 MW até o fim de 2026, sustentada por um pipeline de investimentos estimado em US$ 20 bilhões, com participação de fundos como Brookfield, DigitalBridge e KKR.
O que é o Redata e por que ele importa para o setor?
O Redata é o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, criado por medida provisória em setembro de 2025 para suspender tributos como PIS/Cofins, IPI e Imposto de Importação sobre equipamentos do setor. A MP perdeu validade em fevereiro de 2026 sem votação, e um projeto substitutivo aguarda análise do Senado, deixando o setor em um limbo regulatório que afeta decisões de investimento.
A resistência aos data centers pode frear o avanço da inteligência artificial?
O impacto parece limitado no curto prazo. O pesquisador da Universidade de Princeton Arvind Narayanan calculou que uma moratória estadual de um ano, nos moldes das aprovadas nos Estados Unidos, atrasaria o avanço das capacidades de IA em apenas algumas horas, dado o ritmo de expansão global do setor.